Lie To Me
9 Longas Noites
Notas iniciais
Devia ser a trigésima ou a quinquagésima vez que Dionísio lia aquelas informações que havia conseguido sobre Bóreas, ou talvez ele não contasse mais. De qualquer forma, ele lia mais uma vez, a pasta marrom aberta sobre sua perna, enquanto ele bebia um copo de vinho.
Encontravam-se ele e Apolo na garagem secundária, a que dava acesso direto a pista, naquele dia de temperatura amena.
O homem de olhos violeta estava confortavelmente sentado em sua poltrona preta ao canto, no piso superior, enquanto Apolo achava-se arrumando a última peça de nitro que havia chegado para sua Mercedes branca.
Dionisio também tentava ignorar a forma tensa com que Apolo estava, ou ele olhando seriamente o nada de vez em quando e fingindo nem saber que se tratava de Artemis.
– Dionísio. — a voz indiferente do loiro fez o moreno erguer os olhos e encara-lo.
Os olhos azuis estavam suavemente apertados. Apreensão.
Ombros rígidos. Inquietude.
E respiração controlada. Tentativa de manter calma.
Dionisio fingiu não ter notado nada disso. Só ergueu uma sobrancelha o incentivando a continuar.
Apolo o olhava sério.
– Artemis está mentindo sobre aquilo tudo?
Não, Apolo não queria a verdadeira resposta. Queria, ainda que errado, se segurar a uma chance de saber quem fora o assassino de Hera.
Dionisio voltou a olhar os arquivos.
– Ela parece estar falando a verdade. Nenhum medo, agonia ou mesmo tiques nervosos. — sorveu um pouco de vinho — Minha opinião, ela realmente está sem memória... Inclusive, você a forçando a lembrar parece machucá-la de verdade.
Som de metal com metal batendo. Apolo fechara a capota.
– Confiança?
Dessa, os olhos violetas se ergueram para encontrar os azuis gelo de Apolo. Era um conselho que ele claramente pedia.
Dionísio o analisou melhor. Apolo queria Artemis, em algum nível. Aquilo parecia estar o deixando inquieto por querer o que não podia.
Tanto Apolo quanto Dionisio já haviam se ferrado ao confiar em uma mulher. O moreno entendia o que ele queria de resposta.
– Eu não confiaria — falou com calma, sem desviar olhar. — Ela perdeu a memória, mas não sabemos quem ela era antes disso. Poderia ser qualquer coisa... E confiar nela não seria seguro. Mas também, afastá-la seria jogar um HD com leve defeito que pode ser pego por alguém que saiba consertá-lo.
Aquele era o máximo que poderia dizer sem se comprometer. Haviam intimações que não podiam ser entregues ainda.
Apolo pareceu considerar as suas palavras, o rosto sem qualquer expressão, até um leve mudar de sobrancelhas Dionisio soube que ele havia feito a escolha.E Artemis sem dúvida ficaria com eles.Então, como se sequer ele tivesse dito algo, Apolo mudou o assunto. Pronto, era algo a menos a se pensar.
Dioniso sabia que era essa lista de prioridades que mantinha Apolo como líder e mandante.
O loiro ia jogar sobre a mesa a arma que havia em seu quadril e Dionisio ia voltar a ler suas anotações e informações, no instante em que o som de um carro parando a frente do Galpão os fez parar e olharem atentos.
Dionisio fechou a pasta e apanhou em suas costas, por baixo de seu terno preto clássico, a sua pistola de mesma cor.
Ambos já estavam com as armas destravadas e prontas quando o largo portão foi erguido, o fazendo se enrolar, e Poseidon aparecia com o maior sorriso sarcástico possível.
– Trouxe visita para vocês, garotas — o tom de voz estava divertido.
Os olhos verdes de Poseidon encararam os violeta com diversão e Dionísio soube que ele tinha se metido em algum problema.
Tanto pela forma animada como bateu no ombro de um Apolo inexpressivo antes de começar a subir onde ele estava, olhando lá para baixo o portão aberto, quanto por ver quem vinha logo em seguida.
O seu principal estudo desses dias: Bóreas, em um terno branco simples, sem sorrir e com os olhos azuis piscina falsamente tranquilos.
Dionísio o analisava enquanto ele andava.
Claramente tinha uma arma na cintura e uma perto da cintura. Não estava tão confiante quanto das outras vezes que o viu. Apreensão. Falsa calma. Ansiedade. Raiva. Leve rancor pela forma com que olhou Poseidon de canto no momento em que o mesmo se postou ao seu lado.
Dionisio sussurrou para o homem de olhos verdes.
– O que vocês apostaram?
