Lost In Paradise
6 The Devil Wears Red
Notas iniciais
N/A (2): Ainda não revisei o capítulo, então, por favor, ignorem qualquer erro grotesco.
CAPÍTULO CINCO — O DIABO VESTE VERMELHO
"Majestade! Majestade!" esganiçou-se o homenzarrinho, tentando, com seus dedos hábeis, afrouxar o rufo* que lhe impedia o ar de chegar aos pulmões. "Sinto... Sinto informar... Que vosso... Vosso Reino..."
A Rainha arqueou uma sobrancelha e olhou com desdém para o valete. "Desembucha, Humphrey. Não tenho todo o tempo do mundo," ela disse e saboreou as palavras, embora tivesse plena certeza de que o tempo não era bem um problema naquele lugar.
O valete Humphrey apertou a mão contra o peito, a fim de tentar acalmar os batimentos frenéticos de seu coração. "Invasores, Vossa Majestade! Invasores!"
"Ora, ora, meu caro. Invasores? Creio que interpretaste mal os sinais," disse a Rainha, calmamente, enquanto acariciava seu cajado vermelho — cujo formato era de coração — com seus longos dedos; unhas pintadas de vermelho.
"M-m-m-minha ilustríssima Rainha, duas damas, as quais nunca vi antes, acabaram de aterrissar em vossos domínios!" gaguejou Humphreu, quem começava a suar frio.
Uma risada sem emoção reverberou na garganta da Rainha. Com seu ar superior, ela se levantou de seu trono vermelho e desceu as escadas, nivelando-se ao valete. "Podes me descrever a aparência destas duas damas?"
"M-m-m-majestade, de acordo com a visão proporcionada pelo espelho, uma tem cabelos loiros, olhos cor de esmeralda e um rosto completamente majestoso; suas vestes, no entanto, assemelham-se mais àquelas da plebe que às da realeza."
"E a morena?" perguntou a Rainha, estreitando os olhos.
"A... A morena... Como sabeis que é morena?" perguntou o valete, visivelmente confuso.
"Descreve-me a morena, imprestável," rosnou a Rainha; seu humor mudara tão subitamente que o valete, devido ao sobressalto, derrubara sua trombeta e seu cajado.
Após agachar-se para recolher os objetos caídos, o valete se endireitou, puxou o rufo mais uma vez e dispôs-se a falar: "Morena, cabelos estranhamente curtos para uma dama, olhos da cor dos vossos, e as vestes... Não me ocorrem palavras para descrevê-las!"
A Rainha apoiou seu famoso cajado, do qual nunca se separava, no chão, com firmeza. "Isto não será necessário," ela disse, retornando majestosamente a seu trono; o vestido vermelho esvoaçando às suas costas. "Humphrey, quero que avises ao reino que temos visitas."
"V-v-v-visitas, milady?" perguntou o valete, trêmulo; o cajado e a trombeta quase foram ao chão pela segunda vez.
"Sim, meu caro. Visitas," disse a Rainha, simplesmente, um sorriso de escárnio lhe estampando os lábios.
O homenzarrinho permaneceu em silêncio por alguns segundos; então, como se a compreensão tivesse despencado sobre si, seus olhos se arregalaram e suas sobrancelhas voaram como um foguete em direção a seus cabelos. "Ohh, perdão, Majestade! Perdoai minha ignorância! Não sabia que havíeis encontrado um novo portal!"
A atenção da Rainha estava, mais uma vez, voltada para seu cajado. "Oh, mas eu não consegui, meu caro," ela respondeu, sem nem levantar os olhos. "Nossos hóspedes se encarregarão disso."
Quando a Rainha finalmente se virou para encarar o valete confuso à sua frente, uma risada zombeteira escapou-lhe os lábios. "Céus, Humphrey, és tão estúpido! Vai, vai avisar o reino que Regina e quem quer que seja sua amiga loira devem ser tratadas ilustrativamente bem... Até segundas ordens," ela disse, acentuando a última frase com um tom maleficente.
O valete permaneceu congelado em seu lugar; sua confusão ainda era evidente nas linhas de seu rosto.
"Vai, anda!" disse a Rainha, empurrando o homenzarrinho pela bunda com a parte mais larga de seu cajado. "Que esperas, miserável?"
E assim, enxotado, saiu o homenzarrinho — à procura do Curinga.
