Levels
2 Capitulo 2 : Noites Frias
Notas iniciais
O relógio da sala me mostrava que era exatamente 09:30 a.m quando Ash me tirou dos meus pensamentos chamando-me para ir à cantina com ele.
As aulas haviam passado em uma velocidade quase inacreditável, porém, eu não conseguia parar de pensar na pequena garota loura da coordenação, no seu olhar vazio, fixo e...Bem, tudo.
Pensei comigo mesmo que deveria estar tão fascinado porque seu olhar refletia perfeitamente o meu. Vazio.
Somente isso poderia explicar o fato dela não sair da minha cabeça.
— Hey?! Hey, terra chamando Adam. — Ash gritou, me cutucando.
— Estava pensando, desculpe-me... Me perguntou algo? — justifiquei.
— Sim. — disse como se fosse óbvio. — Eu estava perguntando qual desses você vai querer? — completou, apontando para alguns sanduíches.
— Pode ser esse. — apontei para um sanduíche de frango.
—Tsc, tsc. — Estalou a língua em desgosto. — Por isso que você é raquítico desse jeito.
Dei de ombros, ignorando sua ofensa explícita. Ash pagou nossos lanches e fomos sentar em uma das diversas mesas distribuídas no pátio. Ele sempre pagava meu lanche porque era uma coisa realmente rara eu ter dinheiro.
Quando Ash me perguntou o porquê da falta continua de dinheiro, eu não quis falar e então ele passou a comprar, todos os dias, o lanche para mim. Já tinha dito a ele que eu podia comer a refeição oferecida pela escola, mas ele insistia em dizer que qualquer coisa da escola era muito suspeita para se comer e eu concordava com ele.
— ...você realmente pegou o professor Voldemort em um dia ruim. — Ash debochou, dando uma mordida no que parecia ser um hambúrguer gorduroso. Franzi o nariz para o óleo que fazia sua comida quase reluzir.
— Voldemort?! Não sabia que haviam inventado novos apelidos para o professor.
— Essa é nova — acrescentou, ainda rindo. Ri junto com ele, pois essa era a única coisa que podia fazer.
— Mas você tem razão, nunca tinha visto ele tão bravo. — admiti.
— Bem...você sabe como é, ele está naqueles dias vermelhos do mês. — murmurou a última parte como se fosse algo muito importante.
Gargalhamos novamente.
Quando estávamos levantando, um garoto ruivo e sardento nos abordou parecendo muito ofegante e balançando as mãos freneticamente.
— Hey, depois da aula tem Kimy vs Pedro. Vamos dar uma olhada lá. — gritou, deu uma risada estranha e começou a contar para as demais pessoas que nos rodeavam.
—Kimy...? — perguntei ao Ash, quando ele se silenciou após a empolgação inicial.
Uma briga sempre animava seu dia.
— É. — afirmou. — Tipo a Quimera, entendeu? É do jeito que estão chamando a aluna nova. Me disseram que ela é muito forte.
— Hum... Mas esse Pedro não é aquele grandão do 2°ano?! — indaguei, surpreso. — Como uma garota iria enfrentar uma montanha de merda como aquela?
— Deve ser... — divagou, mas eu sabia que ele não estava se importando muito com isso. — Seja como for, isso é problema deles, não vamos nos meter.
— OK. — bufei, deixando para lá. — Quer dizer que você não vai ir ver?
— Não! — exclamou, como se eu devesse prever a resposta dele. — Claro que eu vou. Já me viu perdendo alguma briga nesse pardieiro?!
Ele não tinha jeito mesmo, confusão deveria ser seu nome do meio.
Ash é um garoto alto e forte, está no 9°ano, o que nos faz da mesma sala. Era pra ele estar no 1° ano do médio, mas ele havia reprovado. Ele e eu éramos amigos desde que ele havia me defendido do Miller há uns 2 anos quando me envolvi em uma briga, e foi assim que ele e o Miller viraram inimigos, porém essa isso já é outra história.
Ash e eu fomos para a sala nos arrastando.
Já estávamos sentados fazia alguns minutos quando a Sasha da coordenação entrou na sala inesperadamente.
Suspirei. Somente hoje, eu a tinha visto mais que durante todo o ano. Deveria ser azar.
— Olá, alunos. — cumprimentou. -Devido a reunião da coordenação com os professores, vocês estarão sendo dispensados mais cedo. — Sua fala foi interrompida pela excitação dos alunos que começaram a comemorar. Eu não via motivos para querer chegar em casa, então me contentei em meu silêncio.
— Podem ir para suas casas. — sorriu pela empolgação contagiante dos discentes e foi embora.
Quase de imediato, todo mundo na sala começou a gritar e a comemorar, afinal, a maioria estava doido pra ir pra casa ou assistir a briga desnecessária.
