Lost In Paradise
16 No, This Can't Be How The Story Ends.
Notas iniciais
N/A (2): Fico muito feliz que todos tenham gostado da Mab, porque ela ainda vai aparecer muito nessa história que, vale ressaltar, está longe de chegar ao fim. Espero que não estejam ficando enjoadas, porque ainda tem muita coisa pra acontecer.
N/A (3): Capítulo relativamente mais curto, porém, muito diálogo entre Emma e Regina. Enjoy that. ;-)
Capítulo Quinze — Não Pode Ser Assim Que A História Termina.
"EMMA ESTÁ O QUÊ?" esganiçou-se Branca de Neve, em surpresa.
Encantado encontrava-se congelado em seu lugar; seus olhos, arregalados, e sua boca, entreaberta. A Fada Azul encarava a mãe nos olhos, com um misto de confusão e assombro tingindo-lhe as feições. Mab, por sua vez, em sua forma humana, apenas sorria misteriosamente.
"Aquela bruxa!" explodiu Branca de Neve. "Deve ter lançado algum feitiço sobre minha filha! Eu sabia que isso iria acontecer! Sabia que Regina ia machucá-la! Ah, mas eu vou lá! Eu vou lá agora mesmo, trazer Emma de volta!"
"Não vai adiantar," disse Mab, simplesmente. "O Feijão Mágico não é capaz de transportá-la a Wonderland, e o chapéu de Jefferson está arruinado. Mesmo que conseguisse chegar lá, teria de voltar sozinha, uma vez que o número de pessoas que atravessa o portal deve ser igual ao número de pessoas que por ele retornam. Não adiantaria nada, Emma continuaria presa em Wonderland. Só o que temos a fazer é esperar. Garanto que as duas estão trabalhando para retornar o mais breve possível."
"Não posso ficar aqui, sentada, enquanto Regina lança feitiços sobre minha filha!" gritou Branca, começando a caminhar de um lado para o outro, apoiando o queixo nas pontas de seus dedos.
"Não me ouviu?" perguntou Mab, perdendo a paciência. "O que Emma sente por Regina é puro, é real. Não é resultado de feitiço algum."
Branca de Neve encarou Mab com olhos arregalados, sacudindo a cabeça negativamente, de modo frenético. "Não!" exclamou. "Eu conheço Emma! Ela não se apaixonaria pela Rainha Má! Ninguém, em sã consciência, se apaixonaria pela Rainha Má."
A expressão da senhora à sua frente endureceu. "Regina não é apenas a Rainha Má, e você sabe muito bem disso."
Branca de Neve explodiu em risadas histéricas. "Você não sabe da metade do que ela já tentou fazer comigo e com minha família," disse, lágrimas formando-se no canto de seus olhos; lágrimas de raiva. "E agora, fez com minha filha! Não posso permitir! Preciso salvá-la!"
Mab se levantou, apoiando-se no braço do sofá. "Regina não lançou feitiço algum sobre Emma. Posso garantir: conheço o amor verdadeiro quando o vejo."
"Emma não pode amar Regina!" gritou Branca, em tom agudo, agitando as mãos no ar enfaticamente, como quem constata o óbvio.
"Mas ela ama," disse Mab, em tom decisivo. "E Regina a ama de volta."
Mais risadas histéricas preencheram o ambiente. "Regina a ama de volta," repetiu Branca de Neve, em tom debochado. "Regina. A Ama. De volta. Por favor!" explodiu. "Você escutou o que acabou de dizer? Regina não seria capaz de amar nem mesmo se sua vida dependesse disso!"
"Não é capaz de amar," repetiu Mab, em tom amargurado. "Já se esqueceu de um certo cavalariço?"
Branca de Neve congelou em seu lugar; bem como Encantado, seus olhos se arregalaram e sua boca se entreabriu, quando a lembrança lhe veio à mente. "Isso tudo é mesmo culpa minha, não é?" perguntou Branca; algo em seu peito se contorceu dolorosamente. Sentia quase como se todo seu interior ardesse. O peso da culpa a sufocava. "Fui eu que a transformei na Rainha Má."
"Não," admitiu Mab. "Mas Regina não consegue aceitar que a culpa seja de Cora."
"Se eu não tivesse contado a Cora..." lamentou-se Branca.
"Não é o momento para se lamentar, Branca," disse Mab, condescendente.
