Lobo Urbano
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Dela, veio um risinho fraco, mas sincero.
– Bom dia — disse a garotinha, toda meiga e amável enquanto passávamos um pelo outro.
– Ótimo — respondi sorrindo para ela.
Não sei se foi curiosidade ou reflexo, mas quando a porta do elevador quase fechava eu me virei para olhar a menina. E diferente do corredor, o elevador estava iluminado, então pude vê-la. Não media mais do que um metro e meio, tinha os cabelos longos — pousando as pontas levemente na cintura fina — pretos, vestia um vestido acinzentado e decorado com crochê floral nas extremidades que lhe vestia até o joelhos, seguidos por um tanto de pernas à mostra, meias brancas até o tonozelo e mocassins pretos. Então as portas fecharam. Era, em si, uma visão incomum. Continuei caminhando para o meu apartamento, o primeiro à esquerda do elevador — o meu familiar e enferrujado número 147. Do outro lado do corredor, às minhas costas, eu já ouvia o casal problemático do 148 gritar, olhei o relógio e eram quase onze horas. Destranquei minha porta e entrei.
E aquela menina? Nunca a vi por ali, quatro apartamentos por andar, mas aqui no sexta não tem criança alguma. Na verdade, eu nunca saberia, apesar de extremamente detalhista, rostos era uma coisa que sempre me confundiam.
Estiquei o corpo, logo depois que fechei a porta. Tranquei e olhei minha sala, um tanto mais animado. A sala era o único cômodo visível dali. À esquerda, um corredor que levava aos quartos e ao banheiro, à direita, a cozinha e a lavanderia, à frente a porta de correr escondida por cortinas marrons que dava a sacada. Ali era meu cômodo favorito. A sala, a minha sala. Estantes de madeira escura lotados com meus livros, romances, HQ's e CD's, uma TV singela e meu rádio em um hack lotado de papéis e chaves, um telefone que não funciona desde que moro aqui, um tapete que ganhei da minha mãe — eu odeio esse pedaço de pano vermelho com hieróglifos de alguma sociedade desconhecida -, a mesa de centro em cima dele e meus dois sofás pretos que, como a tradição manda: um de dois assentos e o outro de três.
Respirei fundo e sorri.
Abafados pela caixa de sapato onde os filhotes de andorinha que cuido, os piados eram de fome. Eu havia encontrado os três no terraço, a mãe morta debaixo da minha muda de fícus*esbranquiçada — que estava mais para um bonsai superdesenvolvido — e o ninho em um galho baixo. Os filhotes piavam incessantemente naquele dia, caídos na terra do vaso. Quase despenados e gelados, eu os peguei junto do ninho e os trouxe para casa. Dei até nomes: o mais magro é o Shaun, o mais gordo é o Loren e o mais depenado é o Gerard — e sim, eu sei que são nomes de vocalistas de bandas**, mas eu não podia perder a chance de tirar com a cara deles.
Passei pelo meio da sala e peguei a caixa delicadamente e segui até a cozinha. Não era um lugar que ia com frequência, então a mobília era basicamente a bancada de mármore escuro do hotel, uma geladeira, um fogão, um micro-ondas e armários cheios de coisas que eu não me lembro. Abri a geladeira e peguei a papa deles. Os piados ficavam chatos, mas logo que terminei de alimentá-los a casa ficou em silêncio. Deixei a caixas com os filhotes em cima do sofá e coloquei cobertas em volta.
O relógio insinuava o próximo meio dia.
E agora?
A imagem da garotinha me voltou à mente, mas ignorei-a assim que olhei para o rádio e decidi ouvir alguma coisa. Peguei entre meus CD’s uma coisa um tanto mais divertida e coloquei um tanto alto. O alto do dia era só às sete e meia da noite, o que fazer até lá? Podia dormir até às seis e só me levantar para alimentar os dragõezinhos famintos e me arrumar para a peça. Joguei-me no sofá maior, tirei o celular e a carteira dos bolsos e coloquei o ingresso na mesa de centro. Lembrei-me do recado que o Rato me mandara – esse era o apelido do meu amigo que virou diretor, escrita em uma folha de rascunho suja e bastante rasgada com o ingresso grudado a ela por um clipe rosa. Deixou-a na portaria:
Vou dirigir o seu Auto preferido, devia vir.
No teatro Magnum, sabe?
Ri-me, pois me parece até hoje que ninguém sabe como me tratar. Acho que é meu temperamento, mas com certeza é por causa da minha cara de desinteresse.
– You know it smells like shit, goddamn!*** – Cantei junto à música, com a voz rouca.
Meu corpo relaxava, então tirei os tênis de cano médio e deitei direito no sofá. Cruzei os braços, encarando a caixa-dos-vocalistas-famintos no sofá ao lado. A manhã estava me deixando entediado. Acho que talvez esteja sentindo falta de um emprego, mas não do que eu acabei de largar. Não dava para trabalhar com aquele imbecil. A voz da agradável senhorinha do Hall me veio a mente, uma frase que me dissera tempos atrás.
– Por que não abre uma floricultura, meu jovem? Suas flores são tão bonitas!
E por que não? Aquilo não devia impedi-lo mais, já não era uma criança. Não era mais o mesmo menininho que gostava do jardim da avó e descobriu o porquê de a curiosidade matar o gato. Senti meu corpo eriçar e um arrepio me subir a espinha. Como o passado se faz tão carrasco do presente? Deve ser a própria proximidade...
– Coitado do Baltazar... — o único gato que não viu nem as próprias sete vidas passarem batidas pelo ditado da curiosidade.
Lembranças do gato cinza serpenteando nas roseiras da avó o fez sorrir, mas havia outra imagem mental que estava tentando evitar, a imagem de Baltazar com o pelo manchado de vermelho, inerte no chão... Não, isso traria mais imagens que não quero lembrar.
Não quero perder a coragem de novo.
O relógio mostrava uma hora da tarde quando apaguei no sofá.
Dormi com o som do miado morto ressoando na minha cabeça.
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