Notas iniciais
Prometo que esse é o último capítulo sem uma interação dos dois.

Nos dias que passaram, Emma observou Sebastian atentamente.

Ela não poderia estar mais feliz, porque seu filho estava em casa. Entretanto, felicidade era a última coisa que Sebastian aparentava sentir. Ele passava longas horas em silêncio. Lendo, estudando ou sentado ao piano, dedilhando algumas notas com ar pensativo. Bonnie era sua principal companhia. Com apenas 6 meses, ela era um bebê muito inteligente; o pouco cabelo que tinha era louro-escuro e seus primeiros dentes já estavam nascendo. Seus grandes olhos azuis refletiam adoração toda vez que ela olhava para o irmão, parecendo verdadeiramente reconhecê-lo, o que deixava Sebastian “babando” pela garotinha. Várias vezes, ele sentava-se no chão da sala de estar e apoiava Bonnie em seu colo, então oferecia brinquedos para que ela pegasse e contava pequenas estórias para ela. E quando ela resolvia atirar objetos para longe, Sebastian nunca perdia a paciência. A tudo isso Emma assistia em silêncio, e aquelas eram as únicas ocasiões em que via seu filho rir de verdade. Definitivamente, algo estava errado.

[...]

Era sábado e já estava quase anoitecendo. Emma passara a semana mantendo diálogos curtos com Sebastian e já não aguentava mais aquilo. Por fim, resolveu conversar com o filho antes que seu marido voltasse de viagem, o que deveria acontecer até o final do dia.

– Sebastian? – Ela chamou antes de entrar no quarto do garoto.

– Sim? – Ele tirou um dos fones de ouvido que usava e fitou a mãe na soleira da porta.

– Posso entrar? – Emma estava hesitante.

– Claro. – Sebastian disse, tirando os fones de ouvido e sentando-se a fim de abrir espaço na cama para que ela sentasse. Emma entrou no quarto, e puxou a porta, sem chegar a fechá-la por completo. Ela sentou-se e olhou para as mãos em seu colo, sem saber como começar; Sebastian estranhou aquilo. – E então...?

– Hum... Sebastian... O que está acontecendo? – Emma levantou os olhos e viu a confusão no rosto do filho.

– Como assim, mãe?

– É que... Você está diferente. Muito diferente. E não é de um jeito bom. Você está... triste, melancólico... Pra ser sincera, eu não sei nem mesmo como definir o que vejo, então gostaria que me dissesse. – Ao ouvir tais palavras, Sebastian ficou em silêncio. Não sabia como responder ou “o que” responder. Emma respirou fundo, tomando coragem – afinal, nunca tivera aquele tipo de conversa com o garoto -, e disse: — É algum garoto?

– Quê? – Os olhos de Sebastian pareciam saltar de surpresa.

– Você sabe, filho. Algum rapaz de quem você esteja gostando...

– Ah, sim... Quer dizer, não! Não, mãe. Não é isso. É que... – Sebastian fitou a mãe, pensando se deveria ou não falar alguma coisa. Ele viu ansiedade refletida nos olhos cor de chocolate e percebeu que, se não pudesse confiar na própria mãe – provavelmente a pessoa que mais se importava com ele em todo o mundo -, não poderia confiar em ninguém.

– É que...? – Emma incitou.

– É que... Tem essa garota. – Ele começou com cuidado, esperando pela reação dela, então foi fácil identificar a surpresa, pra não dizer choque, que ele viu passar pela expressão de Emma. Mas ela permaneceu em silêncio, então ele continuou: — Eu... Bom, eu não sei como explicar. Mas é que... Ela tem me deixado confuso, sabe? Ela é diferente de todas as garotas, aliás, de todas as pessoas que eu já conheci. Ela é forte e ao mesmo tempo frágil, determinada, mas imprevisível; e ela é linda, mãe. Meu Deus, como ela é linda... E eu sei que ela não quer nada comigo, nem nunca vai querer. – Sebastian despejava as palavras e sentia que era um alívio poder falar tudo aquilo em voz alta, com alguém para ouvir tudo aquilo que o vinha perturbando por dias. Nesse momento, ele pensou que realmente precisava de amigos. Mas esse era um problema menor diante do que estava lidando.

