Lie To Me
14 Deadman
Notas iniciais
Qual era o problema que as pessoas tinham com poder dormir uma noite inteira? Era alguma nova regra, hábito dessa geração? Afrodite não sabia, nem suas teorias, mas aquilo foi o suficiente para que ficasse nervosa enquanto procurava seu celular na enorme cama de casal.
Tinha que trocar aquele toque, agora era oficial. American Boy nunca foi uma música tão chata quanto naquela hora, ecoando pelo quarto.
A mulher de suaves olhos esverdeados piscou com a luz forte vinda do aparelho. E, bem, só quem a ligava essa hora se tratava do Olimpo, por isso, só atendeu e colocou no ouvido.
– Scartezini — disse em uma voz exausta e quase dormindo de novo.
– Eu sempre achei tão sexy a forma como você atende o telefone.
E foi como se uma corrente elétrica tivesse transpassado seu corpo naquele instante. Aquela voz seria sempre reconhecível. Em qualquer lugar.
Afrodite sentou-se, um tanto quanto entre perplexa e ansiosa.
– Como conseguiu meu número, Ares?
– Eu tenho pouco tempo, Dite. Preciso que me encontre no Sant'Angelo.
– Pra que? Eu já disse...
– Sim, eu entendi, mas preciso que você venha.
– Poseidon...
– Tá na casa de Anfitrite. Não há desculpa, estou te esperando.
Então o clássico "tu-tu-tu" de ligação finalizada era tudo o que ouvia. A mulher só de camisola suspirou.
– Mandão.
Assim, Afrodite começou a se arrumar. Ares não pararia de ligar até que ela fosse se encontrar com ele ou fosse pego pelo Olimpo.
É, há coisas que não mudam.
[...]
O clima estava frio naquela parte de Roma. Também, as duas da manhã, Afrodite já tinha desistido da possibilidade de estar quentinho, ainda mais ao lembrar do rio que passava próximo.
A moça de sobretudo preto desceu do carro que costumava usar fora das corridas; sua Ferrari rosa era especial demais pra isso assim como chamativa demais pr'aquele encontro. As ruas estavam praticamente desertas, não mais do que um ou dois carros estacionados espaçados por metros.
E entre eles, parado rente à ponta, uma Ferrari preta igual a dela. Seus olhos verdes na mesma hora, seguindo a direção, acharam o dono daquela máquina. Ares achava-se sexymente escorado contra um poste antigo, vestindo calça jeans, blusa e a jaqueta de couro todas da mesma cor preta. Os olhos castanho-avermelhados sorriam, mas ela podia ver isso mais claramente no sorriso tranquilo que ele exibia.
Droga, ela odiava quando ele fazia aquilo. Tão irremediavelmente... lindo. Claro, ao seu estilo tatuado e assustador. Estilo... Ares.
As vezes, Afrodite sentia como se nada houvesse acontecido ao olhar pra ele, como se todo aquele grotesco pesadelo não passasse disso: um pesadelo.
E esse era um desses momentos, ela queria tanto abraçá-lo como só ela podia antes, rir dele e coisas... íntimas, que ela não mais fazia.
Então, Afrodite não sorria ao se aproximar. Aquilo era passado. Ponto. Parou tranquilamente a poucos passos dele.
– O que há de tão importante em me chamar essa hora? — não, ela não queria conversar demais. Suas barreiras eram fracas quando se tratava dele.
Como se tivesse todo o tempo do mundo, Ares, sorrindo e com as mãos nos bolsos, caminhou em sua direção. No final disso, pouco centímetros os separavam. Droga, aqueles estalos mais uma vez. O calor. Ela sempre se sentiria assim perto dele?
– Eu somente queria te ver, Dite.
– Santa Dior, você me acordou, me fez arriscar minha confiança com eles só para me ver. Ares, você ficou doido?
E, merda, odiava como o coração bobo e romântico dela achava aquela quebra de regras a coisa mais fofa do mundo.
Ares passou um braço em torno de sua cintura e, mesmo que Afrodite tentasse lutar contra, ele a puxou para próximo daquele corpo que ela conhecia tão bem. Era como andar em sua própria casa, sempre sabia o que esperar.
– O que importa é que você veio, querida, e nada mais. — ele deslizava os dedos fortes pelo seu cabelo suavemente ondulado. Olhos avermelhados nos esverdeados. — Eu disse que nos veríamos outra vez.
– Você sabe que isso não pode.
– Você sempre gostou de um romance proibido, admita.
Afrodite mordia de leve o lábio. Ele sempre a conhecia tão bem. Era como lutar contra si mesma. Ares sorria olhando pra onde seus dentes mordiam seus lábios.
