Lost In Paradise
10 Magic Beans
Notas iniciais
N/A (2): Esperem, para o próximo capítulo, um texto GIGANTE, várias cenas, um pouquinho mais de ação, e a primeira interação entre Emma e sua sogra, digo, a Rainha de Copas.
N/A (3): Esse capítulo foi escrito às 2h da manhã, num surto repentino de inspiração, então, por favor, ignorem qualquer erro. Ainda não o revisei por inteiro.
N/A (4): Nos próximos capítulos, vocês vão começar a entender porque a fic foi classificada como +18, com avisos de "sexo, tortura e violência." SHIT JUST GOT REAL, GUYS.
CAPÍTULO NOVE — FEIJÕES MÁGICOS
28 anos antes...
Era uma noite um pouco fria; o ar parecia, de algum modo, mais denso que o comum. Barulho algum se atrevia a macular a calmaria noturna, a não ser pelos gemidos e sussurros desconexos da Rainha, quem se revirava inquietamente em sua cama, atormentada por imagens irreais que pululavam sua mente adormecida.
Caminhava apressada por entre as árvores altas da Floresta Negra. O ar que respirava lhe agredia os pulmões, tão frio ele era; congelava-lhe os ossos, tornando inútil a fina capada de renda da camisola que revestia seu corpo. O caminho era mal e mal iluminado pela luz de uma ou duas estrelas que despontavam através das grandes folhas das árvores ali amontoadas.
Um repentino clarão se apossou do ambiente, ofuscando a visão de Regina, outrora acostumada ao breu. Caminhou devagar, quase que hipnoticamente, em direção à misteriosa fonte de luz. Ao aproximar-se o suficiente, de modo que tudo que conseguia enxergar era uma imensidão branca sem fim, sentiu como se a terra sob seus pés se sacolejasse. No momento seguinte, o mundo de uma cambalhota, e Regina despencou, com um baque surdo, sobre a grama macia. Percebeu, tardiamente, haver sido transportada através de um portal cuja proveniência ela desconhecia.
A primeira imagem a ser captada por seus olhos foi a de uma escultura de pedra, a qual retratava fielmente um corpo feminino, majestosamente coberto por uma túnica comprida. Intrigada, a Rainha contornou a escultura e, ao postar-se frente à ela, sentiu como se uma faca houvesse atravessado seu estômago. A escultura retratava Cora: seu rosto estava completamente desfigurado, quase como se houvesse sido derretido e remoldado à mão livre de um escultor desajeitado. Sua boca estava aberta em um ângulo anatomicamente impossível, quase como se a mulher houvesse gritado, segundos antes de ser transformada em pedra — ou, pelo menos, era isso que Regina conseguia deduzir haver acontecido. Em seu ver, alguém atacara Cora; alguém a transformara em pedra e, de acordo com sua experiência, a Rainha concluiu que a única pessoa capaz de conjurar tal magia era o Senhor das Trevas.
O ar lhe faltou quando uma última peça do quebra-cabeça se encaixou no devido lugar. Deduziu, então, que, ao empurrar Cora através do espelho, alguma corrente de magia a transformara em pedra. Era esse o efeito do espelho, pensou Regina, transformar quem lhe atravessasse em pedra.
Mas, se assim era, algo estava errado. Regina deixara claro que não pretendia matar Cora. Rumpelstiltskin garantira a segurança da mulher e, ainda assim, lá estava ela, endurecida, gelada... Morta. E, se lá estava ela, bem diante de Regina, isso deveria significar... Que Regina também atravessara o espelho. Mas como e por quê? E, se assim era, por que não virara pedra igualmente?
No exato momento em que o pensamento lhe cruzou a mente, um rugido ensurdecedor cortou o silêncio noturno. Os olhos de Regina se arregalaram. Ao virar-se em direção ao som, tudo que pôde ver, antes de sentir seu corpo enrijecer dolorosamente, foi um vulto negro, provavelmente peludo e cheio de dentes, que sumiu tão subitamente quanto apareceu.
Com um solavanco e um espasmo se espalhando por seu corpo, Regina abriu os olhos para o teto abobadado de seus aposentos. Completamente desnorteada, seu primeiro instinto foi averiguar se o Rei Leopoldo se encontrava em sua cama; no entanto, esta se mostrava vazia... Outra vez.
Percebendo, então, ser seguro, Regina permitiu que as lágrimas escorressem de seus olhos e que os soluços preenchessem o silêncio noturno, o qual se estendia sobre o ambiente, dando-lhe um quê macabro, bem como um véu de luto que se estende pelo rosto de uma recém-viúva.
"Ora, ora, queridinha... Chorando outra vez?" Regina ouviu aquela voz novamente.
Com um sobressalto, a Rainha se ergueu alguns centímetros, puxando as cobertas as fim de cobrir-lhe o corpo praticamente desnudo.
"Ah, mas para quê tanta modéstia, minha querida? Não é como se pudesse esconder algo de mim," disse Rumpelstiltskin, divertido, levantando-se da poltrona que encontrava-se em frente à cama de Regina.
