Lifetime

14 Flame you came to me


Notas iniciais
(Fire Meet Gasoline - Sia)

O sol mal estava no céu ainda e já havia alunos do lado de fora. Uma aluna, exatamente. Os pássaros sobrevoavam o céu do mesmo modo que a brisa suave atravessava do litoral. A escola estava em silêncio total, e a área dos dormitórios não deixava rastros dos outros alunos acordados. Os únicos sons que ecoavam pelo campus era os das folhas das árvores, que batiam umas nas outras em ritmo ao vento.

Max estava encostada à parede de tijolos, olhando para as árvores atrás dos dormitórios. Analisava os pequenos movimentos, esperando que fossem esquilos. Sua pequena mala estava ao seu lado. Como ela visitaria a família, não teria problemas com roupas. Eles passariam em sua casa antes, onde ela colocaria mais roupas na mala.

Ela tinha de partir para o aeroporto em meia-hora, mas nada de Nathan. O garoto sequer lhe mandou alguma mensagem, então ela não tinha certeza se já deveria buscar pelo seu taxi. Logo após ver outro esquilo descer a árvore, ouviu passos sobre os degraus e olhou para cima, vendo a figura esguia descendo com uma mala. Ele mal olhou para ela e tirou o pacote de cigarros do bolso, logo colocando o cigarro na boca.

— Precisamos sair — disse ela, antes dele levar o isqueiro à ponta.

O garoto revirou os olhos e começou a caminhar em direção ao estacionamento.

— Aonde você está indo? — Perguntou a garota, pegando a alça de sua mala.

— Pegar meu carro…?

— Nós vamos de taxi — disse ela, apontando para a entrada da escola.

— Você quer exigir demais, Maxine — ele voltou-se para ela mais uma vez com um olhar de desdém. — Nós vamos no meu carro. Pare de tornar tudo mais complicado.

Ela resolveu que não valeria a pena discutir com ele, então apenas seguiu o caminho para o estacionamento. Quando chegaram lá, Max avistou alguns esquilos subindo para as árvores e os pássaros se assustando com os movimentos rápidos deles. O carro de Nathan estava na mesma vaga que ela se lembrava do dia do encontro com os pais dele. Ele pegou a chave do bolso da jaqueta e destravou as portas. Só naquele momento que Max notou que a jaqueta que ele vestia não era aquela vermelha, e sim, uma azul. E aquela realçava ainda mais seus olhos marejados.

Ele colocou sua mala sobre os bancos traseiros e pegou a dela, ajeitando ali também. Pelo menos ele estava sendo cavalheiro com ela. O curativo não estava mais em sua sobrancelha, mas ali ficou a marca de uma cicatriz, logo acima dela. Ela sentou no banco do passageiro e esperou ele sentar no outro. Sua mãe estava mandando milhares de mensagens, dizendo para não se atrasar, pois eles sairiam de casa cedo para fazer check-in no hotel.

— Ainda bem que meus braços não doem mais — disse ele, posicionando as mãos sobre o volante. — Senão não poderia dirigir.

— Nathan, eu não queria que aquilo acontecesse…

— Claro — ligou o motor e começou a retirar o carro da vaga.

Max resolveu que seria melhor não discutir, mais uma vez. A garota apenas colocou seus fones de ouvido e escolheu qualquer música da sua playlist para não precisar ficar no silêncio sem graça junto dele. Olhou para a janela, vendo as paisagens passando em movimentos rápidos e lembrou-se do dia chuvoso. Tentou afastar o pensamento, mas não teve muito sucesso. Ainda dominariam sua mente durante um longo período. E, para melhorar, também repassou a cena do dia anterior, onde ele disse que houve confiança entre os dois.

Max confiou nele por um bom período. Ela sempre imaginou que poderia contar com o garoto em ocasiões como a que eles estavam agora, então ainda mantinha um pouco desta confiança. Quando ele disse que havia confiado nela, ela sentiu-se satisfeita por ter sido recíproco. Por pouco o tempo que fora. Porra, ela só queria poder contar com ele o tempo todo.

