Livro II: O Eco dos Nossos Passos

15 Linhas Cruzadas no Tabuleiro



​O namoro com Heitor Blakez havia chegado ao fim de maneira inevitável. A rotina exaustiva do curso de Direito em Harvard combinada com o ritmo frenético da redação de Hope em Manhattan transformou o relacionamento em uma sucessão de chamadas telefônicas perdidas e mensagens de texto protocolares. A distância, fria e silenciosa, encarregou-se de apagar os últimos resquícios de um romance que parecia perfeito no papel, mas que não resistiu à realidade. Hope aceitou o término com a mesma maturidade com que vinha encarando sua nova vida: sem dramas, focando cada grama de sua energia no jornalismo.

​A manhã de terça-feira começou cinzenta em Nova York. Hope estacionou seu sedan prata no subsolo do edifício da Lâfrer & Capital Media, desligou o motor e ajustou a alça da bolsa de couro no ombro. Ela caminhou a passos firmes até o hall dos elevadores e apertou o botão de subida. Assim que a caixa de metal chegou, ela entrou, posicionando-se no fundo.

​As portas de metal começaram a deslizar para se fechar, quando uma mão grande e firme interrompeu o sensor.

​James Lâfrer entrou no cubículo. Ele vestia um terno sob medida grafite, camisa social branca imaculada e gravata escura. O perfume amadeirado e marcante que ele usava inundou o espaço confinado instantaneamente. Ao perceber que Hope era a única ocupante, as pupilas dele dilataram por um milésimo de segundo, mas seu semblante endureceu logo em seguida.

​O silêncio que se instalou entre os dois era horrível, denso, quase palpável. O painel digital piscava os andares mudando lentamente: 3... 4... 5... James mantinha os olhos fixos na porta de metal, a mandíbula trancada. Hope, por sua vez, ergueu o queixo, ajustou os óculos de leitura na ponta do nariz e fingiu com todas as suas forças que o homem de quarenta e dois anos ao seu lado era apenas um elemento invisível no cenário. Nenhum deles cedeu. Nenhum deles deu um "bom dia". A distância que os separava ali dentro era de apenas um metro, mas o abismo emocional parecia intransponível. Quando o elevador finalmente abriu no vigésimo quinto andar, Hope saiu a passos largos sem olhar para trás, deixando James soltar o ar pesadamente pelos lábios na solidão do metal.

​Enquanto isso, a centenas de quilômetros dali, na cozinha ensolarada de West Valley, o silêncio que durava dois anos finalmente foi quebrado. Sofia não conseguia mais carregar o peso da mentira nas costas ao ver o marido passar os finais de semana imerso em uma amargura silenciosa pela perda do melhor amigo.

​Garret estava sentado à mesa, terminando de tomar seu café, quando Sofia sentou-se na cadeira à frente dele, segurando suas mãos com uma firmeza trêmula.

​— Garret... eu preciso te contar uma coisa. E você precisa me ouvir até o fim — Sofia começou, os olhos castanhos marejados.

​Garret franziu o cenho, deixando a caneca de lado. — O que foi, Sofi? Você está me deixando preocupado.

​— É sobre o James. E sobre o motivo de ele ter sumido e dito aquelas barbaridades no escritório dele há dois anos — Sofia engoliu em seco, sentindo o coração acelerar. — Ele mentiu para você, Garret. Ele mentiu sobre sentir nojo da nossa vida ou sobre nos considerar um fardo. O James fez aquilo tudo... porque ele estava apaixonado pela Hope. Ele descobriu que a amava como mulher e, quando eu percebi e o confrontei no quarto, eu disse que isso destruiria você e a nossa família. O James se sacrificou. Ele se transformou no vilão da história e quebrou a amizade com você apenas para proteger o seu casamento e o futuro da nossa filha.

​Garret paralisou na cadeira. Suas feições passaram pelo choque, pela negação e, finalmente, por uma compreensão dolorosa. Ele piscou os olhos repetidamente, assimilando a dimensão do que acabara de ouvir. Ele levantou-se lentamente, caminhando até a janela da cozinha, com as mãos na cintura.

​— Ele fez o quê...? — Garret sussurrou, a voz saindo falha. Ele virou-se de frente para a esposa, abismado. — Aquele imbecil... Aquele idiota de terno achou mesmo que eu ia quebrar o mundo por causa disso? Sofia, a Hope já tinha vinte anos! Se ele tivesse sido sincero comigo, se tivesse vindo homem a homem me dizer o que sentia, a gente teria conversado. Eu conheço o James, sei o caráter dele! Eu podia até ter ficado em choque no começo, mas a gente daria um jeito porque somos irmãos!

​Garret passou a mão pelo cabelo, soltando uma risada amarga, com os olhos cheios de lágrimas de frustração.

— Mas agora é tarde, não é? O James preferiu ser uma carranca de gelo comigo. Ele rasgou a nossa história por causa de um orgulho estúpido de querer carregar o peso do mundo sozinho. Que droga, Lâfrer...

​Sofia aproximou-se, abraçando o marido de lado, deixando que ele soltasse a dor que guardara por vinte e quatro meses. A verdade havia libertado Garret, mas o orgulho de James ainda mantinha a barreira de pé.

​De volta à sede da holding em Manhattan, a temperatura na redação parecia ferver.

