Lifetime

8 Missing you is a slow burn


Notas iniciais
(So Far Away — Mary Lambert)

— Ei, vocês! — Os dois alunos acordaram e viraram seus rostos em pânico.

David Madsen encarava. Max estava com as costas doendo como uma facada. O totem, Tobanga, não era tão confortável afinal. O céu ainda estava escuro e as estrelas predominavam a noite silenciosa. De longe, Max ainda podia escutar as músicas eletrônicas da festa na piscina. Perguntou a si mesma como estaria Warren, se seu olho ficaria marcado em roxo por causa do outro.

Max quis se levantar para explicar-se, mas não tinha desculpas para esclarecer sua estadia noturna abaixo do totemsagrado do local. E o outro motivo era o fato de ter um garoto deitado em seu peito. A morena sentiu seu coração parar durante um instante quando notou que suas mãos permaneciam sobre os fios de cabelo macios dele. Ele também parecia um tanto surpreso de estar ali, não que ele estivesse bêbado quando entrara em contato com a jovem, mas ainda assim, lhe era estranho tanto carinho humano.

— O que estão fazendo do lado de fora? — Madsen apontou a lanterna para os dois, fazendo seus olhos se estreitarem devido à forte luminosidade.

— Nos deixe em paz, Madsen. Hoje é noite do Vortex Club — Nathan disse, levantando a cabeça do peito da jovem.

— A festa é dentro da piscina. Não aqui — o homem começou a alterar seu tom de voz. — Vou reporta-los ao diretor.

A garota viu tudo passar em seus olhos, a perda de sua bolsa de estudos, sua retirada da academia, e ela já podia prever tudo que ocorreria apenas por estar do lado de fora, cuidando de um garoto que teve um surto emocional um pouco antes. Mas toda esta visão foi embora quando Nathan voltou a argumentar com o homem:

— Um casal não pode procurar privacidade? — O louro-escuro revirou os olhos. — Além do mais, não estamos no perímetro da escola. Estamos do lado de fora da cerca, não vê?

O guarda olhou para as pequenas cercas e torceu a boca, com indagação. Max se conteve dos risos para não deixar a situação pior possível. Nathan era praticamente o herdeiro da escola. Ele podia fazer o que bem lhe parecesse melhor ali, e ninguém duvidava, exceto por Madsen.

— Eu posso conseguir uma suspensão para os dois — Madsen disse ao apontar a lanterna para eles novamente.

— Tá, faça o que quiser, mas mande a punição para mim, não para Max — disse o garoto com um sorriso leve plantado em seus lábios. — E também não ligaria se você fosse mandado embora... acho que ninguém ligaria.

Max sentiu vontade de rir novamente, mas lembrou-se que uma família sairia afetada por causa da perda de emprego do guarda, e seria a família de Chloe. Quando a garota descobriu que Joyce havia se casado novamente, e comaquele homem, ela ficou tão surpresa que fora difícil convencê-la daquilo. Logo, o guarda deu meia-volta e saiu resmungando, deixando a paz reinar ali novamente, o que fora ótimo, e ao mesmo tempo, péssimo. Os dois adolescentes estavam em silêncio, sem saber o que dizer um para o outro. Nathan porque havia se aberto para a garota, e Max porque havia o segurado em seus braços. Por mais que o garoto rico tivesse argumentado com o guarda, ainda estava deitado sobre o calor do corpo da jovem, algo que ele nunca imaginaria anteriormente.

— Hm... não deixe ele ser demitido — disse Max, quebrando o silêncio.

— Por que? — Levantou seu rosto e olhou para ela, tendo em vista que seus dedos continuavam em seus cabelos curtos.

— Ele deve ter uma família... — disse a garota, desviando o olhar de seus profundos olhos azuis. — Nem todo mundo tem a sorte de nascer bem-sucedido.

— Tanto faz — voltou seus olhos para suas mãos e continuou deitado sobre o peito dela.

— Nathan?

— Sim?

— Por que você está fazendo isto?

O garoto permaneceu em silêncio durante alguns instantes. Max sentiu-se mal por ter feito a pergunta e desejou não a ter feito, pois suas bochechas ardiam em vergonha. E ansiedade. Ele parecia tão em paz, por mais que seu surto já tivesse passado. Ele continuava tranquilo, e junto dela, como se sua companhia fosse seu conforto. A morena sentiu-se alegre por pensar nisto. Talvez fosse uma possibilidade.

