Locked Out of Heaven
13 Santana's Reaction
Notas iniciais
Santana saíra como um furacão da Dalton Academy.
Todo o seu caminho de volta para casa passou em um borrão e ela não tinha certeza da velocidade a que estava dirigindo, mas achava que, no mínimo, estava a uns 80 km/h. Tinha sorte de não ter encontrado nenhum dos policiais gordos e preguiçosos de Lima. Menos mal. Eles deveriam estar muito ocupados comendo donuts.
Ela estacionou o carro na garagem e já estava dando a volta no jardim para entrar em casa; parecia participar de uma maratona, mas a verdade é que ela não queria ter tempo para respirar e, muito menos, para pensar. Entrou em casa e escutou barulhos na cozinha. Olhou o relógio e ainda não eram sete horas. Maribel chegara em casa mais cedo do que de costume.
– ¿Mamá? – Santana chamou.
– ¡Hola, hija! ¿Tienes llegado ahora? ¿Dónde está su uniforme de las Cheerios?
– É que hoje eu tomei banho e me troquei na escola. – Santana respondeu. Maribel ergueu as sobrancelhas pela falta do espanhol, mas nada disse. – O que está fazendo?
– As enchiladas de frango que o seu pai adora. – Santana não pôde deixar de reparar no pequeno brilho a mais que sempre aparecia nos olhos de Maribel quando ela falava de Jorge. Ela sentou-se em uma das cadeiras da mesa na cozinha e, depois de um breve momento de silêncio, ela resolveu perguntar: — Mamá... Como você soube que amava o papá?
– A pergunta não é “como”. Eu acho que sempre soube que o amava... – Maribel suspirou. — A pergunta é “quando”. Então, quando eu me dei conta? Eu realmente não sei, hija. As coisas simplesmente foram acontecendo e um dia eu acordei e resolvi que não podia viver sem ele. Felizmente, ele também chegou a essa resolução. – Ela sorriu. – Acho que o importante é não pensar muito, não quebrar a cabeça com esse tipo de coisa. Se for pra ser, será. E não revire os olhos para mim! É clichê, mas é verdade.
– Mas então... O que foi mais importante pra você ter ficado com o papai? Ele era bom de cama? – Santana perguntou. Ela estava sentada à mesa da cozinha e acompanhava os movimentos da mãe atentamente.
– Não, ele não “era”. Ele ainda é. – E então soltou uma gostosa gargalhada ao ver a careta que Santana exibia. – Mas não se trata do sexo, Santana. Por mais que nós não conseguíssemos ficar sozinhos num quarto sem que começássemos a...
– Tá bom, mamá. Eu perguntei por perguntar, mas... Sem detalhes! – Santana a interrompeu antes que ela pudesse continuar.
– Tudo bem. – Maribel ergueu as mãos, em forma de rendição. – Continuando: não, não era só isso, apesar de essa ser uma parte essencial. A chama nunca deve apagar, Santana. Mas, além disso, seu pai conseguia me entender mais do que qualquer outra pessoa. – Santana sorriu, pensando em Brittany. Mas o sorriso logo se desfez quando sua mãe continuou: — Mas não só me escutar, ele realmente me entendia. Às vezes, parecia até que lia meus pensamentos. Com ele, eu sempre pude conversar sobre todo e qualquer assunto. Ele nunca me julgou e sempre fez tudo por mim, o que me deixou com vontade de fazer tudo por ele. Foi isso que nos uniu e nos une até hoje.
Santana ponderou aquelas palavras. Será que o seu relacionamento com Brittany era assim? Ao ver a testa franzida da filha, Maribel perguntou:
– Com dúvidas sobre Brittany?
– É complicado, mamá... Eu nunca tinha tido dúvidas sobre ela, mas agora... Eu não sei o que pensar. – A latina mais nova balançou a cabeça.
– Aconteceu alguma coisa? – Maribel a encarava, mexendo ingredientes numa tigela. Santana não tinha certeza se deveria realmente falar alguma coisa, mas resolveu arriscar.
– Não alguma coisa. Talvez seja... Alguém. – Ela ergueu os olhos devagar para observar a reação de sua mãe.
– Hum... Bom, Brittany é uma ótima garota, hija. Mas, se você está com dúvidas, ainda mais por causa de uma outra pessoa...
– O que, mamá? O que eu devo fazer? – Santana parecia ansiosa e Maribel ficou feliz por constatar que a sua garotinha estava ali, querendo realmente saber sua opinião. Eram raros aqueles momentos.
