Notas iniciais
[Leloty]: É, sumimos, eu sei. Mas... Ah, dexa pro final, que eu tenho certeza que ninguém lê as notas iniciais, então de boa. Certo? *olha pra Nivea* Certo. Aproveitem aí e até as notas finais *u*

E mais uma vez Artemis acordava suada, aquilo estava realmente se tornando um hábito.

Um maldito hábito que a deixava cansada e mais frustrada por não lembrar nada daquilo.

Naquele momento, a garota de longos cabelos ruivos se olhava no espelho, no banheiro, tentando controlar a respiração acelerada.

Aquele sonho, aquele horrível acidente em pedaços traçados que a impediam de lembrar nada mais do que “453012733315”.

Com um suspiro rotineiro, ela desistiu de tentar lembrar e foi para o banho. Poucos dias que acordara e já estava cansada daquilo tudo.

Épico.

Exatos quinze minutos depois de frases “você vai lembrar” e “paciência é uma virtude”, que só a deixaram mais estressada ainda, Artemis, em um short jeans e uma enorme blusa branca adentrava na silenciosa cozinha. Assim como a maior parte dos cômodos que ela passara no caminho para ali – o que eram muitos – estavam assim: sem nenhuma alma viva.

O silêncio chegava a ecoar dentro daqueles enormes habitats.

Mas ela não estava ligando para isso. Seu estômago roncava e foi ele quem a fez abrir a geladeira para procurar alguma coisa parar comer. E havia tantas comidas diferentes. Aquela variedade não surpreendeu Artemis ao lembrar quantas pessoas “viviam” naquela mansão, ainda mais pensando o quanto Poseidon e Hermes deviam comer.

Dois godzillas, quase certeza.

Rindo de seu pensamento bobo, a ruiva apanhou um cacho de uvas verdes, um achocolatado já pronto que ela não se lembrava de alguma vez ter tomado e um sanduiche também pronto. Mesmo meio desconfiada da validade daquilo, a ruiva o trouxe consigo.

E não se arrependeu de ter feito isso enquanto o comia. Era tão gostoso, tinha que elogiar quem tinha o feito. Seu polegar apertava o controle remoto, zapeando entre os canais a procura de algo legal parar assistir naquela enorme televisão.

Por favor, quem tinha uma TV daquele tamanho na cozinha? Uma sala de cinema perto de comida? Queriam ficar gordos? Ao pensar nisso, uma imagem veio a sua mente: o loiro, em sua blusa branca cavada, calças jeans surradas e... Artemis corava enquanto lembrava das tatuagens nos braços fortes dele, tatuagens que subiam pelo ombro e... Artemis parou de comer, concentrada em sua lembrança... E o rosto de traços fortes e frios.

– Você deve ser lindo sorrindo, Apolo.

Ainda mais com aqueles olhos azuis tão claros que chegavam a irreais... E os cabelos loiros suavemente bagunçados... E...

O som de algum noticiário especial a fez emergir desses pensamentos e, droga, corar muito.

Por que estava notando aquele estúpido?

Ele havia a ameaçado, a forçado a lembrar coisas quando estava fraca... Era um ridículo... Ok, um lindo ridículo de incríveis olhos azuis e...

Artemis sacudiu a cabeça.

– Cala a boca, mente estúpida. Mente em branco e estúpida, por que não se ocupa em lembrar das coisas e me deixa comer em paz? – bufou – Apolo é só Apolo, ponto.

E tentando se convencer disso que voltou a assistir o noticiário.

Mas jamais poderia voltar a comer depois de ver aquilo que passavam na tv. Quando ela havia colocado em um canal de notícias? Ela não havia sequer notado.

Só que seja lá como tinha acontecido, ainda bem que o fizera.

Seus olhos extremamente verdes liam as letras vermelhas que rolavam abaixo da imagem. Aumentou o volume da TV.

