Livro II: O Eco dos Nossos Passos
16 O Jogo das Provocações
O ambiente do Le Coucou era a definição do luxo contemporâneo de Manhattan. Sob o brilho suave dos candelabros de cristal e entre as paredes de tijolos aparentes decoradas com espelhos imensos, casais e executivos conversavam em um murmúrio elegante.
À mesa de canto, Ricardo Andrade mostrava-se um verdadeiro cavalheiro. Ele mantinha o corpo inclinado para a frente, ouvindo Hope com uma atenção genuína que pouca gente no ambiente corporativo demonstrava.
— ...e então o meu pai quase teve um colapso quando viu o tamanho da conta do buffet da minha formatura — Hope contava, soltando uma risada limpa, os olhos azuis brilhando sob a luz de velas. — Mas a minha avó Elise o acalmou dizendo que uma Styles só se formava uma vez em Boston. Eles são muito unidos. A minha mãe, Sofia, é o coração daquela casa.
— Eles parecem ser pessoas incríveis, Hope — Ricardo sorriu, girando elegantemente a taça de vinho tinto. — É raro encontrar alguém em Nova York que fale da família com tanto brilho nos olhos. Geralmente as pessoas aqui só querem falar de ações, metas e fusões. É revigorante estar com você.
— Obrigada, Ricardo. Eu realmente sinto muita falta deles... — a voz de Hope morreu no meio da frase.
A imponência do homem que acabara de cruzar o portal do restaurante cortou o ar do recinto. James Lâfrer entrou vestindo um terno preto sem gravata, com o paletó aberto e as mãos nos bolsos da calça social. Ao seu lado, caminhava Candice, uma ruiva estonteante de olhos verdes, modelo fotográfica de uma marca de grife de Paris. Ela usava um vestido justo verde-esmeralda e mantinha a mão possessivamente entrelaçada no braço de James.
James foi conduzido pelo maître até uma mesa disposta exatamente na linha de visão de Hope. Ao se sentar, os olhos escuros dele varreram o salão e fixaram-se na estagiária e no seu diretor de marketing. O maxilar de James contraiu-se de imediato, mas ele disfarçou, abrindo o cardápio com uma frieza cirúrgica enquanto Candice sorria, alheia à tensão, tocando o ombro dele de forma íntima.
Ricardo, percebendo a movimentação, olhou para trás e ergueu as sobrancelhas.
— Olha só... o grande chefe em território neutro. Me dá só um minuto, Hope? Vou ali fazer uma média profissional rápida. É bom para o bônus de fim de ano.
— Claro, fique à vontade — Hope sorriu de canto, mantendo a postura impecável enquanto via Ricardo se levantar.
Ricardo caminhou até a mesa de James, parando com as mãos nos bolsos.
— Boa noite, James. Que bela surpresa te encontrar por aqui. Candice, muito prazer, sou o Ricardo.
James ergueu os olhos do cardápio, a voz saindo no tom gélido de sempre.
— Ricardo. Não sabia que você frequentava o circuito do Soho nas terças-feiras.
— Ah, uma ocasião especial pede um lugar especial — Ricardo piscou, indicando com a cabeça a mesa onde Hope observava tudo com sua taça de champanhe na mão. — Estou muito bem acompanhado da sua protegida. Uma moça brilhante.
Candice soltou uma risada afetada, olhando para James. — Você não me disse que seus funcionários tinham tanto bom gosto, James.
— O Ricardo sabe gerenciar o tempo dele, Candice — James respondeu, a voz cortante, fixando um olhar de aviso tão pesado em Ricardo que o diretor de marketing sentiu o clima esfriar três graus. — Bom jantar para vocês, Ricardo. Tenho assuntos a tratar com a Candice.
— Igualmente, chefe. Com licença — Ricardo percebeu que o terreno estava perigoso e recuou de imediato.
Ele voltou para a mesa, sentando-se com um suspiro descontraído e servindo mais vinho.
— É... lá vai o James Lâfrer. E com mais uma de suas dezenas de mulheres de catálogo. O cara muda de namorada como quem muda de terno. Bonito, rico, bem-sucedido... mas dizem na boca pequena que nenhuma aguenta o tempero de gelo dele por mais de duas semanas. Ele vai acabar virando um eremita naquela cobertura gigante.
Hope olhou fixamente para a mesa de James. Naquele exato momento, ele a encarava por cima do ombro de Candice, com uma intensidade sombria que quase queimava a distância. Ela deu um gole lento em seu champanhe, sustentando o olhar dele, e voltou-se para Ricardo com o seu melhor sorriso de deboche Styles.
— Todo homem galinha e arrogante acaba sozinho um dia, Ricardo — Hope disparou, a voz perfeitamente clara. — O vidro daquela cobertura dele deve ser muito frio no inverno. Deixa ele com as modelos dele. Me conta mais sobre o projeto de marketing de Londres.
