Lifetime
1 Your aspirations to shreds
Notas iniciais
A manhã era como todas as outras no estado de Oregon. Possuída pela brisa fria e o calor temporário. De vários lugares de Arcadia Bay era possível escutar o mar batendo nas pedras fortes do litoral. Blackwell não ficava muito longe da praia, e, por mais alto que fossem os barulhos do movimento matinal, as ondas ainda podiam ser ouvidas com qualquer pequena concentração.
Max tentava ao máximo prestar atenção ao que sua professora de Ciências dizia. Tomava notas de praticamente cada palavra dita pela mulher, mas nada lhe parecia efetivo. Ciências era a pior matéria de seu boletim. Ela não era uma aluna exemplar, mas ainda assim, tinha boas médias, mas nesta matéria... procurava tomar o máximo de conteúdo possível de seu amigo, Warren Graham, que era experiente na matéria. Ela estava sentada ao lado dele naquele momento. Ele era sua dupla e balançava para frente e para trás na banqueta, distraído. Mas Max sabia que ele não precisava prestar atenção à aula, pois ainda assim, tiraria uma nota melhor que a dela.
A Mrs. Grant parou de falar sobre o conteúdo complicado durante um instante, olhando em direção à porta. Max agradeceu mentalmente pela pausa, para tentar processar cada palavra escrita em seu caderno. Mas também sentiu enjoo ao ver o motivo da pausa. Nathan. Nathan Prescott estava adentrando a sala, no meio da aula, como se não ligasse para a mulher parada logo ali. Todos os alunos pararam de anotar e encararam o jovem que, com seu sorriso cínico, procurava um lugar para sentar-se. E o único lugar era logo em frente à professora. Quando ele se sentou, tirou seu celular do bolso e começou a mandar mensagens para seus amigos. A Sra. Grant fechou seus olhos e contou até dez para acalmar-se da situação. Respirou fundo e voltou a ensinar. Max achava um absurdo o fato do garoto poder fazer tudo que ele quisesse. Ela achava absurda qualquer ação guiada pelos Prescott’s.
— Está tudo bem, Max? — Warren perguntou tocando seu braço gentilmente.
— Uh, sim, por que?
— Seu rosto está estranho — o garoto tentou interpretar a face dela. — Parece incomodada.
— Não estou... não é nada. Nada importante.
— Ok então — tirou sua mão da pele clara da jovem e voltou a prestar atenção à aula.
Nathan olhou de relance para trás, encarando Max, que o encarava de volta. Ele parecia confuso com a situação, mas logo, riu dela e voltou a atenção para seu celular. Max se questionou de o motivo daquele momento ter ocorrido, mas não se deixou levar por aquilo. Quando menos esperava, o sinal soou fazendo com que a maioria dos alunos se levantassem das bancadas e saíssem. Max guardou seu caderno dentro da bolsa e esperou Warren descer da banqueta, encaminhando-se em direção ao corredor. O garoto segurava sua mochila em um ombro enquanto caminhava desengonçado. O corredor estava cheio de alunos mexendo em seus armários ou conversando. Era apenas mais um dia normal na academia Blackwell, onde alguns alunos sofriam bullying e outros praticavam o ato.
— Então... vai me dizer o que te incomoda? — Warren persistiu no assunto, por mais que não tivesse sentido ela comentar isso com ele.
— Juro que não é nada importante, Warren. Ignore.
— Se te incomoda, é importante. Nada incomoda a Super-Max — depositou um soco brincalhão em seu braço.
— Você não acha um absurdo como aquele garoto mimado pode fazer tudo sem ser punido? — Max seguiu em direção ao seu armário.
— Para ser sincero, até tenho medo de falar dele, já que a família Prescott é praticamente dona da escola — Warren pareceu incomodado agora. — Mas sim, é ignorante. Mas não podemos fazer nada, então o que nos resta é ignorar.
— Não consigo apenas ignorar.
— Seria melhor se conseguisse — o garoto acenou em partida para a morena e deu dois passos para trás. — Preciso ajudar Alyssa com os estudos agora, nos vemos depois?
— Claro.
— Ainda acho que devia se juntar ao nosso divertidíssimo grupo de estudos. Você ia adorar!
— Só me falta tempo. Quem sabe um dia? — A garota sorriu levemente enquanto assistia o amigo sair de perto.
Voltou seu olhar para o armário enquanto mexia na combinação de números, abrindo a peça de ferro. Guardou seus cadernos e livros usados no dia e encarou as fotos de seus pais, sentindo falta da presença deles em sua vida. Os dois estavam morando em Seattle e raramente ligavam para Max, mas ela ainda mandava algumas mensagens para eles de vez em quando. Não era a mesma coisa, mas fora escolha sua voltar para Arcadia Bay. Ainda não havia contatado Chloe de sua volta também, mas por pura escolha. Ela tinha medo da outra garota não reagir bem com todos os anos sem contato algum, então permaneceu calada.
