Lie To Me
13 Fora de Controle
Notas iniciais
Já devia ser por volta de três da manhã e até aquele exato instante, com todas as luzes de seu quarto apagadas e deitado em sua cama ao lado de uma nua Dafne que dormia de costas para ele, Apolo não conseguia se desligar do mundo a sua volta.
Estava ficando cada vez pior, isso era a verdade. Insônia era comum entre eles, muito comum, menos para Afrodite e Hermes, no entanto, Apolo podia contar em seus dedos tatuados quantas horas tinha dormido naqueles últimos dias.
E como o frustrava saber a causa.
O loiro encarando o teto com seus inexpressivos olhos azuis suspirou, sua mente se voltando a ela. Artemis. Artemis e seu mistério que estava o deixando inquieto.
E odiava quando Dionísio tinha razão, atraído por ela. Por que? Era tudo o que conseguia se perguntar. Por que estava atraído por ela? Isso não fazia qualquer sentido.
Será que se desse um fim nisso e a levasse pra sua cama melhoraria? Sinceramente? Ele duvidava muito.
O homem empurrou pro lado a coberta pesada e jogou as pernas suavemente para fora da cama. O chão encontrava-se tão gelado quanto aquele quarto que um dia fora de seus pais. Mas isso era o tipo de coisa que homens feitos de ferro como ele não ligavam. Então, tudo o que o loiro fez foi colocar um moletom e uma blusa branca, além de pegar sua pistola prateada embaixo de seu travesseiro, e sair daquele quarto.
Precisava se afastar um pouco, quem sabe caminhar o faria relaxar. Seus ombros doíam de tensão.
Ares aparecendo. Artemis aparecendo. Interpol aparecendo. Ariadne desestabilizando seu melhor informante. Anfitrite grávida.
Tinha mais alguma coisa que pudesse piorar aquele quadro?
Ah, claro, também tinha aquele Circuito que Hermes insistia com ele todos os dias. Qualquer hora dessas, Apolo tinha certeza que perderia o controle e voltaria um soco naquele rosto alegre de Hermes, ele o estava deixando no limite.
Apolo suspirou. Não, jamais conseguiria bater em Hermes. Aquele labrador era seu irmão demais pra isso.
O loiro pensava exatamente sobre isso no instante em que entrou na cozinha. Para a surpresa dele, a tv encontrava-se ligada e ninguém menos do que uma ruiva, em um curto short provavelmente emprestado de Afrodite, e uma blusa folgada dos Duckers, achava-se largada na poltrona de Dionísio, mal prestando atenção para o filme que passava.
Seus olhos azuis desconfiados encaravam o caderno onde ela desenhava alguma paisagem, e ela parecia tão estranhamente confortável ali que o incomodou.
– Apolo?
Os olhos azuis dele encararam os verdes surpresos e tensos no instante em que o fitou. Não precisava ser Dionisio para notar a mudança de postura relaxada para defensiva. Ele sequer deu atenção a ela, passando direto pra geladeira. Tinha lá mais coisa a fazer do que preencher ainda mais sua mente com aquela ruiva. Ela já estava fazendo dano demais Desde que havia aparecido na vida deles.
A geladeira encontrava-se abarrotada, os alimentos em grande parte etiquetados para cada pessoa do Olimpo.
Iogurtes naturais de Héstia. Nutella de Hermes. Comidas naturais de Afrodite. Vinhos de Dionísio. Biscoitos importados de Hefesto. Chocolate suíço de Dafne.
E ele apanhou um dos sanduíches que Héstia fazia para Hermes. Ele provavelmente brigaria depois, mas não tava nem um pouco a fim de comer seus Cheetos, deixasse para outro dia. Apolo também pegou uma de suas cervejas alemãs e colocou sobre o balcão. E foi só aí que viu quem tinha o seguido.
Olhos verdes extremamente chamativos o analisavam, quer dizer, até ele erguer uma sobrancelha e ela desviar o olhar, corando.
Argh, ele não tinha tempo para garotinhas infantis como aquela ali parecia ser.
Os dedos do loiro abriam a sua cerveja, com aquele som clássico, enquanto se sentava de frente a ela no balcão. Os olhos dela pareciam ávidos, em cada detalhe que fazia, ainda que ela procurasse disfarçar.
Só o que faltava, mais um Dio na minha vida. Um Dio com peitos.
– Diga logo o que quer perguntar, Artemis, não tenho paciência para mimimis.
Ela aparentou suavemente surpresa. Anos com Dionísio faz isso com você.
– Hum... Eu só ia perguntar se você está bem.
