Livro II: O Eco dos Nossos Passos
13 O Sacrifício do Silêncio e a Ilusão do Progress
A noite de Manhattan estava abafada, mas dentro da cobertura de James, o ar-condicionado mantinha tudo a uma temperatura glacial. Sofia não agendara horário, não procurara a secretária e não se deixara intimidar pela nova fachada de homem de negócios implacável que o mundo lia nos jornais. Ela subira pelo elevador privativo com a chave reserva que a família guardava há anos e que James, por algum motivo, nunca tivera coragem de revogar.
Quando as portas de metal se abriram direto na sala de estar, James estava de pé junto ao balcão da cozinha, servindo-se de uísque. Ele vestia apenas uma calça escura e uma camisa branca com as mangas dobradas até os cotovelos. Ao ver a cunhada, seus olhos escuros vacilaram por um milésimo de segundo, mas a máscara de gelo voltou ao lugar imediatamente.
— Sofia — James disse, a voz saindo baixa e calculada. — O Garret não te contou o que aconteceu no meu escritório ontem? Eu achei que tinha deixado claro que não quero mais vocês aqui.
Sofia caminhou firmemente pelo piso de porcelanato, parando a dois passos dele. Ela não trazia raiva no olhar, apenas uma tristeza profunda e a sabedoria de quem o conhecia desde a juventude.
— O Garret me contou tudo, James. Ele chegou em casa destruído, chorando como eu nunca vi na vida — Sofia disse, a voz trêmula, mas firme. — Ele acredita em cada palavra cruel que você cuspiu naquela sala. Mas eu não. Eu te conheço, James Lâfrer. Sei que você seria capaz de queimar o mundo inteiro para proteger quem você ama, inclusive a si mesmo. Deixa essa frieza de lado. Comigo não funciona.
James deu um gole longo no uísque, desviando o olhar para a vidraça panorâmica.
— Vá para casa, Sofia. Eu mudei. O homem que frequentava os jantares de vocês morreu.
— Para de mentir! — Sofia exclamou, dando mais um passo e segurando o braço dele com força. — Você destroçou o seu melhor irmão de vida! Você humilhou a minha filha há um ano! Você está se transformando em um monstro por quê? Para cumprir o aviso que eu te dei naquele quarto? É por isso?
O silêncio pesou no ambiente. James olhou para a mão de Sofia em seu braço e, lentamente, a armadura que ele sustentara por meses desmoronou. Os ombros dele caíram, a caneca de uísque foi deixada no balcão com um estalo seco e ele enterrou o rosto nas mãos grandes. Quando ergueu os olhos novamente, eles estavam injetados, brilhando com lágrimas que ele não conseguia mais conter.
— E o que você queria que eu fizesse, Sofia?! — James explodiu, a voz embargada de pura agonia. — Você mesma me disse que aquilo acabaria com o Garret! Que destruiria ele! Eu olhei para a Hope e vi o meu mundo virar de cabeça para baixo. Eu a amo, Sofia. Eu amo a sua filha com cada fibra do meu corpo estragado, e isso me apavora todos os malditos dias! Eu preferi que ela me odiasse, preferi que o Garret me considerasse um lixo egoísta, a ver o casamento de vocês ruir e o futuro dela ser manchado por um velho de quarenta anos. Eu nunca quis que nada disso acontecesse... nunca.
Sofia soltou um soluço baixo, cobrindo a boca com a mão ao ver o sofrimento cru do amigo. A verdade estava ali, nua e dolorosa.
— James... — Sofia limpou o rosto, aproximando-se e segurando as mãos dele. — Nós erramos. Eu errei em colocar aquele peso nas suas costas no calor do momento. O Garret é forte, ele ama você. Nós temos que conversar com ele. Temos que contar a verdade sobre o que aconteceu e resolver isso juntos, como uma família.
James balançou a cabeça negativamente, afastando as mãos com uma determinação sombria.
— Não. Nós não vamos conversar com ele. Se eu contar a verdade agora, o Garret vai se culpar por ter se colocado entre nós, ou vai olhar para a própria filha com desconfiança. A distância é o único remédio real aqui, Sofia. Deixa o tempo passar. Deixa a Hope viver a vida dela na faculdade, conhecer rapazes da idade dela, construir um futuro limpo. Deixa que eu carrego o papel de vilão. Eu aguento.
Sofia o encarou por longos minutos, percebendo que a decisão de James era irrevogável. Ele havia escolhido o exílio emocional.
— Isso vai te matar por dentro, James — ela sussurrou, com o coração partido.
— Eu já estou morto por dentro, Sofi — ele respondeu com um sorriso fraco e sem vida. — Agora, por favor... vai embora. Cuida do meu irmão. E cuida dela.
Sofia engoliu em seco, assentiu lentamente e caminhou de volta para o elevador. Quando as portas se fecharam, James virou o resto do uísque de uma vez só, encarando o reflexo de sua própria solidão no vidro.
Mais um ano se passou, arrastando-se como um inverno interminável para James e voando como um turbilhão de recomeços para Hope.
Na cobertura de Manhattan, a vida do empresário havia se transformado em uma vitrine de excessos vazios. James Lâfrer não parava com mulher nenhuma. Todos os dias os tabloides de fofoca registravam uma modelo, uma socialite ou uma executiva diferente saindo de seu prédio. Era uma coleção de rostos sem nome, uma tentativa desesperada de preencher um abismo que só tinha um formato.
