Longevo
9 Capítulo 9
Lágrimas brotaram de tantas formas que sequer soube como controlar. Selma soube direitinho como mexer comigo, meus sentimentos… Me levou a um mergulho direto na fossa da saudade.
Carlos e Renata se aproximaram, abraçando-me forte, como se dissessem que estavam ali para mim. Meus filhos… Não tínhamos o mesmo sangue, mas o mesmo amor. Aquele que transcende qualquer outro tipo de laço biológico. Estava mais do que claro para mim isso.
Carlos me explicou que a carta deles foi escrita muitos anos antes, quando fizeram dezoito anos, e que já tinham conhecimento dela por conta desse evento. Um presente de aniversário diferente, havia explicado sua mãe. Lá, souberam sobre Abílio e tudo o que compartilhei com ela ao longo dos anos sobre ele e nossos planos.
— Se aceitamos tantas coisas mais difíceis, por que não faríamos agora? — perguntou Renata, recompondo-se.
Ela tinha razão. Jamais escondemos suas origens, pois sabíamos da possibilidade disso se voltar contra nós caso não agíssemos com racionalidade. O fato do meu amor por Selma ser diferente do que senti por Abílio não tornava aquilo feio ou imundo. Apenas… o que a vida nos fez passar. O que escolhemos suportar.
Carlos também me surpreendeu, alegando que, apesar de à época ter surgido uma mágoa por não corresponder ao que esperavam de mim como marido, pôde perceber que jamais a deixei desamparada em momento algum, sobretudo quando o homem que deu origem a ele e a irmã — aquele em quem Selma confiara e amara — deu-lhe as costas por ser ‘fácil demais’.
Pude sentir ali o que acontecia quando as palavras ‘amor’ e ‘filhos’ caminhavam grudadas. Foram um tipo de imã tão poderoso que atravessa os mais tempestuosos desafios. Não fui o grande marido da mãe deles, mas alguém com quem compartilhou bons momentos por toda vida.
Diante de tantas revelações e segredos vindos à tona, ficaram claras as intenções de ambos com aquilo.
Mas… e Abílio? Qual a justificativa dele para essa ausência de anos?
Precisava de respostas. Começaram a insistir que conversasse, ouvisse seu lado da história para, tal qual fizeram comigo, pudesse entender melhor o que se passou.
Não acreditava na ideia de haver algo além da carreira. Afinal, um galã de novela com desejos nada bíblicos não era apreciado em épocas passadas. Mesmo assim, Renata insistia em ouvir o outro lado. Diante do pedido, deixá-lo contar seu lado soava razoável. Parecia o certo.
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