“Essa manhã, na zona norte de Roma, em uma construção abandonada, um corpo carbonizado foi encontrado por um morador próximo que diz ter sentido o cheiro estranho ao acordar. – dizia a repórter morena seriamente. Atrás dela, a clássica e amarela faixa policial a impedia de ir mais perto, mas dali mesmo podia se ver os policiais retirando um corpo. As janelas do prédio brilhavam com a luz do sol. – O homem, identificado por Bóreas Lefevre, um francês que havia chegado a Roma dois dias atrás a trabalho em uma pequena empresa de Cafés, foi jogado do topo do prédio aqui a esquerda. A polícia estipula que tenha sido por volta de duas da manhã e que ele ainda estivesse vivo antes mesmo de chegar ao chão. Bóreas encontrava-se amarrado a uma cadeira e que provavelmente sofreu tortura antes de ser jogado juntamente de seus documentos. A população próxima está aterrorizada com grotesco assassinato e muitos chegam a dizer que se trata de máfia. A policia, no entanto, não se pronunciou sobre, deixando o motivo ainda desconhecido."

Tudo o que Artemis pôde fazer, depois de ouvir a reportagem era encarar, pasma, com seu sanduíche ainda somente com a primeira mordida. Duvidava que pudesse engolir alguma coisa, seu estomago tava fechado ante aquela imagem horrível.

Ela deixou o pão em cima da bancada.

– Bóreas.

Artemis havia escutado Apolo falar sobre aquilo. Aquilo só podia ter sido Apolo.

Um frio estranho apoderou-se por dentro de si. Era aquele tipo de cara em que confiava sua vida? Aquilo... Não, aquilo podia sim ser Apolo. Os olhos azuis dele diziam que podiam sim fazer aquilo.

Artemis mordia o lábio.

E...Droga... Apolo havia matado um cara! Queimado! Que tipo de pessoa era essa?

– Ele... Ele...

Uma vez mais, seus olhos se fixaram na tela e via, agora meio desligada, a reportagem engatada na anterior. A reportagem sobre o acidente dela e o fato de não terem encontrado qualquer provável sobrevivente ou sequer quem havia causado aquilo, deixando mais um suposto mistério nas mãos da polícia.

Será mesmo que havia sido Apolo? Não estava o julgando sem saber? Havia Ares... Ares também devia ser... Não, droga, o que aquilo poderia ser?

Seu estômago ainda estava enjoado.

Será que ela sempre fora fraca para essas coisas? Será que trabalhava com alguma coisa relacionada a jornalismo? Será que Órion a amava?

Estava tão distraída em seus pensamentos desconexos e confusos que levou um susto no instante em que a TV foi desligada. Automaticamente seus olhos se viraram, atentos, para ver de quem se tratava e ficou surpresa ao notar que automaticamente relaxava ao perceber que se tratava de nada menos do que um sorridente Hermes. Esse se aproximou.

– Ih, não vai começar o dia assistindo coisas chatas assim né?

Artemis sorriu, mas por dentro, ela o avaliava. Será que Hermes estava com Apolo?

– Pessoas inteligentes tendem a assistir coisas assim.

– Para, você tem a chance de começar do zero tuas memórias e quer gravar logo programas policiais? Da próxima, vou trazer todos os DVDs de How I Met Your Mother pra você, pelo menos vai ser uma pessoa divertida e legal como eu.

Com essa, Artemis não pode não rir. E os olhos dourados de Hermes pousaram em seu sanduiche com uma expressão desolada.

– Voce comeu os sanduiches de Héstia.

– Foi Héstia quem os fez?

– Foi, pra mim, antes de sair para a faculdade.

Artemis sorriu maldosamente para a cara de chateado dele.

– Ainda bem que me avisou, eu tenho que agradecer a ela pelos deliciosos sanduiches.

Hermes riu.

– E eu pensando que você era uma boa alma, não acredito que me enganei.

– Comidas, Hermes, estamos falando de comida.