Tava na cara que Bóreas havia perdido alguma aposta. Poseidon riu baixo, sarcástico. Extremamente orgulhoso de si mesmo.
– Atena.
Não precisava perguntar quem havia ganhado.
Dionisio e Poseidon assistiram, atentos Bóreas se aproximar de Apolo, o olhando no olho, sem medo. Ou assim todos viam, menos Dionisio.
O homem de olhos violeta fixou seu olhar na expressão de Bóreas.
Apolo sequer apertou a mão dele. Nao era do feitio do loiro. Fez apenas um sinal para segui-lo e ambos subiram pela escadaria que levava aquele pequeno camarote.
Tanto Dionisio quanto Poseidon voltaram a sentar em suas devidas poltronas. Eram ao todo sete e mais alguns sofás, sendo quatro principais que tinham visão de toda a garagem e a sua entrada.
Dionisio assistiu com curiosidade Bóreas se sentar de frente a Apolo, aproveitando que sua poltrona ficava mais no escuro, deixando-o analisar a vontade as pessoas.
Claramente, um sinal de que eram iguais. Dionisio sorriu de leve ao notar aquilo. Bóreas era confiante, mas nem tanto.
Só quando esteve acomodado, com a arma em uma boa posição, que Apolo fez sinal para que Bóreas começasse a dizer. Dionisio redobrou sua atenção.
Bóreas estava sério.
– Não preciso falar o que já havíamos dito ao telefone, provavelmente já deve saber sobre as encomendas que eu e minha namorada estamos lidando.
O termo 'namorada' divertiu Dionísio, claramente usado para fazer Poseidon baixar a crina por ter ganhado a aposta. Teve efeito reverso, o moreno sorriu em desafio.
Mas, pela primeira vez, Dionisio tinha certeza de que Bóreas mentia. Não havia problema algum, mas resolveu não interferir.
Bóreas continuou, estendendo um mapa sobre a mesa de centro com a cidade de Roma. Havia algumas vias marcadas. Apolo sequer se moveu para ver melhor.
Dionisio sabia que Apolo não costumava gostar de lidar com Bóreas. Este moveu o dedo da esquerda para a direita de uma das linhas.
– Aqui é por onde vai passar o carregamento mensal de gasolina vinda do exterior. A boa gasolina, limpa, sem qualquer mistura — até aquele momento ele falava a verdade. — Um dos encarregados de um corrida próxima pediu uma ajuda, ele já havia me ajudado outra vez antes e não pude recusar.
Os olhos frios de Apolo encaram Bóreas seriamente. Dionisio praticamente lia Apolo calculando o que poderia fazer e a mentira de Bóreas.
– E você veio até nós? — brincou Poseidon, sarcástico.
– Por que nós? — adicionou um sério Apolo.
Dionisio viu a mudança suave de expressão entre ansiedade, mentira, medo e falsa segurança. Ele claramente ia mentir. Dionísio bebericou seu vinho. Deixasse ele falar, poderia ser útil a eles.
Bóreas sorriu supostamente tranquilo, dando de ombros.
– Todos sabem que vocês são os melhores em corrida, não à toa são os que comandam essa área. Eu sou um vendedor de armas, ainda não um piloto habilidoso, apesar de tentar — a cartada da humildade, percebia Dionisio enquanto via Bóreas mudar de expressão para sério e apontar para o mapa. — Isso daqui envolve carros bons, velocidade e precisão. São os três fatores que notei em vocês. Não poderemos ser notados. Não poderiam errar... E sei que vocês poderiam lidar com isso. São seis tanques presos a dois caminhões, três em cada. Vão estar na velocidade de oitenta quilômetros por hora. Se um dos dois caminhoneiros notar, a operação falha. Não poderia ser qualquer um a fazer isso, consigo perceber assim como todos que só o Olimpo tem essa habilidades. Então o que acham?
Dionisio sorria cruel ao notar aquelas mentiras, mas ficou quieto. Poseidon cruzou os pés sobre a mesa, um sorriso de deboche, mas os olhos verdes sérios.
– Quando e que horas?
Foi visível a micro-expressão de nojo de Bóreas ao responder Poseidon.
– Daqui um dia, as quatro da tarde. Teremos uma estrada de três quilômetros consideravelmente reta. Mão dupla. Tudo está no mapa.
Os olhos azuis gelo de Apolo encaravam o mapa desenhado. Dionisio lia que ele não achava aquele o melhor modo de roubar gasolina, algo na ideia devia estar errado, no entanto tudo o que ele fez foi encarar sem sorrisos ou amistosidade Bóreas.
– E o que ganhamos com isso? — perguntou, frio.
Bóreas sorriu de leve.
– Dois tanques. Prometi a entrega de só quatro.
