Livro II: O Eco dos Nossos Passos
10 As Sombras do Park e a Linha de Fogo
O Central Park estava imerso no frescor clássico da primavera em Nova York. As copas das árvores exibiam um verde vivo, e o som de ciclistas, risadas e músicos de rua criava uma sinfonia urbana relaxante. A família Styles havia encontrado um ponto perfeito, um pouco mais afastado das trilhas principais, sob a sombra de um enorme carvalho.
Elise e Lucian caminhavam lentamente perto do lago, enquanto Garret tentava, sem muito sucesso, empinar uma pipa que havia comprado de um vendedor ambulante. Sofia estava sentada sobre a grande manta xadrez, organizando os sanduíches de piquenique que passara a manhã preparando.
A poucos metros dali, atrás da estrutura de pedra de uma antiga ponte em arco, a realidade era completamente diferente.
James pressionou Hope contra a parede de pedra fria, as mãos grandes espalmadas na cintura dela sob o casaco leve. O beijo era urgente, abafado pelo som do vento nas folhas. Hope tinha as mãos cravadas nos ombros dele, puxando-o para mais perto, os lábios movendo-se com uma fome que parecia aumentar a cada minuto de clandestinidade.
— James... — ela arfou entre os lábios dele, abrindo os olhos azuis, brilhantes de adrenalina. — Minha mãe vai dar falta da gente. Eu disse que ia procurar um banheiro e você disse que ia dar um telefonema.
— Eu sei — James sussurrou, a voz rouca, dando um último selinho demorado antes de encostar a testa na dela, tentando recuperar o fôlego. — Mas passar a manhã inteira olhando para você sem poder te tocar estava me enlouquecendo.
Hope deu um sorriso vitorioso, aquele deboche Styles que agora fazia o sangue de James queimar.
— Quem diria... o quarentão controlado não aguenta cinco minutos de jogo. Vamos voltar antes que o meu pai venha atrás de nós.
Minutos depois, os dois retornaram ao grupo de forma casual. James trazia o celular na mão, fingindo guardar o aparelho no bolso, e Hope ajeitava o cabelo loiro. Eles se sentaram na manta de piquenique.
Por hábito de toda a infância, Hope acomodou-se no vão entre as pernas de James, apoiando as costas diretamente contra o peito largo dele. Era uma pose que eles repetiam há dezoito anos, mas hoje, a atmosfera era perigosamente diferente. James não a segurava mais apenas como um tutor; seus braços envolviam a cintura dela com uma atenção excessiva, e seus dedos traçavam carinhos lentos e inconscientes no braço de Hope. Ela, por sua vez, inclinava o pescoço de forma a sentir a respiração dele, entregando-se ao toque com uma intimidade madura.
Do outro lado da manta, Sofia fingia cortar um pedaço de torta, mas seus olhos castanhos captavam cada detalhe. Ela notou como James inclinou a cabeça para ouvir um sussurro de Hope, e como a mão dele permaneceu firme na fenda do short dela. O estômago de Sofia deu um nó. Não era mais uma suspeita; era uma certeza límpida e assustadora.
Ao final da tarde, a família retornou para a cobertura. Lucian e Elise subiram para descansar no hotel, e Garret, exausto do dia ao ar livre, pegou no sono pesado no sofá da sala de TV do andar de baixo.
James estava na cozinha, servindo-se de um copo de água, quando ouviu os passos firmes de Sofia. Ela entrou no recinto e cruzou os braços, encarando-o com uma seriedade gélida que ele raramente vira nela.
— James. Precisamos conversar. Agora — Sofia disse, a voz baixa para não acordar o marido, mas cortante.
James travou com o copo na mão. Ele tentou colocar sua melhor máscara de negócios, dando um gole calmo antes de responder.
— Claro, Sofi. O que foi? Algum problema com o voo de volta de vocês amanhã?
— Não tenta disfarçar comigo, James! — Sofia deu um passo à frente, a voz trêmula de emoção. — Eu vi vocês dois no parque. Eu vi os olhares no café da manhã. James, a Hope é minha filha. Você ajudou a criar essa menina. O que está acontecendo entre vocês?
James sentiu o sangue sumir do rosto por um segundo, mas manteve a postura rígida.
— Sofia, você está imaginando coisas. A Hope acabou de fazer vinte anos, está passando por mudanças, e eu sou o porto seguro dela aqui em Nova York. É o carinho de sempre.
— Não minta para mim! — Sofia sibilou, os olhos marejados. — Aquele carinho no parque não era de tio e sobrinha. James, por favor...