– Verdade, pessoas mudam quando se coloca comida no meio, tipo poder né?

Artemis quem riu dessa vez.

– Tipo poder. – e com aquele clima mais leve, esquecendo os assuntos anteriores, a ruiva voltava a comer o sanduiche na frente de um divertido Hermes, ele estava com sua clássica roupa de safári. – Então, o que o traz ao QG do Power Ranger vermelho?

– Isso o que faz se chama tortura, Artemis, para o caso de não lembrar.

– Piadinhas com memória?

– As melhores.

Ainda que revirasse os olhos, Artemis sorria. Não tinha como ficar com raiva de Hermes, ele era legal demais para isso. O loiro em questão, colocou um objeto, do tamanho de um livro, sobre a mesa, e o empurrou suavemente em sua direção.

Os olhos dourados tranquilos.

– Vim entregar uma coisinha para a nova Power Ranger.

– Duvido que Apolo concorde com isso.

– Shiu, nosso segredo.

Sorrindo, a ruiva deixou de lado o sanduiche – que foi roubado pelo loiro – e, curiosa, abriu o que parecia ser de fato um livro. Até notar, enquanto passava as folhas em branco, que se tratava de um caderno. Seus olhos verdes confusos encararam os alegres dele. Não sabia porque, mas sempre imaginava que se Hermes fosse um cachorro, ele seria um labrador.

Um labrador que suja tudo enquanto come sanduiche. Ele sorria.

– Isso daí, para o caso de estar se perguntando o porque de eu ter te dado, é para que você escreva as coisas que for lembrando, desenhando, sei lá, o que você quiser fazer. Já colei uma foto minha na primeira página para você lembrar o quão legal e lindo eu sou.- A ruiva teve que rir ao ver que era verdade, uma de Hermes e Héstia. O loiro engoliu o último pedaço do sanduíche. – Eu não sei como é ficar sem memória, mas deve ser um saco, tipo não conseguir passar fase do Mário porque não encontra a chave mágica. Então, pra você não esquecer mais uma vez, anote tudo ai. O que acha?

E o único sentimento que Artemis podia sentir, naquele momento, encarando aquele caderno em branco como sua memória, era algo quente em seu peito. Gostoso. E causado por aquele ato simples de Hermes.

Seus olhos verdes agora suaves encontraram os expectativos dele.

– Eu... Eu nem sei como agradecer, Hermes...

– Só um “Nossa, Hermes, você é fenomenal” tá de boa.

Ela riu.

– Nossa, Hermes, você até que é legal.

Ele fez uma cara de tristeza.

– É isso que ganho por ter sido legal?

E, por mais divertido que fosse brincar com Hermes, ela sabia que precisava de fato agradecer.

– Obrigada, Hermes, de verdade.

– Um dia vou poder ler o que estiver escrito?

– Felizmente... Não.

– Pooooxa, eu...

Fosse lá o que Hermes fosse dizer, o som do celular dele tocando cortou a sua frase e ela havia percebido que eles nunca deixavam de atender a uma chamada.

Enquanto o ouvia falar, encarava o caderno em suas mãos. Não era muito grande, pequeno o suficiente para caber em uma bolsa. A capa de couro em tom terroso e mole, ela podia dobrar se quisesse. E com muitas paginas em branco. Lindo, simplesmente.

Hermes fez um barulho suave com a cadeira que a fez olhar para cima e encontrá-lo de pé, guardando o celular. Sorria em sua direção.

– Vou ter que ir.

– Ah... Apolo?

– Batman me chamando.

Artemis riu ao lembrar se tratar de Dionisio.

– Boa sorte com ele.

– E você, ruiva, fique longe dos meus sanduíches. Volto mais tarde para eles.

– Não prometo nada... E... Obrigada.

Ele piscou.

– De nada.

