Losing my Humanity
33 Cap. 32 ─ That’s what friends are for
Notas iniciais
Logo pela manhã, na chegada ao colégio, eu estava de muito mau-humor. As pessoas pareciam barulhentas demais, e todos aqueles adolescentes cheios de hormônios, drogas e maquiagem estava me deixando nauseada. Ou talvez só fosse a fome mesmo.
Afinal, eu nunca tive um conceito negativo do colégio, nunca foi nada como filmes clichês sobre adolescentes americanos que odeiam a escola e só bebem e festejam. Sempre tentei entender que o colégio era um preparativo pra vida, e que no mundo real sempre iriamos encontrar pessoas malvadas, cobranças e injustiças.
Mas hoje... Hoje eu só queria ter podido ficar em casa e dormir até tarde. Assistir besteiras na Tv, tomar um longo banho escondida na velha banheira dos meus pais, ler um bom livro. Pintar as unhas com meu esmalte favorito, arrumar o cabelo, massagear meus pés gastos.
Por algum motivo, entre meu desanimo enquanto me arrasto de corredor em corredor, de uma aula chata pra outro massacre emocional, minha ultima conversa com Peter me vem à mente. O jeito como ele havia perguntando se eu ia continuar no colégio, todo aquele falso sentimento e a falsa preocupação com Malia, me fizeram perceber que de, algum jeito, ele estava me influenciando psicologicamente. Talvez não, talvez fosse apenas minha velha paranoia contra os Hale, mas desde nosso ultimo encontro as palavras dele não saem da minha mente.
“Acha que eu sou um monstro, e você não. Que eu sou o vilão e você a mocinha. Pois saiba que não somos tão diferentes.”
No fim das contas, ele podia estar certo. Não somos gêmeos idênticos que pensam e agem da mesma forma, lógico, e muito menos almas gêmeas. Mas sempre que penso sobre ele, é impossível não comparar nossas situações e encontrar semelhanças.
***
Perto do fim do dia letivo, depois de me esquivar sorrateiramente do almoço, avisto Scott parado em frente a meu armário. E pelo jeito que fica tamborilando os dedos na alça da mochila por sobre seu ombro, ele está ansioso.
Cogito a possibilidade de ir para a classe de física sem o caderno e o livro que preciso, mas parece besteira me esconder assim. Afinal não houve nenhuma briga nenhuma novidade, nenhum susto, certo?!
Certo?!
─ Oi McCall. ─ me aproximo e tento sorrir, o que sai mais parecendo uma careta de escarnio, então desvio o olhar e começo a mexer no armário.
─Oi. ─seu tom de voz soa desanimado quando percebe que estou tentando ignora-lo ─ Não te vi no almoço.
─ É, eu fiquei na biblioteca. ─ minto ─ Já que não vou almoçar como todo mundo, achei melhor gastar meu tempo de um jeito mais útil.
─ Julie, eu sei que as coisas estão difíceis pra você, mas precisa nos dar um pouco mais de tempo pra pensar em como te ajudar.
─ Essa é a questão Scott! ─ começo a enfiar coisas aleatoriamente na mochila ─ Eu nunca pedi ajuda! Só contei pra vocês o que aconteceu porque odeio que haja segredos entre nós, nunca pedi ajuda!
─ Mas é isso que amigos fazem um pelo outro, eles ajudam. ─ ele responde calmamente, e segura meu pulso, me fazendo ficar quieta e olhar pra ele ─ Stiles está doente.
─ Oh. ─ é o que digo em resposta. Percebo que Scott espera que eu diga mais alguma coisa, então acrescento ─ Tudo bem, mando uma mensagem mais tarde perguntando como ele está.
Desvencilho sua mão de meu braço e continuo fazendo uma limpeza rápida no cubículo que me pertence. O sinal toca e os alunos começam a desaparecer por entre as portas das salas de aula.
Scott continua parado no mesmo lugar, me encarando com uma expressão mista de desapontamento e descrença.
─O que quer que eu diga? ─ bato com força a porta metálica e o armário se tranca, fazendo um som estridente que chama atenção das poucas pessoas que restaram perto de nós, porém mantenho o tom de voz baixo ─ Stiles está doente, é claro. Ele não tem habilidades sobrenaturais de cura como nós. É compreensível que ele fique assim de vez em quando.
─ Você não está entendendo, ─ ele segura meu queixo com uma as mãos ─ ele já estava doente ontem. Ele não vomitou por sua causa.
─ Eu nunca disse que ele tinha vomitado por minha causa.
