Longevo
10 Capítulo 10
Abílio e Andria não levaram muito a chegar. Pararam numa padaria próxima chamada ‘Padaria dos Anjos’, filial da original de Porto Alegre, a qual tive a honra de conhecer os fundadores e alguns de seus netos anos atrás — lembro que seus nomes terminavam sempre com -el, como Daniel. O resto é nuvem!
Pararam para espairecer depois de saírem daqui. Pude ver nos olhos dele a dor pesando sobre suas pálpebras, bem como a tristeza de uma existência regada à vontade alheia. Não posso negar: conhecia essa realidade.
Só que isso não respondia as minhas dúvidas, nem apagavam as horas esperando seu retorno às vésperas de meu casamento. Sim, acreditei na reviravolta digna de contos de fadas, onde alguém iria me resgatar do engodo no qual estava prestes a cair só para não decepcionar meus pais.
Penso ser óbvio o quão equivocado estava, não é?
Pedi às “crianças” para nos deixarem a sós. Não tinha a menor intenção de lavar roupa suja na frente de ninguém cuja relação fosse nula com meus anos dourados.
Parei em frente a ele, sem que um músculo de minha face esboçasse o menor sinal de amizade. Já Abílio, ao contrário, parecia aquele mesmo adolescente, de feições tão delicadas, pele fresca e cor de creme. Retrocedeu quarenta anos em menos de um minuto.
— Eu queria—
Nem deixei que terminasse a fala antes de botar para fora minha vontade de dar um tapa na cara dele. O que, de fato, fiz, fazendo-o virar quase do avesso.
— Agora podemos conversar — ponderei, sentando no sofá com a ajuda da minha fiel bengala.
Abílio riu-se como um descompensado.
— Mão pesada — comentou, antes de sentar ao meu lado — Mão de homem.
— Um de nós precisava ser, não é mesmo? — retruquei.
— Por que me critica tanto, Aurélio? Me diga? — questionava, no tom mais sereno possível — Por acaso viveste esses anos todos ao lado de outros homens, andou de mãos dadas, constituiu família? Me diga!
Confesso que não esperava por esse argumento, por mais lógico que fosse. Deixei o silêncio ser nosso companheiro por alguns segundos, antes de meu cérebro achar o contra argumento perfeito.
— Tens razão, meu caro. E sabe por que nada disso foi possível? — Encarei fundo aqueles olhos esmeralda — Porque alguém prometeu me buscar uma vez. Te recordas?
De novo, consegui abalar suas estruturas. Confesso, foi proposital. A ideia do que se passava por sua cabeça doía tanto em mim quanto nele, mas precisava dizê-lo mesmo assim. Afinal, sangrava dentro de mim até aquele momento.
— É… — falou, de repente, pensativo — Talvez o que prevíamos na juventude fosse só fruto das leituras na biblioteca.
— Talvez sim — não era fácil dizer aquilo, mas tentava me manter firme — Talvez eu seja só um velho amigo mesmo. O resto… o tempo levou.
Abílio usou o encosto do sofá para se levantar, indo em direção à porta. Estava pronto para abrí-la quando deu sua palavra final.
— Pena que não tenha levado junto a dor de não te ter…
Fale com o autor