Locked Out of Heaven
28 Negação x Aceitação
Notas iniciais
Era domingo à noite e Maribel começava a preparar o jantar quando Santana passou pela porta da cozinha.
– Mamá? – Santana chamou, enquanto se sentava à mesa. – Eu estava falando com a Quinn e ela me disse que a mãe dela vai chegar tarde hoje, porque está participando de algum evento chato na igreja, então eu a convidei para jantar conosco. Espero que não tenha problema.
– Não, problema nenhum. Eu estou mesmo fazendo uma receita que tem quantidades generosas de bacon. – Maribel respondeu, sorrindo. O amor de Quinn pelo bacon era de conhecimento geral.
– Bem, talvez essa seja a última oportunidade dela aproveitar alguma comida desse tipo, então eu acho que você acertou em cheio. – Santana comentou.
– Por que “última oportunidade”? – Maribel ergueu as sobrancelhas enquanto enxugava suas mãos em um pano de prato.
– Quinn está voltando para as Cheerios. – Santana sorriu. – Ela começa amanhã e vai ser engraçado quando ela se der conta de que terá que me obedecer a partir de agora. De qualquer forma, a treinadora Sylvester não ia gostar nada de ter uma das garotas acima do peso, então a Fabray vai ter que se cuidar daqui pra frente.
– Quanta bobagem! Quinn é tão magra quanto você. – Maribel replicou. – De qualquer forma, fico feliz por ela. Mas não quero saber de você abusando da sua posição de capitã, ouviu?
– Ah, mãe... – Santana revirou os olhos e Maribel riu. Elas ficaram em silêncio por alguns instantes, antes da latina mais velha recomeçar:
– Sabe, hija... Aproveitando que estamos falando sobre a Quinn, eu queria mesmo te perguntar uma coisa. – Maribel começou e Santana pôde perceber que a mãe estava sem jeito.
– Sim?
– Você e a Quinn estão namorando? – Maribel encarou a filha seriamente.
– O quê?! – Santana começou a rir. – Ah, mamá... Você é muito engraçada!
Vendo que a filha ainda ria, Maribel respondeu:
– Em minha defesa, quero dizer que é uma hipótese perfeitamente plausível considerando como vocês têm passado tanto tempo juntas. Você tem dormido na casa dela, ela sempre vem aqui em casa e, bem, vocês duas estão solteiras, não é?
– Não, madre, pode parar por aí! – Santana interrompeu o raciocínio da mãe. – Eu não estou namorando a Barbie princesa. Quinn é linda, inteligente e tem uma bunda que é realmente de se admirar, mas ela é só minha amiga. Sério. – A garota acrescentou vendo a expressão ligeiramente incrédula de sua mãe.
Para Maribel, Santana às vezes era sincera demais.
– Bem... Me desculpe então. Eu só estava curiosa. Você tem mesmo passado muito tempo com ela, dormindo fora algumas noites... Além disso, Quinn é mesmo uma ótima garota e...
– Mãe! – Santana interrompeu-a novamente. Maribel encarou a filha e a latina mais nova suspirou. – Talvez você deva saber que eu não estava exatamente na casa da Quinn nas noites em que dormi fora.
– O quê? Onde você estava então? – O tom de voz era sério e Santana poderia levar uma bronca, mas a curiosidade de Maribel era maior do que a vontade de repreender a filha por ter mentido.
– Bem, eu... Você se lembra do que eu te disse das últimas vezes em que conversamos sobre esse tipo de coisa?
– “Esse tipo de coisa” seriam os seus sentimentos? – Maribel perguntou, sentando-se em frente à filha. Santana assentiu minimamente. – Sim, eu me lembro. E me pergunto se você finalmente vai me falar sobre o tal garoto misterioso. – A latina mais velha comentou. Então ela deu-se conta: — Espere aí... É isso que você está tentando me dizer? Você estava com esse garoto o tempo todo? E não me disse nada?!
Maribel atropelou-se em perguntas e Santana revirou os olhos para a ansiedade da mãe.
– Antes que a senhora fique aí toda animadinha, não foi nada demais, tá? Eu só tô te dizendo isso pra você parar de achar que eu estou apaixonada pela Fabray.
– Então é por esse garoto que você está apaixonada agora? – Maribel rebateu.
– Maribel Lopez: você só pode estar louca. – Santana jogou as mãos para o alto, impaciente.
– Ah, cariño... Você está na fase da negação. Estou reconhecendo os sinais. Vai ser tão bom acompanhar o processo dessa vez! Você sempre foi tão fechada sobre Brittany... – Maribel parecia encantada. Definitivamente, Santana não poderia mais tocar naquele assunto com a mãe. Quinn teria que aguentar tudo sozinha.
– Mamá, já chega. Eu não estou apaixonada e também não vou voltar a dormir na casa dele. – Santana disse emburrada.
– Então por que me contou sobre isso? – Maribel questionou. Santana assumiu uma expressão confusa e a mulher acrescentou: — Você poderia muito bem me deixar acreditando que você dormiu na casa da Quinn por algumas noites. Mesmo eu tendo perguntado sobre estarem juntas, você poderia somente negar. Mas não, você resolveu me contar que dormiu com esse garoto. Por que, Santana?
