Lifetime

12 Caught in a loop and it winds you back


Notas iniciais
(Sane — For King & Country) OBS: vou começar a colocar as músicas que eu retiro trechos para colocar de título. Talvez vocês queiram escutar, não sei.

A noite era a parte mais calma do dia, onde não havia muito movimento em Arcadia Bay. A brisa gélida atravessava a cidade em uma corrente rápida, atingindo várias casas onde famílias estavam colocando seus jantares sobre as mesas, onde crianças saíam de seus quartos correndo para serem os primeiros a provar os biscoitos que teriam de sobremesa, onde pessoas saíam de seus trabalhos apressados para chegar em casa e finalmente relaxar e onde uma escola abria suas portas para mais uma festa onde tudo daria errado.

Max estava sentada sobre a cama de seu dormitório, olhando para os lençóis geométricos e mordendo o lábio pela tensão e medo. Medo de que tudo que Chloe havia dito até agora fosse ocorrer de verdade. A janela estava aberta, então a brisa fria atingia seu rosto de modo fraco, mas ainda assim, lhe atacou a cabeça. Seus olhos se levantaram e posicionaram-se na planta, Lisa, que tinha suas folhas movidas com o vento. Para ela, tudo que Chloe dizia estava no mudo. Ela apenas ignorava os gestos, pois sabia que sua amiga estava falando consigo mesma, e não com ela.

Há quase meia-hora Chloe estava dando chilique, do quão idiota Nathan podia ser e de tudo que ela faria com ele se tivesse um arsenal cheio de armas afiadas. Mal ela sabia que tudo que Max não queria ouvir naquele dia era o nome do garoto. Ela só queria deitar-se em sua cama, colocar algum filme, enrolar-se em seus cobertores e assistir enquanto tomava uma xícara bem grande de chocolate quente.

Depois do Two Whales, Max fora para a casa de Chloe, onde pegou algumas roupas emprestadas. As roupas da amiga eram muito maiores e mais decotadas que as dela, então foi uma experiência diferente vesti-las. A morena se lembrava perfeitamente da época em que Chloe usava grandes moletons com estampas de desenhos animados, animais ou da cidade mesmo. Ela havia mudado demais.

Max dormira por lá, e no dia seguinte ficou infiltrada no quarto de Chloe, enquanto assistia sua melhor amiga dançando loucamente ao som de rock clássico. Ela apreciava tudo que a amiga estava fazendo para animá-la, e por incrível que pareça, ela conseguiu a animação de Max, por pouco que fosse. Quando entardeceu, Max resolveu que tinha de voltar para seu dormitório, já que planejava dormir cedo para o próximo dia, já que teria aulas de manhã.

E lá estavam elas, enfiadas no pequeno quarto de Max enquanto Chloe praticamente berrava sobre seu ódio pelo Prescott. O som alto de música eletrônica soava abafado dali, mas ainda assim, dava para definir quais músicas eram. A morena começou a repassar em sua mente todas as cenas da última festa do Vortex Club que fora. Aquela em que Nathan espancou Warren e depois fugiu. E a pobre e inocente Max, ao invés de ajudar seu amigo, fora ajudar o outro, que estava tendo um surto de pânico — ou arrependimento, ela não sabia — e não merecia seus cuidados depois de tê-la despejado em meio à uma chuva forte. Sozinha.

— Max, você não está me ouvindo — Chloe sentou-se ao lado dela, passando uma mão pelas suas costas.

— Eu me distraí.

— Perguntei se você sabe o porquê de ele ter feito isto.

— Chloe, você já me perguntou isto três vezes — Max posicionou uma mão sobre o próprio roto e respirou fundo. — Eu já disse, estávamos na cozinha, ele me beijou, eu beijei ele, aí ele decidiu que eu tinha de voltar para a escola e eu pedi para ele me deixar no Two Whales. Eu não sei o motivo.

— E ele te mandou alguma mensagem depois, ou algo assim?

— Não. Nada.

