Locked Out of Heaven
18 Disconnected
Notas iniciais
– Pronto, Britt. Está entregue. — Quinn acabava de estacionar seu New Beatle em frente à casa da família Pierce. Brittany suspirou. Elas vieram o caminho inteiro rindo e cantando músicas antigas que tocavam em uma estação de rádio qualquer, que Quinn só ligara para evitar que a loira fizesse maiores perguntas sobre Santana. Funcionara. Mas não por muito tempo.
– Q, onde mesmo você disse que Santana estava?
– Eu não disse. – Quinn respondeu. – Na verdade, B, eu não sei. Mas sei que ela vai falar com você logo, logo. – Ela olhou para Brittany, que fitava as mãos repousadas no próprio colo.
– Sabe, Quinn... Santana está tão estranha ultimamente. A gente quase não transa mais e você sabe que nós costumávamos ser como duas coelhas e...
– Ok, Britt. Eu sei. Eu realmente não quero ter uma visão das minhas duas melhores amigas mandando ver, nem nada parecido. – Quinn sacudiu a cabeça em desgosto e não notou o breve sorriso que Brittany deu quando ouviu a outra loira dizer que ela, assim como Santana, era sua melhor amiga. Deus, como sentia falta de Quinn!
– O que eu quero dizer é que ela está diferente, Quinn. E isso me deixa com medo. Será que ela não está feliz de estar comigo? Ou melhor, será que eu não estou fazendo-a feliz? – Quinn pôde ver a preocupação refletida nos olhos azuis de Brittany. Nesses momentos, Quinn percebia que as pessoas – incluindo ela mesma – eram injustas com Brittany. A garota não era burra de modo algum.
– Posso mudar essas perguntas? – Quinn perguntou e a líder de torcida assentiu. – Brittany S. Pierce, você está feliz? – Brittany encarou a amiga e ficou em silêncio. Não sabia como responder, mas resolveu tentar mesmo assim.
– Eu... Eu estava. Por algum tempo, quando Santana e eu começamos a namorar, tudo estava perfeito. Tudo parecia tão certo e agora... Agora eu já não me sinto assim. Não me entenda mal, Quinn, eu amo Santana e não tenho nenhuma dúvida de que ela me ama também, mas... Nós somos tão diferentes. Tenho medo que um dia ela acorde e se dê conta de que cansou de mim; tenho medo dela me achar idiota, como todos os outros acham.
– Britt, Santana não é assim. Você significa muito pra ela, você sabe disso. – Quinn replicou.
– Sim, Q. Mas eu sinto que ela está sempre um passo a minha frente, que ela está em algum lugar que eu não consigo alcançar. E talvez nunca consiga, eu não sei. O que sei é que parece que nunca estamos “na mesma página”, sabe? E isso me machuca. E, se está me machucando, pode muito bem estar machucando a ela também.
– Tenho certeza que sim. – Quinn suspirou. A resposta da loira não passou despercebida por Brittany, que resolveu perguntar:
– Q, você sabe de alguma coisa que eu não sei?
Aquela pergunta gelou a espinha de Quinn. E agora? Não queria mentir para Brittany. Mas também não podia contar a verdade. Não podia trair Santana, mas também não podia enganar Brittany. O que ela poderia fazer então?
– Brittany eu só concordo com o fato de que, se existe algo machucando você, Santana não seria indiferente a isso. Ela também deve estar sofrendo. – Quinn deliberadamente fugiu da pergunta. Ela continuou: — Como eu disse, você significa muito pra ela. Acho que vocês precisam conversar e resolver isso.
– Mas como, Q? Ultimamente, quase não temos mais conversado. – A tristeza transparecia na voz da loirinha.
– Do jeito que resolvemos todos os nossos problemas, B... Cantando. – Quinn piscou um olho para Brittany, que abriu um pequeno sorriso.
[...]
Na segunda-feira, depois de um fim de semana pensando em qual música se encaixava melhor ao que estava sentindo, Brittany guardava alguns cadernos em seu armário, até que olhou para o lado e viu Santana atravessando o final do corredor de cabeça baixa.
Ela bateu a porta do armário e seguiu em direção à namorada.
[...]
