Livro II: O Eco dos Nossos Passos

17 Caipirinha, Cloro e Ciúmes



​O sábado amanheceu com um sol escaldante, atípico para o início do verão nova-iorquino. Ricardo Andrade, orgulhoso de suas raízes brasileiras, decidiu que a comemoração de seus trinta e cinco anos não seria em nenhum restaurante minimalista do Soho. Ele alugou uma mansão espetacular nos Hamptons, com um gramado imenso, coqueiros decorativos e uma piscina de borda infinita que parecia emendar-se com o oceano.

​O som que vinha das caixas de som espalhadas pelo jardim era uma mistura contagiante de samba e bossa nova. O cheiro de picanha na brasa invadia o ar, misturando-se com o aroma de limão e açúcar das caipirinhas que um barman preparava na hora. Metade do escritório da Lâfrer & Capital Media já estava lá, de bermuda e óculos de sol, rendendo-se ao estilo descontraído do aniversariante.

​James Lâfrer estava em pé perto do bar externo. Ele vestia apenas uma bermuda social escura e estava sem camisa, exibindo o abdômen definido e o porte atlético de ex-quarterback que os quarenta e dois anos pareciam apenas ter esculpido com mais maturidade. Ele segurava um copo de uísque com gelo, os olhos escuros camuflados por óculos de sol espelhados. Por trás das lentes, no entanto, seu olhar estava fixo em um único ponto do jardim.

​A porta de vidro da mansão se abriu, e Hope Styles cruzou o deck de madeira.

​O jardim inteiro pareceu silenciar por um segundo. Hope estava deslumbrante. Ela usava um biquíni cortininha preto que contrastava perfeitamente com sua pele clara e o cabelo loiro solto, que balançava com a brisa do mar. Por cima, vestia apenas uma saída de praia de renda branca, totalmente transparente e aberta na frente, que desenhava cada curva de seu quadril, a cintura fina e as pernas longas.

​Vários analistas e diretores do setor financeiro viraram a cabeça abertamente, acompanhando o movimento dela com olhares cobiçosos. James trancou o maxilar com tanta força que o copo de uísque tremeu em sua mão. O sentimento de posse e o ciúme violento atingiram seu estômago como um soco.

​— Nossa senhora! — Ricardo exclamou em bom português, soltando uma risada animada e caminhando até ela com um copo de caipirinha na mão. Ele usava uma bermuda de praia florida e exalava a simpatia típica que Hope adorava. — Hope! Você resolveu parar a minha festa de aniversário? Que espetáculo de mulher. Olha, se o jornalismo não der certo, o mundo da moda está perdendo uma rainha.

​Hope deu uma risada alta, jogando o cabelo para o lado, perfeitamente consciente de que James a assistia de longe. Ela aceitou o copo de Ricardo, dando um gole e sorrindo de canto.

— Parabéns, Ricardo! O clima aqui está incrível. E obrigada pelo elogio, vim preparada para um legítimo churrasco brasileiro.

​— E vai ter de tudo! Picanha, música boa e... — Ricardo aproximou-se um pouco mais, diminuindo o espaço entre os dois de forma charmosa, colocando a mão levemente nas costas nuas de Hope para guiá-la até as espreguiçadeiras. — ...a melhor companhia do evento. Vem, quero te apresentar uns amigos da agência de marketing de Miami.

​James assistiu à cena com os dentes trincados. Ver a mão de Ricardo tocando a pele nua das costas de Hope fez o empresário dar um passo à frente de forma quase involuntária, mas ele se forçou a parar. Ele era o chefe. Ele era o "quarentão controlado". Mas o controle estava escorrendo por seus dedos.

​Mais tarde, o calor ficou quase insuportável. Ricardo puxou Hope pela mão em direção à borda da piscina.

— Chega de conversa fiada, Styles! Vamos inaugurar essa água. No Brasil, ninguém fica seco com esse sol!

​Com um movimento gracioso, Hope tirou a saída de praia de renda, deixando-a sobre a cadeira. Ao dar passos lentos até a escada da piscina, o sol bateu direto nas curvas de seu corpo esguio e maduro. Praticamente todos os homens — e algumas mulheres — ao redor da piscina pararam para admirar a estagiária.