Na manhã seguinte, os corredores do subsolo da holding exalavam o cheiro característico de café e chuva. Hope estacionou seu sedan prata e caminhou em direção ao bloco de elevadores. Ela vestia uma saia lápis escura e uma camisa social branca de cetim com as mangas dobradas.
Assim que a caixa de metal abriu, ela entrou. Para sua total surpresa — ou ironia do destino —, James já estava lá dentro, encostado na parede de metal, segurando uma pasta de couro preta.
A porta fechou-se com um clique seco. O elevador começou a subir: 1... 2... 3...
De repente, James esticou o braço longo e bateu com força no botão vermelho de emergência. O elevador deu um solavanco brusco e parou entre o quarto e o quinto andar. As luzes oscilaram por um segundo antes de se estabilizarem.
Hope deu meio passo para trás, ajeitando os óculos de leitura na ponta do nariz, mantendo a expressão fria e imperturbável, embora seu coração estivesse batendo no topo da garganta.
— O que significa isso, Senhor Lâfrer? Eu tenho um relatório de mercado para entregar em dez minutos. Sabia que retenção de funcionários em elevadores pode gerar um processo trabalhista?
James largou a pasta de couro preta no chão de metal com um baque surdo. Ele deu dois passos largos na direção dela, quebrando qualquer barreira de espaço pessoal, encurralando-a contra o painel de botões. Aos quarenta e dois anos, a aura de homem poderoso dele era esmagadora.
— Dá para você parar com essa porra de joguinho, Hope?! — James explodiu, a voz saindo baixa, mas carregada de uma fúria e de um ciúme que ele não conseguia mais conter. Ele apoiou as duas mãos na parede de metal, uma de cada lado da cabeça dela, encurralando-a. — O que você estava fazendo ontem à noite com o Ricardo naquele restaurante? Você aceitou sair com o meu diretor de marketing na minha frente só para me provocar?
Hope manteve os olhos azuis cravados nos escuros dele. Ela não recuou um milímetro. A proximidade fazia com que ela sentisse o calor do corpo dele e o perfume amadeirado que tanto a assombrava. Ela adotou seu tom mais gélido e profissional.
— Eu sou uma mulher solteira de vinte e dois anos, James. E o Ricardo é um homem atraente, educado e que, ao contrário de certas pessoas, sabe como tratar uma mulher sem parecer uma estátua de gelo de Manhattan. Eu janto com quem eu quiser. Você mesmo disse ontem que estava muito ocupado com a sua... como era mesmo o nome? A ruiva? Candice. Acho que o senhor não tem o direito de me cobrar nada.
— O Ricardo é um canalha que quer apenas mais um troféu para a coleção dele, Hope! — James sibilou, os dentes trincados, o rosto dele descendo até ficar a milímetros do dela. Suas respirações tornaram-se curtas, rápidas e completamente ofegantes, misturando-se no espaço confinado. — Você não tem ideia do quanto me matou ver aquele cara tocando na sua mão ontem. Você não sabe...
Os olhos escuros de James desceram para a boca bem desenhada de Hope. O magnetismo era violento, cru, avassalador. Os lábios deles quase se tocaram; Hope podia sentir o calor da boca dele, as mãos dela subiram inconscientemente até a linha da cintura dele, os dedos tencionando o tecido do paletó. Eles estavam prestes a quebrar todas as regras novamente, a se entregar àquele desejo que os consumia há anos—
James soltou um rosnado baixo de frustração. Com um esforço físico e mental visível que fez as veias de seu pescoço saltarem, ele empurrou o próprio corpo para trás, afastando-se dela e batendo com a palma da mão no botão de emergência de uma vez só. O elevador deu outro tranco e voltou a subir rapidamente.
Ele abaixou-se, recolheu a pasta de couro do chão com as mãos trêmulas e ajeitou o terno, respirando fundo para recuperar a máscara de presidente.
— Isso não vai se repetir, Styles. Mantenha a distância do marketing. É um aviso profissional.
O visor digital apitou: 25. As portas de metal se abriram. James saiu a passos largos, a postura rígida, sumindo pelo corredor em direção à presidência sem olhar para trás.
Hope permaneceu dentro do elevador por mais três segundos, ajeitando a camisa de cetim com as mãos trêmulas e soltando o ar que parecia queimar seus pulmões. Ela caminhou lentamente em direção ao seu cubículo de redação, sentando-se na cadeira de couro.
Ao olhar para a tela do computador, um sorriso lento, travesso e perigosamente vitorioso desenhou-se em seus lábios azuis. A pose de quarentão controlado de James Lâfrer havia virado poeira em menos de dois minutos dentro daquele elevador. Ela tocou os próprios lábios, sentindo a adrenalina correr por suas veias. Hope percebeu que o tabuleiro de Nova York estava oficialmente montado, e ela estava começando a gostar genuinamente daquele novo jogo.
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