Losing my Humanity

43 Cap. 42 ─ The bottom of the pit


Notas iniciais
Oi povo :D Novo cap., desculpem a demora, to cheia de projeto pra fazer ¬¬

“Cada passo que estou dando,

Cada movimento que eu faço,

Parece perdido sem nenhuma direção.

Minha fé está abalada.

Mas eu, eu tenho que continuar tentando.

Tenho que manter minha cabeça erguida.”

Engraçado como cada vez que penso ter atingido o fundo do poço, descubro que posso ir ainda mais fundo. É como se, cada vez que penso estar firmando os pés nas pedras da parede e conseguindo me impulsionar pra cima, pisasse em falso, num espaço escorregadio, e apenas isso fosse suficiente pra me trazer de volta ao chão, enquanto quebro todos os ossos e perco temporariamente a força pra recomeçar a escalada. De quebra, descubro que minha queda fez o buraco do fundo se abrir e afundar mais um pouco.

Estou assim: na lama do fundo do poço, com todos os ossos quebrados, tentando reunir um pouco mais de coragem pra tentar me mexer e, com alguma sorte, começar a escalar de novo.

Eu achava que o pior tipo de dor que poderia sentir fosse a da fome doentia, do estômago implorando por carne, e da falta de comida entre os dentes. Mas a culpa, ela não faz doer o corpo, ela dói o seu ser. Todo o meu “eu” está doendo.

Achei que da primeira vez que tinha matado, a culpa tinha sido a maior que teria na vida. Mas a questão é, ele meio que mereceu morrer. Não, ele definitivamente mereceu, pelo que fez a Carter, e pelo que me fez passar desde então.

Mas a coisa realmente muda quando você sente e sabe que pôs quem ama em perigo. Começando pelos meus pais, quase entrei em seu quarto e os dilacerei quando senti o cheiro de uma gota de sangue que meu pai derramou por causa de um corte ao se barbear. Saí correndo de casa, logo depois de engolir um saquinho inteiro com a mistura do doutor Deaton.

Achei que não havia jeito de piorar a situação. Mas durante aqueles milésimos de segundos onde não enxerguei meus amigos como amigos, mas como pedaços de carne regados ao molho de sangue, com aquilo eu jamais poderei lidar.

Sim, eu entrei na floresta. Sim, eu matei um cervo e o comi, e sim, ele tapeou minha fome. Por fora posso parecer um pouco melhor, talvez um pouco mais corada, talvez com uma aparência mais inofensiva. Mas por dentro... Só eu sei o quanto dói. O quanto eu fico vendo e revendo as cenas, por mais que tente pensar em outra coisa, por mais que eu queira que não doesse.

Talvez a pior parte seja saber que não tem nada a se fazer. As desculpas já foram pedidas e dadas. E eu simplesmente não sei o que quero. Me livrar da minha consciência incômoda? Bem, talvez, mas no fim das contas foi ela que me impediu de machucar a Stiles, por mais que no momento fosse tudo o que eu quisesse.

Parando pra pensar em como eu me sentia fraca e vulnerável sendo uma humana no meio de kanimas, lobisomens, banshee e todo tipo de monstros, chega a ser irônico. Tudo que eu queria era receber mais atenção, ser menos indefesa, ter algum poder. E olha só o que aconteceu, eu recebi poder e minha vida está uma grande e fedorenta bola de merda.

─ Ok Julie, ─ sussurro encarando meu reflexo no espelho ─ só precisa sorrir e fingir que nada está errado. Uma hora talvez se torne verdade.

***

─ Ei, é a garota que dorme no quarto do outro lado do corredor! ─ meu pai exclama enquanto me junto a eles pro café da manhã.

─ Muito engraçado Senhor Starter. ─ não evito um revirar de olhos.

─ Olha só querida, ela não nos vê a tanto tempo que esqueceu que somos parentes! Eu Tom. Eu P-A-P-A-I. ─ ele provoca, fazendo gestos exagerados com as mãos e falando bem alto.

─ Dá um tempo Thomas. ─ minha mãe se agacha ao meu lado e olha carinhosamente pra mim. ­─ Eu Meeren. Eu M-A-M-Ã-E.

Os dois começam a rir e trocam um hi-five. Ok, minha vida consegue ir de novela mexicana deprimida a show brega de comédia em um descer de escadas.

─ Tudo bem, vamos falar sério agora. ─ minha mãe começa ─ Não há desculpas pra você andar sumida desse jeito. Mal te vemos de manhã, não te vemos durante o dia, e durante a noite só ouvimos barulhos vindos do seu quarto. Tentamos te dar espaço achando que era só impressão nossa, mas você não pode continuar se comportando assim. Nós ainda somos seus pais.

─ Ainda pagamos as suas contas. ─ meu pai acrescenta. Ele continua, após uma olhada zangada da minha mãe ─ E nos preocupamos com você. Não sabemos como está o colégio, nem o que você anda comendo, ou com quem anda falando... Se for cortar laços com a gente espere ao menos fazer trinta e morar em outra cidade.

