​Um ano inteiro havia se passado desde o dia em que estilhaços de vidro cobriram o chão daquela cobertura em Manhattan. Doze meses de um vazio absoluto. James Lâfrer havia desaparecido por completo da vida dos Styles. Não havia ligações no Dia de Ação de Graças, não havia visitas inesperadas nos finais de semana, nem mesmo um aceno sutil de longe.

​A única conexão que a família mantinha com ele era através das telas frias dos celulares e das páginas de portais de finanças. James agora aparecia nas notícias como o empresário implacável que havia expandido sua agência para a Europa. Mas as fotos de jornal mostravam um homem diferente: o semblante outrora caloroso e divertido havia dado lugar a uma expressão gélida, olhos sombrios e um maxilar permanentemente trancado. Ele havia se tornado uma máquina. Um homem de gelo.

​No dia do aniversário de vinte e um anos de Hope, não houve música alta, balões ou salão de festas. Ela preferiu assim. A comemoração resumiu-se a um jantar silencioso e íntimo na sala de jantar da casa de West Valley, apenas com Sofia, Garret, Elise e Lucian.

​A mesa estava posta com as suas comidas favoritas, mas o apetite de Hope havia sumido. A cada cinco minutos, seus olhos azuis — agora mais profundos e carregados de uma melancolia madura — desviavam-se involuntariamente em direção à janela de vidro que dava para a entrada da garagem. A neve caía mansa lá fora, e a cada fresta de luz de farol que passava pela rua, seu coração dava um salto doloroso no peito, para logo em seguida murchar de tanta saudade. O pingente do infinito continuava guardado no fundo de sua gaveta, mas a ferida em sua alma continuava aberta.

​Sofia observava a filha do outro lado da mesa. Ela fingia sorrir para Lucian, mas seu coração de mãe sangrava. A culpa que Sofia carregava por ter desencadeado aquela reação em cadeia um ano atrás era um fantasma que a perseguia todas as noites. Ver o brilho de Hope ter se apagado daquela forma era o seu maior castigo.

​Na manhã seguinte, o clima na casa estava insuportável. Garret não conseguiu mais conter a indignação que vinha acumulando há trezentos e sessenta e cinco dias. Sem avisar a Sofia, ele pegou as chaves de sua caminhonete e dirigiu por duas horas até Manhattan, decidido a arrancar o melhor amigo daquele casulo de gelo por bem ou por mal.

​O escritório da agência de James ocupava todo o último andar de um arranha-céu de vidro. Garret passou pela secretária sem anunciar-se, empurrando a imensa porta de jacarandá da sala da presidência com violência.

​James estava de pé, de costas para a porta, olhando a vista de Nova York através do vidro panorâmico, vestindo um terno cinza perfeitamente alinhado. Ele sequer sobressaltou-se com o estrondo da porta. Apenas virou-se devagar, os olhos escuros e vazios fixando-se no homem com quem dividira a vida inteira.

​— Garret — James disse, a voz saindo tão fria e impessoal que parecia o eco de um estranho. — Você deveria ter agendado com a minha secretária. Estou no meio de uma fusão com um grupo de Londres.

​Garret deu três passos largos, parando bem em frente à mesa de James, os punhos cerrados e a respiração pesada de pura revolta.

​— Agendar com a secretária, James?! Você enlouqueceu de vez?! — Garret esbravejou, a voz ecoando pelas paredes acústicas do escritório. — Faz um ano que você sumiu! Um ano que você não atende a minha esposa, que você não visita os meus pais, que você sumiu da vida da minha filha! A Hope fez vinte e um anos ontem, James! Ela passou a noite olhando para a porta esperando o padrinho dela aparecer. Que porra está acontecendo com você?

​James caminhou lentamente até a sua cadeira de couro, sentando-se e cruzando os dedos sobre a mesa de vidro. Ele precisava ser cirúrgico. Sabia que se fraquejasse ali, toda a mentira que construíra para proteger o casamento do amigo e o futuro de Hope ruiria. Ele precisava cortar o último cordão umbilical.

​— O que está acontecendo, Garret, é que eu finalmente acordei — James disparou, a voz mansa, destilando uma crueldade calculada para ferir o amigo no lugar mais profundo. — Eu passei os últimos vinte anos da minha vida vivendo em torno de você, da Sofia e daquela casa em West Valley. Eu abdiquei da minha juventude, dos meus relacionamentos e do meu tempo para ser o esteio da família Styles. E para quê?

​Garret piscou, o choque daquelas palavras fazendo sua postura vacilar por um segundo.

— O que você está dizendo...? Nós somos uma família, James. Você é meu irmão.