Ao fechar seu armário, estava de volta à caminhada pelo corredor até a saída da escola. Tinha o resto do dia para descansar. Cartazes do Vortex Club se estendiam por todos os quadros de aviso. Haviam alguns depositados no chão, inclusive. Era tudo propaganda para a nova festa deles. Max não iria, com toda certeza. Tinha coisa melhor para fazer do que comparecer à uma festa sem sentido, e onde ela não era bem-vinda também. E a festa seria apenas semana que vem. Warren estava tentando convencê-la a ir, mas ela recusava a todo custo.
Max segurou a alça de sua bolsa e apressou o passo em direção à porta de saída. Quando a empurrou, não regulou sua força e acabou movendo a imensa porta com força, e rapidez, levando junto uma pessoa que estava provavelmente parada ali em frente. Max apenas notou quem era quando o garoto já havia rolado os degraus abaixo. Tapou sua boca com susto, imaginando o que viria logo em seguida. O campus todo encarava a situação que ocorria logo na entrada, e metade dos alunos riram. O garoto estava praticamente jogado ao chão, com as mãos sobre as costas protegidas pelo tecido vermelho de sua jaqueta.
— Qual a porra do seu problema, Caulfield? — Perguntou o louro, tentando se levantar.
A garota se aproximou do outro, lhe oferecendo uma mão para que ele levantasse, mas ele empurrou-a com o pé, levantando-se sozinho. Max perdeu o equilíbrio e caiu sentada sobre um degrau enquanto Nathan a olhava de cima, com fúria nos olhos. Se um olhar pudesse matar, Max estaria muito bem enterrada naquele instante.
— Você não sabe quem eu sou! Não sabe com quem está mexendo! Pode apostar que vai ter vingança, Caulfield — gritou e afastou-se dela.
— Eu... sinto muito, não foi por querer. Desculpe — a pequena entrou em desespero quando viu o garoto com todo aquele ódio em seu olhar.
— Vai sentir.
Assistiu, dos degraus, a saída épica de Nathan. Se aquilo não fosse sua vida real, ela aplaudiria toda aquela cena cinematográfica. Mas, infelizmente, era sua vida e ela teria consequências das péssimas. Sabia que a família Prescott era a famosa família honrada e problemática da cidade, e isso lhe traria grandes consequências futuramente. Com as pernas trêmulas e o olhar baixo, Max levantou-se e pegou sua bolsa no chão. Abriu-a para conferir suas coisas e encontrou sua velha câmera em pedaços. Sentiu seu peito apertando cada vez mais por debaixo da camisa e fechou a bolsa novamente, seguindo em direção dos dormitórios, ignorando todo o público que presenciou a cena.
[...]
Chegando ao gramado dos dormitórios, Max sentiu seu corpo relaxar. Já não era mais um lugar onde todos estariam encarando-a com preocupação. Todos aqueles olhares enviados em sua direção eram de pena, como se soubessem que ela sofreria muito depois do ocorrido. E por puro acidente. Sentiu a brisa gelada do mês bater sobre sua face, deixando seu braço arrepiado. Subiu os curtos degraus dos dormitórios e empurrou a porta de entrada. Seu quarto ficava quase no final do corredor, então ela caminhou calmamente até ele. Algumas garotas estavam conversando fora de seus quartos, inclusive Victoria e Taylor em frente à porta do quarto da primeira. Era praticamente em frente à porta de Max, então as duas assistiram a garota passar por elas, e Victoria lhe lançava um olhar cínico, como se dissesse “se fodeu”.
Max entrou rapidamente em seu quarto, fechando a porta atrás de si. Jogou sua bolsa no sofá e deitou-se sobre a cama. Enquanto encarava o teto, pensava em tudo que poderia ocorrer contra ela. Mas também pensava em outras coisas além do incidente com o garoto rico. Pensava em Chloe, e no que ela estaria fazendo. Como ela estava, e coisas do tipo. Olhou de relance para a janela, vendo parte do céu azul, então relaxou junto do silêncio presente. Conseguia ouvir música num volume mediano vinda de algum quarto, mas isso não a incomodava. Com todo aquele clima silencioso, ela acabou caindo em sono, pois o cansaço falava mais alto que seus pensamentos.