Apolo avaliava a resposta. Dionisio já havia lido que a resposta era uma piada interna e também uma mentira.
– E você ficaria sem qualquer lucro? — cutucou Apolo.
Bóreas deu de ombros.
– Terei meu lucro da minha encomenda entregue e considere isso um presente para essa pareceria. Sempre foram clientes fieis, um... agrado, podemos dizer.
"Ou um presente de grego",brincou Dionísio em pensamento.
O loiro voltou a olhar atentamente por alguns segundos o mapa, considerando. Antes de voltar a encarar um ansioso Bóreas que tentava parecer calmo. Apolo podia não ler expressões, mas era bom no que fazia.
– Hermes te dará a resposta amanhã.
Foi tudo o que disse, voltando a analisar as ruas traçadas. E eles sabiam que Apolo não mais receberia ninguém, que a conversa tinha acabado.
Poseidon guiava Bóreas para fora, obviamente zombando dele de alguma forma pelo que Dionisio pode ver da expressão deles quando voltou a se aproximar de onde Apolo estava sentado.
Dionisio se escorou contra a barra de segurança do segundo andar, assistindo Bóreas ir embora.
– O que você sabe sobre ele? — Apolo estava no modo negociante.
Dionísio não tirava seus olhos violeta do carro do policial disfarçado.
– Quase nada.
– Duvido muito.
Dionísio sorria quase imperceptível ao olhar para Apolo sentado calmamente na poltrona. Estava sério.
– Eu só diria para aceitar.
– Vou fazer isso, só precisamos informar a Hermes primeiro.
– Onde ele está?
– Héstia.
Dionisio já sabia daquilo, por medidas de segurança, sempre sabia onde os integrantes estavam.
De repente, a expressão de Apolo ficou sombria e Dionísio ergueu uma sobrancelha.
– Como vai Artemis?
Mas quem respondeu foi Poseidon, sorridente.
– Gostosa e com Afrodite uma hora dessas. Apolo pensando na ruiva?
Dionisio assentiu. A expressão ficou ilegível quando o mesmo jogou o celular na mãos de Poseidon, parando a brincadeira.
– Ligue para Hermes, explique para ele e diga para ele ligar para Bóreas confirmando. — os olhos azuis eram gelo — Vamos ver como ele se sai em uma missão dessas.
Poseidon brincava com o celular, sorrindo sarcástico.
– Me pergunto porque você não faz isso.
Apolo não sorria ao começar a ir embora.
– Vou cuidar do Pesadelo Ruivo.
Mesmo Dionisio não pôde não sorrir por aquilo. Era claro que Apolo dizia verdadeiramente aquilo, aquela garota estava se tornando o pesadelo dele.
Assim que Apolo sumiu, Dionisio olhou para Poseidon e ambos concordaram.
– Subo a aposta, dois mil a mais.
Poseidon riu de sua frase.
– Três mil a mais. Aposto que Hermes vai dobrar ao saber disso... E, aliás, vou ligar para ele. — Poseidon colocou-se de pé e sorriu calmo. — Ah, as fotos daquela mulher linda chegaram, estão logo ali, na mesa. Até.
Dionísio esperou Poseidon ir embora em seu Maserati preto antes de se encaminhar para o local dito. Apanhou o envelope marrom e tirou de lá as fotos que havia pedido para seu informante.
Ariadne sorria em todas, mais velha, mais madura. Dionísio tentava analisar aquilo friamente, sem sentir, mas ela sempre tivera o dom de alcançar o coração dele.
E, droga, aquele órgão estúpido se remexia em dor de não saber o que havia ocorrido de errado e felicidade por saber que ela está viva. Os olhos uma vez meigos na direção dele sorriam alegres naquele foto que segurava.
Ariadne.
Seu coração de gelo errou um pulo.
É, era melhor ele pegar um carbenet, aquela noite seria longa.
[...]
Poseidon estava confortavelmente sentado no canto reservado para ele de sua própria boate, conversando com Afrodite, naquela noite aparentemente entediante.
– Então eu fiquei lá, óbvio. — Afrodite falava, virando mais uma dose de tequila. — Santa Prada, era uma Gucci! Onde já se viu desperdiçar uma bolsa daquelas? Não, eu precisava esperar ela sair e...
– Você está mesmo falando de bolsas comigo? — Poseidon riu, apoiando as a cabeça numa mão e olhando para ela. — Vamos falar sobre coisas mais interessantes, como... Sabe o que Ares veio fazer por aqui?
– Então, como eu dizia, — Afrodite o ignorou — tive que ir até o sexto andar atrás de alguém que pudesse abrir o depósito para mim.
– Você sabia que ele estava aqui, não sabia? Antes mesmo da corrida com Apolo.