Que se foda que ele é um Prescott, pensou ela. Ainda há bondade no garoto.

Quando notou, a paisagem que se estendia afora era a do aeroporto. Max observou o garoto desligar o carro e sair, buscando por sua mala na porta traseira. Ela fez o mesmo, tropeçando nos próprios All-Stars e pegando sua bagagem. Max não havia pensado antes, mas agora não fazia mais sentido eles terem ido com o carro dele, já que não voltariam no mesmo dia. Foi aí que ela o observou pegar seu celular e ligar para alguém. Quando terminou a ligação, olhou para ela e, em seguida, para o carro.

— Chamei a secretária de minha mãe para pegar o carro — ele sorriu e entregou a chave para o manobrista.

Era a primeira vez que ela havia o visto sorrir em tempos. Por mais que estivesse afastada, ela ainda sentia falta do conforto que era ter o corpo dele colado ao seu e seu sorriso idiota enfiado em seu pescoço.

Os dois caminharam para dentro do aeroporto com as malas. O aeroporto ficava um tanto afastado de Arcadia Bay, mas era imenso em comparação aos outros locais da cidade. Max só esteve lá duas vezes antes, quando foi para Seattle e quando voltou de Seattle. Agora seria a terceira vez. Ela e Chloe planejavam dominar o local quando menores, dizendo que seria a fortaleza pirata delas. Max sentia falta daquela Chloe.

Depositaram suas malas para o voo e esperaram no portão devido para chamarem pela viagem. O portão no qual ficaram, o número 3, estava lotado. Foi difícil encontrar lugares para sentar, mas conseguiram. O pequeno e claustrofóbico local era composto por paredes escuras, lixo no chão, pessoas bem-agasalhadas e um pequeno gabinete de vendas de comida. Nenhum dos dois sentia fome que fosse maior que a vontade de ficar sentado até que seu voo chegasse.

Foram os quarenta minutos mais constrangedores da vida da garota, já que ela continuava sem falar com Nathan. E porque ela também estava considerando pedir sua jaqueta emprestada, pois a sua estava dentro da mala. Por mais que estivesse de calças jeans, o frio nos braços era inevitável e incômodo. Ela decidiu que seria melhor abraçar a si mesma do que pedir a jaqueta do garoto.

Logo, a pequena televisão mostrou que estavam embarcando no voo e os dois se levantaram no mesmo instante. Max ajeitou a alça de sua bolsa e Nathan, seu topete impecável. Ela notou que algumas garotas estavam olhando para ele, de modo assassino-romântico, como se quisessem beijar e devorá-lo ao mesmo tempo. Max sentiu-se um tanto incomodada com aquilo, por mais que ele não tivesse notado.

Assim que caminharam para fora do portão, subindo as escadas do avião, Max olhou para trás e notou que as mesmas garotas-perseguidoras estavam no voo. Maravilha. Pegou suas passagens e localizou o lugar onde estavam, e, por sorte, era logo no canto. Nathan pegou um impulso e pulou no assento ao lado da janela, já colocando o cinto de segurança. Max estranhou, mas sentou no outro livre, de qualquer modo, não sem antes colocar sua bolsa com a câmera instantânea no maleiro.

— Quem disse que eu não gostaria de sentar no assento da janela? — Ela sorriu, mas ele não olhou para ela, pois estava com os olhos fixos no lado de fora.

— Já era, Caulfield — disse ao erguer a cabeça, como se tivesse tentando enxergar a asa do avião.

E, por azar, aquelas mesmas garotas sentaram na frente. A loura e a ruiva, ambas soltando risadas finas e que soavam como tortura para os ouvidos de Max. Não demorou muito para o avião subir e uma carteira escorregou pelo chão. Como Nathan não olhava, Max a pegou e olhou para trás, lembrando-se de que estava nos assentos do canto, sem mais assentos atrás. Só podia ter vindo da frente. Foi quando a garota loura se virou e sorriu.