"Eu acabei com Regina... De modo irreversível..." ofegou Branca, lágrimas começando a escorrer por seu rosto. "Por um motivo tão egoísta... Condenei–a a uma vida de pura agonia..."
Encantado finalmente despertou de seu estado de choque e correu para abraçar a amada. "Shh," ele disse, de modo reconfortante. "Você não tinha como saber que Cora mataria Daniel."
"Mas deveria saber," lamentou-se, escondendo o rosto no peito do marido. "Regina implorou para que eu não revelasse seu segredo..."
"Cora é manipuladora, Branca," disse Encantado, postando-lhe um beijo no topo da cabeça. "Ela teria descoberto de um jeito ou de outro."
"Que fosse de outro!" exclamou Branca. "Assim, não teria de carregar o peso da culpa!"
"Não é culpa sua!" exclamou Encantado, com veemência.
"Você não acabou com Regina de modo irreversível, Branca," disse Mab. "Ainda há esperança para ela. Aquela antiga princesa ainda se encontra em algum lugar, dentro dela."
Branca sacudiu a cabeça negativamente. "Quando pensei que pudesse mudar, quando lhe dei a chance... Ela tentou me matar!"
"Emma é a salvadora," disse Mab. "Emma é a única que pode salvá-la. Emma é nossa única esperança."
Branca de Neve levantou o rosto para encarar a senhora, a compreensão tomando conta de si vagarosamente.
"Ela veio predestinada a salvar a todos nós. Sua missão é trazer de volta todos os finais felizes, sem exceção. Isso inclui o de Regina."
Branca escondeu o rosto nas mãos, deixando que mais lágrimas escorressem.
"Você não pode negar isso a ela," disse Mab. "Não depois de tudo pelo qual ela passou."
Branca assentiu, com o rosto ainda escondido nas mãos.
* * * *
Emma Swan havia tido um orgasmo.
"Sugiro que se recomponha, Srta. Swan," disse Regina, casualmente, assim que Emma a encarou profundamente nos olhos, ainda ofegante. "Tem um Sugador de Almas lá fora."
"Q-quê?" perguntou Emma, aturdida, arregalando os olhos. Seu batimento cardíaco, que havia acabado de voltar ao normal, acelerou-se novamente.
"Você me ouviu," disse Regina, friamente.
Emma franziu a testa diante do tom de Regina. Ainda não havia se reajustado à realidade; despertar de um sonho daqueles, onde a morena sorria genuinamente para ela, e ser atingida em cheio pelo tom cortante da Rainha Má doía mais do que Emma gostaria de admitir.
"E o que faremos agora?" ela perguntou.
"Não faço a menor idéia," murmurou Regina, entredentes.
"Como ele nos encontrou?" perguntou Emma, olhando ao redor, espantada. "Pensei que havia lançado um feitiço protetor sobre nós!"
Regina aproximou seu rosto do de Emma, a expressão em seus olhos dando a entender que a Rainha Má comportava-se como predadora; encarava sua presa perigosamente. "E lancei, mas claramente não foi o suficiente para impedir que o Wraith me encontrasse."
"Merda," sussurrou Emma, sentindo seu estômago se revirar devido ao medo que a consumia. Limpou o suor de sua testa com as costas de sua mão.
"Merda mesmo," murmurou a morena, entredentes.
Regina encontrava-se em meio a um vórtex de sentimentos. Estava com medo — aliás, 'medo' era uma atenuação para o pânico que crescia constantemente em seu peito. Tinha medo do Wraith, medo de morrer e nunca mais ver Henry, medo do que sentia quando Emma Swan estava por perto, medo de perdê-la, medo de se entregar a ela. Também sentia raiva. Raiva de Emma, por ser tão ridiculamente maravilhosa, com os cabelos desgrenhados daquele jeito e a pele branca manchada de suor. Raiva por desejá-la tão profundamente, que chegava a doer bem no fundo de seu âmago. Raiva por não poder matá-la, por não poder fazer com que o sentimento se dissipasse. Dor, por saber que jamais poderia ter algo com Emma — ela não merecia o peso das ações da Rainha Má sobre si. Dor, por saber que seu tempo com a loira estava se esgotando — assim que retornassem a Storybrooke, Emma e Regina seguiriam caminhos diferentes. Dor, por ter de enfrentar a mãe novamente, por ter de virar-se contra ela mais uma vez. De fato, talvez esta fosse a parte que mais doesse. Parte de si ainda não compreendia por que a mãe se portava de tal maneira. Parte de si ainda esperava, sonhava com uma reconciliação, embora a outra parte, a mais racional, soubesse que isto estava fora de questão. E ainda mais dor, ao perceber ter se tornado igual à mãe. Dor, pelo fato de as lembranças ainda estarem muito vívidas em sua mente; lembranças de tudo aquilo que havia perdido, durante o curso de sua vida. Dor, dor, e mais dor. E confusão. Muita confusão.