A garota ficou alguns segundos em silêncio antes de responder:
– Não sei, mamá. — Santana admitiu. — Mas também não importa. Não vai mais acontecer.
– E da primeira vez você também achou que não ia se repetir? – Maribel perguntou perspicaz.
– Como sabe disso? – Santana ergueu as sobrancelhas.
– A confusão sempre está presente quando nos apaixonamos, Santana.
– Eu. Não. Estou. Apaixonada! – Santana falou pausadamente. Por que Maribel não entendia? – Estou furiosa!
– Raiva também faz parte, hija. – A latina mais velha parecia se divertir.
– Ok, mãe. Já deu. Eu vou subir e esperar a Quinn no meu quarto. – Santana deu as costas e saiu da cozinha sem dar tempo para que sua mãe respondesse qualquer coisa.
“Um garoto...” – Maribel pensou. Ela só conseguia imaginar como seria quando Santana se desse conta de seus verdadeiros sentimentos. – “Espero que Santana não o mate até lá.”
[...]
“Por que ela mexeu nas minhas coisas?”
“Por que ela pegou o número do meu celular?”
“Por que ela me deixou o número dela?”
“Por que meu moletom favorito está em cima da minha cama e tem o cheiro dela?”
“Por que eu estou agindo como um idiota, me preocupando com tudo isso?”
“Por que ela me afeta desse jeito?”
“Por que ela?”
Essas eram apenas algumas das muitas perguntas que rondavam a cabeça de Sebastian desde que ele voltara para casa. Somadas a elas, ele tinha um pedaço de papel já muito amassado em sua mão. Era o mesmo bilhete que ele deixara para Santana antes de ir para Columbus. A diferença agora eram algumas linhas escritas numa caligrafia que quase rasgava o papel:
“Querido Seb,
Só quero que saiba que: você é mesmo um idiota.
E eu... Bem, eu espero mesmo não ter que ver essa sua cara estúpida em outra vida.
Até nunca mais,
– A latina mais quente que você teve a sorte de conhecer.”
Por que diabos ela escrevera aquilo e, mesmo assim, deixara o seu número para ele?! Não fazia sentido algum. Ela só podia ser louca. Sebastian percorreu uma espécie de trilha pela casa, encontrando sinais dela sutilmente deixados aqui e ali. Ok, nem tão sutis assim, considerando a desordem de seu guarda-roupa e da cama, que continuava bagunçada. Entretanto, ele conseguira descobrir também o pedaço de papel faltando em sua agenda, aquele em que tinha escrito seu número, e que agora estava desajeitadamente dobrado no bolso do casaco largado sobre a cama. Na mesma agenda, ele descobrira um novo contato: “Santana M. Lopez”, com um respectivo número de celular ao lado.
Até agora, Sebastian não conseguira responder a nenhuma de suas dúvidas e cada teoria era mais improvável que a outra. Santana queria que ele ligasse para ela? Mandasse uma mensagem, talvez? Ela pegara o número dele, mas se arrependera e acabara deixando o pedaço de papel no bolso do casaco que provavelmente vestira durante sua estadia na casa dele? Por que? O que ele deveria fazer agora?
Em meio a tantas perguntas, e nenhuma resposta, sua cabeça parecia querer explodir. Ele se jogou em meio aos travesseiros e, mais uma vez, sentir o cheiro dela. Toda aquela bagunça fazia a presença dela muito real. Se fosse um pouco mais idiota, Sebastian poderia até esperar que ela voltasse do banheiro com o cabelo desarrumado e uma careta de desgosto no rosto, provavelmente por se dar conta de quantos chupões marcavam sua pele. Ele abriu um pequeno sorriso. Irritar Santana fora a primeira coisa que o agradara sobre ela desde que se conheceram.
Sebastian tirou o celular de seu bolso e abriu o Facebook. Ele procurou rapidamente pelo nome dela e acessou o perfil da latina. Santana Lopez, 18 anos, solteira. Ele suspirou e encarou a foto dela. Não estava apaixonado. Não podia estar. Mesmo assim, não adiantava mais fingir que era indiferente a ela. Essa história já não colava mais nem para si mesmo. E foi assim que ele tomou a decisão mais impulsiva e mais louca em todos os seus 17 anos de vida. Sebastian voltou à tela inicial do celular e rapidamente selecionou um número na discagem rápida. Três toques depois, ela atendeu.
– Oi, querido. Chegou bem? – Sebastian escutou a voz de Emma do outro lado da linha. Ele fechou os olhos e respirou fundo, tomando coragem.
– Mãe, o papai já está em casa?
– Sim, ele chegou faz uns dez minutos. – A voz de Emma demonstrava o quanto ela estava estranhando a situação.
– Pode passar pra ele, por favor?
– Claro... – Emma respondeu e a próxima coisa que Sebastian ouviu pelo celular foi uma voz grave e um tanto confusa: – Olá, filho.
– Pai? – Sebastian enfim abriu os olhos. – Eu quero mudar de escola.
[...]
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