─ Pai, eu não estava tentando cortar laços com vocês. ─ tento me justificar ─ É só que...

─ Só que? ─ minha mãe tenta me encorajar após alguns segundos.

─ Bem, não sei o que dizer, não tinha reparado que estava sumida pra vocês. ─ minto. É claro que eu havia reparado, eu esperava que eles não reparassem.

─ Essa é sua desculpa? ─ meu pai encara o relógio ─ Não quer pensar numa melhor? Ainda temos quinze minutos até a hora de sair.

─ Escute Julie ─ minha mãe cruza as mãos sobre a mesa ─ Entendo que você não queira contar tudo pra nós como antigamente, sabemos que todos temos nossos assuntos particulares. Mas você está muito diferente do que costumava ser.

─ É, acho que isso acontece quando se é sequestrado por um maluco canibal. ─ murmuro, e imediatamente me arrependo. O sequestro se tornou uma espécie de assunto proibido pra esta família.

Me xingo mentalmente ao perceber o ar se tornar mais pesado ao nosso redor. Meus pais se entreolham consternados, e unem as mãos, como se estivesse revivendo todo o desespero da minha ausência outra vez. Me sinto na obrigação de dizer alguma coisa, mas não acredito que haja algo que possa reverter a situação.

─ Bem, eu tenho que ir. ─ eles me encaram como se eu estivesse fugindo outra vez, o que não é uma mentira ─ Vou tentar chegar na hora pro jantar.

Saio de casa tentando controlar meus passos e não parecer que estou correndo da minha família. Ao chegar no jardim da frente, escuto sem querer com minha audição aguçada:

─ Ela nem tocou nas panquecas, e eram as preferidas dela. ─ minha mãe suspira, a voz trêmula ─ O que vamos fazer Tom? O que nós...

Sua voz se torna um ruído abafado, e presumo que meu pai a abraçou. Ouvir os soluços dela me faz correr com toda minha força pra longe dali, mas parece que o choro ficou gravado na minha mente, e o som fica se repetindo e repetindo por todo o caminho.

***
─ Essa coisa de ter pais era muito mais fácil quando eu era só a Julie. ─ sento no refeitório com Stiles, esperando os outros chegarem.

─ É, eu sei mais ou menos do que está falando. ─ ele devora um hambúrguer com ferocidade ─ Fica mais fácil quando se conta a verdade.

─ Ok, descartamos essa possibilidade no meu caso. Nem pensar em dizer a verdade a meus pais, ou ao seu, já que o assunto surgiu. Ficaria surpreso como as coisas podem mudar quando você conta que come gente pra sobreviver.

─ Ei, eu já disse, não vamos dizer nada até que você queira. ─ ele tem o queixo lambuzado com ketchup ─ O segredo não é meu pra contar.

Afirmo distraidamente com a cabeça. Pego um dos meus guardanapos intocados e limpo seu rosto, ele sorri com o gesto, suas covinhas aparecendo rapidamente enquanto brincamos de bagunçar o cabelo um do outro.

─ Pode me perdoar por anteontem? ─ pergunto após alguns segundos de silencio desconfortável.

─ Julie, já não conversamos sobre isso?! É claro que está tudo bem, eu sei que você não estava no seu normal, ok?

─ Isso não é exatamente um “eu te perdoo”. ─ não evito comentar ─ Mas eu só quero que você saiba, e tenha isso como uma certeza: Eu comeria minhas próprias pernas antes de tentar qualquer mal de verdade a você, ou qualquer amigo meu.

─ É meio nojento, mas incrivelmente é uma das coisas mais fofas que você já disse. ─ rimos por um tempo. Ouço uma conversa se aproximando de nós, e percebo Kira e Malia caminhando em nossa direção. Quando penso ter encerrado o assunto anterior, Stiles me cutuca rapidamente antes das garotas chegarem, e sussurra:

─ Não importa quantas vezes ache que precisa me pedir perdão, eu sempre o farei, sem pensar duas vezes.

Minha única reação é sorrir e balançar a cabeça afirmativamente. É nesse tipo de momento que sinto que posso reunir força suficiente pra voltar a escalar poço a fora, e sei que meus amigos estão gritando palavras de incentivo pra que eu não desista.

“Sempre haverá uma outra montanha,

Eu sempre vou querer movê-la.

Sempre vai ser uma batalha difícil,

Às vezes eu vou ter que perder.

Não é sobre o quão rápido chegarei lá,

Não é sobre o que está me esperando do outro lado.

É a escalada.”

Notas finais
Espero q tenham gostado. Sobre o drama familiar: Vai ficar pior :* os trechos da música estão nesse link: http://www.vagalume.com.br/miley-cyrus/the-climb-traducao.html Bjinhos, e obrigada pelos reviews do último cap, vcs são meus amorezinhos
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!