Lifetime
10 Nothing but trouble
Notas iniciais
Seus beijos eram frágeis e concentrados, enquanto os deles mais se concentravam em não mostrar muito do que ele sentia naquele momento. Max havia posicionado suas mãos sobre o rosto fino do garoto enquanto as mãos dele pendiam sobre as costas magras da jovem. Assim que acabou, ela o abraçou com força e beijou-lhe a bochecha, arrancando um sorriso diferente do rapaz, algo que ela nunca havia visto em seu rosto sempre irritado.
Ela teria dormido abraçada junto do corpo dele, mas preferiu não invadir sua privacidade e deitou-se de frente para ele, apagando em meio aos sorrisos trocados sutilmente durante aquela noite. Mal ela sabia que, durante seu sono, o garoto observou cada traço de seu rosto dormente até adormecer também.
Ele dormiu depois e acordou antes, notando que ela havia se virado para o outro lado em meio à noite. Colocou-se sentado sobre a cama e pousou os cotovelos sobre os joelhos, passando a mão pelo cabelo, jogando-o para trás. Nathan odiava a maneira de como seu cabelo ficava assim que ele acordava, todo bagunçado. Fazia-o parecer com seu pai quando mais jovem, um dos motivos que o fazia sentir repulso pela aparência.
Olhou para trás, vendo os cabelos castanhos sobre o travesseiro e a respiração frágil da jovem sendo visível pelo corpo pequeno. Os cobertores estavam mostrando apenas seu pescoço e cabeça, cobrindo todo o resto. Nathan sorriu levemente. E pensar que ele não havia feito nada para ela, ou nada que ele faria com outra garota que pudesse estar em sua cama. Pegou seu celular e viu que havia algumas mensagens de Victoria, perguntando se ele iria à festa naquela noite. Também tinha algumas de Hayden, perguntando se ele levaria os “estudos” para a festa. Mesmo sem responder nenhuma das mensagens, ele já tinha seus planos para a noite: ficar em seu dormitório. Era sábado e ele não marcaria presença na festa do Vortex Club. Não estava com cabeça para mais festas, e não sentia vontade alguma de se envolver com mais garotas desconhecidas.
Dormir com aquelas três do campus foi um erro. Ele fez para ter a atenção de uma pessoa em especial, mas ela não pareceu se incomodar. E agora aquelas meninas estavam atrás dele, que nem loucas desesperadas. Uma delas havia conseguido seu número de telefone, e mandava mensagens de meia em meia hora. Ele teria de bloqueá-la mais tarde. Mas o fato era que estar com aquelas garotas não tinha sentido. Não lhe satisfaziam — quer dizer, satisfaziam, mas não do jeito que ele queria — e elas eram quase todas iguais. Nenhum rastro de diferença visível.
Olhou para o espelho ao seu lado e viu seu reflexo. O corpo magro curvado sobre a cama, com a espinha aparecendo vagamente, junto de alguns músculos das costas. Sua pele era pálida como o luar em noites sem estrelas, e suas olheiras estavam fortes demais. Houve uma época em que Nathan começou a usar corretivo para escondê-las, mas já havia desistido. Nada cobria os grandes círculos pretos. Ainda havia rastros de arranhões em suas bochechas, onde Max beijou durante a noite, e ele olhou para suas unhas roídas. Mesmo que curtas, elas ainda causavam danos em sua pele. E por fim, olhou para seus pulsos, onde encontrou as marcas que nunca sumiriam.
Ele achou estranho como Max já havia tocado em seu pulso tantas vezes e em nenhuma delas notou os cortes. Ou talvez ela tivesse notado, mas sem comentar nada. Não era algo para ser comentado afinal, ou era? Nathan não conseguia parar de machucar-se cada vez mais, por mais que quisesse, por mais que precisasse. Talvez Max não precisasse saber delas.
Levantou-se da cama e andou até o armário, pegando uma camisa de manga longa inteira cinza. Ajeitou as mangas até as palmas de suas mãos e voltou para sua cama bagunçada. Deitou-se sobre os cobertores novamente e começou a responder as mensagens em seu celular. Enquanto fazia isto, Max começou a gemer como quem havia acabado de acordar. E o olhar do garoto foi posicionado sobre ela, que se virou na cama, de frente para ele. Nathan curvou uma de suas pernas e ajeitou seu corpo sentado sobre os cobertores, sentindo a brisa fria do ar condicionado sobre sua pele clara. Sem dizer nada, a menina passou um de seus braços sobre a barriga dele, deitando sobre seu peito. O rapaz, ainda surpreso, tentou agir naturalmente e passou um de seus braços sobre os ombros dela.
— Max — chamou ele. — Você está acordada?
— Hm…
— Eu estou com fome — completou ele. — Acho que vou descer e pegar alguma coisa para comer. Quer algo?