– Vamos, Dite, vai ser como você sempre quis. O bad boy que luta contra a família certinha dela para tê-la.
– A diferença é que na maioria desses contos, ela não é irmã de um dos maiores mafiosos da Europa.
– E nem o príncipe dela é também.
– Você sempre rebate meus argumentos.
– Porque geralmente quero parar de gastar tempo à toa e te beijar.
E não teve como não sorrir nostálgica para ele depois dessa. Afrodite fez uma expressão fofa triste.
– Desculpa, o que você está...
Mais uma vez, das tantas que ele já fizera aquilo, Ares simplesmente a puxou para perto e colou os lábios aos seus. Calor, aquele delicioso calor que só ele conseguia acordar com tanta rapidez e avidez. Os braços dele à sua volta, sua boca contra a dele. É, Ares sempre teria esse poder sobre ela de fazer o mundo desaparecer ao estar com ele. E se uma parte sua odiava, outra gostava daquilo.
Coincidentemente, a parte que gostava estava ganhando facilmente a cota. Então, ao sentir os dedos dele afagando suas costas, que Afrodite voltou a realidade.
Não.
Não, aquilo tinha que parar.
Não podia.
NÃO.
Com uma força que ela não soube de onde tirara, Afrodite o empurrou para trás, o suficiente para que ela conseguisse sair daquele aperto. Estava arquejando, seu coração quase galopando, mas os olhos continuavam sobre os dele.
– Não... Não... — dizia sem ar. — Não se aproxime de mim.
– Dite...
– NÃO... Não ouse dar nenhum passo.
Incrivelmente, ele a obedecia. Ambos a poucos metros um do outro. Droga, havia perdido a cabeça pra confiar em Ares? Logo em Ares?
Não podia cair no plano dele. Seus olhos esverdeados encararam com raiva os dele. Odiava quem a usava para informações.
– O que você quer, Ares?
– Dite...
– Diga de uma vez.
Por alguns segundos, os dois ficaram somente a se fitar, calados. Afrodite podia ler que ele escondia algo, já que passara anos ao lado dele.
– Diga, Ares.
Ele suspirou.
– Foi Apolo quem matou Bóreas, não foi?
– Ah, então era por isso. Seus informantes não conseguiram essa informação?
– Não importa.
Afrodite cerrou os olhos ameaçadoramente, algo raro de se ver naquele rosto amável.
– Você quer saber sobre Artemis.
– Por que eu iria querer saber daquela ruiva, Dite?
– Não sei, me diga você.
Ares estava completamente sem expressão ao encarar seu rosto. Não parecia em mais nada com homem calmo que fora segundos atrás com ela. Essa era um Ares que ela desconhecia depois da prisão.
– Dite, por favor...
– Não me venha com por favor. Se quer saber algo de Artemis, ache por si só.
– E se eu souber algo relacionado a ela? Um segredo?
Afrodite vacilou um pouco diante de uma informação que eles não soubessem enquanto fitava os olhos sérios dele. E se...? Não, era assim que costumava ganhar as coisas. As brigas dele.
Dessa vez, ela só sorriu meiga.
– Eu não sou mais a idiota que um dia você namorou, Ares.
Ares retribuiu friamente o sorriso.
– Não, mas ela ainda está presente.
E para aquilo ela não tinha resposta. Tão pouco queria prolongar aquele amistoso debate, estava embrulhando seu estômago aquele clima que nunca pareceu tão pesado.
– Não me ligue e não apareça mais.
Com essas palavras e sem mais nem um olhar, que Afrodite em seus saltos encaminhou-se para seu carro. Estava no meio do caminho, seu coração ainda batendo agitado, no momento em que a Ferrari de Ares parou com o vidro aberto bem a sua frente. Ares sorria.
– Nos veremos mais cedo do que imagina, querida.
E quando ele piscou, segundos antes de passar uma marcha e acelerar, deixando ela naquela rua de paralelepípedos, que Dite percebeu de fato o que ele dizia.
Ares planejava algo.
E ela iria descobrir o quê.
[…]
Sentada numa das cadeirinhas marrons que estavam dispostas no grande jardim da Mansão Bratiliere, Atena encontrou exatamente quem procurava.
A ruiva parecia concentrada, rabiscando algo em um caderno em seu colo, completamente focada no que estava fazendo. Atena olhou em volta, esperando que ela estivesse sozinha para que enfim pudessem conversar, mas foi só olhar em volta que viu Hermes parado no alpendre da casa, encostado numa das colunas e olhando ocasionalmente para Artemis. Ao notar a presença da loira ali, Hermes sorriu e voltou a olhar para o celular em sua mão.
É, Apolo não deixaria Artemis sozinha tão cedo, pelo visto.