​James, que tentava fingir interesse em uma conversa sobre ações com o diretor financeiro, simplesmente parou de falar no meio da frase. Seus olhos escuros devoraram a silhueta de Hope mergulhando na água cristalina. Quando ela emergiu, jogando a cabeça para trás e molhando o cabelo loiro, os olhos azuis dela buscaram os dele através das lentes espelhadas. Ela deu um sorriso provocante, sabendo exatamente o inferno que estava causando na mente do chefe.

​Ricardo pulou logo atrás, espalhando água para todos os lados. Na piscina, os dois ficaram incrivelmente próximos. Ricardo contava piadas, fazia Hope rir alto e, em dado momento, tirou uma mecha de cabelo molhado do rosto dela de forma carinhosa.

​Do deck, James virou o resto do seu uísque puro de uma vez só. Ele largou o copo no balcão com tanta força que o som estalou. O ciúme cego havia vencido a razão. Ele precisava sair dali antes que fizesse uma loucura na frente de toda a diretoria.

​James caminhou a passos largos para dentro da mansão, buscando a calmaria do ar-condicionado do corredor principal. Ele entrou no grande banheiro social do térreo, com paredes de mármore escuro e um espelho imenso. Ele apoiou as duas mãos na bancada da pia, olhando para o próprio reflexo, respirando fundo para tentar acalmar o coração que batia como um tambor de guerra.

​— Que porra você está fazendo, James...? — ele sussurrou para si mesmo, trancando os dentes. — Ela tem vinte e dois anos. Ela está seguindo em frente.

​O som do clique da porta ecoou.

​James ergueu os olhos e viu pelo espelho. Hope havia entrado no banheiro. Ela estava ensopada da piscina, com as gotas de água escorrendo pelos ombros e pelo biquíni preto, segurando a saída de praia na mão.

​Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, James virou-se de frente. O desejo reprimido por dois anos, misturado com a fúria do ciúme daquela tarde, explodiu. Ele deu dois passos largos, agarrou a cintura úmida de Hope com as duas mãos e a impulsionou para trás, prensando as costas dela contra a porta de madeira maciça. Ele esticou a mão livre e girou a tranca com um clique seco.

​A atmosfera do banheiro mudou em um milésimo de segundo. Ficou pesada, quente e elétrica.

​— James... — Hope arfou, o susto sendo substituído imediatamente por uma onda de calor que subiu por seu corpo. Ela olhou para o peito nu e definido dele, sentindo o calor da pele de James contra o seu biquíni molhado. — O que é isso? O presidente enlouqueceu de vez?

​— Sim, eu enlouqueci! — James sibilou, a voz saindo em um tom perigosamente grave, rouca de pura luxúria. Ele colou o corpo dele ao dela, aproximando o rosto até que suas respirações ofegantes se misturassem. — Você quer me matar, Hope? É isso? Passar a tarde inteira rebolando na frente daquele brasileiro, deixando todo mundo naquele jardim babar no seu corpo... você aceitou o toque dele só para me ver queimar?

​Hope sustentou o olhar dele, os olhos azuis dilatados na penumbra do banheiro. O deboche Styles cedeu espaço para a audácia da mulher que sabia o poder que tinha. Suas mãos pequenas, ainda frias da água da piscina, subiram pelo abdômen nu de James, espalhando-se pelo peito dele, arranhando de leve a pele quente.

​— E se for, James? — ela sussurrou, a voz aveludada e provocante, os lábios a milímetros dos dele. — Você passou os últimos dois anos agindo como um monstro de gelo. Disse que eu era um erro. Mas bastou um homem de verdade me olhar para você quebrar a sua armadura de quarentão controlado. O Ricardo é divertido. E ele não tem medo de me tocar.

​— O Ricardo não sabe nada sobre você! — James rosnou, o autocontrole virando cinzas por completo. — Ele não sabe como a sua pele arrepia quando eu toco na sua nuca. Ele não sabe o gosto da sua boca. Você é minha, Hope. Sempre foi.

