Lost In Paradise
1 Prólogo
Notas iniciais
N/A (2): Amo e aceito críticas construtivas.
PRÓLOGO
— "Crave my heart and it's bleeding in your hand." —
Tudo que você precisa fazer é dar um empurrãozinho. Durante as últimas três noites, essas palavras ecoaram incessantemente na cabeça de Regina, junto a várias perguntas cujas respostas ela ainda não possuía. Teria ela a coragem de seguir com seu plano? Teria ela a audácia de voltar-se contra a mãe? E, caso tivesse, para onde o portal levaria a mulher detestável? Rumpelstiltskin não mencionara aquela parte. E se Cora acabasse em algum lugar horrível? Poderia Regina conviver com a culpa?
Bem, pensou. Se Cora podia coexistir pacificamente com a ciência de haver aniquilado o verdadeiro amor de sua própria filha em sangue frio, e de haver arruinado sua única chance de felicidade de modo irreversível, então talvez Regina pudesse carregar a culpa de se livrar de tal mulher.
Regina ponderou suas opções. Não poderia fugir — e não era como se nunca houvesse tentado. Tentara, sim; várias vezes, por sinal. Mas, por alguma razão ainda desconhecida, Cora parecia ser conjurada do nada toda vez que a menina estivesse prestes a conseguir escapar: ela estava sempre lá, para garantir que a filha não cruzasse os limites do reino.
Também não podia argumentar com a mãe: esta apresentava firmeza na decisão de fazer a filha desposar o rei Leopoldo, e isso não mudaria de uma hora para a outra. Assim, sobravam-lhe apenas duas outras opções: poderia fazer o que Rumpelstiltskin sugerira e livrar-se de Cora de uma vez por todas, ou poderia permanecer submissa à opressão doentia da mãe, ser forçada a se casar com alguém que não amava e se tornar a madrasta daquela cuja traição custara-lhe a vida de Daniel. Aliás, ela não seria nem concedida a dignidade de lamentar a morte de seu amado em paz: o rosto de Branca de Neve — outrora venerado, então odiado — estaria lá todos os dias para zombar de sua dor e lembrar-lhe de como o coração de Daniel fora transformado em pó diante de seus próprios olhos.
Daniel. Morto. Perdido para sempre. Ela estava sozinha. Essa foi a queda de Regina: lágrimas começaram a escorrer de seus olhos cor de chocolate à medida que a horrenda realidade despencava sobre si. O vazio em seu peito provava, mais uma vez, ser muito mais pesado que carregar um coração partido; coração o qual fora arrancado do peito de Regina pelas ímpias mãos de Cora minutos após a morte—não, assassinato de Daniel. "Agora você pertence a mim," dissera Cora. E era verdade. Regina nunca fora senhora de seu destino e, agora que perdera seu coração para o domínio de Cora, estava mais longe que nunca de adquirir qualquer forma de controle sobre sua miserável vida.
O som de passos imponentes despertaram a futura Rainha de seus devaneios. Respirou fundo e enxugou rapidamente as lágrimas. No momento seguinte, Cora adentrou o aposento.
"Que é isso?" perguntou Cora, apontando para o grande embrulho que repousava num dos cantos do quarto. Um olhar de escárnio era mal e mal disfarçado pela imagem de um sorriso vazio em seus lábios.
Regina ofegou.
"Não sei... Um presente?" conduziu.
"Talvez seja um retrato," disse Cora, esperançosa. Com um meneio e um rastro de fumaça negra seguindo o ato, o pacote foi desembrulhado diante delas, revelando um majestoso espelho com moldura ornamentada. "Oh, um espelho... Nem tão pessoal," disse, desapontada. Suspirando, continuou: "Às vezes pergunto-me se as pessoas realmente a amam."
Os olhos desolados de Regina encontraram os frios de Cora. "Estou fazendo o melhor que posso, mãe," disse.
Cora, então, aproximou-se de Regina, dizendo: "Oh, querida, sinto muito," mas não parecia sentir. "Venha aqui," e puxou a menina pela mão, guiando-a em direção ao espelho. O vidro refletiu as duas mulheres. Regina usava um suntuoso vestido de casamento; Cora, sua escolha habitual de vestimentas. "Olhe só para você," disse; sua voz soava quase orgulhosa. "Com todo seu futuro diante de si... E será melhor do que pode imaginar!"
Regina não poderia haver discordado mais. Ao mirar sua imagem refletida no espelho, seus olhos escaneando rapidamente o vestido, sentiu como se estivesse prevendo uma tragédia; agora, como isso poderia ser considerado 'bom' ia além de sua capacidade de compreensão.
Cora se posicionou frente a Regina, segurando suas duas mãos e encarando-a profundamente nos olhos. "O Rei não é um homem forte," ela disse, abaixando o tom de voz para aquele de um sussurro; um quê de reafirmação coloriu seu discurso quando ela finalmente desistiu de fingir que não enxergava o sofrimento e a hesitação da filha. "O reino será seu. Eleve os impostos, crie uma guarda pessoal, deixe que todos saibam onde o novo poder se encontra, e você segurará o coração de seu povo em suas mãos."
Regina virou-se de costas para Cora a fim de esconder sua indignação. Imaginou-se cravando suas mãos no peito de alguém e arrancando-lhe o coração, bem como a mãe fizera inúmeras vezes no passado. Flashes da ainda recente noite do falecimento de seu amado invadiram sua mente. Seu maior medo era tornar-se igual à mãe. A mera idéia a adoecia até a alma.