Mesmo assim, Atena caminhou até onde Artemis estava, ocupando a cadeira ao lado dela e chamando a atenção dela para sua pessoa.
– O que está fazendo? – Atena perguntou, fazendo com que a outra olhasse para ela com certa surpresa.
– Ah, estou desenhando. – ela mostrou o desenho que fazia. Era um homem alto e forte, com cabelos pretos e um sorriso estampado no rosto. Atena conhecia aquele homem. – Preciso guardar de alguma forma as poucas lembranças que tenho.
A loira sorriu de canto, tocando na mão de Artemis e falando num tom bem mais baixo:
– Não precisa fingir agora, Art. Aliás, eu tenho novidades para você.
Artemis franziu o cenho, com uma expressão confusa, mas Atena sequer notou.
– Novidades?
– Sim. Hades me procurou. Duas vezes, na verdade, mas principalmente após a morte de Bóreas.
– Hades?
– Uhum. Ele queria que abortássemos a missão, acho que ficou meio preocupado com o fato de Bóreas ter morrido. Por isso temos que mudar de tática, entende? Sua função não pode ser mais lidar com Dionísio... – a loira parou para pensar, mas Artemis estava com o cenho franzido e uma expressão de desconfiança no rosto. Não entendia nada.
– Que missão? Lidar com Dio? Oi?
– A Operação Olimpo, Artie. Sério, preciso admitir que você interpreta muito bem o seu papel, a propósito. Perda de memória? Foi fenomenal.
– Mas... Eu não estou fingindo. – ela olhou para Atena, mais confusa impossível. – Aliás, o que é essa Operação Olimpo?
Atena teria rido mais uma vez, desacreditando da ruiva, se não a conhecesse a tempo suficiente para finalmente perceber que ela falava sério.
– Como assim? Você realmente não se lembra de nada? Da operação? De mim?
– De você? – ela sorriu um pouco – Essa é a primeira conversa que realmente temos, não é?
Atena piscou, pasma.
– Art... Digo, Artemis. Você é minha amiga. Trabalhamos juntas na... – Atena olhou de soslaio para Hermes, confirmando que ele não tinha como ouvir nada — Interpol, especialmente após entrarmos na Operação Olimpo.
– Eu trabalho na Interpol?!
– Sim, mas... mas... Mas se você não sabia, por que estava desenhando Órion aí? – ela apontou para o desenho, fazendo com que Artemis quase pulasse da cadeira em surpresa. Segurando os ombros da loira, perguntou:
– Você o conhece? Oh, Atena, tem que me contar mais a respeito, por favor!
– Shhh! – Atena soltou-se de Artemis, fazendo sinal para que ela se acalmasse – Agora não dá, temos coisas mais importantes a tratar.
– Mais importantes do que o meu passado?
– Sim, o nosso futuro, caramba! Se Apolo nos descobrir, sabe bem o que acontece. E agora que Bóreas está morto... Não pode me deixar sozinha nessa, Art.
A ruiva suspirou, olhando para Hermes e checando se ele ainda estava concentrado seja lá no que estivesse jogando. Infelizmente, não estava, e encarava as duas com uma expressão curiosa. Droga.
– Atena, eu não sei nem do que raios você está falando, como poderia te ajudar em algo? – Artemis falou baixinho enquanto assistia Hermes se aproximar em passos lentos. – Nem mesmo quero me envolver em algo assim, já tenho problemas demais com Apolo.
Atena não disse nada mais naquele assunto, não só porque não havia o que dizer, mas também porque Hermes chegou ali e parou ao lado da cadeira de Artemis, perguntando:
– Fofoca de garotas, é?
– Claro, tá afim de participar? Comentávamos há pouco sobre aquele modelo gostoso das cuecas Calvin Klein.
– Eu ainda prefiro o loiro. – falou Artemis, sorrindo e ajudando Atena. – Qual você acha mais bonito, Hermes? O loiro ou aquele moreno?
Hermes rolou os olhos e sorriu, ignorando a brincadeira, mas continuou ali mesmo. Puxou outra das cadeirinhas que haviam ali perto e sentou-se nela, voltando a jogar no celular.
Artemis lançou um olhar de conformidade para Atena, que apenas suspirou. É, não poderiam conversar sobre aquilo tão cedo. Notando isso, Atena apenas pediu o celular de Artemis, que entregou o aparelho sem perguntar a razão. Hermes continuou concentrado em seu joguinho bobo de arrastar números de um lado para o outro, então a ruiva não se importou de ver o que Atena havia feito. E ali estava, um novo contato na lista dos Power Rangers, com nome e número de Atena Scherbítsky.
Não que Artemis achasse que fosse precisar daquilo, claro.
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