– Filho, bem... Eu não sei nem o que dizer. Uma garota? Uau! Eu realmente não esperava por isso...

– Nem eu, mãe... Eu também não esperava... – Sebastian disse.

– Mas, filho, por que você está dizendo que ela nunca vai querer nada com você? Você não pode saber disso. Você é bonito, talentoso e cheio de qualidades... – Emma exibia um sorriso encorajador no rosto, mas Sebastian continuava sério. – Por que ela te dispensaria?

Sebastian não sabia se deveria dizer que a garota em questão gostava de outras garotas, mas não fez diferença, porque ele não teve tempo para se decidir. Eles ouviram um barulho que parecia vir do final do corredor e os dois olharam para a porta ao mesmo tempo. Alguns segundos depois, Thomas Smythe apareceu na soleira da porta; seu olhar recaiu imediatamente sobre Sebastian e o garoto não poderia dizer o que estava se passando pela cabeça do pai naquele momento.

– Tom! – Emma exclamou. Ela levantou-se da cama e aproximou-se do marido. – Você e essa sua mania de andar silenciosamente pela casa! Sabe que não gosto disso. Há quanto tempo está aqui?

– Na verdade, acabei de chegar. Achei que ia encontrá-la na sala, mas como você não estava lá, subi e fui direto para o quarto da Bonnie. Ela dorme como um anjo, querida. – Thomas respondeu. Ele deu um beijo na testa de Emma, que passara os braços pela sua cintura, abraçando-o. – Olá, Sebastian. Vejo que chegou para o natal. Há quanto você está aqui? – Ele perguntou, num tom cordial, mas também muito formal.

– Há algum tempo. – Sebastian continuava sentado em sua cama. Ele não fizera nenhuma menção de levantar e se aproximar do pai. E nem faria. Em vez disso, olhou para a mãe, numa tentativa de alertá-la em silêncio para que ela mantesse em segredo o assunto o que há pouco conversavam. Ela pareceu entender, porque assentiu minimamente. Emma olhou para Thomas e disse:

– Vamos, você deve estar cansado. Aposto que algo atrasou, não é?

– Aquele maldito avião! Parece quase uma tradição o voo atrasar sempre que viajo para Washington... – Thomas começava a relatar enquanto ele e Emma deixavam o quarto do filho.

Sebastian suspirou e recostou-se mais em sua cama, fechando os olhos. Agora que o pai estava de volta, ele não fazia ideia do que esperar de suas férias de fim de ano. Em ocasiões normais, ele alfinetaria Thomas de todas as formas possíveis, mas, desta vez, ele não estava com a mínima vontade de provocar brigas. Não estava em condições para isso. A única coisa que ele poderia querer agora era que as festas passassem logo para que ele pudesse voltar para a mansidão de Lima no começo de janeiro. Até lá, ele só precisava sobreviver.

[...]

Na noite de natal, tudo correu razoavelmente bem.

A ceia fora magnífica e já era quase 1:00h da madrugada quando Sebastian estava finalmente no quarto, pronto para dormir. Antes que pudesse se deitar, ouviu duas batidas na porta.

– Entre. – Ele disse simplesmente, imaginando que fosse a mãe. Mas não era. Na soleira da porta estava Thomas, como na noite em que chegara, diferente apenas pelas roupas que vestia esta noite. – O que você quer? – Na ausência de Emma, Sebastian não se importava em tratar o pai com polidez.

– Falar com você, filho.

– Filho? Então agora eu voltei a ser seu filho? – Sebastian já começava a exibir o sorrisinho irônico.

