Livro II: O Eco dos Nossos Passos
26 O Grande Alarme Falso (Ou Quase Isso)
Eram pouco mais de três da manhã de um sábado quando o caos se instalou na mansão de Tribeca. James estava em um sono leve e vigilante devido aos nove meses de gestação de Hope, quando sentiu a esposa se mexer bruscamente ao seu lado, soltando um gemido abafado e sibilante que fez todos os seus alarmes mentais dispararem.
— Ahhh... James... — Hope arfou, segurando a enorme barriga redonda, as feições retorcidas em uma careta de dor. — Está doendo... uma pontada muito forte. Está nascendo, James! Vai nascer!
O grande presidente da holding, conhecido em Nova York por sua frieza milimétrica sob pressão, entrou em um estado de pânico puramente animal. Ele pulou da cama como se o colchão estivesse pegando fogo. Suas pupilas dilataram e ele começou a correr em círculos pelo quarto, calçando um sapato de cada par e vestindo uma jaqueta por cima do peito nu, sem nem notar.
— Calma, Styles! Respira! Eu estou sob controle! — James gritava, com a voz totalmente descontrolada e trêmula de pavor.
Ele abriu a porta do quarto com um estrondo e saiu pelo corredor do andar superior berrando a plenos pulmões, acordando até os vizinhos do quarteirão.
— GARRET! SOFIA! VAI NASCER! ACORDEM, PORRA! A BOLSA ESTOUROU! — James esmurrava a porta dos quartos enquanto descia os degraus de três em três.
A mansão virou um formigueiro humano em segundos. Garret saiu do quarto tropeçando nos próprios lençóis, de pijama xadrez, enquanto Sofia tentava acalmá-lo segurando a própria barriga de oito meses. Lucian e Elise surgiram no topo da escada de roupão, com Elise bufando e reclamando da gritaria.
— Pega as malas, Garret! Pega o casaco! — James comandava sozinho, jogando para dentro do porta-malas do SUV tudo o que via pela frente: a mochila de Hope, um travesseiro decorativo da sala, uma frasqueira de maquiagem e até um molho de chaves reserva.
Com o coração batendo a duzentos batimentos por minuto, James bateu o porta-malas, correu para o banco do motorista, deu a partida no motor potente do SUV e saiu cantando pneu pelo cascalho da entrada, acelerando em direção à avenida com os olhos fixos na pista, suando frio.
Ele dirigiu por exatamente três quarteirões, furando dois sinais vermelhos e buzinando para o nada, quando o celular acoplado no painel do carro começou a tocar. O nome na tela piscava: SOFIA.
James atendeu pelo viva-voz, a voz rouca de desespero: — Sofia! Estou voando para o Presbyterian Hospital! Avisa a equipe médica, manda eles prepararem a sala de parto!
A voz de Sofia ecoou pelo som do carro, mas não estava em pânico. Na verdade, ela tentava segurar uma gargalhada histórica, misturada com o som de Hope reclamando ao fundo.
— James, meu querido... respira fundo — Sofia disse, rindo abertamente. — Você está correndo feito um louco para o hospital, mas acho que esqueceu o detalhe mais importante da noite. Você esqueceu a sua esposa grávida sentada na borda da cama.
James paralisou o pé no acelerador. Ele olhou para o banco do passageiro. Estava vazio. Olhou pelo retrovisor para o banco traseiro. Apenas o travesseiro decorativo da sala o encarava de volta.
— Caralho... — James arfou, trancando os dentes de tanta vergonha, enquanto a risada de Garret e de Hope ecoava pelo telefone. Ele deu um cavalo de pau no meio da avenida deserta de Tribeca e voltou para a mansão voando.
Ao estacionar de volta na garagem, Hope já o esperava na porta, amparada por Garret, que chorava de rir, segurando a barriga de tanto deboche.
— Que belo marido você me saiu, Lâfrer! — Hope ironizou, embora estivesse tendo outra contração, segurando o riso. — Ia fazer o parto do travesseiro?
— Entra no carro, Styles, antes que eu perca a minha dignidade de vez — James resmungou, com as bochechas vermelhas, descendo para pegá-la no colo com cuidado e colocá-la finalmente no banco do passageiro.
Dessa vez, a comitiva inteira foi junto. Garret dirigia o outro carro com Sofia, Lucian e Elise. O trajeto até o hospital foi uma mistura de contrações reais e piadas sobre o sequestro do travesseiro.
Na ala de maternidade do hospital de Manhattan, a calmaria da madrugada foi quebrada pela chegada dos Styles e Lâfrer. Hope foi colocada em uma cadeira de rodas e levada direto para a sala de parto, com James ao seu lado — agora devidamente vestido com a camisola cirúrgica verde e a touca na cabeça, embora a cara de apavorado continuasse a mesma.
