Livro II: O Eco dos Nossos Passos
27 A Calmaria de Tribeca e o Melhor Refúgio
Duas semanas haviam se passado desde a madrugada caótica no hospital de Manhattan. A mansão em Tribeca finalmente havia encontrado um novo ritmo — um pouco menos barulhento, mas infinitamente mais doce. Hope estava de resguardo por ordens médicas e, principalmente, por ordens de um James superprotetor que monitorava até os passos que ela dava dentro do quarto.
Era o final de uma tarde de quinta-feira. O sol de outono começava a se pôr, pintando o céu de Nova York com tons de rosa e laranja através das imensas janelas de vidro da sala de estar.
A pesada porta de jacarandá da entrada abriu-se com um clique suave. James Lâfrer entrou na casa, tirando os óculos escuros e afrouxando o nó da gravata de seda. Ele carregava sua pasta de couro em uma das mãos e um enorme buquê de peônias brancas na outra. O semblante de executivo cansado transformou-se em um sorriso relaxado assim que ele sentiu o aroma de bolo de rolo fresco que vinha da cozinha.
Ao cruzar o arco da sala, deparou-se com o restante do clã Styles reunido ao redor da ilha de granito. Garret estava sentado com uma xícara de café na mão, enquanto Sofia, exibindo orgulhosamente o barrigão da reta final da gravidez, cortava fatias do bolo. Elise e Lucian conversavam baixinho no canto, folheando um catálogo de móveis para bebês.
— Olha só quem resolveu aparecer... o magnata de Wall Street — Garret brincou, erguendo a xícara em um cumprimento bem-humorado. — Como foi o dia na holding, Lâfrer? O mercado financeiro sobreviveu sem você nas últimas três horas?
James soltou uma risada limpa, colocando a pasta sobre o aparador e aproximando-se para dar um beijo carinhoso na testa de Sofia e um aceno respeitoso para Elise e Lucian.
— O mercado que se ajuste, Garret. Eu passei a tarde inteira assinando memorandos e olhando para o relógio, querendo voltar para casa — James admitiu, com a voz grave e descontraída. Ele olhou para Sofia. — Como a Hope passou o dia? Ela descansou?
— Passou muito bem, James — Sofia sorriu, acariciando a própria barriga. — A Elise e eu obrigamos ela a ficar deitada a tarde toda. Ela amamentou o Thomas por volta das quatro da tarde, deu um banho nele e os dois capotaram. Estão parecendo dois anjinhos lá em cima. Pode subir, mas vá de mansinho.
— Obrigado, Sofi. E o bolo está com uma cara ótima — James elogiou, piscando para o sogro antes de pegar o buquê de flores e caminhar em direção às escadas de mármore.
— Deixa um pedaço para o seu genro, Sofia, porque se depender do tamanho da fome dele, ele limpa essa mesa! — Garret gritou da cozinha, rindo, fazendo James balançar a cabeça enquanto subia os degraus.
O andar de cima da mansão estava imerso em um silêncio acolhedor. James caminhou pelo corredor de madeira escura com passos leves, quase sem fazer barulho. Ao parar em frente à porta do quarto principal, ele girou a maçaneta com extremo cuidado e empurrou a folha de madeira.
A penumbra do quarto era cortada apenas pela luz suave do entardecer que entrava pela fresta da cortina de linho. O ar tinha um cheiro delicado de lavanda e colônia de bebê.
James deu três passos para dentro do cômodo e parou, congelando no lugar. O peito do executivo inflou de uma emoção tão pura que ele precisou respirar fundo para controlar o nó que se formou em sua garganta.
Deitada no centro da imensa cama de casal, Hope dormia profundamente. Ela usava um pijama de algodão leve e claro, com o cabelo loiro espalhado de forma bagunçada e linda pelo travesseiro. Seu rosto maduro transmitia uma paz absoluta. E logo ao lado dela, bem no meio da cama, cercado por uma almofada de amamentação cinza, estava o pequeno Thomas. O bebê usava um macacãozinho azul, com os punhos minúsculos fechados perto do rosto gordinho, soltando respirações curtas e perfeitamente ritmadas.
James caminhou até a cômoda, colocou as peônias brancas em um vaso de vidro e desfez-se do paletó do smoking, jogando-o em uma cadeira. Ele desabotoou os primeiros botões da camisa branca, livrou-se dos sapatos e contornou a cama com a leveza de um felino.
Com uma lentidão extrema, James sentou-se na borda do colchão macio. Ele inclinou o corpo para a frente, apoiando o peso nos cotovelos, e ficou ali por longos minutos, apenas devorando a cena com seus olhos escuros. Ele olhava para a esposa, depois para o filho, sentindo que cada bilhão de dólares que possuía no banco não valia um único segundo daquela visão.
Como se sentisse a presença do marido, Hope soltou um suspiro longo e abriu os olhos azuis devagar. Ao focar na silhueta de James bem ali na sua frente, um sorriso doce, sonolento e infinitamente apaixonado desenhou-se em seus lábios.
— Ei... — ela sussurrou, a voz rouca e aveludada pelo sono. — Você já chegou? Que horas são?
— Cheguei agora, meu amor — James respondeu com a voz mais mansa do mundo, inclinando-se para dar um beijo terno e demorado nos lábios dela, e depois na testa. — São quase seis da tarde. Não queria te acordar.
— Você não acordou... eu só estava sentindo a sua falta — Hope esticou o braço preguiçosamente, acariciando o maxilar marcado de James, sentindo a textura leve de sua barba por fazer. — Como foi na holding?
— Monótono. O Ricardo tentou me prender em uma reunião sobre os novos servidores da Europa, mas eu disse que o meu conselho deliberativo mais importante estava me esperando em Tribeca — James sorriu de canto, virando o rosto levemente para depositar um beijo na palma da mão dela. Ele olhou para o bebê entre eles. — Ele se comportou?
— Feito um príncipe — Hope olhou de lado para o filho, o olhar transbordando aquele instinto materno feroz e protetor. — Mamou tanto que parecia que ia explodir, depois ficou me olhando com aqueles olhinhos escuros que são idênticos aos seus... e dormiu. O seu pai passou aqui antes e disse que ele tem a estrutura de um futuro quarterback.
James soltou uma risada abafada e rouca, esticando o dedo indicador longo para tocar com extrema delicadeza a mãozinha de Thomas. Instantaneamente, em um reflexo puro, os dedinhos minúsculos do bebê se fecharam ao redor do dedo grande do pai, apertando-o com uma força surpreendente.
O coração de James deu um salto. Ele engoliu em seco, olhando para o filho conectado a ele daquela forma.
— Ele é perfeito, Hope. Obrigado por isso — James sussurrou, os olhos brilhando na penumbra do quarto.
— Nós somos perfeitos juntos, Lâfrer — ela respondeu, puxando o lençol e abrindo espaço. — Agora larga essa pose de presidente de Nova York, tira essa calça social e vem deitar aqui com a gente. Nós precisamos do nosso porto seguro.
James não pensou duas vezes. Ele levantou-se, trocou a calça social por um moletom confortável e deitou-se de lado na cama, envolvendo o corpo de Hope por trás, colando o peito largo em suas costas, enquanto os dois cercavam o pequeno Thomas com o calor de seus corpos.
Ali, no silêncio da mansão duplex, enquanto a noite caía sobre Manhattan, James Lâfrer sabia que o homem implacável do passado havia ficado definitivamente para trás. Ele não precisava mais de muros, de regras ou de exílios. Ele tinha tudo o que importava no vão de seus braços, guardado na calmaria daquele quarto.
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