Emma colocou a cabeça para fora da barraca, a fim de observar o Wraith. Este movia-se continuamente ao redor do círculo protetor, investindo contra ele de vez em quando, tentando — e falhando miseravelmente — atravessá-lo a todo custo. "Ok," disse Emma, voltando a fechar o zíper da barraca. Sua voz despertou Regina de seu transe. "Você consegue nos transportar até o Jardim das Flores?"
Regina levantou os olhos a fim de encarar a loira; esta percebeu que a morena se encontrava vulnerável: o medo em seus olhos era evidente. "Posso tentar, mas não creio estar forte o bastante," admitiu, franzindo a testa. "Além disso, é muito arriscado. Teria de desfazer o feitiço protetor para que pudéssemos ser transportadas."
"E se não funcionar," disse Emma, sentindo, de repente, sua boca ficar seca. "O Wraith suga sua alma?"
"Precisamente," respondeu Regina; sua voz soava estrangulada, quase como se tivesse uma guerra acontecendo em seu interior.
"Mas..." disse Emma, desesperada. "Mas você disse que não podemos morrer em Wonderland, então... Então talvez o Wraith seja inofensivo aqui."
Regina sacudiu a cabeça negativamente; o nó em sua garganta apenas aumentava. "Creio não ter sido suficientemente clara," ela disse. "Wonderland é um lugar sem tempo. Se eu a matasse aqui, nada aconteceria, mas no momento em que retornasse ao mundo real, onde o tempo existe, os efeitos do assassinato aconteceriam, e você, de fato, morreria. Então, de certo modo, se morrermos aqui, estaremos condenadas a passar o resto da eternidade neste lugar."
Emma ofegou. "Isso é um problema," ela disse, e Regina a encarou severamente, a frase 'não me diga' claramente estampada em suas feições. "Precisamos de algo para manter o Wraith longe de você... Precisamos de fogo!"
"Posso tentar conjurar algumas tochas," disse Regina, franzindo a testa. "Mas isso diminuiria ainda mais minhas forças, de modo que não poderia garantir nos transportar em segurança."
"Merda," xingou Emma, outra vez. O silêncio se sobrepôs ao ambiente, ali perdurando por alguns segundos, enquanto ambas as mulheres raciocinavam. "Então," disse Emma, por fim. "Deixe-me andar até o Jardim. Não fui marcada, o Wraith não virá atrás de mim. Trarei o cogumelo azul para você e então poderemos voltar a Storybrooke."
"Está louca?" rosnou Regina, encarando–a ferozmente. "Acha mesmo que vou deixá-la sair depois do que aconteceu? Quão suicida é você?"
Algo no peito de Emma se aqueceu. Que era isso?, se perguntou. Estaria Regina preocupada com sua segurança? Uma fagulha de esperança atingiu-a em cheio, fazendo com que um sorriso se esboçasse involuntariamente em seu rosto.
"É nossa única chance, Regina," insistiu Emma.
"Se esta é nossa única chance, prefiro passar o resto da eternidade aqui," retrucou Regina. "Você não vai sair daqui, desprotegida. Não vou permitir." Sim, pensou Emma. Regina estava preocupada com sua segurança! Poderia dar pulinhos de alegria, naquele momento. "Se você morrer aqui, Henry vai me odiar mais do que já odeia."
E então, o que havia se aquecido esfriou novamente. Regina não estava preocupada com sua segurança porque se importava com ela; estava preocupada por causa de Henry. Tudo bem, pensou Emma. Já era um avanço, considerando-se o fato de que apenas alguns dias atrás, Regina tentara envenená-la com sua poção do sono.
"Henry não a odeia," disse Emma, condescendente.
"Que seja," disse Regina, sacudindo a mão no ar. "Você não vai."
