Longevo

15 Capítulo 16


Logo na primeira curva, na esquina da minha rua com uma avenida movimentada, aquele ar de garotão enfrentando o mundo pareceu minguar… Não passamos por um só casal como nós, nem mais jovens ou de mesma idade. Apenas mãos masculinas entrelaçadas em femininas comentando banalidades quaisquer sobre seu cotidiano.

E nós no meio disso? Alienígenas!

Nossas mãos até tentaram se encontrar pelo caminho, arriscando uma proximidade, um encosto aqui e ali como quem não quer nada. Porém, quanto mais andávamos e encarávamos a realidade, menos elas tentavam reagir. E como se isso já não causasse frustração suficiente, encontramos dona Ercília, a vizinha de três casas à direita, sorridente a me cumprimentar.

— Meus votos de condolência por sua senhora, seu Aurélio — desejou a senhora. Era uns dez anos mais velha que eu, e as marcas do tempo a faziam ter aparência de uma avó amante de culinária e quitutes, com seus vestidos de estampa xadrez e pantufas que entregavam sua total despretensão de concorrer ao Miss Universo — E o senhor eu conheço! Abílio Moraes! Das novelas, né?!

— Prazer em conhecê-la — mostrou simpatia por ela — Sempre é uma honra falar com fãs.

— Não me contou que eram amigos, seu Aurélio! — exclamava, como uma criança diante de um urso gigante de pelúcia — Aposto como devia ter ciúmes de dona Selma nos encontros, não é?

— Um zelo a mais nunca foi demais com esses dois, dona Ercília — brinquei, arrancando um riso ligeiramente debochado de Abílio.

— Bem… — ela levou suas mãos ao paletó marrom dele, fingindo-o ajeitar — Não corres esse risco comigo. Meu marido há muito já nos deixou, tadinho.

— Tanto quanto Diná me ama, certamente — cortou a senhora, deixando-a pasma.

— Mas… Diná não é falecida?

— Só que seu amor vive em cada dia do meu celibato… dona?

— Ercília — sorriu, constrangida — Acho que a chaleira começou a ferver. Com licença, senhores.

— Toda! — dissemos juntos.

A senhorinha apressou o passo para sumir da nossa frente, como se tivesse passado um cheque sem fundo. Começamos a rir feito dois descompensados da travessura. Até que, no frigir dos ovos, lidamos relativamente bem com a situação e ainda nos divertimos.

Mais alguns passos foram dados pelas ruas até que encontrássemos uma padaria — a mesma onde ele aguardara com Andria dias antes. Entramos, escolhemos uma mesa e fizemos nossos pedidos enquanto relembramos o ocorrido conosco há pouco.

Foi quando, de repente, por estar sentado de frente a saída, vi o que me pareceu um casal de rapazes entrando. Notei também quando um homem de sobretudo, acometido certamente de um encosto, saltou da mesa onde estava com a esposa e seu gurizinho que não devia ter mais de cinco, e partir como uma locomotiva até eles causando o maior reboliço, além de gritar obscenidades tão descabidas que me turvam os sentidos.

Na hora, me lembrei de meu pai. Ele soube me colocar na rédea curta sem precisar de uma cena daquelas porque não sabia me defender. Como um jovem findando a adolescência nos primórdios dos anos 80 poderia levantar a voz para lutar por um amor tão esdrúxulo ao alheio? A explosão da AIDS, então, tornou o que já era ruim, pior.

Só que aquele menino havia crescido, sobrevivido e estava ali, disposto a mudar.

Quando fiz menção em levantar, porém, senti a mão de Abílio pousar sobre a minha, fazendo gesto com a cabeça para que me sentasse. Num primeiro momento, pensei que gostaria que ficássemos de fora daquilo até por ele ser uma pessoa pública. Ao me lembrar desse detalhe, acabei me contendo.

O que não esperava era que ele fosse tomar meu lugar e cuidar do assunto. Com toda calma do mundo, enquanto o homem seguia berrando atrocidades, tocou em seu ombro, atraindo sua atenção quase de imediato.

— O senhor quer fazer o favor de respeitar as pessoas que estão aqui? — pediu ele, com a paz de um monge budista.

— As pessoas que estão aqui é que deviam achar esses dois vagabundos uma falta de respeito! Não um pai de família que é obrigado a expor seu filho a essa nojeira!

— Não vejo ninguém preocupado. Só o senhor — replicou — Então, por favor, se oriente.

— Meu assunto não é contigo, vovô! — empurrou Abílio para o lado — Mas com esses dois aqui!

Antes mesmo que qualquer um pudesse prever alguma coisa, fomos pegos de surpresa com um gemido alto vindo do próprio cara segundos depois de Abílio lhe dar um chute bem nos fundilhos, fazendo-o cair no chão quase em posição fetal.

— Não sou seu avô, marmanjo — pontou “meu” herói — Compre um espelho pra ver a nojeira que és, não os outros.

Ninguém movia uma pálpebra. O único que conseguiu falar foi ele chegando à mesa, perguntando a um dos garçons se tinham chocolate quente.

Notas finais
Eita que Abílio não tá pra brincadeira, hein? hehehe Gostou? Deixa um review! Abração e até o próximo!