Lifetime
18 Awoken from my sleep
Notas iniciais
— Peço para que todos os alunos se encaminhem ao Pátio Principal — o diretor Wells anunciava nas pequenas caixas de autofalantes que se estendiam por toda a escola.
Max estava na troca de aulas quando o anúncio fora despejado. A garota se direcionava aos armários, procurando pegar o material de Ciências. Naquela manhã, acordara de ótimo bom-humor, já que estava aninhada à Nathan. O garoto saiu do quarto mais cedo para não provocar rumores, e ela assentiu, não o vendo mais durante o período.
Naquele momento, todos os alunos que olhavam na direção dos autofalantes começaram a se deslocar em multidões para a porta que dava no Pátio Principal. Max havia se infiltrado ali e seguira junto de todos, até descer os mesmos degraus onde havia derrubado Nathan semanas antes.
O Pátio era formado por um gramado imenso, com árvores variadas e um ambiente agradável, mas após o anúncio, Max sentira uma tensão invadindo todos. Foi quando ela ergueu a cabeça e avistou o palco improvisado, montado perto dos dormitórios, com vista horizontal para todo o campus. Dois microfones posicionados à frente, e várias cadeiras de plástico repousando atrás. Max não tinha a mínima ideia do motivo para aquela movimentação, mas continuou a seguir todos os alunos que caminhavam para as bordas. Quando viu o diretor saindo da escola, seguindo na direção dos degraus que davam para o palco, pôde notar sua expressão de preocupação.
— Max? — Chamou alguém na multidão, logo ao seu lado. Quando a morena se virou, olhou para a garota mais alta ao seu lado, que mantinha um sorriso curto de cumprimento. Dana.
— Oi — saudou a garota, colocando-se inclinada para olhar seus lados, vendo Juliet concentrada em um bloco de notas com a caneta percorrendo as linhas em um garrancho extremamente rápido. — Tudo bem com ela? — Cochichou para a amiga.
— Matéria para o jornal — Dana revirou os olhos e olhou por cima da multidão, procurando o diretor Wells, que se encontrava sentado em uma cadeira. — Se o Wells já está aqui, por que estamos esperando?
— Acho que a pergunta mais apropriada seria por quem estamos esperando — concluiu Max, agora notando algo por cima de seu ombro.
No meio da multidão, as garotas se encontravam quase no fundo. Foi quando Max notou que um carro havia acabado de estacionar na entrada da escola. Seus olhos se fixaram naquele automóvel que lhe parecia tão familiar e tão distante ao mesmo tempo. Não era qualquer um, era de primeira linha, completamente limpo e refinado. De dentro, um chofer saiu, abrindo as portas dos bancos traseiros.
O casal que saiu em seguida trouxe calafrios à espinha de Max. Primeiro saiu a mulher do rosto fino. Seu batom escuro podia ser avistado de longe, junto de seu sobretudo marrom. Faltava pouco para o inverno se aproximar, mas ela já parecia estar preparada. Usava meias-calças claras e saltos de agulha. Seus cabelos louros estavam presos no topo da cabeça, de modo que a fizesse lembrar uma alemã. O homem que dali desceu em seguida, vestido em um terno azul-marinho caro, parecia confiante de si mesmo. Na visão de Max, o dia em que ela o conhecera ele estava mais tenso. No campus, ele parecia relaxado, sem parecer mostrar qualquer incômodo. O casal subiu os degraus com uma distância que Max nunca havia visto em um relacionamento anteriormente.
Todos os olhos se voltaram para os dois, e em seguida, começaram a vasculhar o campus, e a morena já sabia que estavam à procura do herdeiro Prescott. E, para a surpresa de todos — menos a de Max —, ele não se localizava ali.
Então fora por isso que ele estava desesperado, pensou ela. Seus pais.
— Os Prescotts? — Dana praticamente vomitara suas palavras. — Você podia imaginar isto, Max?
A morena negou com a cabeça enquanto acompanhava os passos do casal na direção do palco. Assim que subiram, Max pôde jurar que havia visto o diretor engolir em seco. Do modo mais visível possível. Os dois cumprimentaram o homem e apenas Sean manteve-se sentado, enquanto sua companheira se sentava em uma das cadeiras, cruzando as pernas. Todos os atos dela soavam como um tapa de luva de pelica.
