Lost In Paradise
11 Ever Out of Touch
Notas iniciais
N/A (2): Não, eu não estava drogada, nem bêbada, nem nada do tipo, quando escrevi esse capítulo. Ele está sim, muito viajado, mas é de Wonderland que estamos falando, c'mon. Adorei escrever desse jeito. Espero que gostem também, porque os próximos capítulos também serão um pouquinho viajados!
CAPÍTULO DEZ — SEMPRE FORA DE ALCANCE
"Dependesse de mim, você não haveria nem nascido."
Desde o momento em que as palavras perpassaram-lhe os lábios, Regina se arrependeu de havê-las pronunciado. O peso daquela frase despencou com muito mais intensidade sobre si do que propriamente sobre Emma, quem arqueara não mais que uma sobrancelha e dera uma sacudidela com os ombros, em resposta.
Fora decepcionante, Regina não poderia negar. No fundo, esperara que as palavras fossem, de algum modo, causar impacto maior na rival; que fossem magoá-la, destruí-la, bem como esta havia destruído sua maldição; ou que fosse, pelo menos, irritá-la um pouco, tirá-la do sério... Mas não... Nada obtivera, senão a indiferença. Isto despertou em Regina uma sensação desconfortável ainda desconhecida.
Suspirou. Havia algo em Emma Swan que a intrigava. Estivera desde o primeiro confronto. era quase como se houvesse algo além... Algo por trás daqueles magníficos olhos, que mais pareciam perfurar a alma de quem se aventurasse a encará-los por tempo demais. Era quase como se Emma Swan fosse muito mais que a "salvadora" que Henry retratava com tanta vivacidade, quase como se houvesse mais... Mais dessa história; história a qual não era de seu conhecimento, e isso a enlouquecia.
Regina conhecia todos os pontos e as vírgulas de todas as histórias de cada um em Storybrooke. Cada um deles havia lhe traído ou magoado de alguma forma, no passado, motivo pelo qual ela os levara para lá: para vingar-se, para roubar-lhes os tão estimados finais felizes. Se à ela lhe fora negado o seu, então, ninguém mais poderia tê-los.
Durante vinte e oito anos, tudo funcionara perfeitamente bem... Até Emma Swan aparecer e, com um simples beijo, trazer de volta todos os finais felizes... Todos, menos o dela. Mais uma vez, Regina se encontrava em posição inferior, em meio a seu povo. Seu jogo de xadrez chegara ao fim; suas peças ganhavam vida própria e libertavam-se de seu controle. Agora, todas se voltavam contra a Rainha. O Xeque-Mate estava por vir... E era tudo culpa de Emma.
Todas aquelas horas, nas quais ficara confinada naquele quarto, com Emma Swan, a fizeram perceber que, mesmo depois de tudo, mesmo sabendo quem Emma era de verdade e quais eram seus propósitos, ainda havia uma parte de si que se sentia atraída pela mulher. Era quase como se houvesse um campo magnético invisível que interligava as duas, puxando-as uma para mais perro da outra, exigindo que uma invadisse o espaço pessoal da outra. Era quase como se fosse um jeito do destino tirar sarro de sua cara: sentia-se atraída por aquela que destruíra sua vida. Sentia a necessidade de se aproximar, de beijar, de tocar aquela que estava ali para matá-la. E se Regina a beijasse? Traria Emma, de volta, seu final feliz? Provavelmente não... Emma era a luz em contraste à escuridão. A escuridão era Regina. Emma viera para iluminar aqueles que foram trancafiados no escuro, mas não para iluminar a própria escuridão.