— Oh, deixei a minha carteira cair — disse ela e pegou o objeto de couro e entregou para a garota.

Nathan olhou de relance e sorriu para a jovem, voltando a encarar a janela. Max sentiu-se extremamente incomodada.

— Qual é… o truque da carteira? — Murmurou mais para si mesma do que para Nathan, que ouviu. — Até eu sei que isso é desesperador demais.

— O que? — Nathan parou de encarar a janela e posicionou seu olhar intimidador sobre ela.

— A carteira — Max disse como se fosse óbvio, mas Nathan não pareceu entender. — Que elas acabaram de “deixar cair”.

— Se está com ciúmes, é só dizer — ele riu cínico e voltou para a janela.

Ótimo, 40 minutos aguentando essas duas e agora, o Nathan também, pensou ela, escorregando pela poltrona.

Quando o voo estava pela metade, as duas garotas se viraram pelo pequeno espaço entre as duas poltronas e começaram a sorrir para Nathan, já ignorando a presença de Max àquela altura do campeonato.

— Desculpe, não pude deixar de notar que você tem uma pulseira de baleia — disse a jovem loura. — Você é de Arcadia Bay?

Foi aí que Max percebeu que ele ainda usava a pulseira que ela havia lhe dado. Ela notou também que agora ele já sorria mais envergonhado, com as bochechas corando. Ele não conseguia manter a postura.

— Sim. Vocês também são?

— Portland — respondeu a ruiva. — Nosso voo sofreu uma falha, então tivemos que pousar e esperar outro para Seattle.

— Gosto bastante de Portland — agora Nathan sorria como um cafajeste. Beleza.

— Você deveria visitar-nos um dia destes — a loura sorriu mais uma vez e Max jurava que o gosto de bile nunca sairia de sua boca.

— Senhoritas — uma aeromoça apareceu e olhou para as duas. — Não é seguro ficar nesta posição durante turbulências. Por gentileza, podem se sentar corretamente?

Max agradeceu mentalmente por aquela mulher ter aparecido. Logo, as duas garotas suspiraram em tristeza e voltaram seus rostos para frente, enquanto a aeromoça passava pelo corredor. A viagem era relativamente curta, 40 minutos, e em pouco tempo o avião pousaria no aeroporto de Seattle.

O piloto fez um anúncio pouco tempo depois. Quando o avião estava pousando, Nathan parou de encarar a janela e voltou seu olhar para o chão. Max notou que ele parecia tenso, e não soube o que fazer. Seu rosto estava todo contraído e ele parecia querer vomitar.

— Nathan? — Ela olhou para ele por baixo. — Você está bem?

— Nunca gostei de pousos — disse ele, agora apertando os olhos.

— Quer que eu segure sua mão? — Perguntou ela, engolindo em seco.

Ele não respondeu e ela entendeu aquilo como um sim, tocando a mão do garoto, que a afastou dela. Ele continuou tenso até o avião pousar por completo, quando relaxou. Max ignorou o ato e continuou olhando para o chão até que as aeromoças dessem os avisos de tirar os cintos e encaminhar até a saída. Max se levantou antes para dar passagem para Nathan e pegou sua bolsa no maleiro. Nathan não havia levado mais nada além da mala preta, então apenas enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta azul e esperou até que Max saísse do avião.

— Ei — uma voz suave chamou e os dois olharam para trás. — Você pode nos passar seu número?

Era a mesma garota ruiva do voo, acompanhada, ainda, da loura. As duas continuavam uma do lado da outra, com sorrisos artificiais cobrindo seus rostos. Nathan olhou para elas e, em seguida, para Max, lançando um sorriso leve em troca. Max sabia no que aquilo daria e logo revirou os olhos e começou a andar devagar para frente, indo buscar suas malas.

— Desculpe, garotas — Nathan saiu.