— Bom dia — anunciou o diretor, ajeitando seu terno cinza, com as mãos posicionadas no baixo de suas costas. — O Sr. Prescott convocou todos vocês aqui hoje para um anúncio de primeira mão. Atenção, por favor.
Wells deu um passo para trás, olhando para a mãe de Nathan, tentando não ficar à sua frente. A mulher tinha as mãos magras repousadas sobre o colo enquanto olhava de queixo erguido para o marido, que ajeitava os cabelos grisalhos e seus óculos acima do nariz.
— Bom dia a todos — saudou enquanto analisava a multidão. — Como o diretor Wells disse, vim com notícias. No plural. Quero convidar todos vocês para o concurso direcionado à área fotográfica proporcionada pela academia. O nome escolhido é “A Liberdade Bem Observada”, e o tema será “liberdade”. Vocês devem representar, no projeto, uma foto de algo que os lembrem o tema. A apresentação garantirá uma viagem para Boston, em uma galeria aberta para este projeto e outros que o vencedor queira apresentar. Um dia apenas para o fotógrafo.
“Para se inscreverem, devem ter a idade exata de 18 anos e participarem das aulas do Mr. Jefferson. De jurados, teremos eu, o diretor Wells e o próprio Mr. Jefferson. O dia final para as inscrições será até depois de amanhã, sexta-feira, e o dia final para a entrega dos trabalhos será 28/12, tendo assim cinco semanas para trabalhar. Espero que tenham gostado da proposta, e tenho certeza de que participarão com trabalhos esplêndidos. Muito obrigado pela atenção, tenham um bom dia.”
Não demorou quase nada para que o homem se afastasse do microfone e fizesse um sinal para a mulher, que se levantou. Ambos se despediram apenas do diretor, praticamente ignorando a multidão ali presente, e caminharam para fora do campus, com passos rápidos, como se estivessem com pressa para sair daquele local.
[...]
Max agora se encontrava no corredor do dormitório masculino, meia-hora depois da notícia que fora praticamente vomitada nos alunos. Ela não conseguira sequer processar tudo por completo e pensar se participaria ou não. Tudo que ela fez após aquilo, fora conversar com Dana sobre as possibilidades para projetos, e depois, pensou que deveria passar no quarto de Nathan, já que ele não atendia suas ligações e não havia dado as caras na escola.
O diretor Wells havia deixado o dia livre de aulas, já que os professores estariam ocupados na divulgação do projeto pelo campus, então ela não teria problemas para ir até o dormitório masculino. Ninguém a veria.
Mas alguém a viu.
Quando ela seguiu corredor à frente, encontrou Warren que estava saindo de seu quarto naquele exato momento. Ele olhou para ela, não parecendo muito surpreso, mas se encostou à porta com um sorriso curto de cumprimento. Max sentia falta de sua presença em sua vida, já que o garoto sabia como animá-la de maneiras absurdas. Ele podia ser usado como o sinônimo para felicidade, mas isso já havia parecido ser desgastado.
— Oi, Max — disse ele enquanto colocava um pé dobrado sobre a porta, olhando corredor adiante.
— Warren — ela sorriu, mostrando o brilho em seus olhos, mesmo sabendo que talvez ele não pudesse enxerga-lo. — Você estava no Pátio? Ouviu o anúncio?
— Sim. Você já deve estar bem preparada para o concurso, certo? — Perguntou ele, respirando fundo.
— Não, na verdade. Estou bem assustada com os procedimentos. Mal consegui pensar no tema direito.
— Pensei que o Sr. Prescott já tivesse lhe dado vantagem — Warren deu de ombros — sabe, porque você está com o filho dele.
O olhar castanho do garoto se localizava na porta à frente de seu quarto, onde o herdeiro Prescott morava. Warren parecia triste por ter que encarar aquela realidade, mas Max sentiu-se feliz apenas com as palavras dele, sabendo que havia dado um grande passo apenas por conversar com ela.
— Não… eu não tinha ideia.
— Bom, eu tenho que sair agora, Mad Max — ele sorriu para ela e se desencostou da porta, caminhando para o corredor. — Foi bom te ver.