Santana estava sentada sozinha em uma das poltronas do auditório da William McKinley High School.
Depois do que acontecera na última sexta-feira, ela simplesmente não sabia o que fazer. Não contara à Quinn e muito menos à Brittany, nem a ninguém. Quando estava com outras pessoas, ela agia tão normalmente quanto conseguia. Mas, quando estava sozinha, ela só conseguia pensar nele e no que aquele beijo tinha significado. Parecia que não havia mais como voltar atrás ou continuar negando o que sentia. Ela sentia vontade de chorar frequentemente; estava assustada, não sabia como lidar com o que sentia. Ela sempre pensou que o sofrimento que sentira ao se apaixonar por Brittany fora porque estava apaixonada por uma garota, por uma de suas melhores amigas. Mas agora que pensava melhor na questão, descobria que o problema talvez fosse exatamente o fato de ter esse tipo de sentimento por outra pessoa.
Entretanto, ela não estava apaixonada por Sebastian. Como poderia? Ela mal o conhecia e, durante os poucos meses que passaram desde que se conheceram, ela sentia como se estivessem num campo de batalha. Era tudo muito confuso e incerto. Ela sentia um desejo inexplicável por ele, mas não fazia ideia de quem ele era de verdade. Suas ações sempre a pegavam de surpresa e, quando se tratava dele, ela nunca sabia o que fazer.
“Brittany.” – Ela pensou; na verdade, pensava com frequência. Traíra uma das pessoas que mais amava nesse mundo e não podia suportar ver o sorriso no rosto da loirinha toda vez que esta olhava para Santana. Precisava contar a verdade, mas não sabia como. Ela amava Brittany. Talvez não mais apaixonadamente como antes, mas, ainda assim, Brittany fora seu primeiro amor.
Como se não bastasse estar tentando limpar inutilmente as lágrimas que caíam por seu rosto, sentada sozinha num auditório parcialmente iluminado, Santana foi surpreendida por alguém que sentava-se ao seu lado.
– Por que você não me conta o que há de errado, San? – Brittany perguntou.
– Eu queria muito, Britt. Mas não sei se posso. – Santana disse e Brittany manteve silêncio. Depois de alguns minutos, ela perguntou: — Você me ama?
– Mais do que qualquer outra pessoa na Terra. Só não diga isso ao Lord T. Ele pode tentar te esfaquear à noite por ciúmes.
Santana sorriu minimamente, embora aquela resposta só a tivesse feito se sentir pior.
– Eu tenho uma música pra você. – Brittany disse.
– É mesmo? – Santana olhou a namorada, que assentiu. Brittany não costumava cantar muito, apesar de ter uma voz agradável e melodiosa. Ela preferia dançar, por isso Santana admirou-se. – Me mostre, então.
Brittany levantou-se e caminhou até o palco. Ela virou-se para Santana e começou:
Algo adentrou por baixo de nossa porta
O silêncio mergulhou através do chão
Beliscando como uma pedra em meu sapato
Algum produto químico está desgrudando a cola
Que estava me unindo a você
Uh, eu sinto como se não conhecesse mais você
Mas eu me senti queimada e estive errada
Tantas vezes
Nós andamos em círculos, “o cego conduzindo o cego”
Quando percebeu o significado das palavras de Brittany, Santana deu livre curso às lágrimas. Como nunca antes, ela percebeu que, por todo esse tempo, só enganara a si mesma. A própria Brittany sabia que entre elas algo irremediável estava acontecendo.
Bem, pensei que o amor vigiava esta casa
Mas você está pondo tábuas nas janelas agora
Estivemos nos apoiando uma no outra com tanta força
Amarradas tão forte que acabamos a milhas de distância
Tornando coisas simples tão difíceis
Brittany cantou sobre a distância entre elas e Santana pôde ver o brilho úmido dos olhos azuis da loirinha. Aquilo partiu seu coração ainda mais. Uma coisa era fazer merda e acabar ferindo a si mesma, outra era magoar Brittany. Santana era o pior ser que andava sobre a face da Terra.
