Livro II: O Eco dos Nossos Passos
11 O Silêncio dos Justos e Estilhaços de Vidro
Naquela noite, após a porta se fechar com o aviso sombrio de Sofia, Hope não disse uma única palavra. Ela apenas se levantou da poltrona, recolheu o notebook com os dedos trêmulos e saiu do quarto a passos rápidos, sem olhar para trás. James ficou completamente sozinho na escuridão, encarando o teto, sentindo o peso invisível de uma condenação que ele mesmo havia assinado.
Três meses se passaram.
Noventa dias de um silêncio sepulcral e sufocante. James não pisou mais na casa dos Styles em West Valley, inventando desculpas corporativas e contratos fictícios de última hora. Ele também não ligou para Hope, não respondeu às poucas mensagens sutis que ela enviou no início e bloqueou qualquer impulso de pegar o Mustang e dirigir até o campus dela. Ele estava tentando, com todas as suas forças, ser o homem maduro e sensato que a idade e a promessa do passado exigiam que ele fosse. Afaste-se e ela vai esquecer. Logo ela arruma alguém da idade dela e eu sigo sozinho, ele repetia para si mesmo, como um mantra punitivo.
No dia do seu aniversário de quarenta anos, a realidade cobrou o preço.
James passou a noite no ponto mais alto de sua cobertura em Manhattan. Não havia festa, não havia convidados. Apenas ele, vestindo uma calça escura e uma camisa preta amassada, sentado no chão do terraço com as costas apoiadas no vidro e uma garrafa de uísque pela metade entre as pernas. O vento frio da noite de Nova York batia em seu rosto, mas o vazio em seu peito era muito mais congelante. Ele estava destruído. Sentia uma saudade avassaladora de Lucian, de Elise, das piadas idiotas de Garret... e do cheiro de baunilha e outono de Hope. Mas ele sabia que aquele isolamento era o preço a pagar para manter a família de pé.
A centenas de quilômetros dali, na calorosa cozinha da casa dos Styles, o clima era de uma quietude nostálgica. Garret e Sofia limpavam a bancada após o jantar. A televisão ligada na sala quebrava o silêncio, mas o pensamento de ambos estava no mesmo lugar.
— Ele não atendeu de novo, não é? — Garret perguntou, guardando o pano de prato e olhando para o celular de Sofia em cima da mesa.
Sofia suspirou, cruzando os braços com uma expressão nitidamente preocupada.
— Não. Caiu direto na caixa postal. Eu tentei duas vezes, e seu pai tentou no final da tarde. O James nunca passou um aniversário sozinho, Garret. Há três meses ele sumiu do mapa. Eu sei que ele diz que a agência está expandindo para a Europa, mas... isso não é do feitio dele.
Garret passou a mão pelo rosto, visivelmente incomodado com o distanciamento do melhor amigo.
— O cara fez quarenta anos hoje, Sofi. É uma marca pesada. O Lâfrer é um irmão para mim, odeio ver ele se trancar nesse casulo de trabalho. Amanhã de manhã eu vou tentar ligar direto para a secretária dele. Ninguém merece passar os quarenta anos brindando com as paredes.
Sofia assentiu, mas seus olhos castanhos carregavam um peso diferente. Ela sabia exatamente o motivo do sumiço de James, e a culpa por ter imposto aquela barreira começava a corroer seus pensamentos.
Na manhã seguinte, o som persistente da campainha ecoou pela cobertura de James.
Ele resmungou, abrindo os olhos com dificuldade. A cabeça latejava devido à ressaca do uísque. James levantou-se do sofá, vestindo apenas uma calça de moletom cinza e com o cabelo totalmente bagunçado. Ele caminhou até a entrada e abriu a porta com impaciência, pronto para dispensar qualquer entregador.
Seu coração parou.
Hope estava paralisada no corredor. Ela usava um casaco jeans oversized, uma calça preta e trazia uma mochila de lona jogada em um dos ombros. Os olhos azuis estavam ligeiramente avermelhados, denotando que ela também não vinha dormindo bem, mas a expressão dela era de pura indignação.
Sem pedir licença, ela empurrou o peito de James com uma das mãos, passando por ele e entrando no apartamento.
— Dá para me explicar que porra está acontecendo, James? — ela explodiu, jogando a mochila no chão da sala de estar e virando-se de frente para ele, com a respiração já acelerada. — Três meses! Você sumiu por três meses! Não atende o meu pai, ignora as ligações da minha mãe e finge que eu não existo! Ontem foi o seu aniversário de quarenta anos e você se trancou aqui como um covarde!
James fechou a porta lentamente. Ele respirou fundo, trancando o maxilar e vestindo a armadura mais fria e cruel que conseguiu encontrar em seu repertório. Ele precisava que ela o odiasse. Era a única saída.
— O que você está fazendo aqui, Hope? — a voz de James saiu baixa, cortante e desprovida de qualquer emoção. — Eu estava trabalhando. Diferente de você, eu tenho uma empresa real para gerenciar, e não uma rotina de universitária.
— Não usa esse tom corporativo comigo, Lâfrer! — Hope deu dois passos na direção dele, os olhos faiscando de raiva e mágoa. — Você sumiu por causa daquela noite! Porque a minha mãe pegou a gente no quarto e você entrou em pânico! Você está com medo da verdade!
— Que verdade, Hope?! — James deu um passo à frente, os olhos escuros fixos nos dela, a voz subindo um tom, fria como navalha. — A verdade de que nós quase cometemos o maior erro das nossas vidas? A verdade de que eu tenho quarenta anos e você é só uma garota de vinte que não sabe a diferença entre uma paixonite de colégio e a realidade?
