Losing my Humanity
42 Cap. 41 ─ Special
Notas iniciais
O dia estava mais do que comum, o que sempre me deixa um pouco preocupado. Os alunos chegavam e começavam a lotar o estacionamento e a entrada do colégio. Malia e Stiles conversavam baixo, e eu simplesmente não conseguia prestar atenção. Havia alguma coisa errada, tudo estava comum demais. Nada é muito comum em Beacon Hills.
─ Stiles, já falou com a Julie hoje? ─ pergunto, em parte por ter um pressentimento ruim sobre o porquê dela ainda não ter chegado, em parte pra riscar a discussão diária sobre o problema de sua fome da minha lista de tarefas. Todos os dias, várias vezes, debatemos sobre o assunto. E todos os dias chegamos às mesmas conclusões.
─ Não, ainda não, mas ela não está atrasada, deve estar tudo bem. ─ ele responde checando o celular ─ Ei cara, será que dá pra descer do meu capô?
“Não está nada bem com a Julie há muito tempo, mas ficamos ignorando tudo até agora.”, minha mente martela.
─ Scott! Desce, assim vai amassar tudo. ─ Stiles chama, enquanto sacode meu braço ─ Ei, está tudo bem?
Quando estou prestes a me virar e responder que estou bem, Julie surge ao meu lado como um fantasma que resolveu se solidificar.
Sua aparência é horrível. Seus cabelos estão emaranhados e arrepiados no que costumou ser uma trança, existem marcas profundas e escuras embaixo dos olhos, e seu rosto está lambuzado de verde. Ela ainda está de pijamas, um par de calças estampadas com florezinhas e uma camisa de mangas longas dos Yankees. Nos pés, meias imundas ,um calçado com pantufa, outro sem.
─ Oh Julie! ─ lamento baixinho enquanto ela abre um sorriso quase insano.
─ Bom dia! ─ ela praticamente grita enquanto se aproxima ainda mais, exibindo os dentes manchados com pedacinhos das ervas do Dr. Deaton, enquanto agita as mãos numa saudação frenética.
─ Ela não parece nada bem. ─ Stiles sussurra, se aproximado lentamente.
─ Julie, o que houve? ─ pergunto no tom mais calmo que consigo, e finalmente desço do jipe, ficando bem de frente pra ela. Sua expressão muda rapidamente, como se numa piscada de olhos ela recobrasse os sentidos.
─ Está insuportável Scott! ─ seus olhos começam a marejar, e ela estende as mãos trêmulas. Tomo seus dedos sujos entre os meus ─ Não dá mais!
─ Calma, você só está cansada. ─ tento soar positivo, mas sai como a mentira mais mal contada do mundo. Ela está muito mais que cansada, está fraca, magra como um esqueleto, e mal consegue se manter atenta há dias.
─ Não estou cansada! ─ seu tom é raivoso, e ela puxa a mão de volta com violência ─ Estou faminta! Tive de sair correndo de casa porque achei que ia comer meus pais a qualquer minuto!
─ Julie, sei que está com medo de perder o controle, mas estamos aqui pra ajudar. ─Stiles tem um tom confortante.
─ Grande ajuda. ─ ela murmura em resposta. Seu corpo parece ter se encolhido ainda mais.
─ Por que não deixamos ela comer alguém? ─ Malia pergunta, e dá pra perceber que pra ela, a solução é obvia e simples.
─Sim! ─ Julie ri baixinho, com os dedos entrelaçados em frente aos lábios ─ Comer alguém. Nhac!
─ Malia, não podemos deixar que ela saia por aí atacando pessoas! ─ Stiles responde num tom urgente.
─ Por que não? Quer que ela morra?! ─ a garota rebate ─ Porque é o que vai acontecer em pouco tempo se não fizermos nada.
─ Por que não?! ─ Julie reforça, seu tom doce e sua aparência frágil, unidos com o horror de suas palavras me fazem estremecer ─ Não seria diferente do homem do beco. Nhac! ─ ela ri feito uma louca enquanto pronuncia cada silaba calmamente ─ Ou a garota com máscara, nhac! Ou a garota bonita com dinheiro. Hmm, nhac!
Ela gesticula a cada frase como se estivesse pegando um pedaço de carne no ar e estraçalhando entre os dentes. De repente, inclina a cabeça para frente, fungando no ar como se procurasse uma presa.
─ Stiles! ─ ela cantarola ─ Malia, se importa se eu devolver seu namorado com um pedaço ou dois a menos? Hmm, nhac!
Eu e Malia nos colocamos entre os dois instintivamente, e ouço um rosnado se formar na garganta dela.
─ Uou! Julie... ─ Stiles balbucia, mas sua respiração e batimentos estão acelerados demais pra ele concluir a frase. Julie dá um passo à frente, e automaticamente damos passos pra trás.