— Eu vou junto — disse ela ao bocejar.
Ele esperou qualquer movimento que indicasse que ela se levantaria, mas não houve. Ele começou a mexer em seus cabelos como ela havia feito naquela noite em frente ao totem. Os dela eram macios e curtos, então não se enroscavam em seus dedos. Nathan nunca havia feito isto antes, ficar abraçado com alguém logo após ter beijado esta pessoa. As garotas que ele pegava normalmente gostavam de seu jeito agressivo, então ele puxava seus cabelos e mordia seus pescoços. Sugava suas peles e deixava marcas de diversas maneiras. Mas Max era frágil demais para algo assim. E ele não se incomodava com aquele carinho todo presente.
— Max — chamou ele mais uma vez.
Ela assentiu com a cabeça e se separou do corpo dele. O garoto levantou-se da cama e observou a jovem se sentando sobre os cobertores, com suas pequenas pernas curvadas enquanto se espreguiçava. Nathan havia esquecido de que ela estava apenas de camisa. E por mais que fosse uma longa, ainda mostrava grande parte de suas pernas, o que começou a disparar o garoto. Ele procurou olhar para o outro lado. Sentiu-se no período onde as mulheres só usavam saias e qualquer visão de calcanhares era satisfatória demais. Max Caulfield era como uma daquelas mulheres, mas na versão calça jeans. Não era uma visão para todo dia.
Max levantou-se da cama em seguida e caminhou atrás do rapaz, que a guiava para fora do quarto, de volta ao longo corredor. De manhã tudo parecia mais agradável e bonito, sem toda a elegância noturna, mas repleto da beleza matinal. As imensas janelas traziam raios do sol para mais perto, iluminando as paredes amareladas. Nathan desceu as escadas e a garota desceu em seguida, escutando os passos de ambos ecoarem sobre os degraus de mármore.
Caminharam até a cozinha, encontrando um imenso balcão gourmet, o qual Nathan gostava de praticar suas habilidades culinárias quando menor. Havia até feito um curso daquilo, e sabia perfeitamente bem como temperar qualquer coisa de uma maneira extraordinária.
— O que vai querer, Caulfield? — Perguntou ele ao abrir a geladeira de luxo.
— Ovos mexidos é uma ótima opção.
— Só ovos? — Nathan virou-se para ela. — Sério?
— Por que não?
— Vou te fazer o melhor café da manhã de sua vida, o qual você nunca esquecerá — disse ele retirando diversos ingredientes da geladeira.
Nathan gostava de cozinhar em sua casa. Era onde tinha todos os recursos, já que não era possível colocar uma cozinha gourmet no dormitório. Quando ele visitava a família, cozinhava, mas nunca para os outros, sempre para si próprio. E agora tinha uma cobaia.
Enquanto mexia por toda a cozinha, procurando os recipientes, lembrou-se de que não havia arrumado o cabelo e começou a puxá-lo para trás enquanto procurava. Max notou, porque começou a rir abafadamente, mas não de deboche. Quando todos os itens necessários estavam em mãos, começou a colocar tudo no liquidificador e separar as tigelas. Assim que seu mingau acabou de bater, despejou o conteúdo sobre as duas peças de porcelana e colocou colheres, entregando uma para Max, que estava balançando na banqueta.
Quando colocou o recipiente em sua frente, a garota arqueou uma sobrancelha e apoiou o rosto na mão, olhando para ele. O rapaz não sabia se ela estaria julgando-o por aquilo parecer nojento ou bonito, então permaneceu quieto, até vê-la pegar a colher e experimentar, fazendo uma expressão de satisfação.
— Uau, Nathan, o que vai nisso?
— É quase que uma sopa fria de mamão com coco e algumas sementes de abóbora e granola jogadas por cima — ele provou da comida e sorriu para si mesmo. — Está bom pra porra.
— Eu que o diga — disse ela, pegando mais uma colherada. — Não sei de nada sobre você, praticamente.
— Só meus irmãos sabem que eu cozinho — sentiu o gosto forte do mamão em sua boca. — Nem a Vic sabia.
— Que honra.
— Você só podia desejar — sorriu malicioso e voltou a saborear de sua obra.
Assim que ambos acabaram com o conteúdo de dentro das tigelas, Nathan retirou-as do balcão e colocou sobre a pia, voltando para o lugar onde a jovem estava sentada. Ela virou-se na banqueta para ele, sorrindo. Todo este tempo, ele passou tentando evitar o olhar na direção de suas pernas.
— Incrível — disse ela, como se já soubesse o que ele queria perguntar. — Estava maravilhoso.
— Eu sei. Fui eu quem fez.
