Longevo
11 Capítulo 11
Quase uma semana após ter saído de minha casa, não havia sinais da existência de Abílio. Isso, porém, não impedia que meus pensamentos voltassem a ele vez ou outra. A famigerada consciência pesada.
Meio dia de sexta-feira e como companhia apenas o retrato de Selma e sua carta. Aquela encantadora criatura que tão gentilmente escolheu permanecer ao meu lado, mesmo sabendo de minhas limitações. Mais do que nunca suas sábias palavras faziam falta.
Renata e Carlos revelaram a carta por querer a última vontade de sua mãe sendo realizada. Só não era algo simples.
Todas as dores pelas quais passamos juntos só me faziam ter maior convicção de que, mesmo que Diná Ferreira fosse a calda de Lúcifer sobre a terra, ele tinha dinheiro e influência para esquecer. Não lhe doía a consciência nem por ter um corpo nú ao seu lado que não fosse o dela, tampouco por não ser de uma mulher.
A mim, no entanto, cada vez que observava aquelas belas esculturas egípcias deixando o quarto de algum motel escolhido como ninho da perdição, me sentia enfiando uma faca no coração de Selma. Tudo bem, ela fazia o mesmo, só que, quando se firma uma união matrimonial, para mim, um ignorante completo dessa modernidade toda, é sobre dois corpos se tornando um. Três, quatro ou mais já gera dores de cabeça. Talvez enxaquecas e até aneurismas.
O que, então, deveria fazer? Esquecer os erros cometidos por jovens inconsequentes e viver o hoje?
Buscava no olhar de minha finada esposa no retrato a resposta para minha aflição quando ouço o telefone tocar. Ligavam de uma hospedaria. A moça do outro lado da linha suplicava pela presença de algum conhecido do senhor Abílio, pois este estava passando muito mal e pediu urgente para que fosse alguém lá.
Gelei. Senti meu coração querendo explodir e, na minha idade, não é algo impossível. Dei passos de lebre até o quarto deixando o celular ir ao chão, tomei um comprimido do meu remédio e fui até o primeiro ponto de ônibus que vi pela frente. Nada como perder a carteira por conta de problemas cardíacos…
Não podia ter chegado a hora de Abílio. Não podia. A vida estaria cometendo a terceira maior ferida em minha vida, sem que ao menos pudesse dizer algo capaz de confortar seu coração. Estava ferido, magoado, mas aquilo era demais. O fim precisava ser adiado.
Levei quase uma hora até chegar lá pela demora do coletivo. Julgava ter chegado apenas para me despedir, dado o desespero da moça. Vi de longe as luzes da ambulância ligadas, mas sem movimentação. Bom sinal.
Com o coração na mão e as pernas, já longe de serem boas, frágeis e cansadas, entrei no espaço e pude ver um senhor deitado no sofá recebendo atendimento de paramédicos.
Só que não era Abílio.
Sem entender, fui até a moça na recepção, me identifiquei e expliquei o ocorrido. Seu rosto, na hora, ficou roxo de vergonha.
— Desculpe, senhor. Era Abelardo, não Abílio. Perdão.
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