Longevo

3 Capítulo 3


Atravessamos Dois Irmãos inteira — como se isso fosse um dos trabalhos de Hércules — até chegar no La Paz. O último aniversário de Selma fora ali, antes de seu estado a limitar a uma cama e o teto para observar. Acreditei ser um gesto de carinho à memória dela e fiquei com o coração genuinamente aquecido.

Pegamos cada um uma comanda e, só então, Carlos foi me guiando para uma mesa, dando indícios de que armava alguma. Pensei em comemorações possíveis, como meu aniversário, o dele ou da irmã, mas nenhum sequer se aproximava. Então, ouço a voz:

— Quanto tempo, Aurélio…

Um frio foi do meu dedão até o que restou de meus cabelos brancos.

Aquela voz… Quantos anos separavam desde a última vez que a escutei? Há muito parei de contar e lá estava ela. Estava mais rouca, nasal, mas a figura de seu dono me surgiu como um relâmpago.

O franzino guri da ladeira da Navegantes já não era mais tão franzino assim. O sorriso, porém, seguia de um sonhador, iludido com suas próprias promessas. Devia ter se esquecido que foi graças a uma que fiz as escolhas ingratas que fiz.

Uma sobre gritar para o mundo o que sentíamos.

Enquanto ingerimos cada qual seu prato, Carlos explanou sobre o telefonema de Abílio dando seus pêsames e a falta de tempo para chegar ao velório, mas que o faria na semana seguinte.

Admito que meu eu interior riu.

Sua mente inconsequente devia acreditar estar dando vida a algum dos longos textos de capítulo que decorara ao longo dos anos entrando nos lares a cada novo capítulo às 20 horas.

Não fiquei de prosa. Contudo, na saída, esperando Carlos pagar o almoço, o agora ator Abílio Moraes, fora de cena, foi enfático:

— Irei te visitar para conversarmos, velho amigo.

Notas finais
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