— Ele é realmente um…

— Chloe, eu não quero mais falar dele — disse a garota, olhando nos olhos da amiga. — Eu já sabia que iria terminar assim, até porque o “relacionamento” que tivemos foi fruto de uma ameaça dele e…

Ameaça? — Chloe mudou completamente sua posição, agora ela parecia mais irritada que antes. — Você não havia me contado isso, Max.

Ela olhou para a morena como se estivesse com fúria por não saber daquilo, e também por não ter a confiança total dela em si. Max soube que teria de explicar tudo, então respirou fundo e começou a contar desde o começo.

[...]

Nathan havia acabado de acender o baseado enquanto Hayden já estava no terceiro, ao seu lado. Ele lembrou-se da primeira vez em que havia fumado maconha, e foi quando tinha apenas quinze anos. O garoto estava na casa de um garoto de sua escola, para uma suposta festa de aniversário. Ao chegar lá, notou que os pais do jovem não estavam lá, então todos eles estavam com bebidas em suas mochilas e dinheiro para comprar mais. Nathan havia levado whisky, já que fora pedido pelos outros garotos.

O Prescott nunca tivera amigos, e não acabou por fazer amizades com aqueles garotos também, mas ainda assim, comparecia às festas e reuniões para quais era convidado. Nathan já havia fumado cigarros antes e bebia com frequência, tendo sempre cuidado para não misturar com o tempo de efeito de seus remédios que já lhe foram indicados desde menor. Todos os garotos estavam sentados em uma roda, e iam passando alguns baseados de mão em mão. As garotas ali presentes já pareciam alteradas demais, então Nathan supôs que elas já haviam provado. Quando se juntou à roda, passaram-lhe o pequeno objeto de papel e ele pegou-o e colocou entre os lábios como fazia com os cigarros. Ele não havia tossido muito pois já estava acostumado com o tabaco, mas a sensação da erva ainda fora estranha. Como se uma onda de alegria começasse a subir por todo seu corpo até chegar à cabeça e revirar seus olhos. Ele sorriu abobado e passou o baseado para o colega do lado.

Logo, a fome passou a ataca-lo e ele praticamente acabou com a comida da casa do garoto, junto de mais outros colegas de classe. Nathan ficou tão chapado aquele dia que não conseguia enxergar seus próprios pés. Sua visão estava turva e ele ria feito idiota de qualquer coisa. Quando voltava para casa, parou em um bar e cantou uma mulher de quase quarenta anos. Assim que chegou em seu aposento, deu de cara com seu pai, que estava no celular, então não havia notado os olhos vermelhos do filho. Ninguém havia, então ele se safou.

— Cara, aquela garota que você colocou na lista VIP — disse Hayden. —, vocês não estão saindo, ou estão?

— Não. Ela é ignorante demais.

— Vocês meio que combinam, então — Hayden riu enquanto soltava a fumaça e Nathan riu junto.

— Ela chega a ser pior que eu.

— Então eu vou nessa — Hayden se levantou. — Se eu conseguir enxerga-la, primeiro.

Nathan riu enquanto observava o garoto se aproximando da jovem que dançava sozinha. Naquele momento, ele estava tão chapado que mal sentia raiva dela. Levantou-se do sofá e caminhou até Victoria, que estava sentada com uma garrafa inteira de champanhe nas mãos. Ela bebia longos goles enquanto olhava para as amigas dançando atrás da mesa do DJ.

A amizade dele com Victoria era engraçada. Eles haviam se conhecido no primeiro ano em Blackwell, e tempos depois, encontraram-se em uma viagem para Paris, onde o pai de Nathan insistiu em levar todos seus filhos. Nathan estava saindo do avião quando avistara a figura loura descendo pelas escadas. Passaram aquela viagem juntos, conversando, bebendo e dividindo baseados. Rindo feito idiotas de coisas estúpidas. A família de Nathan chegou a pensar que eles estavam namorando escondidos, mas nada se passava de amizade.

— Você é muito otário — disse ela, colocando a garrafa entre os lábios mais uma vez, cruzando as pernas.