Uh, eu sinto como se não conhecesse mais você
Mas eu me senti queimada e fiquei triste
Tantas vezes
Nós andamos em círculos, “o cego conduzindo o cego”
Fomos desconectadas de alguma maneira
Há uma parede invisível entre nós agora
Mas eu estive errada e triste
Tantas vezes
Nós andamos em círculos, “o cego conduzindo o cego”
Eu vejo a paisagem mudar diante dos meus olhos
As características de onde eu estive navegando
Não, nada aparenta estar como era antes
Não sei para onde olhar ou o que procurar
Brittany cantava com tanto sentimento, que – se aquele não fosse um momento de dor – seria um verdadeiro espetáculo. Ela cantava sobre como se sentia perdida e a própria Santana a entendia completamente.
Eu sinto como se não conhecesse mais você
Mas eu me senti queimada e fiquei triste
Tantas vezes
Nós andamos em círculos, “o cego conduzindo o cego”
Fomos desconectadas de alguma maneira
Há uma parede invisível entre nós agora
Mas eu estive errada e triste
Tantas vezes
Nós andamos em círculos, “o cego conduzindo o cego”
Fomos desconectadas de alguma maneira
Há uma parede invisível
Entre nós agora...
Santana levantara-se e caminhava em direção ao palco, enquanto Brittany descia do mesmo. A latina parou, até que Brittany chegasse onde ela estava. As duas acabaram sentando-se lado a lado, só que desta vez em um lugar mais próximo ao palco. Nenhuma das duas sabia o que dizer.
– Eu amo você. – Santana resolveu falar. Os olhos cheios de lágrimas, assim como os de Brittany.
– Mas...? – Brittany incitou. Santana sabia que aquele era o momento. O momento que ela não queria que chegasse nunca, mas que havia chegado.
– Eu não tenho sido uma boa namorada pra você. Tenho estado distante, perdida na minha própria confusão e machucando, mais do que a mim mesma, você. Eu não mereço você, Brittany.
– Isso soa como um término pra mim. – Brittany disse. – Mas não precisa ser assim, Santana. Podemos consertar as coisas. Todo casal passa por dificuldades, e é claro que nós somos incríveis, mas, por que conosco seria diferente? Eu amo você e você me ama e...
– Aconteceu uma coisa, Britt. – Santana a interrompeu. Ela respirou fundo e continuou: — Antes que você possa continuar, e antes que eu perca a coragem, você precisa saber. Uma pessoa me beijou e... Eu correspondi. Isso aconteceu apenas uma vez e eu talvez não veja mais essa pessoa por algum tempo, mas... Aconteceu, Britt.
Brittany estava perplexa. Ela nunca imaginara algo desse tipo. Como aquilo acontecera? De quem Santana estava falando? Ela tinha um palpite, mas não queria nem cogitar aquela possibilidade. Entretanto, precisava perguntar:
– Quinn? Quinn beijou você?
– Quê? Não! Claro que não! – Santana respondeu. Então deu-se conta de que a resposta correta nunca passaria pela cabeça de Brittany, ou de qualquer outra pessoa. Talvez fosse melhor assim. Afinal, não aconteceria de novo. Ela havia dito que não queria vê-lo outra vez e ele concordara. As Regionais passariam e pronto. Seria o fim.
Com a resposta de Santana, Brittany se sentira ridícula por ter pensado em Quinn. Ela nunca faria tal coisa e Santana também havia dito que talvez nem visse mais a tal pessoa. Mas então, que outra garota poderia ser? Antes que pudesse pensar em mais alguém, percebeu que não importava. Saber quem beijara Santana não aliviaria sua dor.
– Então é assim que terminamos? – A loira perguntou.
– Me desculpe, Brittany. Me desculpe! – Santana falava com a voz embargada. Brittany levantou-se.
– Eu nunca vou conseguir ter raiva de você, Santana. Não, eu não estou com raiva. Estou triste, decepcionada, com vontade de ir pra casa, tomar sorvete e vestir roupas largas. E eu vou te desculpar, mas não hoje. Nem agora. – Brittany disse, passando as mãos nas bochechas para limpar as lágrimas que manchavam a pele branca.
Enquanto ela saía do auditório, Santana abraçava as próprias pernas, encolhendo-se. Queria desaparecer.
[...]
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