Assim, com essas palavras, ela assistiu ele sumir em um dos milhares de corredores daquela mansão. Seu sorriso era suave ao encarar o caderno em seu colo. Hermes... O que ela de fato pensava era que talvez, só talvez, Hermes fosse de fato seu amigo ali.

É, talvez nem todos fossem frios e fechados.

Nem toda máfia precisa ser cruel.

[...]

Era no mínimo a sétima vez que Afrodite repassava aquela conversa em sua mente. Involuntariamente, claro.

“Você sabe o que eu te prometi”, Ares havia dito. Sim, ela sabia bem. Ela devia ter cortado a conversa ali mesmo, ah se devia. Mas aquele beijo... A morena tocou levemente os próprios lábios. Como ela poderia argumentar contra aquilo?

Argh, Afrodite definitivamente odiava aquela bagunça que a simples chegada dele causava na mente dela. Era passado, ela precisava lembrar. Aquele Ares, aquele por quem ela se apaixonou há tantos anos, não mais existia. Tudo o que havia ficado era o ex-detento e inimigo de Apolo.

O que ele fazia ali? Indo visitá-la no trabalho, aparecendo após tantos anos? Ela não entendia, não mesmo.

E tanto tempo passou tentando compreender tais coisas que não notou que não estava mais sozinha na garagem deles. Apenas notou a presença nova quando esta se sentou ao seu lado no sofá de couro.

– O que ainda faz aqui? — ele perguntou, tirando-a abruptamente de seus pensamentos. – Você não tinha uma coletiva da imprensa marcada para hoje?

– Hoje? Não, é amanhã a tarde, apenas. Querem saber mais sobre a nova garota propaganda da Chanel. – ela sorriu, olhando para os olhos castanhos e alegres do homem a sua frente. Ah, Hefesto... sempre aparecia em boa hora.

– Você conseguiu? – um sorriso espontâneo apareceu no rosto do moreno, fazendo com que Afrodite sorrisse ainda mais em resposta.

– Sim! – ela respondeu com um gritinho – Não é o máximo?

– Não me surpreende, sempre soube que você conseguiria. Mas quando descobriu que tinha ganhado o papel?

– Há... quase uma semana. – ela respondeu, sua animação esvaindo-se subitamente ao lembrar daquele dia e da visita que recebeu. Droga. Ela não podia pensar em Ares, não podia. Felizmente, Hefesto notou a mudança repentina dela e perguntou:

– O que houve?

– Nada, eu só... – ela deu de ombros, olhando para algum ponto fixo no chão, tentando evitar o olhar dele. – Não é nada.

Ele passou alguns segundos sem dizer nada, até que por fim deu um longo suspiro e levantou-se, dizendo;

– Eu acho que você está é de cabeça cheia, e se é para ficar pensando, faça isso do jeito certo.

– Como assim?

– Você verá. – ele sorriu, estendendo a mão (que numa raridade não estava suja de graxa) para ela – Tem planos para esse fim de tarde, moça?

Afrodite soltou uma risadinha, olhando para ele com um sorriso antes de segurar a mão dele e se levantar do sofá.

– Pelo visto tenho agora. – ela riu e foi com ele até o último carro presente na garagem, um VW Jetta Variant azul. O carro mais simples dali, com certeza, mas Hefesto não parecia se importar com isso. Era o carro que ele tinha desde que conheceu Apolo, muitos anos antes, e ela sabia que ele não iria querer mudar apenas por luxo.

E como ela também não se importava, não pensou duas vezes antes de sentar no banco do carona e esperar ele manobrar o carro pra fora do Galpão.

[...]

Afrodite começou a desistir de adivinhar para onde iam quando viu que estavam perto dos limites da cidade.

– Você não está me sequestrando, está? – ela perguntou, fazendo com que ele desse uma sonora gargalhada.

– Hm... Hoje não. Mas venhamos e convenhamos que seria uma boa manchete para os jornais. Posso até ver: “Mecânico sequestra modelo internacionalmente conhecida nos arredores de Roma.”