Max olhou de relance para trás, vendo Nathan alcança-la e quis sorrir, mas não quis mostrar para Nathan o quão feliz ela estava por ele ter deixado aquelas garotas desoladas.

— Um fora? — Max cruzou seus braços, tentando se aquecer. — Jurava que você podia até me largar aqui para ir com elas.

— Não exagere, Maxine.

Ela sorriu e seguiu caminhando. Para sua surpresa, Nathan retirou sua jaqueta azul e colocou sobre os pequenos ombros da morena, que se assustou com o ato, mas não recusou a oferta, já que estava começando a tremer de frio pelo ar condicionado forte do ambiente.

Quando chegaram à esteira, encontraram suas malas rapidamente e começaram a caminhar em direção à saída do local, onde encontrariam os pais de Max. Os dois desceram as escadas rolantes enquanto ambos observavam as imensas janelas com vista para os aviões parados. O aeroporto de Seattle era dez vezes melhor que o de Arcadia Bay. Muito mais bonito e estruturado. Max esteve lá apenas algumas vezes, quando tinha visitas de parentes e esperava embaixo das escadas rolantes, com plaquinhas de “bem-vindos”. Agora era ela que seria a “bem-vinda” da família. Quando a escada estava chegando ao fim, Max avistou sua mãe com uma cartolina amarela não-tão-grande e com palavras escritas em preto e azul. “Bem-vinda de volta, Maxine!”.

— Sua mãe pode te chamar de Maxine, mas os outros não? — Nathan perguntou e Max sorriu para ele.

— Mãe é mãe.

Max não viu seu pai, então imaginou que ele só podia estar em casa, arrumando as suas malas. Em todas as viagens feitas em família, seu pai era o mais desarrumado. Sempre tinha as malas feitas pela mãe, então mal sabia o que era para se levar em qualquer tipo de viagem. A mãe de Max estava como na última vez que ela havia a visto. Continuava mais alta e com os cabelos curtos, escuros e enrolados. Os olhos verdes-escuros se sobressaíam no sobretudo preto. A mulher baixou a placa quando os dois desceram por completo e começaram a caminhar naquela direção.

Nathan passou o braço pela cintura da menor, ainda olhando para a frente. Max sentiu sua respiração falhar por alguns segundos, mas não se sentiu incomodada, apenas surpresa, mas quando se aproximou da mãe, soltou-se do garoto e abraçou-a rapidamente, sorrindo para a mulher.

— Como foi a viagem, Maxine? — Perguntou ao sorrir largo. — E onde está seu casaco?

— Hm, eu… — começou a garota que logo foi interrompida por Nathan, que esticou sua mão em modo de cumprimento para a mulher.

— Nathan Prescott — forçou seu melhor sorriso e surpreendeu-se com o ato da mãe, que ao invés de cumprimenta-lo seriamente, o abraçou em troca.

Na visão de Max, ele parecia tenso no abraço prolongado, mas logo cedeu, sorrindo. Não para a mulher, mas para si mesmo.

— É um prazer, Nathan — sorriu Vanessa, mais uma vez e olhou em seu relógio. — Bom, temos de ir para casa. Ryan ainda está arrumando sua mala, já que deixou para última hora.

Ambos riram da mulher revirando os olhos ao contar sobre o marido e caminharam atrás dela. Nathan passando as mãos pela cintura de Max mais uma vez e recebendo o olhar cínico da garota.

— Estamos atuando, Maxine — justificou e seguiu caminhando.

Ela riu mais uma vez e o cutucou com o cotovelo.

— Acho que você perdeu esta jaqueta — olhou para ele.

— Ela combina mais com meus olhos — disse ele, agora olhando para ela, mesmo sem muita expressão.

— Não se esqueça que meus olhos também são azuis.

— Mas os seus são mais claros que o tom da jaqueta.

Max riu novamente e seguiu caminhando em direção ao estacionamento.

[...]

