Locked Out of Heaven
19 Sobre a reciprocidade de sentimentos
Notas iniciais
O nome dele era Austin e ele serviu para aliviar a tensão de Sebastian por algum tempo.
Na sexta-feira, depois de beijá-la, Sebastian saiu do McKinley com o objetivo claro de esquecer o que acontecera naquela sala idiota do clube do coral idiota. Ele passou em casa apenas para tomar um banho e trocar de roupas, além de fazer um rápido lanche – afinal, ele não tinha a intenção de voltar para casa naquela noite. Então ele entrou em seu carro mais uma vez e seguiu para o Scandals, o bar gay de Lima.
Logo que chegou, foi até o bar. O Scandals não tinha uma política muito regular quanto a bebidas, então não era um problema para ele embebedar-se ali. Ele pediu um Submarino; não era seu drink favorito, mas uma única dose o faria chegar ao estado que queria: à beira de um coma alcóolico e pronto pra conquistar qualquer cara na pista de dança. Ele entornou o último gole e seguiu para o aglomerado de homens que já dançavam ao som de uma música eletrônica qualquer na qual ele não prestava atenção.
Depois de alguns minutos, Sebastian reparou num par de olhos que o observava a poucos metros de distância. Ele deu um breve sorriso; não fora assim tão difícil, afinal. Sebastian resolveu aproximar-se e o garoto, que devia ter mais ou menos a sua idade – talvez um pouco mais velho -, sorriu e continuou a dançar, agora acompanhado. Ele disse, alto o suficiente para que Sebastian o ouvisse:
– Eu estava me perguntando quando o veria de novo. Você nunca mais tinha vindo aqui...
– Desculpe, mas nós já nos conhecemos? – Sebastian franziu as sobrancelhas. Ele estava alterado, então era compreensível caso não se lembrasse do garoto.
– Não. Mas eu já tinha te visto antes. Fico feliz por falar com você desta vez. – O garoto abriu um sorrisinho. – Eu sou Austin.
– Sebastian. – Ele respondeu simplesmente. Sebastian avaliou Austin e concluiu que o garoto era muito bonito: pele morena clara, olhos da cor do mel e cabelo castanho.
Os dois continuaram a dançar, tocando-se levemente vez ou outra. Austin chegou um pouco mais perto e Sebastian o beijou. Foi bom, mas nada realmente extraordinário.
– Você quer sair daqui? – Austin perguntou quando eles se separaram. O garoto parecia bem mais empolgado que Sebastian, que respondeu:
– Claro.
Austin puxou-o pela mão até a saída. O garoto olhou Sebastian e pareceu notar o estado de embriaguez dele, porque perguntou:
– Quer que eu dirija?
– Pode ser. Mas e o seu carro?
– Na verdade, um casal de amigos me trouxe. Eles não vão nem notar que eu saí. – Austin tagarelou, enquanto os dois iam até o carro prateado estacionado no final da rua. Sebastian sentou-se no banco do carona depois de ter entregado a chave do automóvel para Austin.
O resto do que acontecera não é difícil de imaginar. Assim que chegaram na casa de Austin, Sebastian não perdeu tempo e começou a beijar o garoto, forçando a camisa que ele vestia para cima, a fim de tirá-la. Austin separou-os brevemente, dizendo:
– Calma, vamos para o meu quarto. Não estamos sozinhos em casa.
– Ok. – Sebastian seguiu o outro até um quarto no final do corredor, depois da sala de visitas. Secretamente, ele deu graças a Deus por não ter que subir escadas, pois não estava em condições de enfrentar degraus, tanto pelo seu baixo nível de sobriedade, quanto pela urgência da situação.
Quando Austin trancou a porta, Sebastian voltou a beijá-lo. Os dois foram se despindo enquanto caminhavam até a cama.
A noite estava só começando.
[...]
Quando Sebastian acordou, estava amanhecendo. Sua cabeça girava e ele estava desorientado. Cenas da noite passada começaram a passar em sua cabeça enquanto ele esfregava seus olhos. Ele sorriu brevemente e olhou para o lado, vendo as costas nuas do garoto que ainda dormia tranquilamente. Sebastian sentou-se na cama devagar e afastou o lençol para um lado, descobrindo o seu corpo nu. Ele levantou-se e começou a catar as roupas jogadas pelo quarto, vestindo-as. Quando estava terminando de amarrar os cadarços de seus sapatos, Austin remexeu-se na cama. Sebastian levantou o olhar e viu que o garoto apenas virara de lado na cama, mas continuava dormindo. Sebastian olhou-o uma última vez e saiu pela porta, fechando-a.