​Hope estava de pé na área de convivência, encostada na bancada da máquina de café expresso. Naquele dia, ela vestia um vestido preto de tricô canelado que ia até logo abaixo das coxas. O tecido era justo, moldando perfeitamente as curvas maduras de seu quadril, a cintura fina e o colo desenhado de forma elegante. Ela mexia no açúcar da xícara com calma, alheia ao movimento ao redor.

​Na sala da presidência, a poucos metros dali, a porta de jacarandá estava entreaberta. James estava revisando alguns contratos com Ricardo Andrade, o novo diretor de marketing da empresa — um homem de trinta e cinco anos, boa pinta, conhecido por sua lábia e autoconfiança com as mulheres.

​Ricardo caminhou até a mesa de James para assinar uma folha, mas parou ao olhar através do vidro fosco em direção à área do café. Ele soltou um assobio baixo, com um sorriso malicioso nos lábios.

​— Rapaz do céu, James... quem é aquele pitel lindo que acabou de entrar na redação? — Ricardo perguntou, apontando discretamente com a caneta. — A loira de vestido preto. Que corpo espetacular é aquele? O desenho da cintura daquela moça é um pecado para o horário comercial. Eu nunca tinha visto essa beldade por aqui.

​James ergueu os olhos dos papéis lentamente. Suas pupilas focaram na silhueta de Hope através do vidro. Ao ouvir Ricardo descrevê-la daquela forma, um sentimento de posse violento e primitivo atingiu o estômago de James. Seu maxilar se contraiu e os nós de seus dedos ficaram brancos ao redor da caneta. Ele forçou sua melhor expressão de indiferença calculada, a voz saindo gélida.

​— O nome dela é Hope Styles. Ela é... filha do meu irmão de consideração — James despejou a resposta com um desdém fingido e cortante. — Mas nós não somos próximos. Ela está aqui apenas cumprindo o estágio final de Boston. Foque nos relatórios, Ricardo.

​— Não sermos próximos é uma excelente notícia para mim — Ricardo sorriu, ajeitando o paletó de terno com empolgação, ignorando o tom de aviso na voz do chefe. — Se você não se importa, Lâfrer, eu vou lá me apresentar. Um pitel daqueles não pode ficar solto por Nova York sem um guia adequado.

​James permaneceu estático na cadeira enquanto Ricardo saía da sala. O empresário sentiu o sangue pulsar forte em suas têmporas.

​Ricardo caminhou firmemente até a área do café, parando bem ao lado de Hope com seu sorriso mais sedutor.

— Bom dia. Eu sou o Ricardo Andrade, diretor de marketing. E eu preciso confessar que o meu dia ficou mil vezes melhor depois que eu vi você operando essa máquina de café.

​Hope virou-se, arqueando uma sobrancelha. Ela percebeu imediatamente o jogo de sedução do homem, mas antes que pudesse dar uma resposta evasiva, viu pelo reflexo do vidro que James estava saindo de sua sala e caminhando na direção deles, fingindo analisar uns papéis com uma expressão de poucos amigos.

​Uma faísca de audácia e deboche Styles acendeu nos olhos azuis de Hope. Ela mudou a postura, dando um sorriso encantador para Ricardo.

​— Bom dia, Ricardo. Eu sou a Hope Styles, estagiária da redação — ela respondeu, a voz saindo clara e perfeitamente audível.

​James parou a dois passos de distância do balcão, fingindo procurar um documento na pasta, mas com os ouvidos totalmente atentos à conversa.

​— Hope... que nome lindo — Ricardo deu um passo a mais, diminuindo o espaço pessoal entre eles. — Sabe, eu estava pensando... um dia pesado como esse merece um encerramento à altura. Você aceitaria jantar comigo hoje à noite no Le Coucou? Eu conheço o chef, posso conseguir a melhor mesa para nós.

​Hope olhou diretamente nos olhos de James, que agora havia erguido o rosto, encarando-a com uma intensidade sombria, os olhos escuros faiscando de puro ciúme e aviso silencioso. Não faça isso, o olhar dele implorava.

​Hope sustentou o olhar do chefe por um segundo inteiro, deu o seu sorriso mais provocante de canto de boca e voltou-se para Ricardo, ignorando James por completo.

​— No Le Coucou? Eu adoraria, Ricardo — Hope disparou, a voz firme e aveludada, proferindo a resposta bem na frente de James. — Um jantar com uma boa companhia é exatamente o que eu preciso para esquecer a rotina fria desse escritório. Que horas você me pega no meu apartamento?

​— Às oito está perfeito para você? — Ricardo comemorou, com um brilho de vitória no olhar.

​— Perfeito. Estarei te esperando — ela assentiu, pegando sua xícara de café.

​O impacto da resposta de Hope atingiu James como um soco direto no estômago. Ele fechou a pasta de couro com um estalo violento que fez Ricardo sobressaltar. Sem dizer uma única palavra, com o rosto completamente transtornado de raiva, ciúmes e frustração, James deu meia-volta e caminhou a passos largos de volta para a sua sala, batendo a imensa porta de jacarandá com um estrondo que ecoou por todo o vigésimo quinto andar.

​Ricardo piscou, olhando para a porta fechada da presidência. — O chefe parece estar de mau humor hoje.

​Hope deu um gole lento no seu café, olhando para a porta de James com um sorrisinho travesso e vitorioso nos lábios. O jogo em Nova York havia ganhado uma nova voltagem, e ela acabara de fazer o quarterback de quarenta e dois anos perder completamente o controle do campo.