Apolo mastigava calmamente enquanto a fitava olho no olho. Ele podia vez como ela queria desviá-los, no entanto, se forçava a ficar. A mesma determinação que mostrara na garagem.
– Me diga, Artemis, por que eu não estaria bem?
– Você parece cansado, apenas.
– E só por isso, achou que eu não estaria bem?
Ele estava a deixando visivelmente inquieta com ela colocando um cabelo atrás da orelha, extremamente corada. Parecia sem graça.
– Eu não...
– Mas foi intrometida — voltou a comer seu sanduíche. Nem com fome de verdade estava, só que aquilo a impediria de falar com ele.
Ficaram alguns minutos calados, um silêncio tenso, entrecortado ao som que vinha de um filme do Batman. Até ele a ver, uma vez mais, fitando-o, dessa vez com expressão tediosa.
– Você é sempre um amor de pessoa assim ou é tudo especial para mim?
– Não se ache importante.
– Ah, pode ter certeza, é a última coisa que você me faz me sentir. Acho que um empecilho para seu objetivo seria melhor.
E em seu íntimo, ele estava surpreso com a ousadia naqueles olhos verdes debochados. Fazia muito tempo que ninguém batia de frente com ele. Apolo deu um calmo gole em sua cerveja.
– Você é um empecilho.
– Sua sinceridade é tocante, Apolo. — a voz dela era suave ao dizer isso, mas o rosto contradizia. — Sabe, eu me pergunto se Ares também recebe esse tratamento especial.
E esse foi o assunto mais errado que Artemis poderia ter escolhido. Ela parecia ter notado logo após falar, tampando a boca e os olhos abertos em surpresa, mas já era tarde. A expressão de Apolo esfriou ainda mais, se possível. Toda e qulaquer brincadeira havia acabado.
– Quem disse para você sobre Ares, Artemis?
– Eu... Eu falei sobre A-Ares? — uma risada tensa e falsa. — Deve ter... ter escutado errado.
Antes que ela pudesse fazer o que ela provavelmente ia fazer — sair de perto do balcão -, Apolo, em dois movimentos rápidos, a segurou pelos pulsos e a trouxe para cima da pedra fria. Segundos depois, Apolo achava-se a segurando pelo pescoço, sua enorme mão ali e a fitando diretamente nos olhos sem qualquer brincadeira. Assustada era pouco para ela.
– Eu não sei qual seu nível de vontade de sobreviver, muito menos sei se sabe no que se meteu, mas vou deixar claro... — e trouxe-a para perto. Ela respirava rápido. — Eu não confio em você, não me importa o que os outros digam. Se preciso, te apagarei. Pra mim, você não passa de alguém infiltrado que não sabe de nada...
– Não.
Apolo ergueu uma sobrancelha ante a negação confiante dela mesmo que a mesma estivesse em situação inferior, presa contra a mesa. Os olhos verdes estavam impositivos. Ela não tinha medo de rebatê-lo, tinha medo da agressividade dele.
– Não o que, Artemis?
– Você não acha isso... Você acredita que eu tenho informações pra você, o que eu não sei se esta certo, e não vai me apagar até ter arrancado isso de mim. — Artemis parecia sem ar com a mão pesada dele em sua garganta, mesmo que ele não apertasse. — Você não pode sumir comigo.
– Artemis, não confie nisso, você não sabe como sou.
Ela sequer lutava contra ele, só o fitava.
– Você só mata se preciso. O que Bóreas fez pra ser morto?
– Você está tão redondamente enganada.
– Foi você, não foi? Quem matou Bóreas?
– Como te disse, não confio em você e essa atenção em um policial não está a ajudando.
Artemis tentou se soltar do aperto dele, mas foi em vão, a fazendo bufar. Ele sentia a pulsão acelerada dela em seus dedos.
– Apolo, me solta.
A verdade era que fazia tanto tempo que ninguém dava ordens ou dizia as coisas sem qualquer polidez em sua cara que Artemis estava de fato o surpreendendo. Não que isso importasse, mas estava. Os olhos azuis cruéis dele não desviavam dos seus ao dizer:
– A sua vida está em minhas mãos, devia pensar melhor antes de agir ou perguntar. Se quer sobreviver, pense antes.
Artemis ia dizer mais alguma coisa, quer dizer, se ela conseguisse se desprender dele. Apolo sequer usava sua força, só apertava nos locais certos. Não a mataria, sabia, apenas um susto. Mas aquele foi o momento escolhido para uma linda e alta mulher, em um belo vestido rosa aparecer seguido de um moreno de roupa despojada social. Ambos, que riam, pararam na porta ao ver aquela cena. Apolo mais sentiu o perfume dela do que de fato viu Afrodite. Adocicado demais.