─ Bem, mas pelo jeito que você ficou, com certeza pensou nisso. ─ ele me solta, hesitante.
─ É, eu tinha lá meus motivos. ─ jogo a mochila nas costas, seu peso extra me surpreendendo. Eu simplesmente não encontrava um motivo lógico para termos essa conversa, ainda mais onde estamos, e como estamos ─ Mas onde você quer chegar afinal?
─ Em lugar nenhum. ─ ele suspira ─ Só que nosso melhor amigo está de cama, e ficar pensando em como ele te fez sentir mal não o está ajudando a melhorar. E como eu disse, amigos se ajudam.
Ele toca meu ombro levemente, baixa a cabeça e sai caminhando, justo quando o zelador vem reclamar conosco por não estarmos na aula.
***
Após o termino do último período, liguei para meu pai avisando que visitaria Stiles e levaria o dever de casa pra fazermos juntos.
Ótimo, eu estava mesmo indo pedir desculpa pra Stiles por ele ter me feito sentir um lixo?! A situação inteira era tão irônica que me dava vontade de rir enquanto caminhava em direção à casa de meu melhor amigo convalescente.
Chegando até lá, sou recebida pelo Xerife Stilinski, que tem a sua carranca característica um pouco mais fechada hoje, talvez por cansaço, talvez preocupação, ou, muito mais provavelmente, um misto de todas as alternativas anteriores.
Ele traja seu uniforme, o que é estranho, já que apenas pelo som da respiração de Stiles no andar de cima, posso dizer que ele não está em seus melhores dias. O celular do Xerife não para de vibrar durante os poucos minutos que conversamos sobre banalidades da doença de meu amigo.
─As coisas estão complicadas na delegacia? ─ pergunto, enquanto ele checa a decima segunda mensagem que chega.
─ As coisas estão sempre complicadas por lá. ─ ele guarda o celular e me leva até o quarto onde supostamente devo encontrar Stiles, mas quando ele abre a porta tudo que noto é que em cima da cama há uma pilha de roupas.
─ Onde ele está? ─ percorro os olhos inutilmente pelo cômodo.
─ Debaixo de todo o pano. ─ ele aponta para a cama, mas tem o olhar voltado novamente para o aparelho telefônico. Procuro sinal de vida dentre todos os edredons e travesseiros, quando ouço um abafado suspiro e percebo uma leve movimentação.
─ Humm, o senhor não disse que ele estava com febre? ─ pergunto retoricamente, já que seu corpo exala um calor tão forte, que consigo sentir de onde estou.
─ É sim, ele está com febre. ─ o Xerife responde distraidamente ─ E já tomou os remédios.
─ Sabe que se ele continuar todo enrolado assim pode ter uma convulsão, certo?
O Xerife olha pra mim, seu rosto se contorcendo numa careta de frustração. Ele parecia ter um milhão de coisas pra fazer.
─ Tudo bem. ─ faço um gesto rápido com as mãos ─ Quer saber, é melhor o senhor ir resolver os problemas da delegacia, e eu tomo conta do Stiles, ok?
─ Julie, não é sua obrigação. ─ ele diz por educação. Dá pra sentir que ele já aceitou minha oferta.
─ É um prazer. ─ o tranquilizo ─ Afinal, amigos são pra isso. Pode ir sem preocupação, se algo acontecer, ligo pro senhor imediatamente.
─ Obrigado. ─ apertamos as mãos ─ Fico te devendo uma bela pizza de pepperoni.
Sorrio e ele se vai. Aproximo-me rapidamente da cama e arranco todos os lençóis que cobrem Stiles. Ele parece uma bola de suor, casacos e travesseiros.
─ Ju... Julie ─ ele reconhece após acordar lentamente, seus globos oculares dançando por suas órbitas.
─ Stiles, você está fervendo! ─ brigamos pelo último cobertor que permanece em cima dele ─ Precisamos esfriar você!
─ Mas... Frio! ─ ele choraminga enquanto o viro de bruços e arranco duas jaquetas de seu corpo.
─ Ah meu bem, eu sei. ─ a cena é de partir o coração ─ Mas você vai piorar se continuar todo enrolado. Venha, deixe-me trocar esses lençóis suados.
O ponho sentado na cadeira próxima a sua cama e me encarrego de guardar a metade da bagunça espalhada pelo cômodo, e ponho a outra metade no cesto de roupa suja. Troco os lençóis de cama, e verifico rapidamente minha mochila ─ a roupa de educação física por sorte está nela, esperando por ser lavada.
─ Julie, ─ ele chama ─ eu não vomitei por sua causa.