Ela sorriu e ele começou a se aproximar dela, o que causou uma rápida falha em seu coração. Puxou-a para mais perto, encaixando-se entre as pernas que ele tanto evitou olhar. Agora ele apertava suas coxas com calma, para não a assustar. O primeiro beijo dela havia sido com ele, o segundo também, e agora, o terceiro estaria sendo igual. Então ele não podia simplesmente agir com tanta força. Tinha medo de machucá-la. As mãos dele nunca haviam ultrapassado a cintura para baixo, ou além das costas por causa disso, mas agora estavam fixas em suas coxas, apertando com mais força.
A garota soltou um suspiro forte, mas não disse nada. Seguiu calada, como se estivesse curtindo aquele momento. Nathan selou seus lábios aos dela mais uma vez, seguindo de acordo com os movimentos dela, até que a garota se afastou um tanto, suspirando forte novamente.
— Nathan… seus pais…?
— Eles não estão em casa — disse ele. — Nunca ficam aqui às manhãs.
— E os empregados? — Olhou nos olhos azuis do garoto.
— Não estão também — disse ele dando-lhe um selinho. — Somos os únicos nesta casa.
Ela sorriu e voltou seus lábios aos dele. O garoto moveu-a da banqueta para o balcão, começando a descer os beijos para seu pescoço. Ela já sabia que ele havia beijado muitas meninas antes dela, então tinha experiência, mas nunca soube quanta experiência ele tinha, afinal. Com Nathan sendo a única pessoa que Max havia beijado sua vida toda, ela tinha medo de não fazer aquilo tão bem quanto ele fazia. Mas se ele continuava a beijá-la, era apenas por ela ser boa, não? Porque não teria chances alguma dele sentir atração por ela.
Nathan começou a marcar toda aquela área com suas mordidas fracas. Por mais que fossem delicadas, conseguiram deixar rastros na pele clara da garota. Ele se afastou dali e selou seus lábios novamente, parando o beijo e deixando um sorriso entre a pequena distância das duas bocas. A garota sorriu para ele também e abriu seus olhos. Aquele foi o grande erro.
O sorriso dele cessou ao entrar em contato com seus brilhantes olhos. Ela estranhou e balançou um pouco a cabeça, vendo-o se afastar com rapidez. Assim, o sorriso dela fechou-se também e ele começou a encarar o chão, tornando tudo ainda mais estranho.
— Está tudo bem? — Perguntou ela, descendo do balcão e tentando se aproximar do garoto, que se afastou ainda mais.
— Não — disse ele, virando o rosto para a porta atrás. — Eu…
— Deixe-me te ajudar — a garota tentou colocar suas mãos sobre o rosto dele.
— Não, Max. — Olhou para ela com raiva. — Só pegue suas coisas que eu vou te levar de volta para a escola.
— Mas…
— Vá.
Ela assentiu com tristeza visível no olhar e caminhou de volta para as escadarias. Nathan encostou-se ao balcão, ainda com o olhar fixo nas camadas do piso de mármore, mas a mente avoada. Até pouco ele estava tentando controlar seu toque para não assustá-la com seu jeito típico, mas acabou por fazer apenas com as palavras que saíram de sua boca. Agora ela estaria com a pior das impressões dele, e não havia nada que o garoto pudesse fazer a respeito.
Mas, droga, aquele olhar fora demais para ele. Ele estava indo longe demais.
Ele caminhou até a sala de entrada, pegando as chaves de seu carro acima da mesa de café e esperou pela garota. Quando ela desceu as escadas, com os saltos nas mãos, continuava com o mesmo olhar triste e a maquiagem um tanto borrada — não por qualquer suspeita de choro, mas sim, pela noite dormida — e pareceu desolada. Ele ainda estava com a roupa que havia dormido, e descalço, mas não teria problema em dirigir daquela maneira. Assim que ela estava totalmente no andar debaixo, ele apenas abriu a porta de entrada sem qualquer contato visual e caminhou até onde seu carro estaria estacionado. Sequer abriu a porta para ela, e ligou o motor.
Outra viagem silenciosa. Não como a de ida, onde os motivos foram a vergonha, mas agora seriam os motivos da tristeza presente nos dois. Constrangimento.
— Me deixe no Two Whales — disse ela, ríspida.
O garoto assentiu e virou o volante. Havia acabado de começar a chover, o que não melhorava a situação. O trânsito estava um desastre naquela manhã então tudo se tornava cada vez mais inquieto.
Nathan parou em frente ao restaurante, sem olhar para a garota, que posicionou seus olhos sobre o rosto dele antes de sair do carro. Ela caminhou descalça sobre a calçada do restaurante, sendo ensopada pela chuva. Assim que a jovem adentrou o restaurante, Nathan pegou seu celular e ligou para um número, esperando alguma resposta enquanto analisava as gotas de chuva caindo levemente sobre o vidro.
—Vic? Qual a próxima festa?
— Quando você quiser, Nate.
— Amanhã, então. Faça-a.
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