– Santa Chanel, Apolo, o que esta! Fazendo com Artemis?
Friamente, sem tirar os olhos dos de Artemis, Apolo sorria de canto.
– Estávamos apenas conversando, mas já acabamos. Não é, Artemis?
Tudo o que ele, meio sem ar, pode fazer foi assentir. Pronto, menos um problema. Já bastava o que ele tinha, não precisava de uma garota curiosa em sua cola. Deixando clara sua intenção de assustá-la, Apolo assentiu na direção de Hefesto e disse para Afrodite:
– Diga para Hermes parar de contar minha vida para ela.
E foi com essa última ordem, para uma surpresa Afrodite, que ele foi embora.
É, tudo pode sempre piorar.
(...)
Sentada no sofá de couro da garagem especial que havia no Galpão, Atena tentava manter o tom de voz baixo enquanto respondia em poucas palavras àquela ligação, sob o olhar curioso de Poseidon.
– Certo, certo. Uhum. Daqui a pouco chego aí. – ela falou, deslizando o dedo pela tela do celular e encerrando a chamada.
– Então, como eu dizia, tenho essa nova carga de armas para receber, sei lá de quem Apolo encomendou.
– Pelo visto ele não gosta muito de fornecedores fixos. – ela sorriu de canto.
– Não questione as razões dele. Mas enfim, não é nada muito grande, o que realmente me intriga é o cara de quem ele está comprando. Preferiu vir pessoalmente, sem mandar ninguém para entregar. O quão anormal isso é?
– É atípico. Grandes fornecedores costumam ser procurados com frequência, tanto pela polícia quanto por concorrentes. É um alto risco efetuar vendas diretas.
– Isso também me intrigou. Mas não trabalho com esse ramo, e suponho que você tenha certo interesse nisso. Afinal, conhecer concorrência é sempre bom, certo?
– Está requisitando minha companhia? – ela sorriu.
– Na verdade, estou te chamando para sair. A entrega vai ser na Piercere, como de costume, mas você poderia ficar para tomar um drinque comigo depois. O que acha?
Atena riu, fazendo com que um sorriso mais espontâneo do que o habitual surgisse no rosto dele também.
– Você não cansa de levar fora? Sério?
– Mas eu não levei fora nenhum, você estava apenas adiando o momento no qual iria ceder a mim nas vezes em que recusou ficar para beber alguma coisa.
– Ah, claro, como não pensei nisso antes?
– Minha presença ali provavelmente confundiu sua linha de raciocínio. – ele deu de ombros. – Acostume-se, é normal.
Então ela o encarou com seu melhor olhar de descrença, que foi respondido com o sorriso sarcástico de Poseidon.
– Que seja, tenho muito o que fazer agora. Depois falamos disso.
– Vai sair? – o moreno indagou enquanto ela se levantava e guardava o celular na bolsa Louis Vuitton que comprou ao sair com Afrodite outro dia.
– Não tenho escolha. Preciso ir negociar mais uma entrega de armas, sabe como é.
– Não precisa de guarda-costas dessa vez?
– Nunca precisei, apenas pedi sua colaboração, Poseidon. Lembre-se disso.
E sorriu de canto, olhando para ele uma última vez enquanto saía dali e torcia para que Poseidon não a seguisse.
E, por sorte, ele não estava com vontade de fazer isso naquele dia.
[...]
Ela olhou em volta ao estacionar seu (carro de Atena, oi?) no estacionamento padrão do Centro Commerciale Domus. Onde estaria Hades? Aquele não parecia nem um pouco o tipo de local que deveriam se encontrar para uma conversa séria, mas não questionaria. Só precisava encontrar a sala que ele havia mencionado e resolver logo aquilo.
Atena saiu olhando para as lojas, para as pessoas que andavam apressadas por ali em seus ternos alinhados e para as vitrines lotadas, sem encontrar qualquer sinal da tal sala que, aliás, não se encaixaria naquele ambiente. Mas ela não duvidaria que Hades tivesse conseguido um espaço ali, ah não. Ele era o tipo de homem que sempre conseguia o que queria.
Ou melhor, quase sempre.
Foi então que viu, ao lado de uma livraria – na qual obviamente gastaria tempo olhando depois – uma porta da cor de chumbo, que poucos pareciam notar. Discreto, ela pensou, bem ao estilo dele.