— Sofia, eu preciso descansar. Tive uma semana cheia e a caminhada me esgotou — James cortou, a voz fria e defensiva. Ele largou o copo no balcão e passou por ela a passos largos. — Conversamos outra hora.
Ele fugiu. Subiu as escadas em direção ao seu quarto, fechando a porta atrás de si com um estrondo abafado, o coração batendo no ritmo de um tambor de guerra.
No quarto principal, a penumbra da noite de Nova York mal era quebrada pelas luzes da cidade. James estava deitado na cama de casal, com o braço cobrindo os olhos, tentando processar o confronto com Sofia.
O clique suave da fechadura ecoou. James nem teve tempo de abrir os olhos; a porta se abriu e um vulto loiro avançou pela cama.
Hope pulou em cima dele, sentando-se horizentalmente sobre seus quadris. Ela usava apenas uma camisola curta de seda preta e calcinha. Antes que James pudesse dizer qualquer palavra de alerta, ela inclinou-se e o calou com um beijo devastador.
— Hope... — James tentou falar, mas as mãos pequenas dela seguraram seu maxilar, aprofundando o beijo com uma audácia selvagem.
A intensidade tomou conta do quarto instantaneamente. O toque da pele nua das pernas de Hope contra o moletom dele fez o autocontrole de James virar cinzas. Ele segurou as coxas dela, puxando-a para mais perto, enquanto os lábios dela desciam pelo seu pescoço, arrancando-lhe um arfar pesado. A urgência da clandestinidade e o medo de serem pegos só tornavam o desejo mais violento. James inverteu as posições em um movimento rápido, ficando por cima dela, as mãos subindo pela seda da camisola, prestes a atravessar a linha definitiva do sexo—
TOC. TOC. TOC.
Três batidas firmes e pesadas na porta cortaram o ar do quarto como um tiro.
— James? Abra essa porta. Eu sei que a Hope está aí dentro — a voz de Sofia soou do outro lado, firme, implacável e sem margem para desculpas.
O pânico elétrico atingiu o casal. James paralisou por cima de Hope, os olhos arregalados.
— Vai para a cadeira! Pega o notebook! Agora! — James sussurrou desesperado, saindo de cima dela em um salto.
Hope, com uma agilidade impressionante, rolou para o lado da cama, puxou o notebook de James que estava na escrivaninha e sentou-se na poltrona de couro, abrindo a tela e fingindo ler um artigo acadêmico, embora sua respiração estivesse completamente descontrolada e o peito subisse e descesse com força.
James jogou-se de volta na cama, puxando o edredom pesado até a altura do abdômen para esconder o membro que estava ereto e rígido sob o moletom. Ele respirou fundo três vezes, tentando estabilizar a voz, e esticou o braço para acender o abajur.
— Pode entrar, Sofia. A porta está aberta — James chamou, a voz saindo um pouco mais rouca que o normal.
Sofia empurrou a porta e entrou. Ela não deu um único passo para dentro; permaneceu parada sob o batente, os braços cruzados. Seu olhar castanho e cortante varreu o quarto, demorando-se na respiração arfante de Hope na poltrona e depois fixando-se nos olhos injetados de James na cama. A atmosfera ali dentro era tão densa que era quase impossível respirar.
Sofia não fez perguntas. Ela não gritou. O tom de sua voz era baixo, grave e carregado de uma dor profunda.
— Eu vou dizer isso apenas uma vez — Sofia começou, olhando fixamente nos olhos de James e depois nos de Hope. — Se algo estiver acontecendo entre vocês dois... se vocês tiverem um pingo de consideração por essa família, parem agora. Vocês não têm ideia do que isso faria com o Garret. Isso acabaria com ele. Destruiria o homem que ele é.
Hope engoliu em seco, os dedos travados no teclado do notebook, os olhos azuis arregalados de medo. James manteve o maxilar trancado, incapaz de proferir uma única palavra de defesa diante da verdade nua e crua de Sofia.
— Tenham juízo. Boa noite — Sofia finalizou, deu meia-volta e fechou a porta com um clique seco.
O silêncio que se instalou no quarto era ensurdecedora. Hope fechou a tela do notebook devagar, olhando para James com os olhos marejados. James cobriu o rosto com as duas mãos, soltando o ar que parecia queimar seus pulmões.
Eles haviam atingido o limite do campo. Agora, o desejo avassalador que sentiam um pelo outro batia de frente com a realidade devastadora da família que tanto amavam. James e Hope viviam, oficialmente, o maior e mais doloroso dilema de suas vidas.
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