— O que eu fiz?! — O garoto assustou-se com as palavras dela e arqueou uma sobrancelha.

Não era uma surpresa para ele ouvir coisas aleatórias saindo da boca de Victoria. Tudo que ela tinha de lhe dizer, ela dizia.

— O que você fez? — Ela soltou uma risada abafada. — Pegou a melhor chance de vida e estragou tudo.

— Vida? Não viaje, Vic — tragou o baseado mais uma vez.

— Sim, Nathan. Você só se droga e festeja para viver. O que mais faz além disso?

Ele ficou quieto. Ela estava certa.

— Você mal terminou com a garota e já está fodendo outra — ela concluiu a fala, deixando-o ainda mais nervoso. — Sabe, a Maxine não é a capa da Vogue, ou uma top model, mas era sua única chance de melhorar.

— Quer mesmo falar de melhoras? Você se droga e bebe também — disse ele, agora parecendo uma criança emburrada. — Não venha me dar lições de vida.

— Sim, Nathan, eu também me divirto. Mas não com a mesma frequência que você.

— O Hayden chega a ser pior que eu…

— Olhe para si mesmo — disse ela, agora colocando seus olhos verdes-escuros sobre os azuis dele. — Você está quase no mesmo nível que ele.

Ele esperava que a loura se levantasse do sofá, mas ela permaneceu ali, bebendo de sua garrafa. Por pior que fosse admitir algo desse tipo, Nathan sabia, lá no fundo, que ela estava certa. Ele estava cada vez pior em seus vícios, isso sem contar os remédios, que já haviam sido considerados um caso perdido. Nathan resolveu sair dali e caminhar até o bar. Mesmo depois daquela conversa, ele precisava de uma bebida.

Enquanto andava, jogou o baseado no chão e pisou sobre ele, agora que estava no final. De longe, viu o balcão do bar e torceu a boca ao se lembrar que havia espancado Warren ali. E ele lembrava-se melhor ainda do motivo para ter feito.

Droga, Nathan, de novo não.

Pediu para o barman o especial Vortex e ficou sentado em uma banqueta, esperando seu pedido ser atendido. Passou a olhar ao seu redor e sentir um enorme vazio em seu peito. Mesmo com toda aquela gente, ele ainda se sentia sozinho. Victoria estava contra ele naquele momento, e ela tinha motivos para isto. O garoto olhou para trás e viu o homem colocar a bebida em sua frente, pegando o copo e bebendo alguns goles enquanto seguia analisando o local. A área VIP tinha as mesmas cortinas de sempre, tudo abaixo da mesma tenda. Courtney estava sentada para verificar a lista. Nathan sempre se perguntou se era opção de ela ficar ali, ou se ela gostaria de estar dançando junto das amigas e se divertindo.

Logo, das cortinas da área VIP saiu o Hayden junto de uma garota a qual Nathan não pôde enxergar muito bem. Quando passaram por ele, Hayden acenou e fez um sinal de positivo com o polegar e Nathan riu. Ele estava com Paige.

Alguns segundos depois, assim que sua bebida estava no fim, recebeu uma mensagem e olhou para a tela de seu celular, sentindo seu coração palpitar mais rápido que o normal.

“Onde você está?”

Era de Max.

Ele pensou em mais de vinte respostas diferentes, mas optou por responder sem muito carinho.

“Festa”

“Certo, não saia daí”

“Não venha atrás de mim”

O louro não queria encontrá-la naquela noite. De modo algum. Mas ele sabia que ela viria de qualquer jeito.

[...]

“Não venha atrás de mim”?! — Chloe bufou enquanto segurava o celular.

— Chloe, me devolva o celular — Max choramingou. — Por favor.

— Não, Max, precisamos ir à festa — a garota jogou o celular na cama da morena e caminhou até a porta.

— Eu não quero ir.

— Então não vá — Chloe bufou e ajeitou sua touca preta sobre os cabelos. — Mas não vai me impedir de ir.