– Você falando assim parece algo tão... tão... – ela suspirou. Algo no tom de voz dele a incomodou, mas não sabia o quê. Portanto, deixou passar. – Não importa. De qualquer forma, para onde estamos indo?

Villa Ada, e estamos perto. Já andou por aqui?

Villa Ada? Mas... não tem nada por aqui. Cinco vezes mais árvores do que casas, diga-se de passagem.

– Exato. – ele sorriu, como se aquilo fizesse todo sentido, e entraram numa rua praticamente vazia, provavelmente a última rua daquelas bandas, onde ele estacionou o carro.

– Chegamos? – ela perguntou, descendo do automóvel e ficando de pé na calçada, olhando em volta.

– Quase. Só falta andar ali pra dentro. – ele apontou para uma pequena trilha de terra entre as tantas árvores, fazendo com que ela arqueasse uma sobrancelha. Hefesto riu da expressão dela e trancou o carro, chamando-a para seguir pela trilha. Afrodite até hesitou, – eram saltos Louboutin, por favor, né? – mas acabou dando de ombros e decidindo que, se já estava ali, ia ver no que dava.

E, bom, ela não se arrependeu. Talvez um pouco, claro, enquanto se desviava de galhos que insistiam em bater em seus cabelos ou de folhas molhadas de orvalho, mas quando conseguiram se desvencilhar daquelas plantas todas, ela notou que estavam subindo uma colina. Felizmente, o declive dessa não era dos maiores, por isso ela nem tinha notado a subida enquanto seguia pela trilha – ou talvez estivesse muito ocupada desprendendo galhos do seu cabelo – então não demorou muito a chegarem ao topo.

E não era como se ao chegar lá houvesse algo extraordinário que compensasse o esforço de subir e toda a dificuldade na trilha, muito pelo contrário. Era algo perfeitamente comum. Não tinha uma árvore grande que fizesse uma sombra gostosa, ou ventasse intensamente, ou nada assim. Tudo o que os olhos da morena identificavam era uma grama verdinha e macia que cobria toda aquela colina, enquanto uma suave brisa mantinha agradável o clima daquela tarde, tudo com aquele plano de fundo magnífico do céu alaranjado enquanto o dia acabava. Simples assim, e perfeito pela simplicidade.

Hefesto caminhou na frente dela quando chegaram ali, parando de pé no topo, com os braços cruzados atrás do corpo, olhando para o horizonte. Ela o seguiu, olhando em volta ates de olhar para a mesma direção que ele e esperar que ele dissesse algo.

– Não é bonito? – ele perguntou , ainda sem desviar o olhar. – E você dizendo que não tinha nada por essas bandas.

– Sim, é incrível! Eu nem sabia que tinha como encontrar colinas por aqui...

– Mas não falei da colina. – Hefesto falou, olhando para ela, que franziu o cenho.

– Falava de quê?

Então ele sorriu, murmurando um “sério que você não viu?” e apontando lá para baixo. Então ela viu, e era lindo.

Milhares de fileiras de plantas médias, longas filas de verde com pontos vermelhos misturando-se ali. Um padrão, verde e rubro, repetindo-se por quilômetros a fio. Enormes campos de morangos, até perder de vista.

Só naquele momento ela notou o cheiro adocicado que vinha com a brisa. Fazia sentido.

– Morangos. – ela sorriu. – É incrível. Sabia que só dá para vê-los assim umas duas vezes ao ano?

– Sim, já notei isso. – ele riu – Desde que encontrei esse lugar, sempre passo para dar uma olhada e descansar um pouco. Mas e você, como sabe disso?

– Sou mais do que um rostinho bonito, meu bem. – Afrodite o fez rir mais um pouco – Então esse é o tipo de lugar que você diz ser o certo para ocupar a mente?

– Muito pelo contrário, para desocupar a mente. – ele sentou-se na grama, ao que ela fez o mesmo – É como uma metáfora. Você está no topo. Olhe as coisas de outro plano, veja a distância.