— Eu que o diga! — Respondeu a morena ao observar os passos do geek.
Ela sorriu mais para si mesma do que para a situação e voltou seus olhos azulados para a porta que estava logo atrás. A garota deu duas batidas, mas após algum tempo de espera, terminou sem qualquer resposta. Assim então ela girou a maçaneta e encontrou a escuridão e frieza de sempre. Se perguntou se alguma vez na vida Nathan havia deixado aquelas cortinas abertas.
Fechou a porta atrás de si e caminhou na direção da cama, onde havia um garoto deitado, repousando, com os fones de ouvido posicionados em seus devidos lugares. Música alta soava como ruídos, e Max entendeu o motivo para ele não ter aberto a porta. Ele nem deve ter escutado.
Se aproximou de seu corpo e depositou um beijo rápido no pescoço do garoto, afastando-se e esperando ele se virar. Nathan surpreendeu-se com o calor de seus lábios e contraiu o corpo, mas assim que notou quem era, lançou um leve sorriso por cima do ombro e se colocou sentado na cama, retirando os fones com a música pausada.
— Você está bem? — Fora a primeira coisa que a garota lhe perguntou, sentando de frente para ele.
Ele assentiu com um bocejo em seguida. Seu cabelo estava totalmente bagunçado e ele tinha olheiras imensas circulado os olhos azuis. Max não se lembrava delas quando ele havia saído de seu quarto. A garota passou a ponta dos dedos nas regiões dos olhos cansados e sorriu para ele, que baixou a cabeça e encostou a testa no ombro da jovem.
— Seu pai já havia lhe avisado? — Perguntou ela, agora acariciando o cabelo com uma mão e as costas com a outra.
Mais uma vez, ele assentiu e colocou as mãos sobre as costas magras da garota, segurando com força. Suas unhas eram roídas, então não a machucava.
— Você surtou por causa da presença dele? — Arriscou-se Max, falando pausadamente.
— Ele contou tudo para você? — Perguntou ao levantar o rosto.
Max distanciou suas pernas, uma da outra, para que ele se encaixasse ali no meio, aninhando seu corpo ao dela. Agora ele parecia ainda pior do que antes. Max olhou para seu criado mudo e notou que os remédios estavam ali, ou seja, ele havia tomado doses recentemente. Talvez as olheiras estivessem ali por causa dos efeitos colaterais.
— Sobre o trabalho, a data limite, os jurados… Você vai participar? — A garota passou a mão sobre os ossos de seu rosto, sorrindo levemente.
— Ele não contou tudo — desviou o rosto do olhar da garota, como se estivesse falando sozinho. Seus olhos se moviam freneticamente e ele estava tremendo. — Nada. Ele não contou nada.
A morena já havia o visto triste, feliz, calmo, estressado, mas aquela reação era diferente de tudo. Como se fosse uma mistura de tudo de péssimo possível. Ele parecia mais irritado do que ela jamais poderia imaginar um dia. O garoto olhou para seu criado mudo e tentou alcançar as pílulas com as mãos trêmulas. Max tocou os dedos dele com suas duas mãos, aquecendo-os.
Com um selo rápido de seus lábios sobre as mãos do garoto, ela levou o calor das suas até seu rosto, tentando acalmá-lo. Pôde ver que os olhos dele se enchiam de lágrimas, como um choro sentido de ódio. Um choro de uma criança: suave, inocente, porém, odioso.
— O que ele não contou, Nathan? — Perguntou quase que num sussurro, encostando sua testa à dele.
— Boston. Boston. Boston. Eu não quero ir para Boston — respondeu ele com a voz rouca e seus olhos ainda frenéticos.
— Você não precisa ir. Talvez eu não ganhe, ainda nem sei se vou participar do concurso e…
— Não, Max — agora seus olhos estavam sobre os dela, como o de um predador sobre sua presa.
A garota já estava confusa com o olhar dele. De voraz, caiu para inocente.
Ele puxou as costas dela para mais perto de seu corpo e deitou a cabeça sobre o peito da jovem, respirando de acordo com os movimentos dela. Com seu rosto enfiado ali, Max já estava sem reações, e, novamente, confusa.
— Ele quer me levar para Boston. — Concluiu o louro, com um soluço em seguida.
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