Hope recuou meio passo, o impacto das palavras dele atingindo-a como um soco no estômago. O rosto dela empalideceu.
— Paixonite? Você está dizendo que o que aconteceu entre a gente... o que a gente sentiu no Natal, na sua festa... foi só uma paixonite?
— Foi um erro! — James cuspiu as palavras, embora cada uma delas rasgasse seu próprio peito por dentro. Ele cruzou os braços, olhando-a de cima com desdém fingido. — Eu sou o melhor amigo do seu pai, Hope. Eu ajudei a trocar as suas fraldas. Eu olhei para você esse tempo todo e senti pena da sua carência crônica depois que o Ethan foi embora. Eu me deixei levar por um momento de fraqueza porque você estava ali, se oferecendo em uma camisola curta no meu quarto. Mas a brincadeira acabou. Você é só uma pirralha imatura e eu cansei de brincar de casinha com você.
— CALA A BOCA! — Hope gritou, a voz quebrando em um soluço de puro ódio e dor. As lágrimas finalmente transbordaram de seus olhos azuis. — SEU MONSTRO! NOJENTO!
Cega pela fúria e pelo coração despedaçado, Hope correu em direção à cozinha americana. Ela pegou a primeira coisa que viu em cima do balcão — um copo de vidro decorativo — e taticamente o arremessou com força na direção de James.
James desviou a cabeça rapidamente. O copo explodiu contra a parede de concreto atrás dele, estilhaçando-se em mil pedaços no chão.
— VOCÊ É UM COVARDE, JAMES LÂFRER! — ela gritava, as mãos trêmulas enquanto pegava um prato de cerâmica da fruteira e jogava contra ele. O prato bateu no chão perto dos pés dele, quebrando-se com um estrondo. — Você me usou! Você me fez acreditar que eu importava! Para depois me dizer que sentia pena?! Eu te odeio! Eu te odeio com todas as minhas forças!
James permaneceu estático no meio da sala, os braços caídos ao lado do corpo, cercado por estilhaços de vidro e cerâmica. Ele não revidou. Não se moveu. Seus olhos mantinham-se fixos nela com uma frieza calculada, embora por dentro ele estivesse sangrando.
Hope parou, a respiração completamente esbaforida, o peito subindo e descessem com violência. Ela olhou para as próprias mãos, depois para o homem que ela tanto amava e que agora parecia um desconhecido de gelo.
Com as lágrimas borrando sua visão, ela caminhou até a sala de estar, pegou sua mochila de lona no chão com um puxão violento e caminhou até a porta de saída. Antes de abrir, ela olhou para trás uma última vez, a voz saindo em um sussurro destruído:
— Parabéns pelos seus quarenta anos, James. Você finalmente conseguiu ficar completamente sozinho.
A porta bateu com força, ecoando pela cobertura. James desabou de joelhos ali mesmo, no meio dos estilhaços, enterrando o rosto nas mãos e deixando que o silêncio e a culpa o consumissem por inteiro.
Três horas mais tarde, o som da porta da frente da casa dos Styles se abriu de forma abrupta.
Sofia estava na sala de estar lendo um livro quando viu Hope passar pelo corredor como um furacão. A jovem não disse "boa tarde", não largou as chaves; apenas subiu as escadas correndo, com os passos pesados e audíveis.
Sofia franziu o cenho, o instinto maternal alertando-a instantaneamente. Ela largou o livro e subiu os degraus devagar, parando em frente à porta do quarto de Hope. O som de choros abafados contra o travesseiro vinha de lá dentro.
Sofia empurrou a porta com suavidade. Hope estava deitada de bruços na cama, com o rosto enterrado nas cobertas, os ombros sacudindo pelos soluços violentos. A mochila de lona estava jogada de qualquer jeito no chão.
— Hope? — Sofia aproximou-se lentamente, sentando-se na beira do colchão e colocando a mão carinhosa nas costas da filha. — O que aconteceu, meu amor? Você devia estar no campus. Por que você está assim?
Hope rolou para o lado, sentando-se na cama com o cabelo bagunçado e os olhos completamente inchados e vermelhos de tanto chorar. Ela olhou para a mãe, a armadura de orgulho desmoronando por completo.
— Foi o James, mãe... — Hope desabafou, a voz saindo em um fio trêmulo e doloroso. Ela abraçou os próprios joelhos. — Eu fui até a cobertura dele. Eu fui ver como ele estava porque era aniversário dele e ele estava sumido... e nós brigamos.
Sofia engoliu em seco, sentindo o peito apertar. — O que ele te disse, Hope?
— Ele disse coisas horríveis, mãe! — Hope chorou alto, escondendo o rosto nos joelhos. — Ele disse que eu era só um erro. Que ele sentiu pena de mim porque eu estava carente depois do Ethan. Disse que eu era uma pirralha imatura e mandou eu ir embora... Ele quebrou o meu coração, mãe. Ele me destruiu.
Sofia puxou a filha para os seus braços, envolvendo-a em um abraço apertado enquanto Hope chorava copiosamente contra o seu peito. Sofia acariciava os cabelos loiros da filha, olhando para a parede do quarto com os olhos marejados de culpa e tristeza. Ela sabia que James havia dito aquelas atrocidades apenas para cumprir o aviso que ela mesma dera no quarto. Ele havia se sacrificado, tornando-se o vilão da história para proteger a família Styles.
— Eu amo ele, mãe... — Hope sussurrou entre os soluços, apertando o moletom de Sofia. — Eu amo o James. E eu não sei o que fazer com essa dor.
Sofia apenas fechou os olhos, apertando a filha mais forte contra si. O segredo e o dilema haviam cobrado seu preço mais alto, e as feridas daquela escolha estavam apenas começando a abrir.
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