"Não pode me forçar a ficar," desafiou Emma, de modo infantil.
"Experimente tentar sair, e verá," ameaçou Regina, cruzando os braços e encarando Emma com seu ar superior.
"Mas Regina!" protestou Emma, incrédula. "Precisamos fazer alguma coisa!"
"E faremos," disse Regina, frisando o verbo. "Mas não vou permitir que saia sozinha enquanto alguém lá fora está pronto para matá-la."
"A propósito," disse Emma, aproveitando a menção da pessoa misteriosa. "Quem era aquela pessoa que tentou me matar?"
Os olhos de Regina se arregalaram ligeiramente, e sua boca se entreabriu. Emma pôde perceber o medo estampado em sua face; claramente, a morena não esperava que Emma fosse perguntar.
"Não acho que esteja pronta para ouvir isso," disse Regina, recuperando controle sobre sua expressão facial, deixando-a, outra vez, intransponível.
"Quê, você tem, tipo, uma gêmea do mal?"
"Gêmea do mal?" perguntou Regina, erguendo as sobrancelhas. Gargalhadas incrédulas preencheram o ambiente. "Sério? É o melhor que consegue imaginar?"
"Desculpe," disse Emma, dando de ombros. "É só que a pessoa era idêntica a você, então pensei que podia ser—"
"Minha irmã gêmea do mal? Por favor," debochou Regina. "Ela é uma maldita metamorfa, que está apenas esperando pela melhor oportunidade para estragar minha vida... Outra vez," disparou Regina.
"Uma... Uma metamorfa?" perguntou Emma, franzindo a testa. Parte de si ainda achava tudo aquilo completamente bizarro; a outra parte, no entanto, já começava a se acostumar com a existência de um mundo completamente diferente daquele no qual havia crescido.
"Sim," disse Regina, a mágoa tingindo–lhe a voz. "Isso significa que ela se transformou em mim para fazê-la acreditar que eu estava tentando matá-la."
Emma observou Regina minuciosamente. "Não acreditei que fosse você por um segundo sequer," disse a loira, e a tensão estampada no rosto de Regina se aliviou um pouco. Um sorriso se estampou nos cantos dos lábios de Emma ao perceber que Regina valorizava sua opinião. "Sabia haver algo de estranho," continuou Emma. "Você não me mataria."
"Oh, Srta. Swan," disse Regina, soltando uma risada amargurada. "Será mesmo tão inocente assim? Não parou para contar quantas vezes eu já tentei?"
"Pode até ter tentado," disse Emma. "Mas algo me diz que, se realmente me quisesse morta, eu não estaria aqui hoje. Além disso, tem Henry."
"Sim," disse Regina, evitando qualquer forma de contato visual com a loira a fim de esconder a dor que comprimia seu peito. "Tem Henry. Você tem sorte por ele gostar de você, Srta. Swan. Não fosse isso, você já estaria morta e apodrecida."
"Não, não estaria," disse Emma, confiante, apesar da pontada de dor que lhe atingira no peito, ao ouvir as palavras de Regina. "Você gosta de mim, Regina."
"Perdão?" disse Regina, incrédula, deixando escapar uma risada amargurada.
"Negue o quanto quiser," insistiu a loira. "Mas eu sei que você gosta de mim."
Regina revirou os olhos. "Está delirando!" ela exclamou. "As estrelas conseguiram mesmo enlouquecê-la a esse ponto?"
"A propósito," disse Emma, aproveitando a deixa novamente. "Que demônios foi aquilo com as estrelas? Que significa aquilo tudo?"
Mais uma vez, a expressão de Regina endureceu e o medo tomou conta de seu rosto. "Isso não está em questão agora," ela disse, firmemente. "Precisamos encontrar um jeito de sair daqui vivas."
"Você nunca responde às minhas perguntas," reclamou Emma, em tom infantil.
"É melhor que não saiba," murmurou Regina, voltando a encarar Emma nos olhos.
"Não pode decidir isso por mim," disse a loira, mansamente.
"Na verdade, acabei de fazer," disse Regina, friamente. "Fim de papo."
"Não," disse Emma, firmemente. "Se você não vai me contar, encontrarei alguém que vai. Atravessarei esse círculo, e quero ver você tentar me impedir."