E sua suspeita se confirmou quando empurrou o trinco para baixo e a porta se abriu com um clique. Ali dentro, numa sala de paredes cinza e sem qualquer móvel, estava ele, andando calmamente de um lado para outro, com os braços cruzados atrás do corpo e vestindo outro dos muitos ternos que tinha, sendo esse de um tom extremamente preto. Típico.
Ela entrou ali, fechando a porta atrás de si e chamando a atenção do homem. Não que tenha recebido qualquer reação além de um levantar de sobrancelhas, claro.
A sala estava fria, e ouvir o som dos passos de Hades naquele silêncio absoluto somava-se à “simples” presença dele, deixando Atena inquieta. Por isso, não o esperou ter a boa vontade de falar, e foi logo ao ponto:
– O que quer?
– Soube da morte de Bóreas. – ele ainda caminhava pela sala.
– É, acho que ouvi algo a respeito entre eles.
– E o que pretende fazer a respeito?
– Ora, como assim? Isso não muda nada.
– Quer ir em frente com isso? Um de nossos melhores agentes foi morto, Scherbítsky! Além de que, obviamente, deve ter sido torturado.
– Bóreas foi treinado para não dar qualquer informação, mesmo sob essas circunstâncias. Logo, não há com o que se preocupar. Garanto que ele não me denunciou ou algo assim.
– Mas isso está ficando fora de controle. – Hades parou na frente dela, encarando-a. – Eu lhe digo para abortar essa missão, agente.
– Abortar a Operação Olimpo? – ela sorriu de canto – Não, não mesmo.
– Ainda sou seu superior, não lembra? E eu digo para cancelar a operação. – ele retribuiu o mesmo sorriso, fazendo a loira suspirar.
– Escute, ninguém nunca esteve tão próxima deles, das oportunidades que você precisa, quanto eu. Estou aprendendo o modo como trabalham, conhecendo-os... Além de estar ao lado de nossa outra agente ali.
– Fala de Artemis Richardson?
– Sim. Ela está ainda mais infiltrada do que eu. Trabalha bem, aquela garota.
– Hmm. – Hades girava o anel de prata que possuía no dedo anelar da mão direita, o que já era costume seu. – Mas um agente foi morto, isso está ficando mais perigoso.
– É um risco ocupacional. – ela deu de ombros, aparentemente indiferente. – Mas todos nós sabíamos que seria uma operação perigosa, isso é um fato.
– Ele era seu parceiro, isso não lhe afeta nem um pouco?
– Você sabe melhor do que eu que era apenas um disfarce.
– E você é mais fria do que eu pensava. – ele sorriu – Perfeita para esse papel. Sabe o que aconteceria se infiltrássemos alguém que se envolvesse demais... Eu comecei assim, sabe?
– Não pense que jamais serei igual a você. – Atena bufou, fazendo com que o sorriso no rosto de Hades aumentasse.
– Se você diz.
– De qualquer forma, eu preciso continuar lá. Tem esse cara do qual já lhe falei, Poseidon, que é amigo do chefe do grupo e costuma resolver os negócios como receber armas, fazer pagamentos, essas coisas. Nós até trabalhamos bem juntos, o que deixou que eu me aproximasse e descobrisse a forma como ele trabalha. Isso pode servir de vantagem e abrir uma brecha na hora certa, Hades. Há uma nova carga vindo, ele mencionou hoje mais cedo. Quero descobrir mais a respeito.
Ele a encarou com aqueles olhos incrivelmente negros, fazendo um arrepio percorrer o corpo de Atena, mesmo que ela não deixasse transparecer. Então, parando de girar o anel e escondendo as mãos no bolso da calça, Hades falou:
– Que assim seja então. Continue lá, faça seu melhor, mas agora as coisas ficam mais sérias. Não vou estar por perto, quero o mínimo de suspeitas possível. Mesmo assim, quero
que dê um jeito de me manter informado regularmente. Faça isso, que poderemos prosseguir na missão.
Conclusivamente, Atena murmurou um “OK” e deu-lhe as costas, caminhando em direção à porta. Estava acostumada as reuniões rápidas e objetivas entre Hades e ela. Na verdade, adorava que fossem assim, quanto menos tempo passasse na presença daquele homem, melhor. Ele era frio demais, até para ela.
– E, hey, Atena, — a voz dele chamou-lhe a atenção uma última vez naquela manhã. Com a mão repousada no trinco da porta, ela virou-se para encará-lo. – Cuidado.
A isso ela não respondeu. Arqueou uma sobrancelha com puro sarcasmo e abriu a porta, saindo da sala e deixando seu chefe para trás.
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