A Rainha permaneceu em silêncio, apenas observando enquanto a figura se movia com facilidade na escuridão, em direção à mesinha de canto. As longas mãos de Rumpelstiltskin alcançaram a chaleira que repousava na bandeja.
"Está servida?" perguntou, polidamente.
"Não," murmurou Regina, brevemente.
"Bem, então vamos direto aos negócios," disse Rumpelstiltskin, postando o objeto de volta na bandeja. "Faça a pergunta que tanto lhe atormenta a mente."
Regina não se surpreendeu pelo fato de a criatura já saber que ela tinha perguntas a lhe fazer; Rumpelstiltskin era onisciente, talvez soubesse, até mesmo, qual era a tal pergunta.
"Por que não pulamos as gentilezas e vamos direto às respostas?" sibilou Regina.
"Mas já tão agressiva? Deixe-me adivinhar... Estava tendo um pesadelo?" perguntou a criatura, sentando-se deliberadamente na beirada da cama de Regina e apoiando o cotovelo no joelho.
"Onde está Cora?" perguntou Regina, firmemente.
"Direto ao ponto," comentou Rumpelstiltskin, em tom de aprovação. "Do jeito que eu gosto. Ora, ora, minha querida, ela está presa, bem como você me pediu."
"Presa em que sentido? Está viva?" perguntou Regina, estreitando os olhos e levantando o corpo um pouco mais, em antecipação.
"Isso é relativo," disse Rumpelstiltskin, com um sorriso misterioso.
Regina se levantou por completo, deixando que a coberta escorregasse e revelasse seu colo desnudo.
"Mas eu disse especificamente para mantê-la viva," rosnou Regina. "Você não cumpriu com o acordo!"
"Acalme-se, querida," disse a criatura, sardonicamente. "Que tal uma xícara de chá?"
"Que fez com ela?" perguntou Regina, recusando-se a ser distraída.
"Trancafiei-a num lugar onde o Tempo não existe," respondeu Rumpelstiltskin, enquanto limpava a poeira de suas botas.
"E que, exatamente, isso significa?"
"Ora, ora! Vejo que sua mãe não lhe ensinou muitas coisas," provocou Rumpelstiltskin. "Isso significa que Cora está congelada no Tempo e assim continuará pelo resto da eternidade, ou até que Vossa Alteza determine."
"Então, está viva?" perguntou Regina, outra vez.
Rumpelstiltskin revirou os olhos, contemplando o teto. "Bem, considerando o fato de que, estando congelada no tempo, ela não pode morrer... Sim, está viva."
"Congelada no tempo... Isso quer dizer, por acaso, que ela foi transformada em pedra?" perguntou Regina.
Rumpelstiltskin soltou uma risada divertida. "Mas é claro que não! Era essa sua intenção?"
Rapidamente, Regina resumiu o sonho que vinha lhe atormentando desde o dia que empurrara Cora contra o espelho.
"Hm, interessante," disse Rumpelstiltskin, pensativo.
"Que é interessante?"
"Você está arrependida," afirmou Rumpelstiltskin, desaprovadoramente. "Oh, queridinha... E eu que achei havermos feito algum progresso..."
"Não estou arrependida!" exclamou Regina. "Só está me matando não saber exatamente onde e como ela está..."
"Ora, mas isso pode ser facilmente arranjado," disse Rumpelstiltskin e, com um meneio, fez com que o mesmo majestoso espelho com o qual Regina fora presenteada no dia de seu casamento reaparecesse diante de ambos. "Não se acanhe, querida, venha até aqui."
Hesitante, Regina se aproximou do objeto, mirando seu reflexo fixamente. Ao aproximar-se o suficiente, seu vidro, bem como na outra noite, pareceu se desfazer em uma névoa bastante densa. Regina estendeu a mão, fascinada, para tocá-la.
"Cuidado, queridinha!" exclamou Rumpelstiltskin, segurando a mão da Rainha no ar, apenas a centímetros de distância da névoa branca, que agora parecia se ondular languidamente. "Não queremos acidentalmente transportá-la a Wonderland, queremos?"
"Wonderland?" perguntou Regina, virando-se de costas para o espelho, sua mão ainda sob o aperto de Rumpelstiltskin.
"Era uma vez, em um reino não tão distante, uma jovem princesa," entoou a criatura.
"Um conto de fadas?" perguntou Regina, confusa.
"Ah, ah! Não me interrompa!" disse a criatura, sacudindo o dedo indicador no ar, como quem repreende uma criança travessa. "Desde pequenina, essa princesa se dedicou a aprender a arte da Magia. Eu, obviamente, fui seu instrutor."
Rumpelstiltskin envolveu Regina com um braço e guiou-a para longe do espelho, em direção à mesa do chá. A névoa instantaneamente se tornou sólida outra vez, voltando a refletir o aposento como se fosse um ordinário espelho.
