Losing my Humanity
34 Cap.33 ─ Advice and decisions
Notas iniciais
“Todos estão sempre falando de mim
Todos estão tentando invadir minha cabeça
Eu quero escutar meu coração falar
Preciso contar comigo mesmo”
Chegando em casa, encontro meu pai sentado no sofá da sala, assistindo a um programa sobre esportes. Sento-me a seu lado, deixando a mochila no chão, e descalçando os pés da minha velha bota de camurça marrom.
─ Minha pequena Julie! ─ ele beija o alto de minha cabeça. Por que todos resolveram resgatar antigos apelidos logo hoje? ─ Está com fome? Tivemos frango frito pro jantar.
─ Ah não, comi com o Stiles ─minto.
─ Sim, e como está o garoto?
─ Vai sobreviver.
─ Julie, ─ ele põe a televisão no mudo e se vira de modo que tenho de encarar seus olhos azuis cinzentos idênticos aos meus ─ está muito distante ultimamente. Parece que nunca te vejo, muito menos nas horas de comer...
─ Coincidências! ─ respondo rápido demais, enquanto vejo as sobrancelhas de meu pai se franzir ─ Onde está a mamãe?
─ Lá em cima, já dormindo. Hoje foi um daqueles dias difíceis. ─ ele suspira, ligando novamente o som da TV.
Ficamos encarando as noticias, mas posso dizer que nenhum dos dois está realmente presando atenção nos apresentadores exageradamente sorridentes. Pessoalmente, tudo em que consigo pensar é em minha conversa com Stiles.
***
─ Mais uma vez, me desculpe por ter te assustado. ─ digo enquanto sirvo a Stiles minha especialidade na cozinha: cereal matinal com leite.
─ Ei, não é a única a ter pesadelos e a acordar gritando, relaxe. ─ Stiles responde com a boca absurdamente cheia ─ A única parte assustadora foi meu pai entrando com a arma apontada pra gente, mas dá pra superar.
Não consigo deixar de me encolher um pouco, mas uma lembrança acaba por me fazer sorrir.
─ Você chamou por Malia enquanto dormia.
Stiles abre os olhos numa careta de alarme, para depois desviar o olhar para sua tigela já pela metade.
─ É, eu sonhei com ela. ─ ele admite, um pouco baixo demais.
─ Vocês estão juntos, não é? ─ sento-me em frente a ele, sorrindo com a careta de indecisão que se forma em seu rosto.
─ Não sei, não é nada oficial ainda. ─ Stiles responde por fim.
─ Mas você gosta dela, não?
─ Bastante.
─ Então torne oficial oras! ─ bato os dedos contra a madeira da mesa a minha frente ─ Não pode ser tão complicado assim.
Stiles começa a rir. Seu riso irônico é tão estridente que ele afasta a tigela de cereal de perto de si e joga a cabeça pra trás, seu corpo vibrando irritantemente. Fico confusa e não tenho medo de esconder minha reação.
─ Você ao menos se escuta? ─ ele aperta meus dedos entre suas mãos ─ É exatamente o que estamos tentando te dizer todo o tempo.
─ Seja mais claro, por favor. ─ sinto uma carranca se formar em seu rosto, e instintivamente cruzo os braços.
─ Bem, o conselho que acabou de me dar: Descomplique.
─ Isso é muito fácil na sua situação!─ rebato ─ Tudo que tem que fazer é tomar coragem e contar pra seus amigos o que sente.
─ E por que é tão diferente no seu caso?─ ele tem uma expressão indignada.
─ Porque não sei como me sinto! ─ praticamente grito ─ Não sou mais a mesma garota, ok?! Agora, metade do meu tempo é tentando controlar minhas verdadeiras vontades, e a outra metade é tentando esquecer o quanto essas vontades são sinistras. Acha que tenho tempo sequer para um namorico? Acha que eu não queria “descomplicar” as coisas com o Parrish e dizer que gosto dele? Acha que é fácil?
─ Escuta Julie, se eu disse que entendo perfeitamente o que esta acontecendo com você, estarei mentindo. ─ele dá de ombros, o que só aumenta minha irritação ─ Mas sei como é se sentir fora de controle. Acredite, eu sei. Mas se quer tanto se controlar, apenas vá e faça. Ou talvez não, se preferir. Controle é superestimado.
─ Eu achei que quando finalmente tomasse coragem e contasse tudo pra vocês eu ficaria em paz e tudo se encaixaria. ─ suspiro, e acabo mordendo os lábios forte demais o que arranca algumas gotas de sangue que logo se curam ─ Continuo tão perdida...
─ Talvez porque só dependa de você passar por tudo isso. ─ ele se inclina um pouco em minha direção, e sua voz soa tão compreensiva que me faz querer chorar ─ Podemos ajudar, e vou sempre ficar do seu lado, mas no fim das contas só depende de você tomar o controle de sua própria vida.