– Você nunca deixou de ser meu filho, Sebastian. – Thomas estava sério. Ele poderia convencer qualquer pessoa que o ouvisse e talvez por isso tenha sido um advogado tão brilhante; mas não Sebastian. As palavras que ouvira meses atrás ainda o assombravam e ele não as esqueceria tão facilmente, tampouco deixaria que o pai as esquecesse.

– É mesmo? – Sebastian replicou em tom incrédulo. – Se bem me recordo, você disse que...

– Eu sei o que eu disse! – Thomas interrompeu. – Eu estava de cabeça quente...

– Ah, você estava de cabeça quente? – Foi a vez de Sebastian interromper, continuando num jorro de palavras: — E tem estado de cabeça quente por meses? Estava de cabeça quente enquanto cuidou calmamente da minha matrícula na Dalton? Estava de cabeça quente quando assinou o contrato de aluguel da casa em que eu tenho morado desde agosto? Eu acho que não. Lembro que você até comentou o jogo dos Sox com o corretor de imóveis. É, pai. Eu lembro. Lembro de cada detalhe. Lembro de como você esperou no carro enquanto mamãe se despedia de mim em Lima. Lembro de você segurando a Bonnie, sem olhar nos meus olhos sequer uma vez. Eu lembro de tudo. E não vou esquecer.

– Sebastian, escuta. Quando você me contou tudo... Eu não tinha ideia de como reagir. De repente, o meu filho – meu filho tão querido e amado – estava ali na minha frente me dizendo que gostava de homens do jeito que deveria gostar de mulheres, do jeito que eu sonhei que ele gostasse de mulheres. De repente, todo o futuro que eu havia sonhado e planejado – você casado, com uma bela esposa e filhos... Filhos parecidos com você e comigo: netos para mim e para sua mãe, tudo isso, de repente, se perdera. Mais do que isso, você se perdera. O filho que eu amei tanto, por toda a minha vida, estava ali e eu já não o reconhecia mais. Como eu pude não perceber que você é gay, quando nós sempre tivemos uma relação tão próxima? Como eu pude não perceber? Eu sou seu pai, sou, ou pelo menos fui, o seu melhor amigo. Como eu nunca percebi nada de diferente?

Thomas olhava Sebastian nos olhos, como há muito tempo não o olhava: como um pai que olha seu filho. Todas aquelas palavras afetaram Sebastian; ele nunca tinha ouvido o pai falar sobre como ele enxergava toda aquela situação. Não além dos insultos e palavras dolorosas. Pela primeira vez, Thomas estava ali, à sua frente, tentando conversar sobre o assunto que tanto o indignara. E, por mais que quisesse manter o muro de amargura e sarcasmo que criara para proteger-se, Sebastian não conseguia pensar em nada nem ligeiramente insultante para falar. Estava surpreso demais para isso.

– Eu não sei, pai. Eu já não sei mais de nada. – Foi a resposta mais sincera que conseguiu dar. Thomas ficou em silêncio por alguns segundos e então recomeçou:

– Sei que estou longe de ser o melhor pai do mundo. E sei também que o magoei muito. Mas... Desculpe, Sebastian. Desculpa esse velho que tem a cabeça mais velha ainda e que tem péssimas reações quando algo o surpreende ou contraria. Sinto muito pelo meu comportamento e por todas as minhas palavras. Eu sou seu pai e, sei que você deve duvidar disso, mas, eu te amo incondicionalmente. Você é só uma criança... Pelo menos pra mim, você é. Uma criança que precisava do carinho e compreensão do pai. E eu falhei. Me desculpa por ter falhado, filho. Me desculpa... – A voz de Thomas estava embargada de emoção.

