Livro II: O Eco dos Nossos Passos
14 O Reencontro de Vidro e Papel
O diploma em Jornalismo pela prestigiada universidade de Boston finalmente estava nas mãos de Hope. Mas o verdadeiro prêmio veio na semana seguinte: uma convocação de última hora para um estágio de transição na Lâfrer & Capital Media, uma das maiores holdings de comunicação e assessoria corporativa da Costa Leste. O processo seletivo havia sido gerido inteiramente por uma agência de recursos humanos terceirizada. Devido às fusões recentes, o nome de James não constava nos cabeçalhos dos e-mails de contratação. Hope sabia que a empresa era gigante, mas não fazia a menor ideia de quem assinava os cheques no topo do edifício.
O primeiro dia de expediente na sede de Manhattan exalava a correria habitual do mercado financeiro. Hope fora alocada em uma sala auxiliar de redação no vigésimo quinto andar. O espaço era moderno, com divisórias de vidro fosco, uma mesa de computadores interligados e pilhas de relatórios de mercado.
Sentada na cadeira de rodinhas, Hope vestia uma calça social preta e uma blusa de seda verde-escura. O cabelo loiro estava preso em um rabo de cavalo impecável, e ela usava óculos de leitura de armação fina. Ela estava concentrada, relendo com atenção as últimas notícias e artigos produzidos pela empresa no trimestre anterior, tentando captar o tom editorial da casa.
O som do clique magnético da porta ecoou pelo cubículo.
— Os relatórios do fechamento de Londres precisam de uma nota de esclarecimento até as... — a voz grave, rouca e absurdamente familiar morreu no ar.
Hope ergueu os olhos da tela do computador.
James Lâfrer estava parado sob o batente. Ele vestia um terno sob medida azul-marinho, camisa branca perfeitamente engomada e uma gravata escura. Aos quarenta e dois anos, os fios prateados nas têmporas estavam mais evidentes, moldando um semblante que os jornais descreviam como implacável. Ao colidir os olhos escuros com a figura de Hope, James paralisou. Suas pupilas dilataram e ele soltou o ar lentamente pelo nariz, travando o maxilar com tanta força que uma linha saliente desenhou-se em sua bochecha. Ele respirou fundo, recuperando o controle que moldara nos últimos dois anos de exílio emocional.
Hope sentiu o coração dar um solavanco violento contra as costelas, o ar sumindo de seus pulmões por um segundo inteiro. Suas mãos congelaram sobre o teclado.
— James... — o nome escapou de seus lábios em um fio de voz.
James não vacilou. Ele deu dois passos firmes para dentro da sala, adotando uma postura fria, calculista e estritamente profissional. Ele jogou uma pasta de couro preta sobre a mesa dela, fazendo um som seco.
— Senhorita Styles — James disse, a voz saindo gélida e impessoal, sem qualquer traço do homem que um dia a carregara no colo ou a abraçara no Natal. — Eu não sabia que o setor de Recursos Humanos havia concluído a seleção de Boston. Mas já que está aqui, vamos ao trabalho. Dentro dessa pasta estão os dados brutos da fusão das indústrias farmacêuticas do Meio-Oeste. Monte uma notícia de impacto para a editoria de economia com essas especificações. Quero o texto limpo, sem floreios emocionais e pronto na minha mesa até as dezoito horas. Ficou claro?
Hope engoliu em seco, sentindo uma pontada aguda de humilhação e desconforto com o tratamento gélido. Ela endireitou a postura, erguendo o queixo para sustentar o olhar dele com o orgulho que lhe restava.
— Ficou perfeitamente claro, Senhor Lâfrer — ela enfatizou o sobrenome com a mesma distância que ele impusera. — O texto estará na sua mesa antes do prazo.
James apenas assentiu com um aceno milimétrico de cabeça, virou-se de costas e saiu da sala, a porta fechando-se automaticamente atrás dele. Hope desabou na cadeira, cobrindo o rosto com as mãos por alguns segundos, sentindo o peito arder. O dia seria longo e incrivelmente pesado.
Às dezessete e quarenta e cinco, as luzes do andar de redação começavam a diminuir. Hope revisou o texto pela última vez, imprimiu a lauda e pegou a pasta de couro. Ela subiu pelo elevador interno até o trigésimo andar, onde ficava a presidência.
Ao entrar na imensa sala de jacarandá, James estava sentado atrás da mesa de vidro, analisando alguns gráficos em um tablet. O paletó do terno estava pendurado na cadeira e os dois primeiros botões de sua camisa estavam abertos.
Hope caminhou até a mesa e depositou os papéis exatamente à frente dele.
— Aqui está o relatório e a proposta de notícia, conforme solicitado. O tom está alinhado com o manual da holding.
James pegou as folhas, correu os olhos escuros pelas linhas com rapidez e técnica.
— Aceitável, Styles. A estrutura está correta e a abordagem técnica foi bem executada. Pode ir por hoje.
Hope permaneceu parada em frente à mesa. O silêncio da sala era quebrado apenas pelo tique-taque do relógio de parede. Olhando para ele ali, tão perto e ao mesmo tempo a um abismo de distância, a saudade acumulada em dois anos falou mais alto que seu orgulho. Ela tentou puxar assunto, a voz saindo um pouco mais mansa.