─ É, ─ desisto de tentar me entender ─ provavelmente você está certo.
─ Eu costumo estar. ─ ele ri. ─ Ei, você disse que gosta do assistente do meu pai, ou é efeito dos remédios?
─ Remédios. ─ ruborizo─ Foram os remédios.
─ Espera aí, Julie você realmente ficou com ele? ─ Stiles pergunta quase incrédulo.
─ Já tinha te contado, não pareça tão surpreso! ─ o repreendo.
─ Ah, eu não sei, você não estava bem naquele dia. ─ ele sorri, suas covinhas lhe dando um ar sapeca e ao mesmo tempo inocente.
─ Bem, foi verdade, mas acabou. Não dá pra me envolver com ninguém do jeito que as coisas vão.
─ Na verdade, um romance possa ser exatamente a distração que você precise. ─ Stiles dá de ombros mais uma vez.
─ Não quero fazer de Parrish uma simples distração. ─ dizer o nome dele me faz suspirar e ao mesmo tempo traz uma careta de desgosto para meu rosto.
─ Então se declare e vivam um épico amor a lá Shakespeare! ─ ele esfrega o rosto, claramente cansado ─ Tenham dúzias de filhos e me chamem pra almoçar nos fins de semana.
─ Uou, ─ agito as mãos em negação ─ também não exagere.
─ Então esqueça tudo que eu disse. Mas de uma coisa eu sei, ─ ele aponta um dedo acusadoramente em minha direção ─ do jeito que as coisas entre vocês estão, não podem continuar.
***
─ Hã, pai? ─ chamo hesitante.
─ Sim querida. ─ ele passa a mão distraidamente em seus curtos cabelos castanhos, levemente grisalhos.
─ Grande jogo dos Yankees, não?
─ Julie, sabe que pode conversar comigo muito mais que apenas sobre esportes. ─ ele aperta levemente meu nariz.
─ É claro. ─ minto ─ Então... Numa situação completamente e exclusivamente hipotética, o que o senhor diria se eu estivesse gostando de um cara? Um que fosse um pouco mais velho?
─ Ah, depende... ─ ele parece surpreso pelo assunto. Com certeza é algo que eu apenas conversaria com a mamãe e ela contaria com muito mais jeito pra ele depois ─ É reciproco?
─ Gosto de pensar que sim. ─ percebo o leve sorriso que se forma em meus lábios ─ Na situação hipotética, claro.
─ Espere aí, o quanto mais velho estamos falando aqui? ─ ele fecha a expressão para algo entre o zangado e o preocupado ─ Não é velho como o Brad Pitt não é?
─ Pai, o Brad nunca fica velho. ─ explico ─ Ele apenas se torna mais clássico. E não, não como o Brad Pitt, está mais para Logan Lerman.
─ Quem?
─ Bem, não importa. A questão é, não tão velho.
─ Não sei, ─ ele coça o queixo, num gesto contemplativo ─ Acho que como qualquer um que se aproxima de você, a minha aprovação vem de como o sujeito se comporta, e de como te trata, claro.
─ Ok. ─ tento encerrar o assunto.
─ E então, eu conheço esse tal “cara”? ─ ele pergunta com um meio sorriso.
─ Eu disse pai, ─ engasgo ─ é uma situação hipotética.
─ Sei. ─ ele parece pouco convencido ─ Como a bicicleta hipotética, que você queria hipoteticamente ganhar no seu aniversario de dez anos.
***

Depois de passar o próximo dia inteiro apenas pensando em Parrish e em como eu queria que a nossa situação se resolvesse, acabo ligando para ele, temendo tremendamente ser rejeitada. Mas ele acaba por concordar em me encontrar numa lanchonete no centro depois da escola.
Fico parada na entrada da lanchonete tentando passar meu discurso pré-ensaiado mentalmente até que ele chegue, mas quando avisto Parrish, qualquer palavra que outrora existia em minha mente se perdeu.
“ Você já
Se perdeu para conseguir o que quer?
Você já
Pegou uma carona e quis sair?
Você já
Se afastou de quem você deveria se aproximar?”
─Oi ─ele diz ao parar em minha frente. Parrish não sorri, nem esboça qualquer emoção aparente, o que me deixa insegura.
Se ele estivesse bravo, lhe pediria desculpas, ou se ele sorrisse eu poderia deixar tudo para lá. Mas ele apenas me encara, seus atraentes olhos verdes analisando discretamente meu rosto pálido.
─Oi ─ venço mais alguns centímetros que nos separam.
Gostaria de saber o que dizer, porque "Ei, acho que gosto de você ,mas pode ser só fome" não parece adequado.