─ Eu sei ─ me limito a responder.
─ Você está chateada comigo?
Nossos olhos se encontram por um longo tempo. Stiles tem os lábios entreabertos, e seu olhar não é firme. Sua cabeça pende para trás, encostada na parede, e ele esfrega as palmas das mãos na calça de moletom lentamente. Se em algum momento fique zangada, já passou.
─ Não tem por que. Agora nós vamos tomar banho.
─ O que? ─ ele levanta a cabeça e tem uma expressão engraçada no rosto.
─ Precisamos te esfriar. Um banho frio deve dar conta.
─ Uh, Julie, não acho que tomar banho comigo vai me esfriar, se é que me entende ─ ele começa rindo fraco, mas logo se transforma numa gargalhada.
─ Seu doente! ─ atiro um de meus tênis nele ─Vá, vista um short. Vou colocar minha roupa de ginastica, volto já.
Assim que termino de por o short e a camiseta com o logo do colégio de Beacon, volto para o quarto e encontro Stiles com uma samba canção estampada com coraçõezinhos, esfregando os braços violentamente em busca de calor.
Vamos até o banheiro, e ele fica encarando o box, com uma expressão de dor estampada na face. Tento sorrir encorajadoramente, mas sei pelo que ele está prestes a passar. Quando era humana, eu costumava ter crises de garganta inflamada, que resultavam em febres altíssimas, que por consequência resultavam em banhos gelados. Era pior que passear pelado no Alasca.
─ Vamos, estou te dando apoio moral. ─ encorajo.
Stiles me encara e balança a cabeça negativamente, mas entra no box e liga o chuveiro na opção de água fria. Ele começa a dar pulinhos e treme, quase se esborrachando no chão do banheiro.
─ Eu morro, mas não fico debaixo dessa cachoeira dos infernos! ─ ele pula para meu lado, o chuveiro ainda ligado.
─ Imaginei que faria algo assim. ─ o agarro firmemente, e entramos os dois no box novamente, a água gelando até nossos ossos.
─ Isso é uma espé-pé-cie de vingança pessoal? ─ ele ainda tenta forçar a passagem para fora do apertado espaço.
─ É como arrancar um espinho. ─ elevo minha voz sobre o som da água se chocando contra nossos corpos e os pulinhos de Stiles ─ Dói, mas os benefícios são maiores que as perdas!
─ Eu p-preferia-ah um espinho ─ ele me abraça, em busca de algum calor.
Desligo o chuveiro e permito o abraço por mais alguns segundos, enquanto a respiração de Stiles se estabiliza. Saímos um por um do box, e atiro uma toalha para ele. Enxugo-me parcialmente e volto para o quarto, onde visto minha roupa novamente. Stiles aparece logo depois trajando a roupa fresca que separei para ele. Ele tem as mãos embaixo das axilas, e seu cabelo ainda pinga.
O ajudo a secar as mexas espetadas em sua cabeça, e ele deita novamente em sua cama. Me sento ao seu lado, e começo a ler a matéria das aulas perdidas por Stiles. Rapidamente sua febre cede, e ele acaba por adormecer. Fico quieta, temendo tira-lo do breve descanso, usando a oportunidade para responder uma lista de física para a próxima aula.
Após o que parece meia hora, acabo me deitando no colchão também, sentindo o frio do cabelo molhado e tendo formulas físicas escorrendo pelos ouvidos. De repente, Stiles se vira em minha direção, e se aconchega, abraçando minha cintura e usando minha barriga como travesseiro.
─ Malia? ─ ele balbucia durante o sono.
─ Não, seu ingrato filho de uma mãe! ─ rio da situação ─ É a Julie.
─ Julie ─ ele sussurra devagar, a boca meio aberta provocando sons engraçados ─ Ju. Juju.
Ninguém me chama de Ju ou Juju há muito tempo. Eram formas carinhosas que meus pais e os garotos usavam comigo, mas que pedi pra não usarem depois de umas garotas valentonas terem dito que era apelido de criança. Acho que estávamos na terceira ou quarta serie.
Sentindo a temperatura corporal de Stiles estável, enquanto sua bochecha está pressionada contra meu corpo, me faz relaxar. Meus músculos acabam por ceder ao clima sonolento que ronda todo o quarto, e entro no mundo dos sonhos.
“Continue sorrindo, continue brilhando.
Sabendo que você sempre pode contar comigo, com certeza;
É para isso que servem os amigos.
Nos tempos bons e ruins,
Eu estarei ao seu lado, pra todo o sempre.
É para isso que servem os amigos.”

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