Lost In Paradise

3 Jefferson's Hat


CAPÍTULO DOIS — O CHAPÉU DE JEFFERSON

Enquanto sentavam-se à mesa, em silêncio, Regina encarava Emma, explorando-a por completo. Incontáveis perguntas fervilhavam em sua mente; perguntas cujas respostas ela provavelmente nunca obteria, haja vista que seu orgulho não permitira inquirir nada da loira. Mas a pergunta mais importante e que mais a atormentava naquele momento era: por que Emma Swan decidira ajudar Regina, de repente? Não fora ela quem tanto lutara, desde o momento em que chegara a Storybrooke, para despedaçar tudo aquilo que Regina dera seu sangue para conseguir?

E Henry. Teria mesmo pedido à Srta. Swan para protegê-la? Regina não conseguia dar credibilidade ao fato; seu filho, quem sempre a chamava de malvada, não iria sair pedindo para que a Cavaleira Branca protegesse a Rainha Má... Iria?

Certo, aquela pergunta precisava ser feita. Seus olhos castanho-chocolate se estreitaram perigosamente ao contemplarem os de Emma, quase como se tentassem detectar alguma mentira naquelas íris esmeralda. "Henry pediu mesmo que me protegesse?"

A resposta veio imediatamente e com tanta certeza que Regina não pôde duvidar por mais um segundo sequer. "Sim," dissera Emma. E sorrira.

Regina sabia que, mais uma vez, seu rosto espelhava suas emoções. Céus!, fazia tanto tempo que não se sentia vulnerável assim! Antes que pudesse perceber, os cantos de seus lábios se elevaram, contorcendo sua boca em um pequeno sorriso.

Ambas as mulheres sustentaram o olhar por mais alguns segundos, até Regina finalmente quebrar o contato e puxar o chapéu de dentro de sua caixa de madeira.

A expressão de Emma logo se alterou, sendo, então, manchada pelo reconhecimento. "O chapéu! Você o teve durante todo esse tempo," sua voz transbordava acusação.

"Que quer dizer?" perguntou Regina, cautelosa.

"Este é o chapéu de Jefferson," disse a loira, com um olhar vago; sua mente perambulava por algum ponto no passado.

Merda, foi tudo que Regina conseguiu pensar. Então, eles se conheceram. Teria de lidar com isso mais tarde. Naquele momento, ela precisava da ajuda de Emma — e odiava o fato.

"Quem é Jefferson?" Regina desenrolou.

O queixo de Emma caiu e seus olhos se arregalaram quando a compreensão lhe atingiu. "O Chapeleiro Louco! Ele realmente é o Chapeleiro!"

Regina teve de morder a língua para impedir que um comentário sarcástico escapasse de seus lábios. No momento seguinte, as portas se abriram e Mary Margaret e David entraram. Que era aquilo que carregavam? Vassouras? Sério?, pensou Regina.

"Tochas," exclamou David, confiante, em resposta ao olhar questionador de Emma e à expressão sardônica de Regina. "Para quando aquela coisa voltar."

"Mas, antes que façamos isso, precisamos conversar," disse Mary Margaret, olhando para Regina.

Não fosse o fato de que a mulher a encarava diretamente, Regina teria pensado que ela se dirigia a qualquer outra pessoa. Revirou os olhos. "Não tenho nada a discutir com você," Regina cuspiu a última palavra com escárnio. Não podia evitar odiar Branca de Neve. Toda vez que era forçada a mirar aquela face, era lembrada de como fora traída e do quanto isso lhe custara.

"Não, acho que você tem. É de seu interesse."

Regina levantou da cadeira e caminhou perigosamente em direção a Branca. Emma se moveu, desconfortável, em sua cadeira, e David parecia estar mais do que pronto para saltar no pescoço de Regina, caso se provasse necessário. "O que você poderia ter para me dizer, querida? Que sente muito? Mais uma vez, não aceito suas desculpas."

"Não vamos discutir o passado, Regina," disse Mary Margaret, decididamente. Embora tentasse esconder sua dor, esta estava refletida em seu olhar penetrante. "Na verdade, quero falar sobre o futuro."

Uma risada gélida perpassou os lábios de Regina. "O futuro? Sério? Mal sabemos se vamos sobreviver a noite, e você quer falar sobre o futuro?"

