Lobo Urbano
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Um dia tranquilo. Um dia agradável. Nada de mais, tampouco de menos. Começando pelo café da manhã. Só e simplesmente isso, um café da manhã. Mocha. Não fora feito em minha casa. Comprei em uma cafeteria de renome. Tomei-o em um copo térmico, na minha praça preferida — que fica duas ruas da tal cafeteria -, no meu banco preferido, acompanhado por pássaros sonolentos e um cão oriundo de rua. O dia amanheceu na velocidade em que tomava meu café. Meu singelo relógio de tiras de couro apitou exatamente às nove e meia. O tempo por ali acabara, mas eu não tive pressa. Levantei-me, alinhei a roupa ao meu corpo e joguei o copo térmico na lixeira próxima. Pombas já arrulhavam e os senhores e senhorinhas já se amontoavam nos bancos para dar-lhes de comer. Mais uma manhã de outono, singelamente fria e gentil.
Não que eu me orgulhe de começar o dia bem. Muito pelo contrário, dias que começam bem nem sempre terminam assim. Minha filosofia sempre foi: se está tudo indo bem, com certeza piora. Segui a rua. Deixei a praça para trás. As ruas lotavam mais e mais a cada esquina que dobrava. A noite me prometia pelo menos um suspiro de alegria. Noite de sexta feira. Noite do teatro. Semana passada fui a um ballet. Não me agradou, não, não. Nem um pouco. Hoje é a noite da Barca do Inferno. Um dos meus Autos preferidos. Pobre diabo o diretor, o conheci de longa estrada. Cursou três semanas da faculdade comigo, depois desistiu e abriu a própria companhia de teatro. É uma noite de reencontro, mas que faço eu, agora em plena manhã, já ponderando sobre a noite? Ah, essa ansiedade que me corrói.
Enfim chegara a minha rua. O prédio em que moro é o terceiro depois da esquina, o menor dessa região, mas por mim o mais aconchegante. Tenho até um pequeno jardim na não tão pequena sacada do meu apartamento. Sexto e penúltimo andar. O elevador barulhento e lerdo sempre fede a mofo. Meus pés doem. Droga de elevador. Droga de dor. Droga de... mau humor matinal. Que tanto me irrita, céus? Não tive chance de trocar palavras com ninguém ainda, senão as três frases que dirigi à moça da cafeteria.
Bom dia, eu gostaria de um café.
Mocha com açúcar mascavo, sim.
Obrigado, até mais.
Estranhamente, após esse suspiro de impotência, já me sinto melhor. Voltei a caminhar, dessa vez mais devagar. Aproximava-me do Edifício Relicário, o singelo prédio de dez andares no subúrbio mais próximo do centro. Feito em tijolos à vista e no bom e velho estilo do século XX. Condecorado com duas gárgulas até que bem feitinhas no topo do terraço. Este, por caso, inabitado. Vou lá às vezes para passar o tempo. Pensar. Relaxar. E tenho minhas plantas lá. É, Relicário caía bem. E o que mais gosto: os tijolinhos pintados de cinza. Não bem pintados, posso jurar que em alguma época melhor já foram brancos com as veias de cimento pretas. E é essa aparência que tanto me agrada. Como as varandas ficam viradas para o outro lado, a fachada é basicamente uma massa cinza simpática e deprimente. Sorri debilmente enquanto aguardava que o porteiro me abrisse o portão. Um hall a qual já estou familiarizado me esperava à frente. Uma escada de cinco degraus que passa pela portaria e leva ao corredor principal. Rodeado por um campo de flores que eu mesmo plantei e às vezes ainda cuido. Trepando em uma grade de madeira as minhas lindas primaveras rainhas enfeitam os lados da porta de vidro que dá acesso ao Hall Principal e aos elevadores.
O barulho do destrave me assustou. Entrei e subi as escadas. Cumprimentei o Seu Adorno da portaria e segui meu caminho. Abri a porta de vidro e deu de cara com a Senhora do Hall – era assim que a chamava, pois era a única que morava ali no térreo, mesmo sabendo que era um apelido péssimo, mas eu nunca me lembrava do seu nome – ela me cumprimentou e eu abri-lhe a porta em gentileza. Sorriu-me, com toda sua sabedoria desenhada em suas rugas.
- Ah, mas que lindas ficaram as primaveras! Um pouco de cor nesse muro cinza que tanto me envelhece!
- Quem diria que um cara como eu acabaria se dando com plantas, não é? – minha voz soava estranha, provavelmente pelo tempo que fiquei sem usar as cordas vocais. – E esse rosa escuro realça seus olhos.
- Ora, seu rapazinho assanhado – a senhora ria com agrado, o que me pôs um sorriso mais agradável no rosto.
Nos demos bom dia, óbvio que bem animados, e continuamos nossos caminhos. Eu para o meu apartamento, ela provavelmente para alguma farmácia. Observava agora meu tênis de vermelhos pisando naquela imitação de mármore branco e mau polido, mas é claro que aquilo também fazia parte da simpatia do lugar. Virei o corredor à esquerda para pegar o elevador. Entrei e pressionei o botão do sexto andar. E novamente, o elevador fedia e fazia barulhos dignos de matar um claustrofóbico do coração. E lerdo. Claro. A vontade de fumar vem me apertando o peito. Sei que devia parar. Faz seis meses que não fumo, mas o dia pede um agrado a mais. Devo ter algum maço na minha escrivaninha, na caixa dos ignorados, mas achar alguma coisa naquela caixinha de jogar coisas que não uso ou preciso é difícil. O elevador parou com um balanço suspeito.
- Essa merda ainda vai cair – falei sozinho, mas quando as portas se abriram, uma garotinha me fitava.
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