– Você é jovem, querida. Deve aproveitar sua juventude para fazer tudo o que tiver vontade. Mas lembre-se de que você não está sozinha. Você tem a Brittany agora e eu odiaria ver você triste por ter magoado uma pessoa que, além de namorada, foi sua amiga por tanto tempo. Pense com cuidado no que vai fazer, Santana.
– Magoar Brittany? – Santana encarou a mesa, preocupada.
– Sim. Se você está atraída por outra garota, mesmo estando com ela... – Maribel começou, mas percebeu que, de repente, Santana ficara tensa na cadeira. – O que foi? Eu disse algo de errado?
– Não, mamá. Não é nada. Eu... Eu vou subir para o meu quarto, está bem? Estou um pouco cansada do treino, vou me deitar. O jantar ainda vai demorar, certo?
– Sim, um pouco. – Maribel respondeu. Estava desconcertada com o modo como a conversa acabara, mas, quando se tratava de Santana, era melhor não insistir. Em seu devido tempo, a garota se aproximaria novamente.
[...]
Santana entrou em seu quarto e, após retirar as botas e a jaqueta, jogou-se na cama. A breve conversa com Maribel e os recentes acontecimentos a deram muito em que pensar.
O que estava acontecendo? Ela sentira coisas naquela sala de coral... Coisas que não deveria sentir. Sebastian a deixara sem saber o que fazer, sem saber como reagir. O mesmo Sebastian que há algum tempo atrás conversara com ela em um momento difícil; o mesmo Sebastian que a aconselhara a não parar de cantar porque perdera as Seccionais; o mesmo Sebastian que fora rude com Kurt e que dava em cima de Blaine... O que tudo aquilo significava? Ela não fazia ideia. Mas era a primeira vez que agradecia pelo fato de Brittany ir passar as festas de fim de ano na Holanda. Assim, ela poderia pensar em tudo com calma.
Resolveu então ligar para a única pessoa que poderia ajudá-la nesse momento:
– Alô? – A voz respondera depois de quatro toques.
– Quinn, podemos fazer nossas compras de natal amanhã? – Santana perguntou e Quinn achou que a voz da latina era a de quem tinha acabado de chegar de um enterro.
– Hum... Isso não é sobre as compras, não é? – A loira perguntou.
– Não. – Santana confirmou.
– Amanhã depois da aula?
– Sim.
– Combinado.
– Quinn?
– O quê?
– Obrigada.
– Não há de que, pequena San.
Santana desligou o telefone e, quando já estava quase adormecendo, ouviu a voz de Maribel chamá-la para o jantar.
[...]
– Você não acha que sentar no colo dele foi um pouco, só um pouco, demais? — Quinn analisava uma blusa vermelha em uma das lojas do Lima Mall.
– Primeiramente, Quinn, acorda! Você não prestou atenção na parte em que eu falei que ele me pegou no colo e me jogou em cima de um piano e, depois, me abraçou? ELE ME ABRAÇOU! A-BRA-ÇOU! Ele ultrapassou qualquer limite... Eu só entrei no jogo. Em segundo lugar, vermelho é a minha cor, Q. Não a sua. — Santana pegou a blusa que Quinn segurava e posicionou a peça à sua frente, mirando-se em um espelho. Quinn revirou os olhos.
– Você é insuportável. — Quinn disse, mas começou a procurar outra blusa. Em seguida, continuou: — É, se não fosse pelo abraço, eu até poderia classificar essa cena como levemente pornográfica... Ele te agarrou e te jogou num piano, Santana! Isso foi quente, você não pode negar...
– É, pode até ser. Mas nós estamos falando do Sebastian Smythe, Quinn. E de mim! O que temos em comum?
– A falta de vergonha na cara?
– Não, vadia. Toda essa coisa de homossexualidade. Eu gosto de mulheres, ele gosta de caras... Você sabe. — Santana deu de ombros.
– Hum... Talvez esse não seja um problema tão grande quanto parece, S. Acho que você está com a cabeça no problema errado. O ponto é: você tem uma namorada. E, até onde me lembro, você a ama. A pergunta, então, seria: por que você está sentindo um calor incômodo quando Sebastian Smythe está cantando pra você? — Quinn abandonou a procura por roupas e virou-se para a amiga a fim de encará-la.
– Não estou sentindo calores incômodos... — Santana começou, mas Quinn a interrompeu:
– Qual é, Santana! Pra cima de mim? Você costumava ser uma máquina ambulante de hormônios fervendo, pronta pra saltar em qualquer coisa que se mexesse na sua frente. Por que seria tão impossível que esse garoto, Sebastian, acordasse esse seu lado? Além disso, se você não estivesse tão preocupada com o que ele te provoca, não estaria me relatando isso com todos esses mínimos detalhes. — A loira ergueu uma sobrancelha, dando seu típico olhar para uma Santana que não queria olhá-la nos olhos.
