Longevo
17 Capítulo 17
Quando dei por mim, lá estava eu aterrissando com as mãos grudadas no banco do avião em Congonhas. Passei quatro meses insistindo para que me deixassem ir de ônibus. Acabei sem saber quem era mais insistente: se meus filhos ou meu companheiro.
Não sabia direito como deveria me portar. Mesmo se tratando de um mero coquetel de lançamento da peça, jornalistas, outros artistas que passara a vida vendo por uma tela estariam ao vivo e a cores. Orava a todos os santos para o lado de homem criado longe da capital não me concedesse uma gafe diante de tantas personalidades importantes.
Mantínhamos nossa história só nossa até então, uma vez que Abílio insistiu demais para tratar do assunto tão somente quando a peça já estivesse engatilhada. Um frio na espinha tomava conta de meu ser a cada segundo que me aproximava do hotel onde ficaria hospedado e, à noite, seria testemunha da celebração. Carlos insistia para que me acalmasse antes de conhecer um hospital paulista antes mesmo do salão de atos.
Ao descermos as malas do carro do motorista particular, nos deparamos com um local que exalava inspiração na arquitetura romana, uma ponte sobre um pequeno lago artificial por onde vários peixes dourados e azuis nadavam de um lado ao outro. Um copeiro até quis me auxiliar com as malas, mas não julguei necessário. Nunca gostei de estranhos tomando conta de minhas coisas, ainda mais se a bendita resolvesse abrir, deixando cair a tinta de emergência para meu cabelo!
Fomos avisados de que Abílio não se encontrava, estando junto de outras pessoas de sua equipe para organizarem todos os detalhes da reunião. Isso fez com que brotasse em Carlos uma vontade inóspita de vasculhar cada canto da cidade até a noite. Lembrei a ele de que meus joelhos já não eram grande coisa quando jovem, quanto mais com a idade avançada. Tal qual uma criança cheia de manias, fez com que sua face mostrasse sua desaprovação a meu ato. Ri. Lembrei-lhe que já fazia tempo que a maioridade lhe alcançou, estando livre para fazê-lo se assim quisesse.
— E o senhor vai ficar trancado num quarto de hotel a viagem toda? Sério, pai?!
— Quando não passarmos somente três dias aqui, prometo me esforçar mais — barganhei, sem muito sucesso — Além do mais, estou vendo um pequeno café e quiosques na piscina. Vou ficar bem.
— O senhor que sabe então — deu de ombros — Vamos ver em qual quarto ficamos. Ali está a recepção.
— Não estou cego, Carlos. Está bem à nossa frente! — resmunguei.
— Mas só estou comentando. Ô, velhinho teimoso — riu de minha rabugice momentânea. Ficava me perguntando se, aos oitenta, a tendência faria aquilo piorar. Pobres dos meus filhos…
Quando fomos dar entrada, uma dúvida surgiu: Havia um quarto para Carlos, outro para o dia seguinte em nome de Renata e nenhum para mim. Estranhei, pedindo algumas explicações. Cogitei que, por serem meus filhos, pudesse estar junto nos quartos em uma cama de solteiro ou coisas nesse sentido, mas quis apenas me certificar.
Foi quando a gentil mocinha, após verificar nos registros do computador, me deu retorno:
— O senhor será acomodado na mesma suíte que o senhor Abílio Moraes, seu Aurélio! Posso pedir para alguém ajudá-lo com as malas?
— N-não é necessário, minha filha. Obrigado!
Não podia acreditar no que meus ouvidos tinham ouvido. Abílio e eu? No mesmo quarto? Em São Paulo?! Era demais para esse pobre coração aguentar definitivamente!
Em virtude dos ensaios, não tivemos tempo de aproveitarmos um tempo maior juntos. E, pelo visto, aquela era a prova que isso iria mudar.
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