E ela tentou. Ela realmente tentou, mas não dava. Não quando se tratava de Ares. Sentada no chão, olhando para aqueles pequenos pontos vermelhos, Afrodite se deixou levar por lembranças. Na verdade, uma em especial, que lhe acertou em cheio. Ela devia ter olhado as coisas por outro plano há alguns anos atrás...

“Era apenas mais uma das discussões deles, nada de anormal nisso. Ela e Ares viviam discutindo, especialmente depois do incidente com Apolo. Mas ele chegar ali, dizendo que ela inocente, deixou Afrodite mais irritada impossível.

– Há provas contra você, Ares. Provas que levam à você de uma forma ou outra!

– Mas eu já lhe disse, não tenho parte nisso! – ele argumentava, o sangue lhe subindo à face, típico de quando ficava irritado.

– Pois prove! Se é inocente como diz, prove! – Afrodite pedia com voz esganiçada. Ele não podia ter feito aquilo, não podia, não podia...

– Eu não... Não posso, mas você tem que acreditar em mim!

– Como você quer que acredite nisso sendo que você matou seu pai?

O silêncio foi instantâneo. É, provavelmente não era a melhor coisa a ser dita naquele momento. Levou alguns minutos para que a expressão surpresa dele mudasse aos poucos para a de profunda raiva. Oh-oh.

– Fiz o que fiz e não me arrependo, aquele babaca não me tratava e nem via como filho. E você, melhor do que muitos, sabe disso. – Ares sorria o seu sorriso mais ácido, que nunca havia sido usado com ela. – Mas parece que se esqueceu disso, já que fala que nem as outras pessoas e me julga como elas. Mas... Tudo bem. Tudo bem, demorou até isso acontecer, e o erro foi meu em pensar que não aconteceria. Você é o anjo e eu o demônio, certo? Sempre foi assim. – ele contraiu o maxilar. – É, não temos nada em comum, Afrodite.

– Você... você está terminando comigo?

Ele pegou a blusa de couro dele e, antes de abrir a porta, olhou para Afrodite por cima do ombro. Ela tinha certeza que via um pouco de tristeza nos olhos dele, mas a raiva e a traição superavam isso. O sorriso dele era cruel.

– Como você diz, Afrodite, relacionamentos não se sustentam sem confiança... e está claro para mim o que você pensa.

E Afrodite assistiu pasma e sem acreditar, Ares ir embora. Sim, ele havia terminado com ela, da pior forma possível.”

– Hey – ela sentiu Hefesto tocando em seu ombro e ouviu a voz dele arrancando-a daquela lembrança dolorida. Seus olhos estavam marejados, e ele provavelmente havia notado isso. Piscou duas ou três vezes sem deixar que lágrimas descessem, e olhou para ele. – O que há?

Afrodite suspirou. Estava tão cansada de esconder aquilo, de não poder falar com Poseidon sobre, ou ele arrancaria a cabeça de Ares, de ficar pensando em todas aquelas coisas, das noites mal dormidas e de todas as perguntas que ficavam em sua mente quando ela lembrava-se dele que... Simplesmente decidiu não segurar. Hefesto era um cara legal, alguém que ela não teria problema algum em chamar de “amigo”, então porque não?

Afrodite precisava de alguém em quem confiar.

– É Ares. Ele voltou. – ela começou, evitando olhar para o cara sentado ao seu lado, pois provavelmente não conseguiria continuar ao ver aquele olhar sempre gentil de Hefesto. – Veio falar comigo, me encontrou no mesmo dia em que saiu o resultado do concurso, e... Está trazendo à tona todos os dramas de quando foi embora. E eu fico me perguntando se... não poderia ter sido diferente... Ele mudou, nós mudamos, mas eu ainda senti algo quando o encontrei dias atrás. E isso tem me tirado o sono, eu não posso dar margem a esse tipo de sentimento, ainda mais considerando o que ele fez, mas... Quem sabe eu pudesse ter mudado algo, ou ido até o fim. Talvez isso seja consciência pesada por ter estragado tudo antes mesmo do julgamento. Eu não fiquei até o fim... Mas e se...