Do lado de dentro, Austin abriu os olhos e encarou a porta. Ele suspirou e agarrou o travesseiro com o cheiro de Sebastian. Alguns minutos depois, voltou a dormir.
[...]
Para sair da casa, Sebastian teria que passar pela sala de jantar, que ficava ao lado da cozinha. O problema é que alguém já estava lá.
Uma garota de aproximadamente 15 anos tomava um copo d’água. Ela tinha os cabelos castanhos bagunçados e vestia apenas uma camisa muito grande para o seu tamanho. Quando ela virou-se, deu de cara com Sebastian, o que a fez arregalar os olhos:
– Caramba! O Austin realmente se superou dessa vez... Você é muito bonito, sabe? – A garota falou, levando o copo até os lábios mais uma vez. Sebastian reparou que ela era bonita, mas não tinha nada de impressionante.
– Sei. Então... Eu já vou indo. – Ele disse, recomeçando a andar.
– Hey! – Ela chamou. – Algum recado para o meu irmão?
– Na verdade... Não.
Sebastian continuou seu caminho e saiu da casa sem olhar para trás.
[...]
Sebastian odiava domingos. Ou pelo menos, aquele domingo.
Ele passara o fim de semana distraindo-se das maneiras mais variadas possíveis, desde transar com Austin até estudar cálculo e ensaiar coreografias para os Warblers. Vendo-se sozinho em casa, ele arrependeu-se de não ter ido passar o final de semana em Columbus. Pensou em Bonnie e em sua mãe. Pensou até mesmo em Thomas, mas nada durou o suficiente para que ele não pensasse em Santana.
Beijara Austin inúmeras vezes durante a noite em que estiveram juntos, mas nada se comparava à sensação de ter tido a latina em seus braços. O que ela fizera com ele? O sexo com Austin fora apenas um paliativo para a vontade imensa que seu corpo sentia depois de ter beijado Santana. E, no entanto, aquilo fora uma despedida. Ou deveria ser, pelo menos. Ela dissera que não queria mais vê-lo — não mais do que o necessário — e ele concordara. Mas como ignorar o que acontecera e agir como se nada tivesse acontecido quando a visse novamente nas Regionais? Não fazia ideia e aquilo estava deixando-o louco.
Lembrou-se então da garota, a irmã de Austin. Ele não sabia seu nome, mas sabia que seus olhos eram castanhos e que as pernas dela ficavam muito bem descobertas pela camisa que ela usava como pijama. Ela era bonita e, se Sebastian gostasse mesmo de meninas, poderia ter transado com ela e não com o irmão. Será que Santana era a única que o fazia questionar a sua própria identidade? Ele odiou-a ainda mais por isso. Ela não tinha esse direito. Sebastian grunhiu e passou as duas mãos pelos cabelos, desarrumando-os.
– Eu te odeio, Santana. Eu te odeio! – Ele falou para si mesmo.
[...]
Maribel tinha os cabelos pretos de sua única filha esparramados em seu colo.
Quando a senhora Lopez chegara em casa, seus planos a curto prazo incluíam apenas um banho e uma troca de roupas. Naquela noite, Jorge estaria de plantão no hospital, então ela sabia que sua noite seria bem monótona. Além disso, pensava vagamente no que preparar para o jantar, caso Santana estivesse em casa. Se a menina não estivesse, ela poderia apenas fazer um lanche ou pedir algo pelo telefone.
Entretanto, quando passou pelo quarto de Santana, a porta estava entreaberta e ela pôde ver a mochila que a filha costumava usar jogada no chão do cômodo, o que a fez abrir a porta devagar e constatar que a latina mais nova estava esparramada na cama, com fones de ouvido, mãos entrelaçadas sobre a barriga e um olhar direcionado ao teto. Santana não esboçou qualquer reação, mas Maribel olhou o rosto da filha e percebeu os olhos inchados e a expressão cansada. Definitivamente, algo estava muito errado.
Ela aproximou-se da cama e retirou delicadamente os fones que Santana usava, falando:
– O que está acontecendo, Santana?
A garota ouviu a pergunta e olhou vagarosamente para a mãe. Depois, apenas voltou a olhar para o teto, sem dizer nada.