— Parece certo — respondeu ele. — Talvez seja melhor voltarmos, não quero que seja pega pelo Merdsen.

Ela sorriu.

Os dois levantaram-se ao mesmo tempo, logo descendo a pequena rampa de grama, até chegar ao gramado mais plano. Caminharam juntos até a entrada do dormitório, onde o garoto fez um favor de ser cavalheiro suficiente para abrir a porta para a garota. Ela soltou uma risada ao ver que a expressão dele era de nervosismo, como se ele não estivesse acostumado a agir de modo tão adorável. Subiram as escadas e seguiram o corredor.

Max gostava de observar o jeito de Nathan. Suas mãos estavam enfiadas nos bolsos de sua jaqueta colegial e o cabelo permanecia intacto, mesmo depois dos dedos de Max terem passado por lá. Seus passos eram largos e ele cambaleava propositalmente enquanto trocava de pé, o que a morena considerou engraçado o suficiente para soltar um riso abafado. O rosto do mais velho virou para ela, encarando as sardas presentes em suas bochechas. Seus olhos tristes encarando os olhos curiosos dela, o que tornou tudo constrangedor o suficiente para ambos desviarem o olhar ao mesmo tempo, e junto de um sorriso amigável cada.

Chegaram ao final do corredor e Max pegou as chaves de seu quarto dentro de sua bolsa, esperando que ele não pedisse para dormir ali. Ela não gostaria de ter de dizer “não” para o garoto. Ele ficou ali parado, olhando para o chão, brincando com seus pés enquanto a garota destrancava a porta. Assim que retirou a chave da tranca, virou-se para ele, segurando a alça de sua bolsa com força. Ele levantou o olhar, passando a mão pelo cabelo, deixando o charmoso fio rebelde cair sobre a testa.

— Você vai ficar bem? — Perguntou ela, mal acreditando no que havia acabado de sair de sua boca.

— Vou — disse ele ao sorrir de canto. — Hm… obrigado, Max.

Ela sorriu para ele como resposta. O garoto tomou aquele gesto como uma vantagem e curvou-se, aproximando seu rosto do dela, lentamente. A proximidade dos dois era a mínima possível, e logo seus lábios estariam se encostando, mas não era isso que Max queria. Ainda não. A jovem sentiu-se em desespero naquela situação, mas ainda assim, deixou-se levar por aquilo. E não foi algo violento, como ela imaginava ser.

Os lábios dos dois adolescentes selaram rapidamente, em algo que não seria considerado um beijo, apenas em poucos segundos. Não houve movimentos ou qualquer toque de corpo, nem nada que demonstrasse afeto. Foi apenas o toque de dois lábios curiosos, que se encaixaram perfeitamente e foram afastados em seguida. Max não podia sentir-se mais nervosa do que já estava. Seu coração parecia sair pela boca quando o garoto se afastou em seguida, abrindo os olhos logo na direção dos dela. Ela sorriu levemente e ele correspondeu, virando-se para a saída do bloco dos quartos.

Ela permaneceu em frente à porta, observando o garoto sair dali, para finalmente deixar todo o nervosismo ataca-la em forma de calor nas bochechas. Por mais que aquilo não tivesse sido nada demais, fora especial para ela. Finalmente,seu primeiro beijo. Ela tapou o rosto com as duas mãos e encostou-se à porta, sorrindo para si mesma, feito idiota. Apenas desenterrou a cabeça das mãos quando ouviu o barulho de sapatos sendo abafados pelo carpete dos dormitórios e logo adentrou o quarto.

Jogou sua bolsa sobre o sofá e jogou a si mesma sobre os lençóis limpos, sorrindo a todo estante, de olho-a-olho. Em sua mente, aquela cena reprisava a cada segundo que passava. O que durou apenas dois segundos, em sua mente tornou-se uma eternidade reprisada. Suas bochechas ardiam como o calor do inferno e ela decidiu que precisava lavar seu rosto antes de deitar-se.

Levantou-se da cama e colocou seu pijama verde antes de sair do quarto. Caminhou até os banheiros e empurrou a porta, encontrando uma figura esguia ajeitando o cabelo em frente ao espelho. As luzes do banheiro afetaram um tanto aos olhos de Max, mas ainda assim, ela podia ver a camisola de seda preta fina. A loura virou-se na direção da fotógrafa e voltou o rosto para o próprio reflexo.

