Lost In Paradise
18 Haunted
Notas iniciais
N/A (2): Músicas utilizadas na história:
1) http://www.youtube.com/watch?v=_mauH_uQZRY
2) http://www.youtube.com/watch?v=DNjalZx16Lw
N/A (3): Capítulo sem interação direta entre Emma & Regina, maaaaassss, para compensar, tem uma surpresinha agradável no final! Espero que gostem. ;-)
N/A (4): Muuuuito obrigada a todos, pelos comentários. ♥
CAPÍTULO DEZESSETE — ASSOMBRADA
O espelho mágico refletia uma imagem meio borrada de Regina e da outra garota. Que era aquilo que faziam? Beijavam-se?, perguntou-se Cora, enojada. Já deveria saber.
Cora observou quando o olhar de Regina se perdeu pelo céu. Seguindo-o, pôde ver o que tanto entretinha a morena, e um suspiro de derrota perpassou-lhe os lábios ao identificar os traços.
Que fazia agora? Levitava?, perguntou-se, enquanto observava Regina flutuar no ar, adornada pela fumaça roxa. Um sorriso maquiavélico se esboçou em seu rosto, e um brilho maníaco acometeu seu olhar. A Rainha levantou de seu trono e aproximou-se do espelho, sem piscar uma vez sequer, para não arriscar perder Regina de vista.
Mudança de planos, pensou. Não permitiria que Regina morresse... Ainda. Teria de se livrar do Sugador de Almas mais uma vez, pensou, bufando.
Quando a cabeça de Regina atravessou o limite da bolha protetora, Cora viu o Wraith se aproximar e se preparar para sugar sua alma. Quando o corpo todo de Regina pairou acima do feitiço, Cora estalou os dedos, fazendo com que uma fumaça negra muito densa envolvesse ambas as formas no céu.
No momento seguinte, transportou o Wraith de volta à cela na qual estivera trancado previamente, e trouxe Regina à sala de jantar, onde se encontrava.
Regina estava desacordada. Cora aproveitou a deixa para aproximar-se da filha e postar suas duas mãos sobre as têmporas da menina, lançando, então, o feitiço do oblívio, responsável por trazê-la de volta à sanidade.
Caminhou, então, em direção à cadeira mais distante da mesa de jantar. Seria só uma questão de tempo até que Regina despertasse.
* * * *
Regina abriu os olhos para um majestoso teto abobadado. Parte de sua mente ainda se encontrava perdida por entre imagens irreais, ao passo que a outra parte encontrava-se alerta e captava todos os detalhes daquele ambiente. Conhecia aquele lugar. Já estivera ali.
Levantou-se com cuidado, buscando apoio numa colossal cadeira de madeira que encontrava-se próxima a ela. Sentia-se ainda muito fraca — devido ao ataque do Wraith, supôs. Onde estava a criatura, afinal?, perguntou-se. Erguendo os olhos, estes encontraram, sentada na cadeira mais distante da régia mesa de jantar, a imagem daquela a quem tanto temia e amava.
Funcionara, pensou Regina. Missão cumprida. Cora a transportara para o Castelo de Copas. Emma tinha o caminho livre para conseguir o Cogumelo Azul. Mas, oh, merda, pensou Regina, quando se lembrou de que não havia combinado nada específico com a Srta. Swan. Xingou–se internamente.
"Sente-se," disse Cora, despertando Regina de seu transe, e gesticulando para a cadeira do outro extremo da mesa.
Regina percebeu que suas pernas tremiam. Sentou-se, então, na cadeira, respirando fundo e sustentando o olhar penetrante da mãe.
Com um rápido gesto de suas mãos, Cora fez com que um farto banquete fosse disposto à mesa.
"Alimente–se," ordenou.
Empurrando qualquer pensamento para o canto de sua mente, Regina encheu rapidamente seu prato com especiarias as quais há muito não tinha o prazer de desfrutar. Uma profunda sensação de nostalgia foi despertada bem no fundo de seu peito. Sentiu, de repente, como se estivesse retrocedendo no tempo.
Regina comeu em silêncio; Cora também não fez esforço algum para se engajar em qualquer tipo de conversa com a filha. Mesmo após terminado o banquete, as pernas de Regina continuavam a tremer. Estaria com medo?, perguntou-se, exasperada.
— "Long lost words whisper slowly to me." —
"Acredito que tenha algo a me explicar," disse Cora, levantando-se da cadeira imponentemente e encarando a filha de cima. Esta permaneceu em silêncio por alguns momentos, mantendo olhos fixos em seu prato vazio. Lembranças da adolescente submissa de seu passado pulularam sua mente.