"Vamos fazer um acordo," propôs Branca, ignorando o tom de Regina.

"Não vou fazer acordo algum com você," sibilou Regina, aproximando-se, predatória, de Mary Margaret. Emma se levantou, com as mãos esticadas no ar, quase como se não tivesse certeza se deveria, ou não, interferir.

"Nós vamos ajudá-la a se livrar do Wraith se..." disse Branca, esticando a última palavra.

"Tem uma condição," disse Regina, em tom aveludado, agora, parecendo divertir-se com a situação. "Pergunto-me de onde tirou essa idéia..."

"...Se nos der sua palavra de que ficará longe de mim e de minha família... De que não nos machucará mais, de maneira alguma, em qualquer mundo."

Regina colocou uma mão em sua cintura. "Não sei se você percebeu, queria, mas já não sou mais a que tem poder por aqui."

"Gold," disse Emma, em tom de voz baixo.

Regina assentiu, sem desviar o olhar de Mary Margaret. No momento seguinte, as luzes piscaram, se apagaram, e um vento gélido invadiu a sala.

"O Wraith! Está aqui!" gritou David, correndo em direção à porta e acendendo fogo em sua vassoura.

"Faça sua escolha, Regina!" gritou Mary Margaret, lutando contra as lágrimas que ameaçavam escorrer por seu rosto. Bem no fundo de seu coração, a menina esperava uma reconciliação com a madrasta a quem tanto amara no passado — antes, é claro, de descobrir do que ela era capaz.

Os olhos de Regina se arregalaram e, por um momento, ela ficou imóvel, sem reação. Ela sentiu, mais do que ouviu, Emma se mover atrás dela. Uma mão segurou seu braço, e Emma assentiu para ela, tranqüilizantemente. Aquele pequeno ato de companhia foi o suficiente para quebrar a continência de Regina.

"Você tem minha palavra," sibilou, entredentes, e muito a contragosto.

Isto pareceu ter sido suficiente para Mary Margaret, visto que esta correu, então, em direção a onde David se encontrava, apontando sua vassoura ameaçadoramente à porta, quase como se pensasse carregar uma espada.

Regina se ajoelhou no chão e começou a girar o chapéu, tentando fazer com que este funcionasse. Um giro, dois giros... Nada aconteceu.

"Essa seria a hora," ela ouviu David gritar, estrangulado. Regina não deslocou sua atenção do objeto em suas mãos.

"Qual é o problema?" ela ouviu Emma perguntar.

"A Magia," disse Regina, frustrada. "É diferente aqui."

Emma não sabia o que a possuíra para se aproximar da mulher outra vez, mas o fez. Sua mão agarrou o braço da morena, apertando-o de modo tranqüilizante, quase como se quisesse dar-lhe a entender que não estava sozinha, que Emma acreditava que ela podia fazer aquilo... E, subitamente, ela fez.

Quando a mão de Emma se fechou sobre seu braço, Regina sentiu uma corrente de pura magia correr em suas veias; sentiu o poder crescendo dentro de si novamente. A morena girou o chapéu uma última vez... E funcionou! A sala foi subitamente invadida por uma fumaça roxa, em forma de furacão. Regina ainda se encontrava atônita demais para conseguir se mexer ou falar; a ciência de que o toque de Emma desencadeara mágica dentro dela era aterrorizador. Que demônios?

O Wraith ainda avançava em direção a Regina. Emma gritou seu nome e se jogou em direção à morena que, com a colisão, foi ao chão. A criatura encapuzada foi sugada pelo portal, porém, não antes de enlaçar suas garras no tornozelo de Emma. Tudo, então, aconteceu de modo muito rápido: Emma gritou e escorregou; o Wraith a arrastou, ao ser sugado pelo portal; e Regina, num impulso, agarrou a mão de Emma bem a tempo, antes que ela sumisse completamente de vista.

Mary Margaret gritou: "Não! Não vou perdê-la outra vez!" E atirou-se em direção ao chapéu, mas, pobre Mary!, a conexão com o outro mundo já se fechara e ela acabou por cair de cara no chão. Logo em seguida, a realidade despencou sobre ela. Emma se fora. Estava presa em algum lugar horrendo. Com o Wraith. E Regina.