A garota ainda estava na segunda fase do sono quando sentiu puxarem seu pé. Acordou por completo com o peito disparado, tentando entender o que havia ocorrido, mas logo tamparam sua boca e puxaram seu corpo para fora do quarto. Max sentiu medo e tensão naquele instante, querendo sair daquela situação. Não tinha ideia do que estaria ocorrendo ali. Impossível ser um assalto. Seus calcanhares lutavam bravamente com o ar, sem muito efeito, mas marcando o carpete do corredor. Quem quer que estivesse a carregando era forte demais para soltá-la, por mais que ela tentasse, só se machucava mais ainda. Ouviu o barulho de uma porta se abrindo e foi jogada ali. Ah, claro, tinha que ser ele. Nathan Prescott, como ela não imaginou?
— Ai — gemeu de dor quando tentou se levantar.
— De pé, Caulfield.
— Você não manda em mim, Prescott — a garota sentou-se e ficou encarando a expressão sombria do outro.
— Eu preciso de um favor — respirou fundo e fechou os olhos.
Max ficou um segundo sem entender o que estava ocorrendo ali.
— Não, espera. Você me sequestrou em meu próprio quarto e me jogou aqui, tudo para me pedir um favor?!— A garota ficou boquiaberta com tamanha ignorância. — Vai se foder, Prescott.
— Cale a boca e me escute, vadia — o garoto se aproximou dela, fazendo seu peito parar por um instante.
Max ainda vestia seu pijama de pintinhos, mas isso não a incomodava mais que a proximidade do garoto de seu corpo. Ela não ficava muito próxima de um garoto assim desde... ela nunca, realmente, ficou muito próxima de um garoto. Por mais que fosse para amedronta-la.
— Preciso que você finja ser minha namorada.
— O que?! — Max soltou a melhor de suas risadas. — Você só pode estar brincado.
— Eu esqueço a vingança de você ter me empurrado hoje e você aceita minha proposta, certo?
— Eu não te empurrei por querer, Nathan!
— Não minta para mim, Caulfield. Eu sei que sim — o garoto arqueou uma sobrancelha.
A garota parou de olhar para o louro e deu uma analisada no local em que estavam. Era uma sala pequena, com algumas ferramentas espalhadas por ali. As paredes eram escuras e havia uma pequena televisão no canto. Primeiro imaginou que fosse a sala de segurança, mas viu os cortadores de grama, então deduziu que fosse a sala de Samuel. Quando voltou seu olhar para Nathan, ele parecia ansioso por uma resposta. E ela não tinha ideia do que responder sobre aquilo.
— Por que você precisa que eu finja ser sua namorada?
— Longa história, e não te interessa — o garoto passou seus braços por detrás do pescoço, demonstrando sono.
— Me interessa sim se eu estou envolvida — cruzou seus braços e encarou-o com desdém.
— Você é muito curiosa, Caulfield. A curiosidade matou o gato, sabia?
— A vida tem dessas. Comece.
— Victoria quer que eu mude meus hábitos, e estão querendo me mandar para uma reabilitação por culpa das... hm, drogas.
— Achava que a Victoria era sua namorada.
— Ela é minha melhor amiga — disse ele e olhou para trás de relance. — Aí jurei para ela que mudaria algumas coisas e que faria tudo ficar melhor em minha vida.
— Mas você não pode namorar alguém de um dia para o outro. Ainda mais quando o campus todo viu você furioso comigo — a jovem levantou-se, olhando-o de mais perto.
— Por isso que tenho tudo planejado. Vamos começar a sair amanhã. Aí eu te “pedirei em namoro” e começo a mostrar para Victoria o quanto estou mudando, namorando uma otária.
— Eu não sou uma otária, Prescott — arqueou uma sobrancelha. — E por que eu deveria aceitar?
— Posso acabar com sua vida se quiser também. E tenho meus meios para isso.
— Por que eu?
— Você expressa inocência. Por exemplo, já ficou bêbada?
— Hm, teve uma vez em que...
— Está vendo? Nunca.
— Eu não disse isso...
— Tanto faz. Amanhã vou te buscar na sua última aula. Qual é?
— Aula de Ciências de novo.
— É, isso. Estarei na porta te esperando. Force seu melhor sorriso e sua melhor face, o que eu acho que nem será preciso, pois você estará saindo comigo.
— Você é muito convencido — bufou a garota.
— Sou apenas realista — disse o garoto abrindo a porta atrás de si. — Bom resto de noite, Caulfield. Descanse bem para amanhã.
— Você vai me deixar aqui sozinha?!
— Não é da minha conta.
O garoto partiu com os passos apressados em direção aos dormitórios novamente, deixando Maxine parada no meio da sala escura. A garota, ainda confusa com a ideia do outro, cruzou os braços para proteger-se do frio e saiu da sala, indo em direção aos dormitórios também, até seu quarto.
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