– O que te leva a pensar que eu saberia algo sobre ele?
– Hm, não sei, apenas um pressentimento de que ele iria falar com você.
– Bom, ele não foi.
– Então não sabe o que ele quer aqui?
– Talvez tenha vindo para seu compromisso inadiável de irritar Apolo. Quem sabe?
Poseidon sorriu de canto, ainda encarando a irmã, mas acabou por dar de ombros e encher o próprio copinho mais uma vez.
– Okay, eu desisto. Mas que você está escondendo algo, está.
– Estou escondendo uma bolsa Gucci no porta-malas do meu carro. Serve?
– Onde você aprendeu a ser tão irritante?
– Ah, alguns anos de convivência com o irmão mais irritante da história. Sabe como é. — ela deu de ombros, mas sorria. — Oh, olhe quem vem lá.
Poseidon olhou para onde Afrodite indicava, vendo que alguém se aproximava de onde eles estavam, usando um belo vestido vermelho, que caía muito bem naquele corpo cheio de curvas.
– Nossa, você vem sempre aqui? — Poseidon perguntou, ao que ela rolou os olhos, parando em frente a mesa onde ele e Afrodite estavam. — Não, sério, porque já estou me acostumando a te ver na minha boate, Atena.
– Olá, Afrodite — a outra acenou com a cabeça — e olá, Poseidon.
Poseidon sorriu com sarcasmo para ela, afastando-se para um canto e dando espaço para que ela sentasse. Atena, por sua vez, deu a volta na mesa e se sentou ao lado de Afrodite, que riu.
– Aceita uma bebida, Atena? — ofereceu Afrodite, ao que a loira recusou.
– Não, não posso beber agora.
– Hmmm, o que tem mais tarde? Por isso está vestida assim? Ah, a propósito, adorei seu vestido! Caiu muito bem em você, e a cor...
– É, eu concordo plenamente. — comentou Poseidon com um sorriso sacana — Caiu muito bem em você.
– Eu vou encontrar Bóreas mais tarde. — Atena deu de ombros, ignorando Poseidon, que exibiu uma expressão de tédio após ouvir aquilo.
– Aposto que ele vai adorar. — Afrodite sorriu, contagiando Atena, que retribuiu o sorriso.
– Assim espero. Obrigada, Afrodite.
– Tá, tá, mas o que você veio realmente fazer aqui? — indagou o moreno, fazendo Atena suspirar e olhar diretamente para ele.
– É que preciso de sua... Hm, colaboração com algo.
– Você quer dizer que precisa da minha ajuda? — ele sorriu, convencido.
– Não, da sua colaboração.
– Dá no mesmo. Mas o que é?
– É um transporte de armas que precisamos cuidar.
– Olha, não me levem a mal, mas não estou a fim de ouvir nada sobre negócios hoje. — Afrodite levantou-se da mesa, colocando o copinho em cima desta e dando a volta. — Então, se não se importam, eu vou dançar.
Poseidon deu de ombros enquanto ela descia para a pista, para voltar a encarar Atena.
– Como assim precisamos cuidar?
– Um dos líderes da máfia russa pediu esse carregamento de armas, que é muito grande. Exatamente por esse motivo, há sérios riscos de a polícia pegar.
– Mas o cara paga bem.
– Muito bem.
– E precisa da minha ajuda com isso para...?
– Preciso da sua colaboração– ela enfatizou — para me cobrir. São três carros com os porta-malas lotados de armas, algo mais que 520 armas no total. Se algo acontecer, precisarei de um plano B, e não sei se posso confiar totalmente nos motoristas.
– E confia em mim?
– Você é, apesar de idiota, minha melhor opção.
– Uau, vou considerar isso como um elogio, vindo de você. — ele sorriu com sarcasmo.
– Ainda bem, porque nunca mais ouvirá algo igual. — ela também sorria.
Poseidon passou algum tempo em silêncio antes de suspirar e perguntar:
– Certo. Onde, quando e como?
– Daqui a um dia, exatamente ao meio dia, na Autostrada dei Parchi. Então acompanhamos a carga pelos primeiros 24km dela, aproximadamente, de onde entraremos na Via di Lunghezzina, que é onde vai ter alguém esperando para pegar o carro que eu estarei dirigindo e seguir dali.
– Certo, certo. Posso te ajudar com isso.
– Agradeço sua colaboração, Poseidon. — ela sorriu, levantando-se da mesa.
– Não vai mesmo beber?
– Não posso. Tenho que ir.
– Ainda te pago uma bebida aqui qualquer dia, Atena.
Ela nada disse, como sempre, sorriu de canto e virou-se, saindo dali enquanto Poseidon a observava caminhar até a saída da boate.
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