* * * *
"Ok, deixe-me ver se entendi corretamente," disse Emma, pelo que pareceu a Regina ter sido a qüinquagésima vez. "Uma vez que o Tempo não existe aqui, não envelhecemos, não adoecemos e não podemos ser assassinadas — o que deveria ser reconfortante; por que não é reconfortante? —, isso quer dizer que... Que somos imortais enquanto estivermos em Wonderland? Céus! Não me lembro de ter lido sobre isso no livro..."
"Srta. Swan," disse Regina, fechando os olhos a fim de acalmar os nervos. "Será que poderia me fazer a gentileza de CALAR A BOCA? Estou tentando pensar aqui."
Emma abriu a boca para argumentar, porém, tamanha era sua indignação, que nenhum som foi emitido.
"Excelente," murmurou Regina, voltando a enterrar o rosto nas mãos, entregando-se a seus devaneios.
Horas se passaram, desde que Emma e Regina aterrissaram no campo mais estranho que aquela já vira em toda sua vida. Seu pânico, enfim, diminuíra; no entanto, Emma ainda não conseguia parar de tagarelara e caminhar de um lado para o outro.
"Esse lugar é insano! Quero dizer, tudo aqui é insano! Insânia total! Mas ah, é claro que é insano. É de Wonderland que estamos falando, afinal. Mas que tipo de lugar demoníaco é esse, e quem foi o demônio que o criou?"
"Srta. Swan, arranje-me um gravador," sibilou Regina, acidamente, voltando a Encarar Emma; uma expressão apoquentada estampava-lhe o rosto.
"Para quê?" perguntou Emma, confusa.
Regina respirou fundo e massageou as têmporas lentamente. "Para que eu grave minhas respostas," ela disse, por mim. "Assim, quem sabe, posso poupar minha saliva para algo que seja realmente importante."
Como o conflito que estava por vir, pensou Regina. Durante as últimas horas, nenhum outro pensamento lhe cruzara o âmbito da mente, senão aquele. Ininterruptamente ela pensara, considerara, ponderara suas opções. Milhares de situações hipotéticas pululavam sua cabeça, uma mais impossível que a outra.
"Que tipo de lugar é esse, Regina?" arriscou Emma, mais uma vez.
"Por Deus, Srta. Swan, já lhe respondi isso!" esganiçou-se Regina, perdendo, pela primeira vez desde que Emma a conhecera, a compostura.
"Quem criou esse lugar?" Emma insistiu, ignorando o comentário de Regina. "Pelo que disse, é uma prisão."
Regina afundou o rosto nas mãos mais uma vez; um gemido semelhante ao de alguém que passa por uma tortura psicológica perpassou-lhe os lábios. Emma revirou os olhos.
"Era uma vez, num reino muito distante," começou Regina, vagarosamente, quase como se estivesse se dirigindo a alguém com retardo mental."
"Ok, agora você está tirando sarro de mim," disse Emma, cruzando os braços e batendo o pé no chão.
"Ao contrário, querida, estou apenas tentando contar a história do lugar, como requerido," disse Regina, readquirindo seu famoso ar superior e tom falsamente cordial. "Se me permite..."
"Guarde-a para a hora de ninar, Regina," interrompeu Emma, friamente. "Quero respostas reais aqui."
Emma esperou, mas Regina permaneceu em silêncio; sua expressão, intransponível.
"Não vai colaborar? Ótimo," gritou Emma, em tom estranhamente agudo. "Encontrarei alguém que vai."
Então, girando nos calcanhares, Emma se dirigiu à porta oval de madeira do aposento.
"Aonde pensa que está indo?" gritou Regina, correndo até Emma e segurando-a pelo braço.
A loira se contraiu, frente ao contato inesperado.
"Não sei, procurar o Gato de Cheshire, talvez?" disse Emma, acalorada, libertando-se do aperto de aço de Regina. "Comer um cogumelo e crescer uns 20 metros. Pintar as rosas brancas de vermelho?"
Regina revirou os olhos. "Não acredito que arrisquei a minha vida para salvar a sua, e você já vai jogá-la fora, Srta. Swan," disse; exaustão e incredulidade estavam evidentes em sua voz. "Você é suicida."
"E você é teimosa," retrucou Emma, voltando a bater o pé no chão, impacientemente.