Regina bufou. Pelo que conhecia da teimosa Xerife, era bem capaz que tentasse atravessar o círculo. Não podia se dar ao luxo de arriscar ter a loira fora dos limites do feitiço protetor, quando o Wraith pairava bem sobre suas cabeças. Se Emma escapasse, Regina não poderia ir atrás; fazê-lo significaria sua morte.
"Ótimo," sibilou Regina, a contragosto. "O céu de Wonderland tem efeito alucinógeno."
"Isso eu percebi," murmurou Emma, a lembrança do transe causado pelas estrelas ainda muito vívida em sua mente.
"Sabe-se que, durante as noites, as estrelas fazem com que seus observadores vejam, estampada no céu, a imagem daquilo que mais desejam, mas que provavelmente nunca obterão," disse Regina, mantendo seu olhar sobre o chão da barraca. O coração de Emma pulou uma batida ao compreender as palavras da morena. "Desse modo, ao se depararem com a imagem ali, tão próxima, tão genuína, eles se sentem impulsionados a alcançá-la... Sempre fora do alcance, ela se encontra, entretanto. Isso os enlouquece ao ponto de quererem fazer qualquer coisa para simplesmente poder tocá-la. Muitos idiotas morrem por tentarem coisas absurdas."
"As estrelas nos mostram aquilo que mais desejamos?" perguntou Emma, aturdida.
De certa forma, era meio óbvio, pensou Emma. Vira a silhueta de Regina estampada nas estrelas e, de repente, dera-se conta de que a amava. Fazia sentido que as estrelas mostrassem aquilo que o observador mais desejasse.
"E que provavelmente nunca teremos, sim," reforçou Regina; mais uma vez, sua voz soava estrangulada.
Regina não havia se atrevido a olhar para o céu, quando as estrelas se faziam presentes. No fundo, sabia o que veria, mas negava-se a aceitar a realidade.
"Wow," disse Emma, ofegante.
"Agora podemos voltar ao que interessa, Srta. Swan?" perguntou Regina, entredentes. Emma assentiu e a morena continuou: "Bem, é isso que faremos: essa pessoa, lá fora, está esperando por mim. Se eu me entregar a ela, isso vai limpar seu caminho até o Jardim."
"Está louca?" gritou Emma, exasperada. "Como se eu fosse deixá-la se entregar a alguém que quer matá-la."
"Não," disse Regina, sacudindo a cabeça com veemência. "Ela não me mataria," disse, confiante. "Quer matar você, mas se me tiver, certamente vai deixá-la em paz. Eu a distrairei."
"De jeito nenhum!" exclamou Emma, em tom de voz agudo. A mera idéia de Regina se entregar àquela pessoa de olhos e tom de voz gélidos, cruéis, aterrorizava Emma até o fundo de sua alma.
"Tudo bem," retrucou Regina, duramente. "Então estamos presas aqui para sempre." Emma permaneceu em silêncio, raciocinando. "É só uma questão de tempo até que ela nos encontre, sabe?" disse Regina.
A loira hesitou por alguns instantes; então, decidindo abusar de sua sorte e, mais uma vez, aproveitar a oportunidade, perguntou: "Quem é ela, Regina? Por que lhe odeia tanto?"
Mais uma vez, Regina sacudiu a cabeça negativamente. "Ela não me odeia," disse, contemplativa. "Apenas me ama do jeito errado."
Num 'clique', uma hipótese se formulou na mente de Emma. "Ela é..." começou, sem saber como organizar as palavras. "Regina... Ela é sua mãe?"
Os olhos de Regina se arregalaram, sua expressão se endureceu outra vez, e seus lábios se comprimiram em uma linha muito fina.
"Pergunto porque—" Emma se apressou em explicar.
"O que ela lhe falou?" interrompeu Regina, sibilando, em seu famoso tom de voz ácido.
"Aquela mulher?" perguntou Emma, confusa. "Não foi lá uma conversa muito produtiva."
"Ela não," sibilou. "Mab."
"Quem?" perguntou Emma, franzindo a testa.
"A maldita Fada que lhe visitou em seu sono," disse Regina, dando um soco no chão. Deveria saber que Mab a trairia! Deveria saber que não poderia confiar em alguém que pregava o amor verdadeiro na mente das pessoas. Por um breve momento, Regina considerara seguir o conselho de Mab e se render ao que sentia pela loira; agora, entretanto, Regina estava certa de que fazer o oposto seria o mais apropriado.