A voz dela sumiu, mas não era preciso dizer mais nada. Hefesto pareceu entender aquilo, e passou um braço em volta dos ombros dela, trazendo-a para mais perto de sua pessoa e deixando aquele silêncio durar mais um pouco.

– Poucas coisas são piores do que um “e se”. – ele sorriu um pouco – Mas eu lamento em lhe informar que não dá para saber como teria sido.

– Não, não dá. Isso que agonia.

– Por quê? É algo bom. Significa que é uma chance de fazer algo a respeito. – o moreno deu de ombros – Seja mudar algo ou seguir em frente.

– Como seguir em frente quando o passado vem te visitar no meio do trabalho com um buquê de rosas cor-de-rosa? – ela sorriu, fazendo com que Hefesto sorrisse mais um pouco.

– Bom, se ele for embora de novo, guarde as rosas para pelo menos ter consideração pelo dinheiro do cara. – eles riram – E se ficar, você aprende a lidar com ele.

– Parece simples quando você fala.

– Tudo parece menor à distância, até problemas. – ele ainda sorria quando Afrodite levantou o olhar para encará-lo. Talvez ele estivesse certo e aquele fosse um lugar para desocupar a mente, não o contrário.

– Isso está tão... – ela olhou em volta, vendo que escureceria em pouco tempo, pois o tom alaranjado das nuvens já sumia . – Falta algo.

– Como assim?

– Ora, temos um meio clichê aqui, não vê? Temos um por do sol sem sol. Cadê o sol?

– O sol sempre este por trás da colina, não sabia? Basta olhar desenhos de qualquer criança que dá pra notar. O sol fica sempre atrás, por isso não estamos vendo.

Afrodite não segurou a risada, apoiando as mãos no chão e sentindo a grama entre seus dedos, enquanto olhava mais uma vez para todos aqueles morangos.

– Fez sentido. Acho que ainda dá para ver o por do sol se formos para o outro lado da colina. Quer?

Hefesto esticou os braços, provocando o som de um estalo enquanto ele se esticava.

– Não mesmo. Não precisamos de um por do sol, precisamos?

A morena parou, pensou um pouco e por fim suspirou antes de responder:

– É, acho que hoje não. – e sorriu, recebendo outro sorriso em resposta.

É, ela podia esperar para ver o que fazer. Seja lá o que acontecesse... ainda teria rosas bonitas para decoração.

Notas finais
[Leloty]: CATCHAU, WE'RE BACK, BITCHES SHAUHSAUH ok, temos uma booooa razão pela demora. Além de ser férias, essas foram um teco mais movimentadas. Certo, Nivea? *olha pra Niv* Certo. Então, o fato é, a Nivea basicamente veio me encher o saco por um mês aqui em casa, e sera ótimo pra postar together se: a) Minha mãe não quisesse dar uma de guia turística e arrastasse a mina pra todo canto da cidade e tal b) O computador estivesse funcionando. Logo, junta esses dois fatores e vocês têm uma fanfiction não atualizada. Enfim. [Nivea]: Focando a parte em que realmente não temos acesso ao pc, nem pra assistir Reign T.T mas tudo bem... Awwwwwwn, poisé, people, vim aqui dar uma atormentada de quase um mês e exatamente por isso tô mais sumida que o comum. Awwwwwwn, tá fofo demais aqui e quem se importa que o que eu to falando aqui não faz sentido algum? *abraçando - de verdade - a Lelo* Espero que não matem a gente, tentaremos postar mais rápido. [Leloty] E é isso, people. Vamos aqui deixar os outros capítulos prontinhos pra, no caso de outra oportunidade, só postar aqui proceis :3