Regina tinha plena certeza de que podia adivinhar como aquela história se acabaria. Se não conseguisse se livrar logo de Emma, se não conseguisse se afastar dela em breve, se não conseguisse conjurar um portal de volta a Storybrooke o mais rápido posível, acabaria se rendendo ao campo magnético que a impelia na direção de Emma; campo este que se provava cada vez mais forte, com o passar dos dias. Sua força aumentava proporcionalmente ao ódio de Regina. Se algum dia Regina tivesse a ousadia de beijar aqueles lábios, o destino riria escandalosamente de sua cara. Por tudo que sabia, talvez o beijo de Emma fosse significar sua queda. Talvez, contraditoriamente ao beijo do verdadeiro amor, o beijo entre a luz e a escuridão fosse, de fato, derrotar a escuridão, extingui-la de uma vez por todas...
* * * *
Quanto tempo se passara desde que Emma começara a seguir a trilha apontada por Regina, ela não poderia saber; tudo sobre o qual tinha consciência era a dor latejante em suas pernas, tamanha fora a distância percorrida. Emma estava começando a se perguntar se Regina a enganara e a enviara direto para alguma armadilha — o que era bem provável.
Bem quando a irritação começou a se fazer presente, Emma avistou um telhadinho de palha, ainda um pouco distante. Supôs ser o estábulo. O alívio se espalhou por seu peito, mas muito não durou; apenas alguns segundos depois, o coração de Emma se acelerou devido ao sobressalto causado pela súbita aparição de dois esquilos anormalmente grandes. No entanto, o que quase tirou Emma de seus sapatos foi quando um deles ergueu uma pata e falou, em alto e bom tom: "Saudações, forasteira!"
Demorou alguns segundos para que Emma conseguisse recuperar o fôlego. Quando, enfim, o fez, quase deu gargalhadas, tamanha fora sua estupidez. É claro que os animais falavam. Aquilo era Wonderland. Já estava na hora de se acostumar.
"O-oi..." gaguejou Emma, incerta.
"Que fazes tu por estas terras?" perguntou o outro esquilo; seu tom de voz sendo mais agudo que o do primeiro, Emma só pôde deduzir pertencer a uma fêmea, embora não houvesse como saber, ao certo.
"E-eu... É... Estou... Eu... Eu vim... Estou procurando pelo Jardim das Flores," disse Emma, finalmente.
O esquilo macho lançou um olhar de rabo-de-olho à fêmea. "O Jardim das Flores, hein? E que tipo de negócio poderia alguém como tu querer com as Flores?"
Pense rápido, Emma, foi o que cruzou sua mente.
"Eu... Bem... Isso é entre mim e as Flores," ela disse, finalmente, sentindo-se, outra vez, muito estúpida.
"Hmm, misteriosa, não acha?" disse o esquilo macho à fêmea, dando-lhe uma cotovelada sugestiva. "Que me diz, querida? Mostramos à jovem donzela o caminho?"
"Eu sei onde fica o Jardim das Flores!" protestou Emma, readquirindo seu tom infantil, mimado. De todo, não era verdade; Emma sabia apenas o que Regina lhe contara, e estava começando pensar que a morena a enganara.
"Tudo bem," disse o esquilo macho, dando de ombros. "Faz bom proveito da viagem. Apenas sugiro que não pegues cavalo algum: isto atrairia a atenção da Rainha e, pelo que andei ouvindo, ela não gosta de visitantes inusitados... Enfim... Venha, querida," disse o esquilo, puxando a fêmea pela pata.
Girando nos calcanhares, ambos os esquilos deram as costas a Emma. Dois segundos se passaram, enquanto esta decidia se devia, ou não, confiar nos esquilos.
"Esperem!" ela disse, enfim. "Mostrem-me o caminho."
"Hah! Pensei que não fosses perguntar," disse a fêmea, virando-se novamente em direção a Emma, com um sorriso travesso estampado no rosto, e esfregando uma mão na outra.
O esquilo macho apontou, então, para uma direção perpendicular ao estábulo, dizendo: "Por ali. O caminho é mais longo, porém, menos perigoso."