— James... como você está? Sabia que o meu pai expandiu a construtora? E a minha avó Elise... ela sempre pergunta se eu tenho notícias suas.
James sequer ergueu os olhos dos papéis. Ele assinou a lauda com uma caneta de forma mecânica, a voz saindo curta, grossa e desprovida de qualquer calor humano.
— Eu não tenho tempo para conversas bobas ou atualizações familiares, Hope. O meu foco está nesta empresa. E agora, se me dá licença, eu tenho um encontro em trinta minutos no Soho e detesto me atrasar por causa de sentimentalismo barato. Pegue seus pertences e saia.
O golpe definitivo foi desferido. Hope sentiu os olhos marejarem, mas piscou as lágrimas para longe de imediato. A frieza dele era uma barreira intransponível.
— Com licença, Senhor Lâfrer. Tenha uma boa noite — ela disse com firmeza, deu meia-volta e cruzou a porta da presidência a passos rápidos.
O apartamento que Garret e Sofia haviam alugado para a filha ficava no Greenwich Village. Era um espaço aconchegante, com paredes de tijolos à vista e uma janela que dava para as copas das árvores da rua de paralelepípedos.
Hope jogou a bolsa no sofá, tirou os sapatos sociais e sentou-se na cama de casal, puxando o celular. Ela iniciou uma chamada de vídeo. Na segunda chamada, o rosto preocupado e acolhedor de Sofia apareceu na tela, direto da cozinha de West Valley.
— Hope, meu amor! Oi! — Sofia sorriu, ajeitando o celular no balcão. — Como foi o seu primeiro dia no estágio? Estávamos ansiosos aqui. O seu pai não para de perguntar.
Hope soltou uma risada fraca, sem humor, balançando a cabeça enquanto abraçava um travesseiro.
— Mãe... você não vai acreditar na novidade ridícula e irônica que o destino preparou para mim. A empresa de comunicação que me contratou... o dono da holding é o James.
Sofia paralisou na tela, o sorriso sumindo instantaneamente, substituído por uma expressão de puro choque e alarme. — O James? Meu Deus, Hope... você o viu? O que aconteceu?
— Eu o vi, mãe. Ele entrou na minha sala de redação como se eu fosse um fantasma — Hope desabafou, a voz falhando de leve, mas mantendo a postura firme. — Ele foi frio, calculista, curto e grosso comigo o dia inteiro. No final do expediente, quando eu tentei perguntar como ele estava, ele me cortou dizendo que não tinha tempo para conversas bobas e que tinha um encontro amoroso. Mas sabe de uma coisa? Eu não vou pedir demissão. Eu me formei como a melhor da turma e vou fazer o meu trabalho. Vou ser bem madura e profissional com ele, mesmo que ele me trate como um pedaço de gelo.
Sofia olhou para a filha através da tela, sentindo uma mistura de orgulho imenso e um aperto no coração. Ela sabia o quanto aquela situação era volátil, mas a maturidade na voz de Hope mostrava que a menina de dezoito anos realmente dera lugar a uma mulher de verdade.
— Eu sei que você consegue, minha princesa. Você é forte. Mantenha o seu foco profissional e não deixe a frieza dele te abalar. Se ficar pesado demais, você me liga na hora, tá bem? Eu te amo.
— Também te amo, mãe. Vou descansar. Um beijo para o pai — Hope sorriu fraco e desligou a chamada, encarando o teto do quarto silencioso.
Enquanto isso, de volta à cobertura de Manhattan, o cenário era de uma luxúria mecânica. James estava em sua suíte master, com as luzes apagadas. Ele estava agarrando Pérola, uma das modelos de alta-costura mais conhecidas da noite nova-iorquina. Ela tinha cabelos castanhos longos e uma beleza exuberante.
O ato foi intenso, físico e rápido. Pérola soltava gemidos manhosos contra o pescoço de James, mas ele mantinha os olhos fechados, os movimentos guiados por uma urgência puramente carnal, uma tentativa desesperada de silenciar os pensamentos que o atormentavam desde as nove da manhã.
Quando tudo terminou, Pérola deitou-se de lado, puxando o edredom de seda e apoiando a cabeça no peito largo de James, respirando devagar.
— Você foi incrível hoje, James... como sempre. O que acha de irmos para os Hamptons no próximo fim de semana?
James não respondeu. Ele permaneceu deitado de costas, com um dos braços apoiado sob a cabeça, os olhos escuros fixos no teto escuro da cobertura, completamente perdido em seus próprios pensamentos. Ele estava distante, a milhas de distância dali.
Em sua mente, a imagem de Pérola desapareceu. Tudo o que ele conseguia ver era o par de olhos azuis de Hope por trás daqueles óculos de leitura na sala de redação. O modo como a blusa verde-escura destacava o corpo maduro e esguio dela, a firmeza com que ela segurara o queixo diante de sua frieza, as curvas que haviam terminado de se desenhar nos últimos dois anos... ela estava linda. Uma mulher feita, madura e imponente.
James soltou um suspiro pesado, o vazio em seu peito expandindo-se ainda mais. A tortura diária havia começado: ele teria que vê-la todos os dias em sua empresa, mantendo a distância e a máscara de gelo, enquanto sua alma continuava queimando de desejo e saudade pela única mulher que ele nunca poderia ter.
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