— Problemas com o sono, Max? — Perguntou enquanto jogava a franja para o outro lado.

— Não, eu...

— … Ou é apenas o Nathan assombrando seus pensamentos? — Sorriu malicioso sem mesmo remover os olhos fixos do espelho.

Max estranhou um pouco, mas não pôde impedir-se de sorrir novamente, repassando a cena em sua cabeça. Ficou um tanto assustada que Victoria pudesse ter visto os dois naquele momento, mas resolveu não pensar naquilo. Afinal, eles estavam “juntos”, e era para fazer parecer o máximo de realístico possível.

— Você não estava na festa? — Perguntou a morena, tentando mudar de assunto para não soltar qualquer coisa que lhe deixasse envergonhada mais tarde.

— Estava, mas bebi demais e fiquei com uma dor de cabeça insuportável. Voltei para o dormitório há quase uma hora — disse ela, acabando de mexer no cabelo e virando-se para a outra, com as mãos posicionadas na cintura. — Vocês dois sumiram no meio da festa.

— Saímos mais cedo — disse Max, afastando seu sorriso e deixando abertura para as bochechas coradas novamente.

— Ainda bem que não precisei escutar os gemidos, já que meu quarto é de frente para o seu — riu a loura enquanto a outra só ficava mais vermelha. — Uma pena que vocês saíram antes, aquela foi uma festa insana! Até aquele seu amigo, o Walden...

Warren — corrigiu Max.

— É, esse mesmo. Ele apanhou feio — riu Victoria.

Max lembrou-se da cena e do quão injusta ela havia sido de ter beijado o agressor na mesma noite da briga.

— A bebida faz mágicas, mal acredito que estou tendo uma conversa com você como se fossemos amigas— a loura prosseguiu, revirando os olhos durante um sorriso.

— Talvez seja o destino — Max disse e passou a acariciar seu braço direito.

— Talvez.

As duas permaneceram em silêncio durante alguns segundos. Max e Victoria nunca haviam se dado bem, já que a garota era uma vadia com ela, sem motivo algum. Mas agora ela parecia mais tranquila, como se não houvesse uma rivalidade presente, ou qualquer presença de ódio. Em nenhuma forma.

Victoria era uma garota bonita e tinha capacidade para obter tudo aquilo que desejasse, e Max não entendia os motivos para ela menosprezar tanto os outros. Mas ainda assim, por mais que estivessem conversando como amigas, elas não eram, e não mudariam aquilo tão cedo.

— Bem, eu vou voltar para o dormitório — disse Victoria, passando por Max e tornando de volta para ela ao parar na porta do banheiro. — Se não dormir agora, a minha ressaca vai me dominar, e aí eu não terei energia alguma para levar o Nate ao Les Branquée sexta.

O Les Branquée era o restaurante mais caro da cidade, onde servia comida francesa junto de espanhola, sendo uma mistura que, todos que já visitaram, disseram ser incrível. Uma experiência única. E a garota nunca teve oportunidade de visitar o restaurante por causa de seus bolsos vazios. Max ficou pensando os motivos possíveis para Victoria ir na companhia de Nathan logo ali na sexta-feira. Aliás, sexta-feira era o dia em que Nathan havia pedido para que Max fosse jantar com sua família.

— Vocês vão jantar lá? — Perguntou Max.

— Almoçar, por que?

— Ah, achei que os planos para o jantar haviam sido cancelados e ele não havia me avisado — disse a garota em um tom de alívio, mais para si mesma do que para a loura presente.

— Jantar?

— Hm… Nathan me convidou para jantar na casa dele, sexta-feira.

— Max — disse Victoria ao cruzar seus braços. — Você sabe que dia é sexta-feira?

— Hoje é dia 27… Não, 28, então sexta é amanhã, sendo dia 29 — Max começou a estranhar o sorriso no rosto de Victoria.

— Não, Max. — a loura abriu ainda mais o sorriso. — Você não entendeu.

— Não mesmo…

— Dia 29 de agosto. Sexta-feira é dia 29 de agosto — a garota descruzou os braços e empurrou a porta dos banheiros.

— Sim, foi o que eu disse.

— Mas não disse o principal — a loura tornou o sorriso em algo ainda maior, como se fosse certo deboche de Max. — Aniversário de Nathan. — Empurrou a porta por completo, colocando a cabeça para dentro apenas para olhar para Max novamente. — Vista algo legal para conhecer os Prescotts.