— "Still can't find what keeps me here." —
Não. Não se renderia. Não dessa vez, pensou, e levantou-se, apoiando uma mão na mesa e a outra na cadeira à sua frente.
— "When all this time I've been so hollow inside." —
"Não," disse Regina, e sua voz tremeu um pouco. "Acho que quem tem algo a explicar é você."
"Ah, é?" perguntou Cora, suavemente, erguendo as sobrancelhas e encarando Regina de modo interessado. "E o que teria eu de explicar?"
Regina sentia sua pulsação se acelerar mais e mais com o passar dos segundos. Lutar contra seu passado provava-se muito mais difícil do que previra. "Por que tentou assassinar a outra mãe de meu filho?" demandou.
— "I know you're still there." —
"E quem seria a outra mãe de seu filho?" perguntou Cora, cruzando os braços e franzindo a testa.
Regina revirou os olhos lacrimosos. "Não se faça de desentendida," disse, alteando a voz, o que fez com que a mesma tremesse ainda mais. "Sei que esteve me observando desde o momento em que pisei aqui."
— "Watching me, wanting me." —
"O que poderia ter sido facilmente evitado, se minha filha compartilhasse seus pensamentos comigo," disse Cora.
Um misto de dor e arrependimento tomou conta do peito de Regina. Podia sentir seu passado rastejando até ela, envolvendo-a com suas inúmeras mãos asfixiantes, tentando arrastá-la de volta à sua posição de submissão.
— "I can feel you pull me down." —
Não. Não mais.
"Por que eu lhe contaria alguma coisa quando sei perfeitamente bem que você usaria a informação contra mim?" grunhiu Regina, sentindo sua garganta queimar devido ao nó que se apoderava dela.
Cora caminhou em direção a Regina; esta se encolheu involuntariamente, dando um ou dois passos para trás.
— "Fearing you, loving you." —
Uma risada incrédula escapou dos lábios de Cora. "Que é isso, Regina?" perguntou, como quem repreende uma criança travessa. "Está com medo de mim?"
Não, disse Regina a si mesma. Não estava com medo. As circunstâncias haviam mudado, lembrou-se. Não devia mais obediência alguma a Cora. Podia facilmente se impor a ela. Entretanto, havia algo dentro de si que a impedia de seguir em frente. Era uma sensação estranha, tão intensa que quase a asfixiava.
— "I won't let you pull me down." —
Com um sorriso maquiavélico e um brilho quase que esquizofrênico em seu olhar, Cora esticou uma mão e começou a traçar círculos no ar. Instantaneamente, uma fumaça negra muito densa surgiu e foi, gradativamente, aumentando sua dimensão.
Regina arregalou os olhos quando a risada de Cora preencheu o ambiente. "Corra, Regina," disse Cora, em seu tom aveludado. "Pelos velhos tempos, corra."
Maldita, pensou Regina, sem saber se odiava mais a si mesma ou à mãe. Dando as costas para esta última, desatou a correr pelo amplo salão de piso quadriculado.
Os passos lúgubres de Cora ecoavam em seus ouvidos quase como se fizessem parte de uma trilha sonora de algum filme de terror. Embora ainda não houvesse recuperado completamente suas forças, Regina se obrigava a correr, agora, pelos corredores estreitos, cheios de quadros majestosos, do Castelo.
Sua respiração tornou-se ofegante após alguns minutos de corrida. Não podia parar, pensava repetidamente. Precisava provar a Cora—não, precisava provar a si mesma que, dessa vez, era diferente. Dessa vez, Cora não teria controle sobre ela. Dessa vez, ela não seria a menina submissa; não se renderia à opressão, ao abuso da mãe. Precisava provar a si própria haver evoluído.
Atravessou uma, duas, três portas de madeira pesadas pelo caminho, e continuou a correr. Possuísse ela controle sobre seus poderes, não estaria correndo; estaria encarando Cora de frente e medindo forças com ela. Mas Rumpelstiltskin tinha de ser um tirano e complicar-lhe as coisas.
Regina arriscou uma rápida olhada para trás e respirou aliviada ao perceber que Cora estava fora de vista. Olhando rapidamente ao redor, Regina avançou até a porta mais distante do corredor. Puxou a maçaneta; com um rangido, a porta se abriu.