​— Você é meu sócio no passado, Garret. Nada além disso — James rebateu, erguendo o queixo com um desdém implacável. — Eu fiz quarenta e um anos. Olhei para trás e percebi que eu não tinha vivido a minha própria vida porque estava ocupado demais sendo o herói de vocês. Eu cansei de brincar de subúrbio. Cansei de jantares de domingo e de dramas familiares. Estava na hora de eu desaparecer. A minha vida está aqui, na Europa, no topo do mundo corporativo. Eu não preciso mais de vocês. E, sinceramente? Já estava na hora de você e a Sofia andarem com as próprias pernas sem precisar de mim para segurar as pontas.

​O silêncio que se seguiu foi violento. Garret sentiu o sangue subir ao rosto, as lágrimas de pura decepção e raiva embaçando sua visão. O homem diante dele não era o James que o salvara nos campos de futebol, não era o homem que chorara com ele no hospital. Era um monstro de terno e gravata.

​Garret deu um passo à frente, apoiando as duas mãos na mesa de James, inclinando o corpo para frente com a voz trêmula de fúria.

​— Você é um desgraçado, James Lâfrer — Garret sibilou, os dentes trincados. — Nós te demos um lar quando você não tinha ninguém. Nós te demos o nosso amor. A minha filha te idolatrava... e você está me dizendo que tudo isso foi um fardo? Que você sentia nojo da nossa vida?

​— Estou dizendo que cansei — James respondeu, sustentando o olhar de Garret sem piscar uma única vez, embora por dentro seu próprio peito estivesse se despedaçando em mil pedaços. — Vá embora do meu escritório, Garret. E não volte mais. O nosso ciclo acabou.

​Garret endireitou o corpo lentamente. Ele olhou para James com um desprezo profundo, arrancando de seu próprio peito uma dor que nunca mais cicatrizaria.

​— Você está morto para mim, James. Para mim e para a minha família. Não nos procure nunca mais — Garret sentenciou, deu meia-volta e cruzou a porta da presidência, batendo-a com um estrondo que pareceu fazer o andar inteiro tremer.

​James permaneceu estático na cadeira. Assim que os passos de Garret sumiram no corredor, ele fechou os olhos com força, desabando a cabeça para trás. Uma lágrima solitária e quente escorreu pelo seu rosto pálido. A amizade de uma vida inteira havia sido reduzida a cinzas, e ele era o único culpado.

​No final da tarde, a caminhonete de Garret estacionou na garagem de West Valley.

​Sofia estava na cozinha quando ouviu o som da porta da frente. Ao caminhar até a sala, ela parou abruptamente. Garret estava sentado na poltrona de couro da sala, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos cobrindo o rosto. Seus ombros sacudiam sutilmente. Garret, o homem forte e inabalável que ela conhecia desde a adolescência, estava chorando.

​— Garret? — Sofia correu até ele, ajoelhando-se no chão em sua frente e puxando as mãos dele para longe do rosto. — Meu Deus, o que aconteceu? Onde você foi?

​— Ele nos odeia, Sofia... — Garret desabafou, a voz completamente quebrada, os olhos vermelhos e cheios de uma dor infantil e crua. Ele abraçou a esposa pelo pescoço, enterrando o rosto no ombro dela. — Eu fui até o escritório do James. Ele me humilhou, Sofi. Ele disse que a nossa vida era um fardo para ele, que ele sentia nojo de ter vivido em torno de nós e que cansou de brincar de família com a gente... O James acabou com tudo o que a gente construiu. Ele rasgou a nossa amizade.

​Sofia arregalou os olhos, as lágrimas caindo instantaneamente enquanto apertava o marido contra o peito. Ela tentava consolá-lo, fazendo carinho em suas costas, mas sua mente estava em um turbilhão de agonia. Ela compreendeu o que James fizera. Ele levara a mentira até as últimas consequências; preferira que Garret o odiasse a descobrir a verdade sobre Hope. O sacrifício dele havia sido total, mas o preço fora a destruição de Garret.

​No topo da escada de madeira, escondida pelas sombras do corredor do segundo andar, Hope estava paralisada.

​Ela segurava o corrimão com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. Ela ouvira cada palavra, cada soluço de seu pai, cada frase sobre a crueldade de James. Seus olhos azuis fixaram-se na cena de seus pais abraçados e desolados no centro da sala.

​A última fresta de esperança que Hope guardava em seu peito de que um dia James Lâfrer voltaria a cruzar aquela porta e sorrir para ela virou poeira. O homem de negócios havia destruído tudo o que restava. Hope engoliu o choro seco, sentindo uma frieza nova e implacável começar a tomar conta de suas próprias feições. Ela percebeu, com uma clareza dolorosa, que nada, absolutamente nada naquela família, seria como antes. O jogo havia terminado, e o campo estava em ruínas.