Sebastian passara do espanto inicial ao completo choque. Aquilo estava mesmo acontecendo? Ele estava sonhando? De onde vinha tudo aquilo? Várias perguntas brotavam em sua cabeça, mas, à medida que seu pai falava, nada daquilo importava. Lágrimas começaram a encher seus olhos contra a sua vontade. E ele se sentia tão pequeno... Como o menino que acabara de cair e ralar os joelhos no treino de lacrosse, o menino que correra para os braços do pai e recebera um picolé como remédio para os joelhos machucados. Ele queria muito correr e abraçar o pai – aquele fora o seu desejo por muito tempo – mas não sabia o que pensar, não sabia se deveria acreditar naquelas palavras. Ele confiava em Thomas com todo o seu ser até alguns meses atrás e com isso só conseguira se machucar. Sebastian não queria se machucar outra vez.

– Agradeço todas as suas palavras; você não tem nem ideia do quanto eu esperei ouvi-las. Mas eu preciso de tempo. Tempo pra pensar em tudo... Tempo pra perdoar você. – Sebastian fungou, enquanto Thomas assentia com a cabeça.

– Tudo bem. Leve o tempo que quiser. – Ele já caminhava em direção à porta, quando disse: — Eu amo você com o meu coração. – E saiu do quarto.

– E eu amo você com toda a minha alma. – Sebastian respondeu, as lágrimas finalmente escorrendo livremente pelo rosto. Ele limpou-as rapidamente, enquanto lembrava das tantas vezes que aquele mesmo jogo de palavras fora repetido entre ele e Thomas.

Do lado de fora, Emma ouvira tudo com um sorriso no rosto. Quando Thomas saiu, ela segurou sua mão e foram juntos para o próprio quarto.

Do lado de dentro, o celular de Sebastian apitava a chegada de uma nova mensagem. Ele pegou o aparelho e sentou-se na cama ao mesmo tempo em que o desbloqueava.

“Feliz Natal! J

– Blaine.”

Sebastian sorriu e começou a digitar.

[...]

No dia de sua volta à Lima, Sebastian estava colocando uma mala no porta-malas do carro, Emma e Thomas abraçados na calçada e Bonnie no colo de Emma, observando os movimentos de Sebastian. Toda vez que ele fazia menção de se virar, ela esticava os bracinhos em sua direção. Sebastian trancou o porta-malas e virou-se, abraçando a mãe.

– Não demore tanto a voltar, querido. – Emma disse, passando Bonnie para o filho. A garotinha tocou o rosto de Sebastian, sorrindo.

– Volte quando estiver pronto. – Thomas disse, quando Sebastian olhou em sua direção. Era impressionante o quanto os olhos do filho eram iguais aos seus.

– Tudo bem. Tchau, princesa. – Sebastian apertou a irmã em seus braços, beijando sua bochecha gorducha. Quando ele passou-a de volta para o colo da mãe, Bonnie começou a chorar, então Emma virou-se para entrar em casa, levando a filha consigo. Por sobre o ombro, ela disse, dando um breve olhar significativo: — Ligue-me se precisar de alguma coisa, Seb, qualquer coisa! – E então entrou em casa rapidamente. Ela também não gostava muito de despedidas.

Sebastian deu a volta e entrou no carro. Deu a partida e, antes de dobrar a esquina, viu seu pai ainda parado o olhando.

Ele ligou o som e deu play na música que já estava selecionada. Não sabia o que pensar de tudo o que aconteceu em tão curto espaço de tempo.

“E todas as estradas que temos que percorrer são tortuosas
E todas as luzes que nos levam até lá nos cegam
Há muitas coisas que eu gostaria de dizer a você
Mas eu não sei como...”

Ele cantarolou junto com a música. E então, ele pensou em Santana. De novo. Ultimamente, passara muito tempo pensando nela. Em como, mesmo que quisesse tentar algo, era praticamente impossível que ela retribuísse seja lá o que ele estivesse sentindo por ela. Além disso, seu pai começava a aceitar seu gosto pelos garotos. Ele não estragaria isso começando a gostar de uma garota. Assim, só restava uma opção.

Acabar com algo que nem começara.

– Você nunca ia querer ser minha... Então eu também não me permitirei ser seu, Santana Lopez.

Notas finais
Então, o que acharam? O trechinho de música é de Wonderwall, do Oasis.