Deparou-se com um amplo quarto, também de teto abobadado e de paredes adornadas por obras de arte. O chão era igualmente quadriculado — Regina já começava a se irritar com tanto quadriculado; fazia-a sentir-se como um peão num grande tabuleiro de xadrez. Um frio latente se irradiou por todo seu corpo, a começar por seu estômago, quando ela percebeu a ironia despencar sobre si: era exatamente isso que ela era — uma peça de xadrez. Caíra no jogo da Rainha e, pelo que percebia, estava longe de conseguir o tão esperado Xeque-Mate.
Passos ecoaram no corredor e a pulsação de Regina se acelerou ainda mais. Olhando ao redor, percebeu estar diante de várias armaduras, dispostas pelo quarto em posições estratégicas. Respirando fundo, correu, na ponta dos pés, até a maior delas e escondeu-se por trás da mesma.
"Odeio ter de requerer ao clichê," ela ouviu a voz melodiosa de Cora; tornava-se mais e mais alta à medida que a mulher se aproximava do cômodo. "Mas você sabe que pode correr, mas não pode se esconder, não sabe, querida? Eu vou encontrá-la."
— "Hunting you, I can smell you alive." —
Regina entreouviu a porta se abrir. Suas pernas tornaram a tremer e sua respiração tornou-se ainda mais ofegante. Tampou a boca com as mãos e fechou os olhos com força. Sua pulsação frenética ecoava em seus ouvidos, lembrando-a constantemente do perigo iminente.
"Eu sempre vou encontrá-la," ela ouviu a voz debochada de Cora, agora, perigosamente próxima. "Não era esse o discurso daquele principezinho de merda?"
Cora deixou escapar uma risada de desprezo. Inspirou, então, profundamente o ar a seu redor, a fim de tentar identificar a essência de Regina. Um sorriso se estampou em seus lábios quando seus olhos se fixaram na maior armadura, que pairava torna no canto mais escuro do quarto.
Cora agitou sua mão no ar, fazendo com que uma bola de fumaça negra se formasse. Aproximou-se mais dois passos da armadura e sorriu, ao constatar que o coração de Regina — o qual ela sempre carregava consigo, escondido sob sua capa — batia descompassado.
— "Your heart pounding in my head." —
Sem mais delongas, Cora atirou a bola negra contra a armadura, que rangeu de modo agourento e despencou no chão com estrépito, revelando a forma trêmula e encolhida de Regina. Dando, então, uma risada, Cora estalou os dedos e fez co mque a menina fosse completamente envolvida em fumaça negra.
Quando esta se dissipou, Regina instantaneamente olhou para baixo, a fim de identificar os danos por ela causados. Surpreendeu-se ao perceber que esta fora apenas responsável por vesti-la em suas velhas roupas de Rainha Má: um corset negro esmagava-lhe as costelas, acentuando suas curvas já bem definidas, e deste pendia uma comprida saia, majestosa em seu tecido, igualmente preta. Levando a mão aos cabelos, Regina percebeu que estes encontravam-se compridos e cacheados outra vez, presos em um de seus penteados favoritos. No topo da cabeça, descansava uma suntuosa cartola de couro.
— "Watching me, wanting me." —
Cora observou enquanto a expressão de Regina ia do medo ao reconhecimento; e, então, deste à raiva.
"Não!" grunhiu Regina, sentindo a raiva fervilhar em seu estômago. "Não vou permitir que me trate como sua marionete outra vez."
— "I won't let you pull me down." —
Cora apenas riu em deboche. "Ah, é mesmo? E como pretende me deter?"
Regina engoliu em seco; sua garganta ainda queimava. Permaneceu em silêncio por alguns segundos, até que finalmente articulou: "Que quer de mim, Cora?"
"Ora, não é óbvio?" perguntou Cora casualmente, sorrindo de modo superior. "Quero minha filha de volta."
— "Saving me, raping me, watching me." —
Com isso, a testa de Regina se enrugou e ela teve de se apoiar na parede a fim de manter-se de pé. Não esperava por aquilo.
"Sinto muito, mamãe," disse Regina, lentamente; a dor tingia-lhe a voz de modo intenso. "Mas você me perdeu há muito tempo."
"Não minta para si mesma, querida," disse Cora aveludadamente, aproximando-se da menina. "Sou sua mãe, estamos ligadas pelo destino. Você sempre será minha, não importa para onde tente fugir."
Mais uma vez, aquela sensação de pânico intenso, que fervilhava no estômago de Regina quando quer que Cora lhe afirmasse estar condenada a passar o resto de sua vida com ela, fez-se presente.
— "I can feel you pull me down." —
"Não," sibilou Regina, seus lábios contorcendo-se em desgosto. "Não permitirei que faça isso comigo de novo," e, possuída pela raiva, estendeu as mãos no ar, canalizando todas suas forças a fim de tentar evocar alguma fagulha de magia. Nada aconteceu.