"É isso que você faria, mãe?" perguntou, já sabendo a resposta; contudo, por algum motivo, ela precisava ouvir as palavras dos lábios da mulher. Talvez, assim, sua culpa fosse atenuada.
"É exatamente o que eu faria," respondeu Cora com um sorriso no rosto. Seu olhar tornara-se vago por alguns instantes, quase como se sua mente se aventurasse por algum lugar inacessível por Regina.
Mais dois segundos se passaram enquanto Regina ponderava no que fazer. Então, quase como se encontrasse uma súbita força dentro de si, ela disse: "Bem, o problema é que não quero ser você," e, com isso, girou nos calcanhares, encarando Cora decididamente, com ambas as mãos esticadas no ar, prontas para... Empurrar. Mas, ai!, não tão rápido! Sagaz como sempre, Cora prontamente enviou uma corrente de magia na direção de Regina, que imobilizou-a completamente.
"Que está fazendo?" perguntou Cora incrédula. "Pensa que é fácil assim se livrar de mim? Você está presa comigo para sempre, querida, porque eu sou sua mãe," disse, desfrutando da veracidade de suas palavras e do efeito que causavam em Regina, cujo pânico estava, então, evidente nos traços de seu rosto.
Naquele momento, o espelho deixou de refletir ambas as silhuetas à sua frente, tornando-se instantaneamente preto. Um segundo depois, a imagem do Senhor das Trevas, quem parecia divertir-se muito com a situação, fez-se visível.
"E eu sei o que é melhor para você," terminou Cora, bem quando Rumpelstiltskin gesticulava para Regina.
Na medida em que as palavras de Cora afundavam-se dentro de Regina, uma inexplicável e incontrolável raiva começou a crescer dentro de seu peito. Algo acabara de ser despertado dentro dela: algum tipo de instinto animal acabara de ser desencadeado e a enchia, então, com uma magnífica sensação de... Poder. O poder é liberdade, ela lembrou as palavras da mãe. Talvez fosse a hora de ser livre.
Concentrou-se em canalizar o sentimento em direção à corrente mágica que a aprisionava. Com um súbito solavanco, esta ricocheteou na direção de Cora com tanta força que acabou lançando-a contra o espelho. O vidro pareceu tornar-se uma neblina muito densa e, no momento seguinte, engoliu a mulher viva. Esta sumiu de vista, deixando para trás a filha, atônita, sozinha para lidar com o peso de suas ações.
* * * *
Os olhos de avelã de Cora se abriram para contemplar o céu mais azul que já esta já avistara em toda sua vida; nem mesmo o céu da Terra Encantada era tão colossal quanto aquele que pairava sobre si. Durante alguns segundos, ela apenas continuou ali, deitada onde quer que estivesse, aturdida demais para formar qualquer pensamento coerente. Seus olhos captaram o vislumbre de milhares de nuvens cujos formatos eram bem-desenhados demais para serem sequer considerados reais.
Após alguns momentos, recuperou sua memória e os eventos que acabaram de ocorrer caíram outra vez em sua mente: Regina a empurrara, e ela atravessara o espelho.
Num pulo, Cora se levantou. Imediatamente, seu corpo protestou, sentindo falta da extrema maciez com a qual outrora estivera tendo contato. Assim, não foi difícil deduzir aonde havia sido mandada. Mas, não! Não podia ser.
E, ainda assim, era. Quando Cora inalou profundamente o ar a seu redor, a essência do lugar foi rapidamente absorvida por suas narinas e reconhecida por seu cérebro. Era um cheiro peculiar, daqueles que, uma vez inalados, permanecem cravados na memória para sempre. Cora já tivera o infortúnio de senti-lo duas vezes antes, durante o curso de sua vida. Porém, dessa vez, algo estava diferente: o ar parecia mais denso.
Só então, Cora percebeu que, daquela vez, estava ali como prisioneira. O portal que a transportara àquele lugar estava longe de ser visto, levando-a a concluir haver sido de sentido único. Uma passagem só de ida para o Inferno.
"Maldita! Desgraçada!" rosnou, possuída pelo ódio. "Agora você passou dos limites, Regina!"
Guiada por seus impulsos, tirou de dentro de sua capa uma caixa de madeira da qual nunca se separava. Com um meneio de suas mãos, esta se abriu, revelando um coração vivo. Tomando-o nas mãos, contemplou-o por alguns segundos, imaginando como seria bom poder simplesmente espremê-lo, esmagá-lo até que virasse pó, bem como fizera com o cavalariço e muitos outros antes dele. Contudo, após reconsiderar, decidiu contra: não mataria Regina; não ainda, pelo menos. A morte lhe seria bem-vinda e isso não iria servir. Ela teria de sofrer. Deixaria que Regina exaurisse cada pingo de sua energia, que explorasse cada centímetro do castelo em busca de seu coração perdido. Quando se cansasse de falhar, Regina seria forçada a desposar o Rei de qualquer modo. Embora Cora houvesse sido enviada para aquele lugar horrendo, o feitiço que lançara sobre o reino ainda era vigente, e assim permaneceria, impedindo que Regina se afastasse das premissas do reino até que ela houvesse se tornado Rainha... Ou até que Cora morresse — o que estava absolutamente fora de questão, agora que fora aprisionada em um lugar sem Tempo. Enquanto Regina sofresse, na Terra Encantada, Cora iria exaurir cada pingo da sua energia na busca de alguma saída daquele labirinto doentio... Uma saída para vingar-se de Regina.
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