Regina revirou os olhos e respirou fundo. Depois, subitamente, sua expressão se alterou; seus olhos se arregalaram, sua boca se abriu em um 'O', e o reconhecimento tingiu-lhe as feições. "Espere... O cogumelo... A Lagarta Azul..." gritou Regina, exasperada. "Como não pensei nisso antes? É claro! É tão simples!"
"O que é tão simples?" perguntou Emma; claramente perdera alguma coisa, e não era de se admirar.
* * * *
O Curinga, diferentemente dos outros guardas, era alto e esquelético. Suas pernas eram mais longas que o tronco, e isso lhe dava uma estranha aparência desengonçada. Contudo, embora fosse mais alto que a própria Rainha, sua idade mental se igualava à de uma criança travessa. Estava sempre a correr pela corte, fazendo brincadeiras de mau gosto, preparando armadilhas para seus companheiros, xingando os mordomos, e enviando cartas-bomba para a Rainha.
Naquele dia, o jovem encontrava-se ajoelhado atrás do sofá, esfregando as mãos uma na outra maliciosamente e engasgando-se em meio a risadas esganiçadas. Humphrey já o procurara por todos os cantos do castelo; o último lugar faltando a ser revistado sendo a sala de estar dos empregados.
"Curinga!" gritava o valete, já muito irritado, ao adentrar a sala. "Apareça, sue miserável! Preciso de sua ajuda!"
Mas o valete sabia que não bastaria chamar. O Curinga nunca aparecia quando era chamado; pelo contrário: aparecia sempre nas horas em que menos era desejado. Sempre inoportuno, o maldito, pensou Humphrey.
"Tudo bem, Curinga, vamos fazer uma troca," disse Humphrey, esperançosamente. "Diga, que quer de mim? Sei que está aí! Consigo sentir seu cheiro!" exclamou o valete, veementemente, mas a verdade era que não conseguia; estava apenas blefando.
O Curinga desatou a rir em voz alta quando, ao cruzar o sofá, o dedão de Humphrey ficara preso em uma das três ratoeiras que foram espalhadas pelo canto.
"Maldito!" gritou Humphrey, esganiçado, pulando num pé só. "Maldito, maldito, maldito!"
O Curinga riu mais e mais, até que Humphrey finalmente conseguiu se livrar do aperto da ratoeira e lhe deu um soco bem no topo da cabeça. "Tome!" gritou. "Isto é para aprender a ser decente!"
As pernas ossudas do Curinga fraquejaram e este caiu de joelhos no chão. "Que é que você quer, valete? Já se cansou de chupar a Rainha? Ou ela que se cansou de chupar você?" perguntou, mal-humorado, tentando se reerguer.
Quando o Curinga finalmente conseguiu se equilibrar em suas longas pernas, o punho de Humphrey o atingiu novamente no topo da cabeça, fazendo com que este voltasse ao chão. "Pare com isso!" gritou o Curinga, irritadiço.
"Pare com suas palhaçadas, e paro de lhe dar uma surra!" rosnou o valete. "Escute, preciso de sua ajuda."
O Curinga cruzou os braços ossudos. "Que é que posso fazer por você, e que estará disposto a pagar em troca?"
"Diga o que quer," sibilou o valete, entredentes.
O rosto do Curinga se iluminou com um sorriso malvado. "Ora, mas isso é muito simples! Quero ser o carrasco dos invasores de nosso Reino!"
O valete sacudiu a cabeça negativamente. "Ã-hãn," murmurou. "Isso está fora de meu alcance."
O Curinga revirou os olhos. "Nada está fora de seu alcance," disse ele, agitando os braços no ar. "Você está na lista vermelha da Rainha."
"Quanto a isso, tenho minhas dúvidas," confessou Humphrey, franzindo o cenho. "Algo me diz que Vossa Majestade não honrará nosso tratado... E é aí que entra a sua ajuda."
Os olhos do Curinga se arregalaram tanto, que Humphrey sentiu-se nauseado, imaginando que fossem saltar da cara do companheiro.
"Sinto cheiro de conspiração contra a Rainha?" indagou o Curinga, esfregando uma mão na outra; hábito seu, ao planejar suas travessuras.
"Fale baixo, energúmeno!" rosnou o valete. "Não estamos falando de uma conspiração, e sim de uma ressalva."
"Ressalva?" repetiu o Curinga, inclinando a cabeça para o lado, fazendo com que seu pescoço comprido desse a impressão de estar quebrado. "Nah... Muito sem graça. Conte comigo para a conspiração."