— "I won't let you pull me down." —
Cora suspirou e encarou Regina com uma expressão semelhante a pena. "Sabe, tudo poderia ter sido diferente, Regina," disse. "Se tivesse me escutado, hoje não estaria sem poderes."
"Prefiro estar sem poderes do que seguir seus passos," retrucou Regina, fechando ambas as mãos em punhos e encarando Cora através de olhos estreitados.
"Hm, verdade?" perguntou Cora, casualmente, envolvendo a filha com um braço e guiando-a em direção à porta. "Pois parece-me que tudo que você fez, nesses vinte e oito anos, foi seguir meus passos."
Regina congelou em seu lugar; a dor a atingira em cheio no peito. Lágrimas turvaram-lhe a visão, e ela se desvencilhou do abraço de Cora.
"Isso tudo é culpa sua!" gritou Regina, entredentes, permitindo que as lágrimas escorressem por seu rosto e que soluços tomassem conta de seu corpo.
"MInha?" perguntou Cora, incrédula. "Parece-me que você cavou sua própria cova, Regina."
"Não se atreva—" começou Regina.
"Pense comigo," interrompeu Cora. "Imagine isso," disse, em tom contemplativo. "É o dia de seu casamento; você está maravilhosa. Eu entro em seu quarto e a encontro desamparada. Ao invés de me jogar contra o espelho, você aceita meu reconforto e casa-se com o Rei Leopoldo muito mais tranqüila. No dia seguinte, nós duas estamos morando em seu castelo. Branca de Neve está fascinada por você, você é a mãe que ela sempre quis ter. Com o tempo e com minha ajuda, você percebe que esta é a vida que sempre quis—"
"Jamais seria," sibilou Regina.
"—Ser uma Rainha... Então, você esquece Daniel e aprende a amar o Rei e Branca de Neve. Você a perdoa por um crime que ela não cometeu."
"Foi você quem cometeu," grunhiu, entre soluços. Cada nova palavra vinda de Cora dilacerava-lhe mais e mais a alma.
"Então, o Rei falece e o reino fica sob seu poder. Você aumenta os impostos e, de repente, está rica, nadando em dinheiro! Só então, você ganha o direito de escolher seu próximo marido; mas, então, já teria entendido a necessidade de ser alguém de seu nível. Então, você escolhe quem quer que seja e se casa novamente. Este seria seu final feliz, Regina. Sem maldições do sono, sem a Maldição Negra, sem acordos profanos com Rumpelstiltskin, sem o tormento da escuridão e do luto sobre sua alma. Era tão simples! Tudo que precisava ter feito era ter aceitado meu reconforto; ao invés disso, você me trancafiou em Wonderland. Sem mim, você só encontrou miséria em seu caminho."
— "Sparkling grey, they're my own veins. Anymore than a whisper, any sudden movement of my heart." —
"Oh, mamãe," disse Regina, entre soluços. "Você crê ser tão simples... E talvez seja... Para você... Mas, para mim... Foi a coisa mais difícil que já tive de fazer. Pensa que foi fácil para mim virar-me contra você e trancafiá-la neste lugar horrendo? Você não me deu outra escolha. Eu nunca poderia amar o Rei Leopoldo, muito menos Branca de Neve, nem mesmo se minha vida dependesse disso — oh, espere, que engraçado... Dependia. Eles não eram minha família, e nunca, nunca seriam, não importa quanto reconforto você insistisse em me dar. Daniel era minha família, e você me privou disso."
"Já chega," disse Cora, alteando a voz de modo imponente. "Não vou mais ouvir falar nesse cavalariço maldito. Eu fiz o que tinha de ser feito. Não podia permitir que fugisse com alguém tão inferior. Céus, Regina! Será que você nunca parou para pensar na desgraça que suas ações teriam trazido à nossa família? Você nos teria destruído com sua teimosia! Anos e anos de uma reputação bem construída, e você a teria jogado fora num piscar de olhos por causa de um cavalariço."
"Eu o amava," disse Regina; imagens ainda muito vívidas da noite do assassinado de Daniel pularam em sua mente.
I loved him.
Enough.
— "And I know, I know, I'll have to watch them pass away. Just get through this day." —
"Você é minha filha," continuou Cora, como se Regina nem houvesse falado. "Não podia permitir que arruinasse a honra de uma família tão importante como a nossa!"
"Não," disse Regina, amargurada. "Mas podia permitir que eu me arruinasse pela honra da família..."