* * * *
Na torre mais alta do Castelo de Copas, um grande espelho em formato de coração refletia a imagem de dois esquilos correndo pela Trilha Encantada, seguidos, nos calcanhares, por uma loira maltrapilha.
"Ora, ora..." disse a Rainha, em seu famoso tom aveludado. "Disfarçando-se como animais, e conspirando com o inimigo!"
Os dedos da Rainha se estenderam em direção ao vidro.
"Eu já deveria saber que aquele imprestável me trairia, mais cedo ou mais tarde!" trovejou. "Devolver o coração a Humphrey foi a decisão mais estúpida que já tomei. Deveria matá-lo agora mesmo, por pura vingança! Mas, ai de mim!, que sentido tem, se aqui não morremos? Além do mais, melhor deixar Humphrey fazer o trabalho sujo e roubar toda a Magia conjurada por minha filha."
A Rainha se afastou do espelho, caminhando languidamente em direção à janela. Ao alcançá-la, debruçou-se em seu parapeito, observando o horizonte, pensativa.
"Creio ainda que terei de deixar os dois idiotas atravessarem o portal. Assim, evitarei conflitos; além do mais, Humphrey e aquele maldito Curinga já estão me dando nos nervos. Melhor me livrar destes imprestáveis!"
A Rainha suspirou e apoiou o queixo nas mãos.
"E quanto à loira?" perguntou-se. "Que farei com ela? Terei de matá-la, com certeza. Mas terei de matá-la fora daqui. Ou, mato-a aqui mesmo, aprisiono o Curinga e faço com que Humphrey a carregue consigo para onde quer que deseje ir... Isto resultará em sua morte instantânea! Excelente! Depois, quando estivermos só eu e minha filha, torturarei-a até que me ensine como conjurar um portal que me transporte ao lugar criado por ela. Lá, serei Rainha; tomarei seu lugar. Deixarei-a trancafiada aqui, bem como me deixou no passado! Ah, com certeza! Este é o plano perfeito!"
* * * *
Muito tempo se passara, desde que Emma saíra. Regina permanecera trancada no quarto, caminhando de um lado para o outro, perdida em pensamentos, dos quais só foi despertada pelo súbito uivo de um lobo, que anunciava a chegada da noite.
A noite, em Wonderland, era bastante peculiar. As estrelas reluziam em várias cores; literalmente dançavam pelo céu negro, agrupando-se de modo a formar desenhos e mais desenhos, que entretinham, até mesmo, a mente dos mais céticos. Regina lera tudo sobre Wonderland, num manual criado por Rumpelstiltskin, semanas após o aprisionamento de Cora. Sabia tudo sobre o show das estrelas; lera que o efeito por elas causado era o mesmo que aquele causado por alucinógenos: era hipnotizante. Além disso, havia boatos de que as imagens formadas pelas estrelas refletiam os desejos mais profundos daqueles que se atreviam a observá-las, levando-os ao delírio, fazendo com que tomassem medidas extremas a fim de alcançá-las; medidas estas que resultavam, constantemente, na morte de muitos tolos. Regina sabia que o mais prudente seria fechar as janelas e bloquear qualquer vislumbre daquele céu de armadilhas. Durante um segundo, foi isso mesmo que pretendeu fazer: estendeu a mão em direção à janela, porém, repentinamente, um pensamento lhe cruzou a mente. Ela sabia o efeito causado pelas estrelas; Emma, não. Emma estava lá fora, sozinha e desprotegida, e as estrelas já estavam começando a dançar. Sabe-se lá que demônios Emma iria ver; provavelmente veria o rosto de Henry estampado nas estrelas e escalaria alguma árvore para tentar tocá-lo... Emma seria completamente desviada de sua rota; caso algo acontecesse, caso a loira sofresse algum acidente, isso atrasaria demasiadamente seus planos de retorno a Storybrooke. Porém, não era bem isso que a preocupava, naquele momento.