Após mais dez minutos dentro do carro de Vanessa e pouco trânsito, os três finalmente chegaram aos subúrbios onde encontraram a simples e antiga casa de Max. A casa em Seattle era muito maior que a que eles costumavam ter em Arcadia Bay, mas ainda assim, para Max, não era melhor. Ela não gostava da cidade grande de modo algum. O caminho todo, Nathan pareceu encantado com a paisagem, mas Max já estava acostumada com este jeito dele, de observador. Vanessa parecia gostar de vê-lo interessado na cidade, e olhava pelo retrovisor a cada minuto, sorrindo para ele, que olhava os prédios em rápido movimento como uma criança encantada.

A casa da família Caulfield era pintada em marrom e possuía alguns arbustos na frente. Era um sobrado com janelas e portas brancas que davam todo o encanto no design. Para Nathan, aquela era o menor local onde ele já poderia ter entrado, mas ele não parecia ligar para aquilo. A casa podia ser pequena, mas tinha todo o conforto que suas mansões não eram capazes de adquirir. Vanessa estacionou em frente à garagem e desceu do carro, abrindo o porta-malas. Os dois desceram em seguida, caminhando para trás e pegando apenas a bagagem de Max, já que Nathan não precisaria acrescentar mais nada em sua mala.

O clima não era dos melhores. O céu estava cinzento com grande probabilidade de chuva e o sol não era visível. Fora o frio que fazia por ali. A altitude da cidade não ajudava muito na temperatura, também.

Vanessa? — Soou uma voz do andar de cima e todos olharam na mesma direção.

— Ryan! Max e Nathan estão aqui — gritou a mulher de volta. — Venha dizer “oi”!

Das escadas desceu um homem alto e forte, com cabelos curtos e uma barba crescida. Nathan sentiu seu corpo ficar tenso mais uma vez quando os olhos castanhos do pai de Max se posicionaram em seus azuis. Mas, numa contração, o grande homem abraçou a garota jovem logo ao lado do louro, sorrindo como Nathan nunca havia visto seu pai sorrir.

— Minha garotinha — dizia enquanto girava com Max em seus braços. Ela também sorria como felicidade verdadeira. — Que saudades!

— Pai — Max tentou recompor a seriedade de sua voz enquanto era posicionada de volta ao chão. — Este é Nathan.

Mais uma vez, Nathan estendeu a mão para cumprimenta-lo, mas ao invés de Vanessa, Ryan apenas sacudiu as mãos e sorriu de canto, como um pai protetor.

— Eu tenho de acabar a minha mala, se me dão licença — o homem caminhou de volta para as escadas e Vanessa sorriu gentilmente, seguindo-o.

Os dois estavam, agora, à sós no andar debaixo. Fazia quase dois meses que Max não voltava para casa, mas tudo permanecia da mesma maneira. Logo notou que Nathan observava as fotos na parede da direita, onde ficava a mesa de jantar. Ele analisava uma por uma, vendo os retratos de uma Max mais nova junto de sua família em jogos de hockey ou viagens familiares.

— Eu preciso pegar mais algumas roupas em meu quarto — a garota apontou para a escadaria de madeira clara. — Se você quiser subir junto…

Ele assentiu e caminhou atrás dela, que começou a subir os degraus. O andar de cima era composto com dois quartos e um banheiro. Um dos quartos estava com a porta fechada, sendo ele o dos pais de Max. O outro estava com a porta totalmente aberta, revelando as paredes verde-claras do ambiente. A morena adentrou e o rapaz seguiu-a, analisando cada detalhe do local.