"Fiz o que era melhor para você," disse Cora, aumentando o tom de voz.
"Não, mamãe," disse Regina, com a voz embargada, decepção evidente em seu tom. "Você fez o que era melhor para você. Você não estava pensando em mim quando arrancou o coração de Daniel—"
"Outra vez, o maldito cavalariço!" trovejou Cora, em frustração.
"—e o esmagou diante de meus olhos! Você não podia estar pensando em mim quando fez isso!"
— "Give up your way, you could be anything." —
"Fiz o que era melhor para seu futuro e não vou me desculpar por isso," retrucou Cora, firme em seu discurso.
"Você me arruinou," acusou Regina. "Estou quebrada, e não há conserto, e é tudo culpa sua. Nunca mais poderei amar, e isso também é culpa sua."
"Por favor—" protestou Cora, revirando os olhos.
"Eu tenho pavor de me permitir sentir qualquer coisa," confessou Regina; lágrimas ainda escorriam livremente por seu rosto. "Pavor. Sabe por quê? Porque toda vez que chego perto de sentir algo por alguém—"
"Por aquela loira, você quer dizer," murmurou Cora, em decepção.
"—eu vejo o rosto de Daniel, quando você enfiou a mão em seu peito."
"Daniel está morto, Regina," disse Cora, friamente. "Já passou da hora de você superar isso."
— "Give up my way and lose myself? Not today. There's too much guilt to pay." —
Regina ofegou, indignada. "Daniel está morto porque você o matou!" gritou. "Você o matou em sangue frio, diante de meus próprios olhos, e, por isso, eu nunca vou perdoá-la."
"Por que tudo isso de repente?" perguntou Cora, franzindo a testa em confusão. "Você nunca foi assim, Regina!"
"Eu era o que você havia feito de mim," disse. "Mas não mais. Somente agora estou conseguindo me libertar dessa personalidade horrenda que foi forçada a mim. Eu ainda não sei quem sou," admitiu. "Mas eu vou descobrir, nem que seja a última coisa que eu faça."
"Isso tudo é por causa daquela loira?" perguntou Cora, incrédula, em tom de desprezo. "Você não a ama de verdade, Regina. Você só pensa que sim, porque lhe é conveniente. O fato de que você não se permitiu curar da perda de Daniel—"
"ASSASSINATO!" urrou Regina. "Foi assassinato!"
"—deixou um grande vazio em seu peito, que você pensa que poderá ser preenchido pela idéia de uma família perfeita. Pensa que não sei o que você viu, estampado nas estrelas?"
A expressão de Regina tornou-se lívida e seus olhos se arregalaram em choque.
"Pois é, querida," disse Cora. "Eu sei de tudo. Sei o que você viu nas estrelas e também sei que, inconscientemente, você pensa que, envolvendo-se com aquela loira, poderá ter seu filho de volta. Você acha que esta é a única maneira de tê-lo de volta, mas está errada. Eu posso ajudá-la com isso."
"Eu não quero sua ajuda," sibilou Regina.
"Vejamos," disse Cora, outra vez ignorando Regina. "Já pensou em deixá-la para trás?"
Demorou alguns segundos até que Regina compreendesse o que Cora estava insinuando.
"Se quer saber, sim," disse Regina.
"Então, por favor, faça isso!" exclamou Cora. "O amor é uma fraqueza, Regina. Deixe-a para trás, e você terá seu filho de volta, só para você."
"Não posso deixá-la para trás!" exclamou, indignada. "Henry a ama, mãe. Ele a ama, e sofreria terrivelmente sua perda."
"E você estaria lá para ajudá-lo a superar isso."
De repente, tudo se alinhou e, de repente, passou a fazer sentido para Regina. "Quando é que você vai entender?" gritou Regina. "Eu não sou você! Eu não quero ser você! Henry acredita em mim! Ele acredita que eu possa mudar! Não quero decepcioná-lo!"
"Mas é isso que vai acabar acontecendo, de um jeito ou de outro, querida," disse Cora, simplesmente. "Pessoas não mudam. Você não pode mudar. Você é o que é, e não há nada a ser feito."
Regina sacudiu a cabeça veementemente. Não acreditaria, disse a si mesma. Não se permitiria acreditar nas mentiras de Cora outra vez. "Eu sou o que você fez de mim."
"E por muito tempo eu pensei haver feito um bom trabalho," disse Cora. "Mas agora, vejo que não."
— "Sickened in the sun, you dare tell me you love me." —
"De fato, não o fez," retrucou Regina, encarando a mãe com desgosto. "Eu merecia o melhor de você; ao invés disso, tudo o que tive foi o pior."