Maribel suspirou e retirou os sapatos de salto médio que usava, ficando descalça. Ela sentou-se na cama e pegou a cabeça de Santana delicadamente, levantando-a e colocando-a em seu colo. Então começou a mexer levemente no cabelo da filha, afagando os fios muito pretos. Ela esperou, sem saber quanto tempo Santana demoraria para se pronunciar, ou mesmo se a garota faria isso. Depois de longos minutos, a garota disse com uma voz rouca:
– Brittany terminou comigo.
Maribel nada disse. Apenas continuou seu carinho no cabelo de Santana, que tornou a falar:
– Mas a culpa foi minha. – Santana fechou os olhos com força, como se tivesse sentido uma pontada de dor repentina ou esperasse uma bofetada no rosto. Maribel sabia o quanto aquele tipo de assunto era doloroso, mas também sabia que era melhor que a filha falasse sobre o que sentia do que guardar aquilo para si e acabar sufocada nas palavras não ditas.
– Por que diz isso, querida?
– Porque é a verdade, mamá.
De novo, o silêncio. Até que Maribel perguntou:
– Isso tem a ver com aquela garota de quem você me falou há algum tempo? – Santana assumiu uma expressão confusa, ao que Maribel completou: — Naquele dia em que estávamos na cozinha e você me perguntou sobre o seu pai...
– Ah. Mais ou menos. – Santana disse simplesmente.
– E você vai me explicar? – Maribel olhou nos olhos negros da filha, que desviou o olhar e suspirou.
– Ele não é uma garota, mamá. – Santana fechou os olhos e, quando os abriu, viu a expressão atônita no rosto de sua mãe. Maribel até mesmo parara de afagar os cabelos da filha e Santana teve que esperar um par de minutos antes que a latina mais velha expressasse alguma reação.
– Você está me dizendo... Que está gostando... De um menino? – Maribel perguntou.
– Não. Eu estou dizendo que um garoto me beijou e eu retribuí; em vez de tê-lo afastado, ou batido nele, eu retribuí o beijo. Então eu contei pra B e nós terminamos.
– Mas, cariño, isso não significa nada! – Maribel poderia até mesmo rir, mas, dado o estado de Santana, ela achou melhor manter a seriedade da situação. Mesmo assim, achava engraçado o modo como os jovens encaravam as coisas... “8 ou 80”. A vida estava longe de ser assim. — Foi apenas um momento e você realmente gosta da Brittany, não é?
– Britt não pensa desse modo. – Santana resmungou.
– E você pensa? – Maribel rebateu. – Pensando bem, hija, não acho que tenha sido algo de momento.
– O quê? – Santana agitou-se e levantou num impulso, sentando-se de frente para a mãe. – Por quê?
– Há algumas semanas, você me diz que está confusa sobre alguém. Agora, esse garoto te beija. A atitude de Brittany não me surpreende, afinal. Esse garoto está realmente mexendo com você, Santana.
– Mas eu não quero isso, mamá! Não quero! – A garota exclamou.
– Tudo bem, cariño, tudo bem. Então tire esse tempo sozinha para esquecer tudo isso. – Maribel disse, apesar de saber que era um conselho inútil. Santana não esqueceria. Pelo contrário, ela passaria os próximos dias e semanas pensando em tudo que acontecera e que estava acontecendo. No entanto, Maribel sabia que, naquele momento, palavras de conforto eram melhores do que a verdade nua e crua. — Distraia-se. Coordene as Cheerios, ganhe as Regionais e estude, é claro. É tudo que você pode fazer no momento. Além de parar de chorar, é claro. – Ela passou uma mão pela bochecha direita de Santana, que assentiu brevemente.
– Eu queria que as coisas fossem assim tão fáceis, mamá.
– Elas serão, Santana. Quando o tempo passar e você esfriar a cabeça, poderá ver que elas não são assim tão complicadas. – Maribel disse, mas Santana continuou em silêncio. – Vamos fazer assim: eu vou tomar um banho e depois você vai descer e me ajudar a preparar o jantar. Você pode escolher o que nós vamos comer hoje, está bem?
– Ok. – Santana disse, sorrindo minimamente.
Santana viu a mãe sair do quarto e seu sorriso desmanchou-se. Ela deitou-se na cama mais uma vez; sabia que não podia culpar o garoto pelo que tinha acontecido, mas isso não a impediu de dizer baixinho:
– Você me paga, Smythe. Você me paga!
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