Acabo por seguir um de meus impulsos irracionais e o beijo.
No momento em que nossos lábios se tocam, Parrish não retribui. E por que deveria, eu o deixei sozinho depois de um agradável encontro, tentei beija-lo enquanto estava drogada e depois o ignorei por dias. O simples fato de ter se deslocado para me encontrar devia ser encarado como um grande favor.
Mas apesar de minha mente processar todas essas informações, meus lábios não abandonam os dele e minhas mãos pousam hesitantes em suas bochechas.
Após alguns segundos, os lábios de Parrish começam a se movimentar em sincronia com os meus, e finalmente a sensação de calor que sempre me preenche quando nos beijamos toma meu corpo.
Ele põe as mãos em minhas costas, como se fosse me abraçar e pudesse me proteger de qualquer mal do mundo , e quando o beijo se torna mais íntimo, e o toque mais urgente, percebo que há desejo de ambas as partes.
Se eu gosto de Parrish? ! Está tornando-se uma questão quase indiscutível. Se me importo com ele?! Mais que me importei com qualquer outro cara até então. Se a situação toda me deixa assustada?! Acredito que "apavorada" me descreva melhor.
Nunca quis tanto ter alguém por perto. E ao mesmo tempo, nunca tive tanta certeza de que o melhor a fazer é afastá-lo de mim.
Sentindo os lábios quase dormentes, e a necessidades de ar tornando-se eminente, lentamente interrompo nosso momento. Parrish mordisca suavemente meu lábio inferior antes de nos afastarmos de vez, e quando finalmente crio coragem para encará-lo, ele tem um sorriso bobo no rosto. Devo presumir que pela dor em minhas bochechas não devo estar muito diferente.
─Você não vai fugir agora, vai? ─ ele toma minha mão direita na sua, e a acaricia com o polegar.
─ Fugir?─ não consigo pensar numa resposta que não resulte em mais perguntas.
─ Toda vez que nos beijamos você tenta fugir. E da última vez você conseguiu.
Sorrio, sem graça. Pensei em deixar todas as maluquices pra trás, mas acho que conversar é necessário afinal.
─ Ver aquela moça machucada e sangrando... Me trouxe algumas memórias ruins. ─ minto. O que mais poderia dizer sem o fazer me odiar ou sair correndo?
─ Eu entendi essa parte. O que eu não entendo, é como você ficou no dia seguinte, vagando pela rua com seus dois amigos tendo de correr atrás de você.─ ele faz uma careta de confusão .
─ Calmantes.─ respondo ,conforme o ensaiado ─ Depois de toda aquela cena e de todo o chilique, precisei de calmantes pra dormir, mas acabei abusando da quantidade.
─ A maioria das pessoas dormiria demais, não atacariam meu chefe tentando fazê-lo sorrir.
─ Eu sei .─ tento pensar em mais alguma desculpa, mas nenhuma me vem─ Acho que apenas não sou como as outras pessoas.
─ Não, não é. ─ ele segura minha mão firmemente, entrelaçado nossos dedos, me permitindo sentir o calor que emana deles, e acabo por ouvir sua pulsação.
Seu sangue, seu calor, seu cheiro. Parrish é atraente pra mim de várias formas, e isso torna tudo mais assustador e mais insano do que posso lidar. Minha garganta começa a fechar-se em um nó.
─ A verdade, ─ tento não quebrar o clima completamente ─ é que e chamei até aqui pra dizer que o que quer que exista entre nós, tem que acabar.
─ E por quê? ─ sua expressão fica séria ─ Você não parecia querer acabar a alguns segundos atrás.
─ Escute, pode parecer clichê, e acredite em mim quando digo que não é, mas não é você. Sou eu o problema da equação por aqui.
─ Sou bom em matemática. ─ ele argumenta ─ Podíamos tentar resolver o problema juntos.
─ Não. Não é assim que as coisas funcionam comigo. Apenas devíamos fingir que nada nunca aconteceu e seguir nossos caminhos separados.
─ Você não pode, ou apenas não quer tentar? ─ ele suspende um das sobrancelhas e sua boca se comprime.
“Eu queria ter coragem pra tentar”, penso.
─ Na verdade, eu não quero. ─ acabo de contar a maior mentira da minha vida, que ironicamente tem um bom fundo de verdade.
─ Então é isso, eu acho. ─ ele se afasta alguns passos de mim e de repente me sinto uma desconhecida ─ Tenha uma boa noite Srtª Starter.
E ele se vai.
“Você já
Duvidou que seu sonho iria se realizar ?
Você já
Culpou o mundo ,mas nunca se culpou?
Eu não quero
Tentar viver uma mentira de novo
Eu não quero ganhar esse jogo se eu não posso jogar
do meu jeito”
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