O barulho da agressão ecoou pelo ambiente; a mão de Cora atingira o rosto de Regina com tanta força, que a derrubara no chão.
— "But you held me down and screamed you wanted me to die." —
Regina arfou e postou uma mão sobre o rosto maculado. Mais lágrimas escorreram por suas bochechas. Quando tornou a levantar o rosto para encarar a mãe, este encontrava-se contorcido em linhas de puro ódio; seus olhos pareciam soltar faíscas na direção de Cora. "Eu odeio você," ela grunhiu. "Eu odeio você! Não consegue ver o que fez comigo? Você me ensinou a odiar. Você me quebrou!"
"Eu ia consertá-la depois," disse Cora, na defensiva.
— "Honey, you know, you know I'd never hurt you that way." —
Regina se levantou e se posicionou em frente à mãe, encarando-a nos olhos, exasperada. "Não sou simplesmente um objeto que você pode quebrar e depois consertar, quando lhe convém," protestou, indignada. "Não sou algo com o qual você pode brincar! Eu sou—costumava ser um ser humano... Agora, nada mais sou que a Rainha Má," disse, tristemente.
— "You're just so pretty in your pain." —
"Este caminho, foi você quem escolheu! Esta culpa, eu não vou carregar!" grunhiu Cora.
"Era o único caminho que me restava, depois de tudo que você me tirou! Você me privou de tudo!"
"Não, Regina," disse Cora, sacudindo a cabeça. "Eu fiz o que tinha de fazer. Se você não tivesse me enviado por aquele portal—"
"Ah, por favor!" explodiu Regina. "Espera realmente que eu vá me desculpar por ter me libertado de você, depois de tudo que você me fez?"
"Tudo o que eu lhe fiz?" perguntou Cora, esganiçada, a incredulidade evidente nas linhas de seu rosto. "E o que você nos fez? Você deveria ter ficado do lado de sua família!" acusou, apontando o dedo em direção a Regina.
"Como eu poderia ter ficado do lado de minha família, quando minha família só me amaria se eu fosse uma Rainha?"
— "Give up my way, and I could be anything." —
"Anos e anos de uma reputação bem construída, Regina! Pense nisso! Eu morreria antes de permitir que destruísse algo pelo qual tanto batalhei!"
"Isso é tudo que importa para você?" perguntou Regina. "Sua reputação? Você não está mais na Terra Encantada, mamãe. Ninguém nem se lembra de você. Ninguém sente sua falta."
A expressão de Cora tornou-se lívida, a raiva evidente nas suas íris chocolate. "Suponho que todos sintam sua falta lá, de onde você vem? Oh, devem estar preparando uma festa de boas-vindas para quando você retornar!"
Regina abriu a boca para contra-argumentar, mas o silêncio a conteve ao perceber que Cora estava certa. Ninguém a queria de volta em Storybrooke, nem mesmo o próprio filho. Mais uma pontada de dor a atingiu em seu peito.
"Você terá mesmo a audácia de retornar a um lugar onde não é bem-vinda?" provocou Cora, aproximando-se de Regina predatoriamente.
"Imagino que sugira que eu fique aqui... Com você?"
"Comigo?" debochou Cora, rindo abertamente. "Por favor, querida. Não seja tola. É claro que não pretendo continuar aqui."
— "I'll make my own way without your senseless hate." —
Regina ergueu as sobrancelhas em um misto de surpresa e desafio. "E como pretende fazer isso?" perguntou, cruzando os braços.
"Isso é algo que só diz respeito a mim," disse Cora. "A questão é: o que você pretende fazer, depois de perder tudo? Depois de perder seu filho, depois de perder aquela garota loira — você sabe que é só uma questão de tempo até que ela abandone você, como todos os outros..."
A respiração de Regina tornou-se entrecortada por soluços histéricos. "Não vou perdê-los," disse; o que deveria soar em tom confiante, soara mais em tom amedrontado.
"Será?" provocou Cora, com um sorriso maleficente estampando-lhe os lábios.
"Não," rosnou Regina. "Você não tem mais o direito de fazer isso comigo, Cora. Chega de manipular! Você não vai conseguir o que quer, dessa vez. Você não vai conseguir me machucar de novo."
"Quando é que você vai entender," indagou Cora, perdendo a paciência. "Que tudo o que fiz foi pensando em você, em seu futuro?"