Emma piscou, aturdida. "Como... Como você sabe—"
"Porque ela também me visitou," rosnou Regina, enterrando suas unhas na palma de sua mão. "O que ela lhe disse?"
"Não disse muito," Emma se apressou a esclarecer. "Ficou dizendo que não era a história dela para contar, mas mencionou que sua mãe estava trancafiada aqui e que Branca de Neve fez algo muito ruim com você, por isso você a odeia tanto."
Regina mordeu a língua e desviou o olhar da loira, o ódio fazendo-se presente em suas íris chocolate. "Ela mencionou o quê?" perguntou, voltando a encarar a mulher à sua frente.
Emma sacudiu a cabeça negativamente, o tempo todo, analisando Regina profundamente. "Disse que eu deveria perguntar diretamente a você."
"Nem se dê ao trabalho," rosnou Regina. "Não vou lhe contar."
Outra pontada de dor atingiu a loira, no peito. "Por quê?" perguntou, com a testa franzida e a voz embargada. "Regina, eu só quero ajudá-la..."
"O que lhe faz pensar que preciso de sua ajuda?" perguntou, em tom frio e cruel. Por um momento, Emma viu a imagem daquela mulher que tentara matá-la momentos atrás tomar conta de Regina. "Não sou uma donzela em perigo para você salvar, Srta. Swan. Eu não preciso de você."
A última frase viera num sussurro letal, que fez com que o nó que se fazia na garganta de Emma aumentasse sua dimensão. "Não me importo se você precisa de mim, ou não," mentiu Emma, com a voz mais embargada ainda. "Só sei que Henry precisa de você, e também precisa de mim, e este é um vínculo que nenhuma de nós poderá quebrar, então, sugiro que comece a se acostumar com o fato." A loira, então, fez uma pausa para respirar fundo e tentar controlar o tremor que se apoderava de sua voz. "Estou tentando ajudar porque sei que Henry a ama, sei que ele acredita em você. Ele acredita, com todo o coração, que você é mais do que os olhos podem ver, que você é mais que apenas a Rainha Má. Ele acredita que, dentro de você, há uma boa pessoa."
Os olhos de Regina encheram-se de lágrimas, as quais ela tentava, inutilmente, conter. Cada nova palavra que perpassava os lábios da loira equivalia a uma nova pontada de dor que a atingia no peito. "Ele é apenas uma criança," ela disse, em meio a um soluço que lhe escapou. "Não entende a profundidade do problema. Ainda acredita que todos vão ter um final feliz... Mal sabe ele que meu final já chegou, e não foi nem um pouco feliz."
"Eu também acredito em você," disse Emma, em voz baixa, evitando encarar Regina nos olhos. Era a primeira vez que admitia em voz alta. "E esse não precisa ser o seu final."
"Você é louca," disse Regina, tristemente, o nó em sua garganta se apertando a cada segundo que se passava.
"Talvez," admitiu Emma. "Mas isso não muda o fato de que estou aqui, e não vou desistir de tentar ajudá-la, não importa o quanto tente me impedir."
As lágrimas escorreram livremente pelo rosto de Regina. Não era possível que houvessem alcançado aquele ponto; que, dentre todas as outras pessoas, Emma fosse ser aquela que lutaria por ela. Não era possível que, em tão pouco tempo, a relação das duas houvesse atingido aquele pico.
"Por quê?" perguntou Regina, encarando a loira intensamente.
Emma ofegou diante da cena; a dor contida nos olhos de Regina parecia querer dilacerar sua alma. A loira sentia a necessidade de abraçá-la, acariciar seus cabelos e sussurrar que tudo ficaria bem. Era possuída por um desejo de acalentá-la, de levar embora sua dor, e trazer-lhe felicidade...
"Não é óbvio?" perguntou Emma, sem jeito. Regina permaneceu em silêncio, perdida em hipóteses que tomavam conta de sua mente. "Henry," mentiu Emma, ainda sem coragem de admitir seus sentimentos.
Algo na expressão de Regina morreu, e a loira instantaneamente se arrependeu de não haver dito a verdade. Uma faísca de dor perpassou o rosto da morena, mas foi rapidamente mascarada por um sorriso forçado. Não, pensou Regina. Emma não estava lutando por ela. Estava apenas cumprindo uma obrigação. "Certo," disse a morena; sua voz, sem emoção alguma. "Henry."
