Longevo
18 Capítulo 18
Subir até o quarto onde Abílio estava foi uma prova de fogo. Temi por seu nome e reputação, afinal de contas, havia me largado para trás justamente por conta daquele mundo, o qual agora, depois de velho, resolveu enfrentar.
— Sabes me dizer se há duas camas de solteiro no quarto, guri? — arrisquei, já tendo um nó no estômago pela possível resposta.
— Não se preocupe, senhor. Já recebemos outros casais como os senhores aqui — o rapazinho tentou ser cordial, erguendo um sorriso singelo no rosto.
Nem soube o que dizer mais diante disso. Havia algo plausível de minha boca pronunciar a fim de fazer uma defesa minimamente convincente? A resposta, lógico, não era muito animadora.
Durante os anos em que encontrava a luxúria e o prazer masculino, únicos motivadores de minha libido, em corpos alheios, jamais consegui completar um pernoite ao lado de ninguém. Mesmo daqueles que estavam ali por seus honorários.
Nunca quis dividir espaço com alguém que não fosse Selma. Irônico, mas seu aconchego era um afago a minha alma flagelada. Os deles não tinham verdade. Eram feitos por um ser vegetativo, obrigando-se a mover meia dúzia de dedos para alegrar um pobre coitado carente de atenção.
Só que ali era diferente: Abílio estaria ali por querer estar. E como procederia?
Nem pude pensar muito, pois, me pegando desprevenido, encontrei-o encarando o mar pela sacada de seu quarto. Vestia um terno azul marinho e óculos tão charmosos que quase pensei ter entrado no quarto de George Clooney. Me recebeu com um sorriso no rosto, um pacote aberto e uma fita cassete com um tocador de fitas em mãos. Estranhei.
— Acho que está na hora de ouvir isso — afirmou, entregando-me os objetos.
Não quis ficar ao meu lado para escutar aquilo. Virou-se novamente em direção a sacada, admirando a imensidão azul, enquanto me sentava e colocava para rodar.
“— Acha que eu não sei que ‘cê gosta?” — começava uma voz grossa e carioca, pelo que pude perceber, sem nenhum pudor nas palavras.
“ — Isso não muda nada” — aquela voz eu reconheci. Era aquela voz do Abílio que me fisgou o coração “— Não quero nada contigo. Fui claro?”
“— Não querer nada comigo é o mesmo que não querer nada com a televisão, bonitão” — meus ouvidos não puderam acreditar naquele absurdo “— Mas talvez tenha razão. Talvez ele queria no teu lugar.”
“— Não se atreva a tocar nele, seu—” um eco pôde ser ouvido. Pelo som agudo, a mão de um acertara o outro. No rosto, deduzi.
“— Soube que amanhã ele vai se casar. Já pensou ele mal conseguindo ficar em pé no altar pelas pernas bambas?” — deu uma gargalhada diabólica. Tinha verdadeira satisfação em seu ato sórdido.
O outro deu um longo suspiro antes de dar a palavra final.
“— Está bem. Aceito.”
“— O que, meu bem?” queria que o meu rapaz curvado aos seus pés.
“— Ser seu. Só seu.”
“— Essa nem a Diná podia esperar, não é?!”
“— Ela vai suspeitar…”
“— E o que vai fazer? Me denunciar? Me poupe”— pareceu tragar um cigarro “— Vocês bem que gostam de me servir…”
Não consegui escutar um só segundo a mais daquele show de horrores. Meus olhos esforçaram-se para não mergulhar em um vazio tão profundo quanto o que ele sentira naquela data.
— Estava voltando para Dois Irmãos quando ele apareceu na pensãozinha onde morava, cheirando a vodka barata, ordenando esse absurdo — Abílio explicara, sem me olhar no rosto.
Agora tudo fazia sentido. As pontas soltas desmanchavam-se.
Meu único instinto foi o de fazer aquilo que gostaria de ter feito anos antes quando nos encontrássemos para vivermos nossas vidas juntos, gozando de toda alegria e felicidade que apenas duas pessoas que se gostam de verdade podem fazer: abraçar tão forte a ponto dos dois corações se tocarem.
— Eu te amo.
Ao sentir essa frase escapar de minha boca, não pude evitar que o vermelho vívido começasse a tomar forma em meu rosto, deixando-me à mercê de sua expressão de alguém pego de surpresa.
— O que… tu disse? — pareceu querer ouvir de novo, a fim de ter a confirmação há muito aguardada. Não era unilateral, claro, mas nem por isso era fácil.
— Eu disse… — engoli seco, sem saber como prosseguir. Até que achei uma forma — Eu disse a palavra que vai curar todas essas dores, tirar esse sofrimento para fora e só deixar a luz da felicidade invadir.
Os olhos de Abílio ganharam um tom a mais de brilho em torno de si, como uma luz própria, cujo surgimento vinha por de trás das ruínas escondidas nas sombras, e que agora eu podia enxergar. Passou suas mãos de seda pelo meu rosto já tão flácido, antes de se arriscar novamente.
— E pode dizê-la de novo?
Depois de tal revelação, onde uma verdade tão horrorosa que nos afastou tanto tempo, criando mal juízo alheio sem que uma só prova fosse encontrada, minhas dúvidas diminuíram de tamanho. A cama, a divisão dos quartos ou até mesmo termos trocados carinhos afetuosos eram só uma pequena parte feliz de uma história marcada, principalmente, pela dor.
— Amor — tomei fôlego para repetí-la — Era amor, “velho amigo”.
— Que tal passarmos de velho amigo — colocou a mão em meu queixo, erguendo-o — a novo e melhorado amor?
Deu uma leve risada junto a mim, antes que pudesse ouvir o tão esperado “sim”.
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