Naquela madrugada de novembro, as luzes da cidade desenhavam sombras na suíte master. Uma jovem loira, modelo internacional chamada tiffany, estava sentada na beira da cama de casal, cobrindo-se com o lençol de seda preta enquanto olhava para James, que já estava de pé perto da janela, vestindo uma calça social e abotoando a camisa preta de forma mecânica.
— James... você mal falou comigo a noite inteira — tiffany disse, a voz manhosa, tentando buscar o olhar dele. — Achei que a gente pudesse tomar um café de manhã no bistrô do sul da ilha.
James nem sequer virou o rosto para ela. Sua expressão era de uma indiferença cortante.
— Não vai ter café, tiffany. O motorista já está lá embaixo esperando para te levar ao aeroporto. O seu voo para Paris é às sete, não é?
tiffany franziu o cenho, o tom manhoso sumindo, substituído por uma indignação crescente. Ela levantou-se da cama, puxando o roupão de seda.
— Você está de brincadeira? Eu passei os últimos três dias viajando para te ver, e você me trata como se eu fosse um objeto descartável da sua agenda? O que você tem na cabeça, Lâfrer? Você é o homem mais frio e insensível que eu já conheci na vida!
— Eu pago o seu contrato de publicidade em dia, tiffany. O que eu tenho ou deixo de ter na cabeça não faz parte do acordo — James respondeu, a voz gélida, pegando o relógio de luxo na cômoda. — Pegue suas coisas. Tenho uma reunião em trinta minutos.
— Você é um desgraçado egoísta! — tiffany gritou, com os olhos cheios de raiva enquanto juntava suas bolsas pelo chão com pressa. — Todo mundo na noite diz que você é uma máquina sem alma, mas eu achei que era charme. Você é oco, James! Não passa de um velho rico e solitário que vai morrer cercado de vidro e uísque!
Ela bateu a porta do quarto com fúria. James permaneceu imóvel, ouvindo o som do elevador descendo. As palavras dela não o feriam; eram apenas a constatação da realidade que ele escolhera para si.
Enquanto isso, em West Valley, a atmosfera na casa dos Styles para o feriado de Ação de Graças exalava a calorosa tradição de sempre, mas com uma ausência que pairava como uma névoa invisível. O cheiro de peru assado com sálvia enchia a sala, e a mesa de jantar estava impecavelmente decorada.
A grande novidade do ano cruzou a porta de entrada de mãos dadas com Hope. Heitor Blakez era um jovem de vinte e dois anos, estudante de direito em Harvard, de sorriso aberto, ombros largos e uma educação impecável. Ele usava um suéter azul-marinho e segurava uma garrafa de vinho fino para entregar aos anfitriões.
— Mãe, pai... esse é o Heitor — Hope anunciou, com um sorriso leve e maduro. Aos vinte e dois anos, ela parecia ter finalmente encontrado uma estabilidade. Estava formada, trabalhando em um jornal local e parecia ter seguido em frente.
— É um prazer imenso conhecer vocês, Sr. e Sra. Styles — Heitor disse de forma polida, cumprimentando Garret com um aperto de mão firme e entregando o vinho a Sofia. — A Hope passa o semestre inteiro falando sobre a comida da senhora, Sra. Sofia.
— O prazer é todo nosso, Heitor! Entrem, por favor, o frio lá fora está de congelar — Sofia recebeu-o com um abraço caloroso, embora seus olhos tenham buscado os de Hope por um segundo, medindo a real felicidade da filha.
Durante o jantar, a conversa fluiu de forma agradável. Heitor era divertido, contava histórias sobre as gafes dos professores de direito e interagia com Lucian sobre política de forma inteligente. Garret ria, servindo mais comida para o rapaz.
— Então você quer seguir a carreira de promotor, Heitor? — Garret perguntou, cortando mais um pedaço de carne. — É uma boa escolha. Precisamos de caras firmes na lei.
— Com certeza, Sr. Garret. Quero fazer a diferença — Heitor sorriu, cobrindo a mão de Hope com a sua por cima da mesa. Hope sorriu de volta, retribuindo o gesto com carinho.
No entanto, quando Garret levantou-se para pegar a garrafa de espumante na cozinha, ele parou por um segundo diante do armário de bebidas, olhando para o espaço vazio onde a garrafa de uísque favorita de James costumava ficar guardada para as festas. O sorriso de Garret murchou por um instante, um suspiro pesado escapando de seus lábios.
Lucian, percebendo o movimento do filho, comentou baixinho:
— O tempero do peru ficou excelente, Sofia... mas é estranho não ter aquele ranzinza do Lâfrer aqui para reclamar que a rabanada estava doce demais.
O silêncio caiu sobre a mesa por três segundos agonizantes. Elise limpou a garganta discretamente, e Garret voltou para a mesa com o espumante, tentando forçar a animação de antes.
— É... a vida muda, pai. Vamos brindar ao que temos aqui hoje. Ao futuro da Hope e do Heitor.
Sofia desviou o olhar para o prato, sentindo o peito apertar.
Hope, por sua vez, manteve o sorriso no rosto, mas seus dedos apertaram o tecido do guardanapo por baixo da mesa. Da base da escada de madeira da sala, ela conseguia ver o corredor escuro do segundo andar. A lembrança das brincadeiras de Natal, dos olhares furtivos no café da manhã e da dor dilacerante da última discussão pareciam assombrar cada canto daquela casa antiga. Heitor era o homem certo, o porto seguro, o futuro limpo que todos queriam para ela. Mas a falta de James Lâfrer era uma ferida crônica que aquela família carregaria para sempre, um dilema silencioso pintado nas paredes da Ação de Graças.
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