— "So run, run, run and hate me if it feels good. I can't hear your screams anymore." —
"Quando é que você vai entender que tudo que eu sempre quis foi ser quem eu sou?" perguntou Regina, sua voz tornando-se mais e mais aguda a cada nova palavra mencionada. "Era tudo o que eu queria, mas nem isso você permitiu! Você me trancafiou sob seu poder. Você me anulou, abusou de mim, me manipulou, e tudo por causa de sua maldita reputação! Por anos você me aterrorizou, mamãe. Durante anos você me torturou. Você quis me tornar no que você era, porque você nunca foi feliz consigo mesma. Você é tão vazia quanto eu me tornei por sua culpa. Você pensou que, se me transformasse em alguém como você, poderíamos suprir uma a necessidade da outra. Esse vazio que nos consome... Você pensou poder preenchê-lo... Foi estúpida! Adivinha? Não funcionou!"
"Como se atreve a falar assim comigo?" sibilou Cora, perigosamente. "Sou sua mãe."
"Você nunca foi minha mãe," disse Regina, com a voz embargada. "Uma mãe não faz o que você fez."
— "You lied to me, but I'm older now, and I'm not buying, baby." —
Naquele mesmo instante, a realidade atingiu Regina como uma faca contra seu estômago. Lembranças de como havia tratado Henry, no passado, intoxicaram sua mente, despertando-a para o fato de que, durante muito tempo, portara-se justamente como Cora. 'Uma mãe não faz o que você fez,' suas próprias palavras ecoaram em sua cabeça, aterrorizando-a.
"Sendo assim, você nunca foi minha filha," retrucou Cora, lágrimas escorrendo por seu rosto. "Já que nunca nem pensou em sua família... Nem mesmo por um segundo!"
— "Demanding my response, don't bother breaking the door down, I found my way out." —
"Você não tem o direito de me falar isso! Você não tem o direito de dizer que eu não amava minha família, quando, na verdade, minha família que não me amava. Nunca, nunca mais, mamãe, você vai conseguir me manipular, como fez inúmeras vezes no passado. Nunca mais."
— "And you'll never hurt me again." —
Com isso, Regina deu as costas a Cora e desatou a correr, lágrimas escorrendo ininterruptamente por seu rosto acalorado. Para onde ia, ela não tinha a menor idéia; só o que sabia era que Cora corria atrás dela, gritando, chamando seu nome, mas já tivera o bastante: não se forçaria a agüentar aquela dor por nem um segundo a mais.
No momento seguinte, entretanto, o corpo de Regina foi erguido no ar e envolvido fortemente por cordas. A raiva fervilhou em seu estômago.
"Você vai me ouvir!" gritou Cora, com um punho erguido no ar, de modo a sustentar a corrente mágica que envolvia Regina. "Estou cansada de você e de todo seu drama adolescente! Cresça! Isso é tudo que eu sempre quis de você, mas você estava tão cega pelo amor que sentia pelo cavalariço, que nem percebeu que eu estava fazendo o melhor para você."
"Não é possível," exclamou Regina. "Não é possível que tenha acreditado estar fazendo o melhor para mim! Se você tivesse me escutado," lamentou-se Regina. "Se tivesse me permitido falar, teria entendido que o que eu sentia por Daniel era verdadeiro, era puro. Ele era meu verdadeiro amor."
"Não, querida," disse Cora, fazendo, com um gesto de suas mãos, que Regina retornasse ao chão em segurança. "Ele era apenas seu primeiro amor."
Ao ouvir estas palavras, a realidade despencou sobre Regina com a força de mil cavalos furiosos. Era verdade, pensou. Uma sensação estranha irradiou-se por seu peito; uma sensação semelhante à de uma criança quando descobre, na noite de Natal, que o Papai Noel não é real. Sentiu como se tivesse vivido uma mentira durante todos esses anos. A dor se fez presente novamente em seu peito, somando-se a uma faísca de arrependimento, o qual Regina ainda não compreendia muito bem.
Daniel não era seu amor verdadeiro.
E, ainda assim, o que sentia por ele, na época, nem se compara—
Cale a boca!
"É verdade!" exclamou Regina, exasperada; seu olhar era vago.
Ele fora apenas seu primeiro amor...
Você tanto pode, quanto ama. E você ama a Srta. Swan.
O amor verdadeiro é mágico; ele cria felicidade.
A sensação de plenitude...
"Mãe... É verdade..." exclamou Regina outra vez, fascinada. "Ele não era meu amor verdadeiro."
Ah, ah! Reginaaaaaaaaa!
Não acho que as estrelas sejam grande ameaça para mim. Sei o que quero e como consegui-lo.
As estrelas... A imagem ali estampada...