​James não aguentou mais. Ele atacou a boca dela com um beijo devastador, violento e faminto.

​Foi uma colisão de lábios e línguas que parecia carregar toda a agonia dos anos de distância. Hope soltou um gemido agudo contra a boca dele, entrelaçando os braços pelo pescoço de James com uma força desesperada, puxando-o para mais perto, enquanto as pernas dela se abriam ligeiramente contra o corpo dele. James apertou o quadril dela contra o seu com força, a mão grande subindo pela lateral de sua coxa molhada, arrastando o tecido do biquíni preto, subindo até a costela dela.

​O beijo era barulhento, quente, preenchido pelo som das respirações descontroladas dos dois. James desceu os lábios pelo maxilar dela, cravando os dentes de leve no pescoço de Hope, arrancando dela um arquejo lascivo. O desejo ali dentro era um incêndio incontrolável, o cheiro de cloro, uísque e suor criando uma combinação embriagante.

​— James... — ela murmurou, jogando a cabeça para trás, as unhas cravadas nos ombros largos dele. — Nós estamos na festa dele... alguém vai entrar...

​— Que se foda a festa — James respondeu entre dentes, a voz totalmente rouca, a mão descendo para a parte de trás do biquíni dela, apertando a carne macia de seu bumbum com posse e urgência, suspendendo-a levemente contra a porta.

​O nível de tesão e adrenalina estava no limite máximo. Eles estavam a um triz de arrancar o resto do tecido e se entregarem ali mesmo, contra o mármore daquele banheiro—

​BAT, BAT, BAT.

​— Ô, James! James, meu irmão, você está aí dentro? — a voz alta e alegre de Ricardo ecoou do outro lado da porta, acompanhada pelo som da maçaneta sendo forçada. — A Sônia do financeiro disse que viu você entrar. Cara, traz mais gelo lá da cozinha quando sair, a picanha virou o primeiro turno e o pessoal quer brindar!

​O impacto da voz do aniversariante funcionou como um balde de água fria na espinha de James.

​Ele paralisou com os lábios colados ao pescoço de Hope. Ambos arregalaram os olhos, as respirações ainda saindo em jatos curtos e quentes. James soltou o ar devagar, fechando os olhos por um segundo para amaldiçoar mentalmente o timing perfeito do brasileiro pela segunda vez na vida.

​Hope deu uma risada baixa e abafada contra o peito dele, achando a situação absurdamente divertida e perigosa. Ela empurrou o peito de James de leve, indicando a porta com a cabeça.

​James limpou a garganta, forçando a voz a sair o mais firme possível, embora ainda estivesse visivelmente rouca.

— Já estou saindo, Ricardo! Pode ir indo na frente, vou pegar o gelo.

​— Beleza, patrão! Não demora que o samba está rendendo! — os passos de Ricardo se afastaram pelo corredor.

​No banheiro, James encostou a testa na porta, tentando acalmar os batimentos cardíacos. Ele se afastou de Hope devagar, ajeitando a bermuda social com as mãos trêmulas. Ele olhou para ela, que agora se olhava no espelho, dando um sorriso vitorioso enquanto ajeitava as alças do biquíni preto e vestia a saída de praia de renda branca por cima, deixando o corpo semi-escondido novamente.

​James a encarou com um misto de raiva, desejo e frustração crônica.

— Isso... ainda vai dar uma merda monumental, Styles.

​Hope caminhou até a porta, destrancou o trinco e virou-se para ele antes de abrir. Ela ajeitou os óculos de leitura que estavam no balcão, deu uma piscadela travessa com os olhos azuis e soltou seu melhor tom de deboche:

​— A posse de bola foi sua por cinco minutos, Lâfrer. Mas o jogo continua no jardim. Vê se não demora com o gelo.

​Ela abriu a porta e saiu, desfilando pelo corredor com a elegância de uma pantera. James permaneceu parado no banheiro, olhando para as próprias mãos, sabendo que, a partir daquele sábado nos Hamptons, a fachada de "homem de gelo" havia derretido por completo. O jogo de Nova York estava fora de controle, e ele estava adorando cada segundo daquele perigo.