Estava intacto, como se não tivesse sequer adquirido um grão de poeira em qualquer canto. A cama de casal continuava igual, com os cobertores de estampas florais e os quatro travesseiros verdes alinhados. A escrivaninha ainda tinha a luminária na mesma posição e a orquídea falsa que Max havia colocado em um vaso, apenas para a decoração. A janela ficava logo em cima da mesa, fazendo o sol bater na cama, onde Max deitou sua mala aberta. Nathan notou os porta-retratos em cima da cômoda ao lado da porta, contendo fotos de amigos que ela havia feito em Seattle, e algumas com outra garota que lhe parecia familiar. O garoto se sentou na ponta da cama, olhando para o quadro de avisos logo acima, vendo que havia alguns desenhos e rabiscos colocados ali. Max abriu as portas do guarda-roupas e começou a retirar algumas camisetas e empilhou-as ao lado da mala aberta.

— Meus pais não me deixavam colar fotos nas paredes — disse ela enquanto colocava um vestido azul dentro da mala. — Quando soube que teria meu próprio dormitório, a primeira coisa que pensei foi no meu mural de fotos.

Ele sorriu levemente e seguiu analisando cada parte do local. Max havia colocado todas as roupas escolhidas dentro da mala e a fechado, olhando para o garoto com os olhos frenéticos. Ela ainda estava com sua jaqueta, e ele agora estava apenas de cardigã e outra camisa preta por baixo do tecido branco.

— Max, você já pegou o que precisava? — Vanessa colocou a cabeça para dentro do quarto.

— Sim — a garota olhou para a mãe.

— Ótimo. Estamos saindo agora.

A jovem sorriu levemente mais uma vez e tirou a mala de cima da cama, a colocando de volta ao chão. Lançou um olhar para Nathan, que agora olhava para a grande janela, analisando a cidade grande de uma vista longínqua. Ela apenas acenou para o louro olhar para ela e saiu do quarto, sendo seguida por ele.

Quando desceram as escadas novamente, encontraram os pais de Max sentados na mesa da cozinha, conversando e comendo biscoitos com gotas de chocolate, os favoritos de Max. Sua mãe fazia para vender, mas às vezes enviava algumas caixas para a filha. Nathan e ela se aproximaram novamente.

— Comam um biscoito — disse Vanessa e apontou para a mala de sua filha, olhando para Ryan. — Leve a mala de Max até o carro.

O homem assentiu e levantou-se da banqueta, pegando a mala e saindo do campo de visão dos três. Max sentou-se ao lado de sua mãe e pegou um biscoito do pote, mordendo um pedaço e se lembrando de quando ela e Chloe eram menores e tentaram imitar a receita de Vanessa, o que gerou uma bagunça gigante que nenhuma das duas quis arrumar. Ela pegou outro biscoito e deu para Nathan, que pareceu estranhar, mas aceitou de qualquer modo. Quando ele comeu, sentiu uma mistura de emoções dentro de si. Vontade de se jogar no chão e chorar de alegria, vontade de devorar o pote todo, vontade de abraçar a mãe de Max e elogiar suas habilidades culinárias.

— Você gostou? — Perguntou a mulher, com os olhos iluminados.

Para ele, Max havia puxado muito de sua mãe. O mesmo rosto fino e o nariz pequeno, junto do jeito delicado e tímido. A mulher só era mais alta que a filha. De seu pai, Max havia puxado do nariz para cima. Ele só não soube dizer de onde havia saído os olhos tão claros, já que o casal tinha olhos escuros.

— Muito bons — disse e comeu o último pedaço que pairava em seus dedos. — O que vai na receita?

— É segredo — Vanessa sorriu. — Mas posso te passar depois, como nosso segredo.

Ele sorriu desta vez, com vontade própria agora, sem esforço algum. Era a primeira vez em sua vida que ele era tratado como um humano de verdade, e não como um objeto que deveria ser a cópia de seu pai para ser bem-sucedido na vida. Vanessa parecia saber mais sobre seu interior do que ele mesmo com aqueles olhos iluminados e fixados em seus azuis.

Logo, Ryan voltou para a cozinha e posicionou as mãos na cintura, logo abaixo da barra da camisa xadrez clara e sorriu de canto, olhando para os três que se estabeleciam na cozinha.

— Podemos ir? — Disse e avistou a filha se levantar da banqueta, em seguida, a esposa.