Mais uma vez o silêncio se estendeu pelo ambiente. Enquanto os segundos se arrastavam, Emma tentava se convencer a falar, a simplesmente permitir que as palavras fluíssem naturalmente... Mas algo a impedia, algo trancafiava aquelas três palavras-chave dentro de seu peito.
"Então," disse Emma, após alguns segundos. "Como conseguiremos aquele cogumelo?"
Regina respirou fundo, voltando a se concentrar no problema. "Eu poderia... Poderia tentar encantar esta capa, de modo a protegê-la," disse Regina, apontando para a capa que ainda vestia. "Também poderia mudar sua aparência, assim, poderia caminhar até o Jardim. Mas Cora é poderosa, ela a encontraria num piscar de olhos e, caso isso aconteça, eu temo por você..."
"Cora," repetiu Emma, contemplando o nome. "É esse seu nome? De sua mãe?"
Regina assentiu. "Sim," suspirou, derrotada.
"Gina," disse Emma, carinhosamente; sua voz, transbordando as emoções contidas em seu olhar.
"Não me venha com 'Gina', Srta. Swan," disse a morena, friamente, sentindo um arrepio perpassar-lhe a coluna ao ouvir o apelido reverberar nos lábios deliciosos da loira.
"O que Branca lhe fez?" perguntou Emma, ignorando a frieza de Regina.
A dor pareceu comprimir o peito de Regina infinitamente, na medida em que as memórias saltaram, em disparate, em sua mente. "O que ela fez não pode ser desfeito, e isso é tudo que importa."
"Não, não é," disse Emma, sentindo seu coração se partir ao presenciar toda a dor estampada no rosto daquela quem amava. "Deixe-me ajudá-la, Regina."
"Não preciso de sua ajuda," rosnou Regina, engolindo as lágrimas que insistiam em acometer-lhe os olhos.
"Por Henry," suplicou a loira, encarando-a firmemente nos olhos marrom-chocolate.
Regina a ignorou. Tirou a capa que vestia e segurou-a em suas mãos. Fechou os olhos, tentando canalizar suas forças a fim de conjurar um pouco de magia. Nada aconteceu.
"Por favor," tentou Emma, outra vez.
O tom de voz de Emma desencadeou sensações em Regina as quais ela nem sonhava que podiam existir. Ignorando-a outra vez, a morena tentou, de novo, lançar um encantamento sobre a capa. "Não está funcionando," ela disse, entredentes, frustrada.
Emma perdeu a paciência; aproximou-se de Regina, cruzando a linha de seu espaço pessoal, mantendo seu rosto muito próximo do dela, e arrancou-lhe a capa das mãos, jogando-a no chão. "Foda-se a capa," disse, irritada.
"Srta. Swan," disse Regina, em tom de voz aveludado, o qual Emma já havia aprendido ser o mais perigoso de todos. "Se você dá valor à sua vida, sugiro que se afaste imediatamente."
Mas Emma não se afastou; apenas sorriu. "Realmente espera que eu acredite que me mataria?"
Regina apenas grunhiu em resposta, sua mente, aturdida demais para formar sequer um pensamento coerente.
"Isso mesmo," disse a loira, satisfeita. "Eu sei que não me mataria."
Regina bufou.
"Está tudo bem," Emma continuou. "Você não precisa me deixar ajudar logo agora. Mas saiba que não vou a lugar algum, e que não vou deixar de tentar," e, com isso, puxou o rosto de Regina para mais perto do seu, e postou seus lábios sobre os dela, delicadamente.
Mais lágrimas mancharam o rosto então ruborizado da prefeita. O sentimento de plenitude envolveu ambas as mulheres, quase que interligando suas almas. Regina envolveu Emma em seus braços, aprofundando o beijo, permitindo-se, por alguns segundos, intoxicar-se com a essência da loira.
Contudo, a realidade não tardou a atingir–lhe em cheio. Percebendo haver perdido o controle outra vez, Regina empurrou Emma não tão delicadamente e se afastou, com olhos arregalados, e o medo estampado em suas feições. "Não se atreva a fazer isso de novo, Srta. Swan," disse Regina, ofegante, mas, ainda assim, em seu tom assassino. "Ou eu vou destruí-la, nem que seja a última coisa que eu faça."
Fale com o autor