— Chloe!

Mas era tarde. Chloe já havia saído de seu quarto e caminhava furiosamente pelo corredor do dormitório vazio. Max saiu correndo atrás dela, que já estava nas escadas. A garota estava em tanto desespero que havia deixado sua bolsa no quarto. Assim que alcançou Chloe, nos degraus de saída dos dormitórios, a garota apenas olhou para Max com fúria nos olhos e seguiu caminhando em direção da piscina, de onde o som vinha.

Por um instante, Max se arrependeu de ter esquecido sua bolsa, já que a noite estava perfeita para fotografias.

Logo, Chloe já estava adentrando o salão da piscina, enquanto Max caminhava atrás. A garota adentrou a festa e Max já não a tinha mais em seu campo de visão.

Agora ela estava em total desespero.

As festas eram iguais. Todas elas tinham som alto, DJ, o bar no mesmo canto, a área VIP e pessoas dançando de biquínis e sungas ao som dos ritmos eletrônicos que soavam nas caixas de som. Max avistou Dana em um vestido cinza que chegava até suas coxas. Ela dançava de modo animado junto de Trevor, aquele cara com quem ela andou saindo. Max lembrou-se de que suas sandálias ainda estavam com ela, então devolveria mais tarde. Olhou para a frente e avistou Juliet agora, sentada em uma banqueta no bar. O resto do local estava bloqueado na visão de Max por culpa das pessoas que se divertiam ali.

Você não merece ninguém — soou a voz de Chloe, longe, em meio à música alta. Algumas pessoas começaram a se acumular em um canto e Max já imaginou o que havia ocorrido. Correu na direção da roda e tentou ficar nas pontas dos pés para enxergar a cena. — Ninguém gosta de você, rico de merda. Ninguém sentiria sua falta se você morresse.

Max decidiu apelar para o seu lado grosseiro e empurrou todos que estavam à sua frente, tentando se enfiar na aglomeração de pessoas. Quando chegou ao centro da roda, encontrou Chloe em cima de Nathan, com seu pulso erguido, depositando socos frenéticos no rosto do garoto. A morena sentiu quase a mesma sensação que quando viu Warren sendo espancado. Só que agora era pior.

Chloe! — A garota gritou e tentou puxar a amiga para fora da briga, mas levou um empurrão e caiu sentada para trás.

Agora ela estava ainda mais assustada.

E só piorou quando viu o rosto do louro.

Ele chorava, como uma criança, soluçava sem parar. Sangue escorria de seu nariz e seus lábios estavam inteiros rachados. Mas não saía sangue suficiente para se dizer que haviam ossos quebrados ali. Os punhos de Chloe estavam vermelhos e também machucados, e isso só levou Max a pensar em uma única coisa: Chloe não estava fazendo aquilo apenas por ela.

Quando a garota dos cabelos azuis estava prestes a depositar outro soco no rosto do garoto, Max não pensou duas vezes e entrou no meio da briga, fazendo seu corpo de escudo para o louro que agonizava no chão.

— Não… — Max dizia fraca, sem forças, de tanto chorar.

A garota abriu a boca e fechou, como se o que ela tivesse que falar não valesse a pena. Logo, afastou-se do garoto e da morena e pôs-se de joelhos, encarando a situação. Ela soube que havia passado dos limites, mas ainda assim, não sentiu muito arrependimento no ocorrido.

Nathan já estava mais calmo que antes, mas sua respiração continuava acelerada e ele continuava encolhido no chão, gemendo de dor a cada movimento involuntário que seu corpo fazia. Max olhou para ele, direto nos olhos, como se quisesse pedir desculpas, mas não disse nada. Ele não olhava para ela.

Me desculpe — ele murmurou, mas a garota pôde ouvir. — Max, me desculpe.

E assim como na vez em que Warren fora a vítima, Max também saiu sem ajuda-lo. Apenas com um olhar de tristeza sobre o garoto, nada que ele não tivesse visto muito em sua vida medíocre.