Emma, Henry e ela... Juntos... Como uma família.
De repente, tudo fazia sentido. Tudo estava claro como água.
"Ele foi só meu primeiro amor," repetiu Regina, levantando os olhos para encarar Cora novamente; agora, uma faísca de esperança e alegria cruzava-lhe o olhar. Isto não passou despercebido à mãe.
"Fico contente que tenha recobrado o juízo!" disse, sorrindo. "Agora, será que podemos começar de novo? Afinal, faz vinte e oito anos—"
"Não," disse Regina, simplesmente; a faísca de esperança e alegria intacta em seu olhar.
"Mas..." gaguejou Cora, confusa. "Você acabou de compreender—"
"Daniel foi apenas meu primeiro amor, é verdade," disse. "Mas isso não torna o que você fez nem um pouco aceitável."
"Regina," disse Cora, sem paciência, revirando os olhos.
"Ele não era meu amor verdadeiro," ela repetiu, sentindo-se, de repente, muito leve. "O amor verdadeiro é algo completamente diferente!"
"Ah, não," exclamou Cora, incrédula, colocando uma de suas mãos sobre sua testa, em irritação. "Não me diga que você acha que aquela loira é seu amor verdadeiro? Isso é ridículo!" zombou.
"Não, mamãe," disse Regina; a cada nova palavra, sua voz soava ainda mais leve. "Eu não acho que ela é meu amor verdadeiro; eu tenho certeza."
"Argh," grunhiu Cora. "Aqui vamos nós, de novo..."
"Ela é meu amor verdadeiro," repetiu Regina, desfrutando as palavras. Entretanto, de repente, sua expressão tornou-se sombria. "Mas não posso ficar com ela... Nunca poderei... Porque estou quebrada... Porque fiz tantas coisas horrendas no passado que, se ela tomasse ciência, ela me odiaria outra vez. Ela me ama... Nós nos amamos..." disse, e seu coração pulou uma batida ao perceber haver admitido para si mesma. "Mas, por causa de você," cuspiu a palavra com desgosto. "Nunca daremos certo..."
"Se você acha que nunca dará certo com ela, então não a ama de verdade."
"Não se atreva a me dizer o que eu sinto ou deixo de sentir," sibilou Regina. "Por anos eu permiti que você o fizesse, mas não mais."
Regina caminhou até Cora, parando bem próxima a ela, e a encarou intensamente nos olhos. "Vou lhe dar um aviso," disse, readquirindo seu tom ácido. "Se você for atrás da minha mulher mais uma vez," ameaçou, sentindo, de repente, todo seu corpo vibrar com uma estranha sensação libertadora de... Poder. Era quase como se este corresse em suas veias de modo delirante, satisfatório. Mas era um tipo de poder peculiar. Era um poder diferente. "Eu vou destruí-la. Entendeu?"
Uma risada fria e sarcástica preencheu o ambiente. "Por favor," disse Cora, revirando os olhos. "Como se pudesse... Sou muito mais poderosa que você."
"Eu sei que você pensa que é," disse Regina, agora, sorrindo verdadeiramente pela primeira vez em vinte e oito anos. "E, de fato, você conhece muito mais sobre a Magia Negra do que eu... Mas oh, querida," disse, imitando o tom da mãe. "Se você soubesse, se você tivesse idéia do que está correndo em minhas veias agora, você entenderia o que quero dizer. Isso, mamãe, é o verdadeiro poder. O poder do amor, algo que você nunca vai conhecer. É algo muito forte. Entendo, agora, porque meus planos para matar Branca de Neve e Príncipe Encantado nunca funcionavam. O amor que sentiam um pelo outro era forte demais! O amor é a magia mais poderosa de todas. Então, eu sugiro que você tome cuidado, e pense duas vezes antes de fazer qualquer coisa. Se você for atrás da mulher que eu amo mais uma vez, abrace a eternidade, porque você vai apodrecer aqui."
"E se eu a deixar em paz?"
"Aí deixarei-a livre para que continue procurando por um portal. Não vou ajudá-la; não é meu dever. Agora, se me der licença..." disse, girando nos calcanhares. "Tenho que voltar para a minha namorada."
Com um rápido gesto de suas mãos, Regina foi envolvida por uma fumaça roxa, que a transportou de volta ao campo em que estivera apenas algumas horas atrás. Só podia torcer para que Emma não houvesse se locomovido.
De volta ao Castelo de Copas, a Rainha, num surto de raiva, destruía o quarto de armaduras; seus gritos ecoavam, de modo agourento, pelas quatro paredes, adornadas de pinturas e retratos.
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