Na sala de espera, a situação era uma comédia à parte. Ricardo Andrade chegou às quatro da manhã, vestindo um moletom amassado e segurando duas caixas de rosquinhas e um copo térmico de café.
— Gente do céu... eu soube do alarme falso do James — Ricardo entrou rindo, entregando uma rosquinha para Garret. — O homem que comanda Wall Street esqueceu a matriz em casa e levou só a filial de bagagem. Eu pagaria um milhão de dólares para ver a cara dele quando olhou para o banco do passageiro.
— Não me faça rir, Ricardo, que a minha própria barriga dói! — Sofia reclamou, sentada no sofá com os pés inchados apoiados no colo de Garret, que os massageava mecanicamente enquanto olhava para a porta da sala de parto a cada cinco segundos.
— Se o James forçar essa menina a ter esse bebê rápido, eu mesma entro lá e dou uma bengalada nele — Elise sentenciou da sua poltrona, impecável mesmo de madrugada, bebendo um chá do hospital. — No meu tempo, os homens esperavam do lado de fora fumando charuto. Esse modernismo de ver o parto só serve para deixar o noivo desmaiado no chão.
Lá dentro da sala de parto, o clima era de pura eletricidade. Hope segurava a mão de James com uma força descomunal, fazendo os nós dos dedos do executivo ficarem brancos.
— Ahhh! James, se você disser para eu respirar mais uma vez, eu juro que peço o divórcio antes de cortar o cordão umbilical! — Hope gritava, o suor cobrindo sua testa, os olhos azuis faiscando de dor e adrenalina.
— Eu não estou falando nada, Styles! Eu estou quieto! — James respondeu, a voz uma oitava mais alta que o normal, olhando fixamente para a médica como se implorasse por um milagre. — Dra., faz alguma coisa! Ela está esmagando os meus dedos!
— Vamos lá, Hope! Mais uma força! Já consigo ver os cabelos loiros! — a obstetra incentivava.
— VAI, HOPE! QUEBRA TUDO! — Ricardo gritou de repente, abrindo a fresta da porta da sala de parto com a cabeça para dentro, animado como se estivesse na roda de samba, antes de Garret puxá-lo pelo colarinho para trás. — Desculpe, força de hábito!
— James... eu te amo, mas você é um idiota... AHHH! — Hope deu o último impulso, arqueando as costas do leito, cravando as unhas no braço de James.
Um choro agudo, alto e estridente preencheu a sala de parto. O relógio marcava exatamente cinco e quarenta e cinco da manhã.
A médica ergueu o pequeno bebê, limpando-o rapidamente e colocando-o direto sobre o peito nulo de Hope. Era um menino de olhos expressivos e cabelos claros. No mesmo segundo, toda a postura de durona de Hope desmoronou; ela desabou em lágrimas de pura emoção, colando o rosto no corpinho miúdo de seu filho.
James paralisou ao lado da cama. Suas pernas vacilaram por um segundo e ele precisou se apoiar na barra de ferro. Suas lágrimas, grossas e pesadas, escorreram livremente pelo rosto marcado. O quarentão implacável desmoronou de amor. Ele se inclinou, beijando a testa de Hope com uma devoção sem limites e acariciando os pezinhos minúsculos do filho.
— Ele é perfeito, Styles... idêntico a você — James sussurrou, com a voz embargada e cortada pelo choro.
— Ele tem o seu nariz, Lâfrer — ela sorriu entre as lágrimas, exausta, mas com a felicidade mais radiante do mundo no rosto.
Minutos depois, a porta da sala de parto se abriu. James saiu segurando o pequeno embrulho azul nos braços, caminhando com uma lentidão extrema, como se estivesse carregando uma escultura de cristal de valor inestimável.
A família inteira se levantou do sofá da sala de espera em um único bloco. Garret correu os olhos pelo amigo e depois pelo neto.
— E aí, James? — Garret perguntou, a voz já falhando de emoção.
— Conheçam o Thomas Styles Lâfrer — James anunciou, com um sorriso orgulhoso que não cabia em seu rosto, aproximando o bebê para que os avós o vissem.
Sofia abraçou Garret, os dois chorando juntos enquanto Elise se aproximava para dar a benção ao bisneto. Ricardo limpou uma lágrima discreta do olho, batendo no ombro de James.
— Parabéns, papai. Mas me diz uma coisa... — Ricardo piscou, travesso. — O Thomas veio no banco do passageiro ou você lembrou de trazer ele no colo?
James soltou uma risada limpa e alta, balançando a cabeça, cercado pelo calor daquela família que, apesar de toda a confusão, dos alarmes falsos e da invasão de Tribeca, era o seu maior e mais precioso troféu. O jogo em Nova York havia ganhado o herdeiro definitivo.
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