Num rodopio, Regina dirigiu-se à cômoda branca, abrindo cada uma de suas gavetas, à procura de algum chapéu, ou até mesmo, de alguma sombrinha, para bloquear-lhe a visão das estrelas. O melhor que encontrou foi uma capa de pele de urso, grande o suficiente para cobrir-lhe o corpo todo. Vestiu-a sem precedentes, puxando o capuz de modo a proteger seu rosto, tanto das estrelas, quanto do reconhecimento, e saiu em direção à Trilha Encantada, correndo o mais rápido que podia, mantendo os olhos presos no chão.
No fundo, Regina temia o que as estrelas pudessem retratar.
* * * *
"Faça o que fizer," disse o esquilo fêmea, erguendo o rosto ligeiramente para encarar Emma. "Apenas não olhe para..."
Para onde não deveria olhar, Emma não ficou sabendo; a cabeça do esquilo se inclinou ligeiramente para o lado, seus olhinhos começaram a brilhar e sua fala se perdeu no ar. Sua expressão — se é que esquilos possuem algum tipo de expressão facial — era vaga.
Curiosa, Emma seguiu o olhar do esquilo, e o que viu ali, ao contemplar o céu, literalmente tirou-lhe o fôlego. Este era negro, completamente negro; parecia ser feito de pó, tão estranha se via sua textura. Inúmeros pontinhos de diferentes cores reluziam fortemente, correndo de um lado para o outro, quase como se dançassem ao som de alguma sinfonia angelical demais para serem reconhecidas por ouvidos de meros mortais.
Durante quanto tempo ela ficou ali, hipnotizada, observando os caminhos percorridos por aquilo que julgou ser estrelas, Emma não sabia dizer. Tão concentrada ela estava, em tentar depreender a imagem que os pontinhos tentavam formar, que mal e mal entreouviu o esquilo macho xingar atrás de si.
A sensação provocada pela dança das estrelas era completamente tranqüilizante; inebriante; quase que... Purificadora. Era quase como se o brilho daquelas estrelas lavassem-lhe a alma, deixando-a leve; tão leve, que a loira sentia como se pudesse fazer qualquer coisa.
Quando os últimos pontos se alinharam, Emma reconheceu imediatamente a imagem ali estampada. A silhueta de Regina Mills, a Rainha Má, caminhava naquele modo imponente, em sua direção; os quadris balançando-se levemente, de modo muito mais hipnotizante que a própria dança das estrelas. Emma, impulsivamente, estendeu a mão em direção ao céu: precisava tocar aquela figura! Precisava senti-la em seus dedos; precisava alcançá-la antes que fosse embora!
Emma ficou na ponta dos pés, esticando o braço o máximo que podia; entretanto, ainda assim, a imagem permanecia fora de seu alcance... Sempre dentro de seu campo de visão, porém, sempre fora de seu alcance.
— "So I reach for your love, like the moon and the stars, ever in my sight, ever out of touch." —
Emma fechou os olhos e inalou profundamente; o ar ao seu redor tinha um estranho cheiro de torta de cereja; não, não: creme de ovos; leite e açúcar; abacaxi; peru assado; caramelos; torradas quentes... O cheiro era tão inebriante quanto a própria imagem que agora dançava na mente de Emma, mesmo enquanto esta mantinha os olhos fechados.
Repentinamente, Emma sentiu um corpo sólido esbarrar contra o seu com tamanha força, que ambas as pessoas caíram ao chão. Emma não se machucara nem um pouco: a grama que a adornava era macia como um travesseiro. Ainda de olhos fechados, ela envolveu o corpo que se chocara contra o seu, enterrando o rosto em seu pescoço e sentindo, então, cheiro de torradas quentes, caramelos, peru assado, abacaxi, leite e açúcar, creme de ovos, torta de cereja... Não, não, estava tudo errado! Emma inalou mais uma vez o perfume daquele corpo macio... Tinha um cheiro de... Maçã.
(...)
Fale com o autor