O valete escondeu o rosto com a mão, em frustração. "Certo, que seja! Chame como quiser, desde que prometa me ajudar."
O Curinga finalmente se reergueu, postando, logo em seguida, uma de suas mãos ossudas sobre seu peito direito. O valete ergueu uma sobrancelha questionadoramente. "Phew..." disse o Curinga, dando dois tapinhas no próprio peito. "Todo esse exercício não me faz bem ao coração. Conte comigo para a Conspiração."
E, assim, o Curinga rodopiou e saiu do aposento, saltitanto suavemente, deixando o valete, que puxava seus próprios cabelos em irritação, para trás.
* * * *
"O que é tão simples, Regina?" perguntou Emma, agora, bastante irritada por estar sendo excluída do monólogo da morena.
"Mas é claro! É tão óbvio! Estamos em vantagem!" vibrou Regina. Ao encarar Emma, no entanto, a expressão de vitória foi substituída por uma de irritação e contrariedade. "Ao contrário do que quer que tenha lido, Srta. Swan," disse Regina, muito a contragosto; sua paciência já estava se esgotando, e se Emma não calasse a maldita boca com a qual quebrara sua maldição, Regina quebraria-lhe os dentes. "O cogumelo mágico não faz a pessoa crescer ou diminuir; dependendo de sua posição no jardim, o efeito varia. O cogumelo nada mais é que uma fonte de magia... Exatamente o que preciso para recuperar meus poderes..." disse Regina; durante a última frase, seu tom tornara-se vago.
"Recuperar seus poderes?" esganiçou-se Emma. "Você deve estar me zoando! E eu que achei havermos feito algum progresso aqui," continuou, sacudindo a cabeça incredulamente. "Mas, pelo visto, você continua sendo a mesma vaca egoísta de sempre; tão centrada em si mesma que não consegue enxergar ao seu redor."
O barulho da agressão ecoou pelo ambiente antes mesmo que Emma pudesse sentir a dor. Regina cumprira sua ameaça: sua mão atingira Emma em cheio no rosto.
"Não vou tolerar sua falta de escrúpulos, Srta. Swan," disse Regina, em tom de superioridade. Seu complexo de prefeita, embora já quebrada a maldição, permanecia intacto.
"Adivinhe só, senhora não-mais-prefeita," disse Emma, após se recuperar da agressão, e avançou em direção a Regina, atravessando a linha de seu espaço pessoal. "Aqui somos iguais."
Regina colocou uma mão na cintura e estufou o peito, pronta para o combate. Seus olhos, de súbito, tornaram-se predatórios; encaravam sua presa perigosamente. "Não me compare a você, Srta. Swan."
Regina estava perto; perigosamente perto. Tão perto, que Emma podia sentir seu hálito quente. Algo se inquietou em seu peito; embora sua respiração houvesse se tornado ofegante, ela permanecia em sua posição. "Quis dizer que estamos no mesmo nível," esclareceu Emma. "Céus, jamais me compararia a alguém como você."
Os olhos de Regina se endureceram com a raiva. Avançou mais em direção à loira, de modo que seus narizes encontravam-se, então, apenas a centímetros de distância.
"Você sonha em ser pelo menos um pouco como eu, Swan," disse, em tom de voz letalmente baixo.
Arrepios escorreram por toda a coluna de Emma; algo no meio de suas pernas começava a latejar. Não!, pensou. Aquilo não era real, assegurou a si mesma. Não estava acontecendo. Não podia estar acontecendo.
Só que estava.
"Ha-ha, Wonderland está turvando sua capacidade de raciocinar, Mills," disse Emma, igualando o ato ao da prefeita, e aproximando-se mais desta. Seus corpos encontravam-se tão próximos um do outro, que se roçavam, despertando-lhes sensações primárias.
"E mesmo após todo esse tempo," disse Regina, estreitando os olhos, porém, não de forma perigosa; agora, de forma curiosa, quase como se Emma houvesse, de repente, se tornado seu novo objeto de estudo. "Você continua a me subestimar. Bem, depois não diga que não a avisei, Srta. Swan."
Regina falava em tom baixo e calmo; era quase um soprano. Era quase um soprano e, ainda assim, arrancava arrepios de Emma. "Estou esperando para ver, Vossa Majestade," ela disse, e aproximou tanto seu rosto do de Regina, que os narizes finalmente se tocaram. "Estou esperando até hoje."
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