"Então, você vê, quando a princesinha finalmente se tornou uma Rainha, ela já era a criatura mais poderosa de todo o Reino... Apenas não tão poderosa quanto... Moi," disse a criatura, soltando uma risada e estendendo a mão no ar, de modo majestoso. "Com o passar dos anos, a Rainha foi abusando mais e mais de seus poderes e, principalmente, de seu povo. Ela usava a magia para arrancar-lhes o coração, de modo a aprisioná-los pelo resto de suas vidas, tornando-os seus explorados escravos."
"Cora!" exclamou Regina, quando as palavras de Rumpelstiltskin finalmente começaram a fazer sentido.
"Precisamente," ele disse, empolgado. "O problema é que a Rainha arrancou tantos, mas tantos corações, que acabou dispondo de milhares de servos que, com o passar dos anos, acabaram por dar-lhe nos nervos. Vendo-se, então, sem saída, convocou-me e propôs um acordo. Pediu que eu lhe arranjasse algum lugar no qual somente ela pudesse entrar — ela, e quem quer que fosse de seu interesse —; um lugar onde pudesse esconder seguramente seu Cofre de Corações e todos aqueles escravos que lhe atazanassem a paciência por demasia. Em suma, ela queria um lugar para estocar tudo que já não lhe servia mais, mas também queria que tudo aquilo continuasse intacto, para que, quando lhe fosse conveniente, ela pudesse retomá-los. E ela estava bem informada: lera em um livro de Magia Antiga que uma maldição do Tempo seria perfeita para seus propósitos."
Regina ouvia transfigurada, de olhos arregalados, atentando-se às palavras de Rumpelstiltskin como se sua vida dependesse disso.
"Mas lançar uma maldição dessas não é tão simples quanto parece. Isso exigiria muito de meus poderes — de fato, eu sou o único que possui magia suficiente para congelar o tempo em qualquer lugar —, sem mencionar, muito de meu precioso tempo. Então, pedi algo muito valioso em troca; algo que sua mãe afirmou possuir."
"Mas não possuía?" arriscou Regina.
Rumpelstiltskin a ignorou e prosseguiu com a história: "Demorei pelo menos um par de dias para conseguir lançar a maldição em um lugarzinho abandonado. Entreguei, então, as chaves a Cora."
"Espere," disse Regina, de cenho franzido. "Cora usou Wonderland para esconder os corações que roubou?"
"Exatamente!" exclamou Rumpelstiltskin, batendo palmas animadamente. "Você está me acompanhando."
"Então... Então Cora é dona de Wonderland?" perguntou Regina, sentindo-se, de repente, traída. Não fora isso que demandara de Rumpelstiltskin.
"Não tão rápido, queridinha. É claro que Cora havia de falhar com o acordo. É claro que ela não possuía o tão estimado tesouro. Então, em vingança, lancei outra maldição: isolei Wonderland do mundo; deixei o lugar trancafiado entre dimensões, de modo que o único jeito de lá chegar seria através de um portal conjurado por uma fonte de Magia extremamente rara; tão rara, que o único a possuí-la sou eu, uma vez que fui eu que a criei. Assim, quando Cora tentou retornar a Wonderland, falhou miseravelmente, e toda sua raiva foi canalizada ao Rei, seu primeiro marido, aquele antes de seu pai. Ela o assassinou em sangue frio, arrancou-lhe o coração do peito e esmagou-o com as próprias mãos. Até alguns dias atrás, Cora ainda se dedicava a encontrar um jeito de retornar a Wonderland, mesmo que apenas para recuperar todos os corações que lá foram trancafiados.
"Você me traiu!" exclamou Regina, exasperada. "Enviou Cora aonde ela desejava estar!"
"Ora, ora, querida. Creio que não me compreendeu. Cora queria voltar a Wonderland, mas não pretendia ficar. Ela odeia o lugar. Enviei-a para lá por saber ser o lugar mais seguro para mantê-la aprisionada. Cora jamais será capaz de conjurar uma fonte de Magia capaz de abrir um portal de volta à Terra Encantada. Eu lhe asseguro, Cora está muito bem trancafiada, e eu sou o único que tem a chave."
Regina cruzou os braços e se aproximou de Rumpelstiltskin, adquirindo, por um segundo, um ar razoavelmente superior, precursor de seu famoso ar predatório de Rainha Má.
"Que era que Cora havia lhe prometido, em troca de Wonderland?"
"Creio que isso não lhe diga respeito, queridinha," respondeu Rumpelstiltskin, estreitando os olhos.
"Hm, é mesmo? Que pena, porque estaria disposta a conseguir o que quer que você necessite, em troca de que me ensine a conjurar tal Magia."
Rumpelstiltskin encarou Regina, incrédulo. "Espera mesmo que eu vá ensiná-la a usar uma fonte de Magia criada por mim?"
"Diga seu preço," ordenou Regina, confiante.
Rumpelstiltskin estudou a mulher por alguns segundos, ponderando no que fazer. Então, com um sorriso perverso, ele disse: "Se me arranjar um feijão mágico até o pôr-do-sol do dia que está por vir, teremos um acordo."
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