─ Por que não?! ─ ela pergunta, seus olhos vão perdendo o azul costumeiro, sendo substituído por uma nuvem branca.
─ Por que ele é seu melhor amigo, por isso. ─ respondo. Pela sua respiração acelerada, posso jurar que ela vai atacar a qualquer segundo, por isso me preparo para a possibilidade de ter que contê-la.
No instante que Julie começa a abrir a boca pra exibir gigantes e afiados dentes amarelados, o sinal do primeiro horário toca, e parece que o som a traz de volta do mundo dos loucos.
─ Me desculpe! ─ ela encara Stiles com os olhos transbordando, as lágrimas abrindo caminho pelo rosto sujo de verde ─ Por favor, me desculpe.
Julie começa a dar passos para trás e estende os braços para não chegarmos perto. Ela olha ao redor desesperadamente, e quando parece encontrar direção da floresta, corre.
─ Julie, não! ─ me pego esticando as mãos para segurá-la, mas ela já não está mais lá.
Num momento de pânico minha única reação é gritar seu nome repetidamente enquanto encaro o cainho tomado por ela antes de desaparecer. Me obrigo à calma, e aguço meus sentidos. Posso seguir seu rastro de medo e ervas sem nenhuma dificuldade.
─ Fiquem aqui, caso ela volte. ─ peço aos meus amigos, que tem uma expressão meio incrédula no rosto.
─ Posso te ajudar! ─ Malia toma meu lado.
─ Não, é melhor que fique. ─ insisto ─ Se ela voltar, talvez só você possa segurá-la. Stiles concorda e segura Malia pelos ombros.
─ Por favor, não a machuque. ─ posso sentir o quanto está preocupado com nossa melhor amiga. Aceno com a cabeça e me ponho a seguir o cheiro.
Com menos de três minutos adentrando cada vez mais a floresta, o rastro começa a se misturar com o forte e inconfundível odor de sangue fresco sendo derramado. “Não! Não!” minha mente grita, e corro tão rápido que minhas pernas queimam.
Estaco ao ouvir grunhidos e ao avistar Julie debruçada sobre alguma coisa morta. À sua volta, uma poça de sangue se formando , encharcando as meias e a pantufa de coelhinho de vermelho.
Ela engole tão vorazmente que por um segundo penso que seria melhor esperar acabar, quem quer que seja já está morto e enterrado. Mas me obrigo a chegar mais perto, ficando aliviado quando percebo que a vítima é um cervo.
─ Julie...
─ Saia daqui! ─ ela rosna, sua voz arranhada e ligeiramente mais grossa. O rosto está completamente tomado por sangue, como se ela tivesse esfregado a pele nas entranhas do animal. As mãos remexem o interior da pobre criatura abatida, arrancando mais e mais carne, que é enfiada na boca cheia de dentes com uma velocidade assustadora.
─ Julie, eu só quero ajudar. ─ estendo as mãos, suplicante.
─ Vá embora! ─ ela grita e atira uma pedra em minha direção, que eu desvio com facilidade.
A cena me dá um nó na garganta. Julie continua comendo, mal parando pra respirar, e simplesmente não acredito na quantidade de comida que ela já ingeriu e continua ingerindo. Me agacho ao lado de uma árvore, cerca de dois metros de distância da minha amiga faminta, e resolvo esperar que ela termine antes de tentar dizer mais alguma coisa.
─ Por favor Scott! ─ ela se vira e encara a fundo nos meus olhos. Sua voz parece mais normal, e seus olhos tem a coloração azulada de nascença ─ Não quero que me veja assim. Vá embora, prometo não machucar ninguém.
─ Não quero te deixar. ─ respondo ─ Sinto que já te deixei só vezes demais. Estou do seu lado Julie! Pro que der e vier.
─ Vá embora! ─ ela volta gritar incessantemente, enquanto atira pedras, galhos, terra, e até uma das patas do cervo em minha direção.
Ao contrário do pedido, me aproximo dela até poder me abaixar e a abraço. Seu corpo treme, mas ela não luta contra mim.
─ Por favor! Por favor, por favor, por favor! ─ ela implora entre soluços sufocados, enquanto afunda o rosto sujo na minha camisa e treme como um animal ferido.
Toco sua pele fria e começo a tirar sua dor. A sensação e terrível, minhas veias queimam e seguro a vontade de gritar. Vejo dor, frio e escuridão. Mas me mantenho firme até ter certeza de que ela está aos poucos se acalmando.
No meio da floresta, sentados na terra, com uma carcaça de cervo a poucos centímetros de nós, Julie adormece aninhada em meu colo, e em meio a um suspiro eu lhe prometo:
─ Pro que der e vier Julie. Pro que der e vier.

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