– E se for isso? E se eu estiver mesmo atraída por ele? – Quando Santana ergueu os olhos, Quinn pôde perceber um misto de medo e preocupação ali. A latina continuou: — Eu não quero sentir isso, não por ele. Nem por ele, nem por qualquer homem, só por Brittany. Eu sou lésbica.
– Santana, você prestou atenção nas suas palavras? "Só por Brittany", "lésbica". É isso mesmo, você se apaixonou pela Brittany, mas isso faz de você lésbica? — Quinn disse, saindo da loja. Aquele não era o local ideal para aquele tipo de conversa, mas já que o assunto surgira...
– Até onde eu sei, gostar de uma garota, sendo uma garota, me faz lésbica. — Santana franziu o cenho. Quinn revirou os olhos.
– O que eu quero dizer é que você só se apaixonou uma vez na vida e foi pela Britt. Mas podia ter sido por qualquer um, garoto ou garota. Você nunca gostou de nenhuma garota além dela pra ter certeza de que é mesmo disso que você gosta. E, pelo que eu me lembre, você não queria abrir mão do Puck há algum tempo atrás. Sei que você não o amava, mas... Você não vê? Você se diz lésbica, mas... E se não for?
– Você está questionando minha opção sexual? Depois de tudo o que passei para aceitar isso... Eu não acredito que você, de todas as pessoas... — Quinn podia ver que Santana já começava a se alterar, então se apressou a completar:
– Não, S. Não! O que estou querendo dizer é que você não tem que se rotular. Você não precisa disso. Eu volto a dizer: o problema não é ele ser um cara. O problema é que você não está solteira.
– Então você está dizendo que devo terminar com a Britt? — Santana cruzou os braços, com um olhar descrente no rosto.
– Não. Estou dizendo que você deve pensar com cuidado sobre o que fazer. – Eram quase as mesmas palavras que Maribel proferira na véspera. Santana escutava com atenção: — Não se trata só de você. Se você não estivesse com a Britt, poderia pular no pescoço desse Sebastian e fazer o que quisesse com o corpo nu dele. Aposto que ele ia até gostar. Mas você está namorando agora. E eu sei que você não quer magoar a B.
– Você tem razão... Sobre a parte de magoar a B. Mas o que você quer dizer com “ele ia até gostar”? – Santana fez aspas com as mãos.
– Qual é, San! Eu sei que você não é burra, mas ultimamente você anda tão lenta que me dá nos nervos. AI! – A morena acabara de dar um tapa no braço da amiga. Quinn continuou: — De qualquer modo, eu duvido que isso seja uma via de mão única; nunca te ocorreu que ele também deve estar “louco de desejo”? – A loira repetiu o gesto da latina de fazer aspas com as mãos.
– Também? Eu não estou louca de desejo! – A morena exclamou. Mas Quinn continuou:
– Ah-ah! Não me interrompe quando eu tô falando com você! E mais: você já pensou que ele pode estar tão confuso quanto você? Afinal de contas ele, supostamente, gosta de homens.
– Eu... – Santana não sabia o que dizer. – Você acha?
– Sim, eu acho. Quer dizer, olha só esse pacote latino! Caliente como el fuego!
– É, eu sei. Mas isso não afetaria um gay. – Santana disse descrente.
– Se você é gay e está nessa confusão, eu duvido que ele também não esteja, S.
– Talvez. Mas, como eu posso ter certeza?
– Bom... Temos as Regionais a caminho, não temos? – Quinn piscou um olho. – Você tem tempo de sobra pra pensar em alguma coisa.
– Quinn, você é incrível! – Santana disse, beijando-a no rosto. Quinn fez uma cara surpresa pela demonstração de afeto e começou a rir. – O que vai querer de natal esse ano?
– Fico feliz que tenha perguntado! Eu vi um conjunto de pincéis incríveis na MAC outro dia e tem uma blusa que eu vi numa vitrine por aqui...
A partir daí, Santana tentou aproveitar ao máximo o passeio. Tudo estava bem. Ela tinha Quinn e tinha as férias de natal para refletir melhor sobre sua situação; ainda mais agora, que deveria começar a cogitar a possibilidade de Sebastian se sentir do mesmo jeito que ela. Ela só não podia se desesperar. Respirou fundo e entrou com Quinn em mais uma loja.
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