Longevo

16 Capítulo 16


Sabe quando presenciamos um assalto e não sabemos como reagir? Era mais ou menos esse sentimento que tomava conta do meu peito. Os minutos seguintes, mesmo após a chegada do café, me fizeram mergulhar num profundo mar de hipóteses e situações as quais jamais pensei passar na vida.

Abílio ficou um legítimo super herói, com direito a cumprimentos do gerente e tudo. Imaginei o tamanho de seu ego de ator, agora acariciado por aquela cena dramática de final feliz. Por um lado, foi lindo e bravo, até porque eu mesmo quis fazer alguma coisa e teria o feito se ele não tivesse me impedido.

Mas o que pensava mesmo era: Isso também me aguardava?

Não andaria mais na rua sem que um louco arranjasse justificativas absurdas para me agredir somente por amar alguém?

Questionamentos razoáveis e críveis dadas as circunstâncias.

As palavras de Selma martelavam minha cabeça, fazendo-me acreditar que seria capaz de erguer o mundo se assim quisesse. Contudo, me vinha à cabeça meu pai querendo mostrar o lado vil das pessoas e como elas podem ser cruéis quando querem. O carneirinho aqui, sem forças para ir contra a maré, passivamente viu a vida passar e seu amor quase minguar por completo.

Meus sentimentos estavam confusos, perdidos, tentando buscar a saída mais adequada, uma justificativa que me tirasse daquela segunda onda de confusão vinda em minha direção, quando chego a uma conclusão muito simples: estava velho demais para lidar com aquilo.

Antes mesmo que a xícara de café com chocolate terminasse, pedi ao garçom nossa conta para encerrarmos voltarmos para casa. Lógico que Abílio não compreendeu nada, me encarando como se tivesse pedido para o homem abaixar as calças e não que trouxesse uma simples comanda.

— Passando mal? — indagou-me.

— Parece que cada pessoa aqui dentro está olhando para nossa mesa — fui sincero. De nada adiantava omitir um sentimento o qual ficara evidente — Vamos embora, sim?!

Ao contrário do que presumi que aconteceria, ponderou meu sentimento, aceitando de imediato assim que o garçom se aproximou com a comanda. Tentou nos questionar sobre Pix e Abílio limitou-se a responder que isso era coisa de tela de televisão, arrancando breves risos dele e meus também, por conseguinte.

Recebemos os cumprimentos da gerência do local, sobretudo Abílio, afinal, além de uma estrela de uma série de novelas, fora alçado a herói local. Dois Irmãos teria mais um feito para sua lista. Meu coração mal cabia no peito.

O trajeto de volta foi marcado por mais tentativas de uma aproximação por parte de nossas mãos. Como ansiavam esse contato! Vez ou outra nossos indicadores se encontravam, depois se afastavam no primeiro sentimento de ser vigiado por gente como aquele ignóbil da cafeteria. Outra vez, não fomos fortes o suficiente para fazer aquilo externar de nossas mentes para, enfim, nos fazer entender como é poder compartilhar felicidade com o mundo.

Ao chegarmos em casa, antes mesmo que pudéssemos nos acomodar no sofá, o telefone dele tocou. Era Andria falando sobre um papel para uma peça a estrear no ano seguinte, cujo protagonista se via um senhor homossexual que passara anos num exílio emocional. Sequer cogitou, dando retorno de imediato.

No final da ligação, encarou-me com aquele par de esmeraldas, tão cintilantes quanto uma pérola, falando com convicção:

— Esse é o sinal! — Estava animado como uma criança em seu aniversário — É agora, Aurélio!

— Tem certeza? — Infelizmente, uma parte de mim temia por ele. Ser ator, na sua idade, já trazia consigo restrições. Ser parte de uma minoria, então… — Não é mais prudente aguardar mais um pouco e—

— Mais quarenta anos? — replicou, sem aguardar resposta — Esperar mais quarenta anos para viver a minha vida? Lamento, meu caro, mas não colocarei nas mãos do acaso a possibilidade de ser feliz no presente, sem ter certeza se terei um futuro para aproveitá-la.

Tantos anos atrás a redenção à vontade alheia impediu que nossos caminhos se unissem, abriu feridas que sangravam até aquele momento… Se tanto tempo aguardando não nos dava o direito de tentar, por que uma nova prorrogação o faria?

Diante disso, não pude argumentar: sua justificativa tinha lógica.

E a mim, cabia uma única opção: a de estar junto dele a partir dali.

Notas finais
Aurélio, o rei da sensatez hahaha Gostou? Deixa um review! Abração e até amanhã!