Meus pensamentos continuavam relutantes em deixar de imaginar algo além da tal Brancie, mas outra coisa me assolava, causando um revirar no meu estômago : meu pai.
Ele provavelmente chegaria nervoso em casa por ter dormido na delegacia, então iria descontar toda a sua raiva em mim, pois era o que ele fazia de melhor.
Se algo o irritava, ele batia em mim.
Se algo não saísse como o planejado, ele batia em mim.
Se um resfriado o contagiasse, a culpa era do Adam.
O mesmo cardápio de sempre.
Olhei no relógio rapidamente.
Eram apenas 10:00 horas, talvez se me apressasse, conseguiria chegar em casa e cozinhar algo que meu pai gostasse, assim o deixaria menos nervoso e a surra seria amenizada.
— Hey, vamos Adam, você está muito distraido hoje. A luta já está para começar. — Ash parecia que teria um infarto agudo do miocárdio à qualquer momento com a luta mas eu não, não era certo brigar com meninas. Mesmo sendo um ignorante, meu pai havia me ensinado isso.
Tinha que ser aquele babaca do Pedro pra inventar esse tipo de coisa.
Sequer precisamos chegar muito perto do local da briga para ouvir os berros dos estudantes que estavam reunidos no local para assistir.
— Vamos ficar lá na frente. — comunicou Ash empolgado, já me puxando para dentro da multidão.
Não demorou muito para chegarmos em um lugar acessível. Estávamos há apenas alguns metros dos dois brigões.
De um lado se encontrava o bruto do Pedro, um garoto com seus 1.75m de altura. Ele é um pouco gordo para a idade dele, mas tem músculos bem encorpados, seus cabelos castanhos são jogados sobre sua face sardenta e tem algumas marcas espalhadas pelo seu rosto, todas das inúmeras vezes em que se meteu em brigas.
Já do lado oposto ao dele estava a Brancie, a garota da coordenação e a que não saia do meu pensamento. Devia ter 1.60m de altura, mas sua fúria parecia deixá-la muito maior e me perguntei o que a fez ficar tão irritada.
Seja lá o que fosse, a deixava bela. Muito.
— É muita coragem da sua parte vir até aqui, pirralha! — rugiu, Pedro.
— Muita coragem é essa sua boca de merda ainda estar falando.- Brancie vociferou, com a face coberta de rubor e os gritos só aumentaram com sua resposta ousada.
Essa foi a gota d'água para o brutamontes que grunhiu como um animal algo que não entendi e partiu com os punhos cerrados pra cima da garota.
Fechei os olhos, não queria ver aquilo, mas um tapa de Ash me fez voltar a abri-los.
Brancie desviou habilmente do golpe e antes que Pedro pudesse até mesmo pensar em algo, ela deu um soco forte que passou sob seu braço esticado e atingiu em cheio o lado direito da sua testa, fazendo-o cambalear para trás.
Todos os estudantes reunidos em volta ficaram em silêncio, apenas observando, perplexos, o menino caindo de bunda no chão e então todos os jovens, incluindo o Ash, começaram a gritar histericamente.
Pisquei, confuso. Nem mesmo eu esperava por aquilo.
Pedro estava estirado no chão ainda aturdido quando o que parecia ser um guarda chegou gritando:
— O que está acontecendo aqui?!
O alvoroço se formou. Todos saíram correndo, desesperados e isso incluía Ash e eu. Nenhum de nós precisava de mais problemas, afinal.
Quando achamos ter corrido o suficiente, já estávamos com a respiração difícil e entrecortada pelo riso eufórico.
— Nossa, isso foi muito incrível! — disse Ash com a voz rareando pelo cansaço.
Apenas confirmei com a cabeça em resposta.
— Que horas são afinal? — perguntei, vendo-o observar seu relógio de pulso.
—São 10:40 a.m. — afirmou calmamente, em seguida me olhando. — Por que?
Eu arregalei os olhos.
Aquilo havia demorado mais do que o previsto. Teria que correr e com sorte — o que não parecia ser meu forte ultimamente -, talvez meu pai ainda não tivesse chegado em casa.
Me despedi de Ash com um aceno, deixando-o com cara de confusão para trás enquanto me observava correr.
Em menos de 20 minutos, quase um recorde, estava em casa. Desacelerei a corrida até chegar à porta.
A camionete do meu pai não estava na frente do domicílio, o que me fez soltar um suspiro de alívio. Um peso incômodo sumiu dos meus ombros.
Entrei calmamente em casa, já segurando com minhas mãos, minha mochila, que depois dessa corrida parecia pesar quinhentas toneladas.
Estava prestes a subir o primeiro degrau da escada que levava ao meu quarto quando ouvi a voz rouca que me soava tão familiar.
— Ora, ora, ora. — falou, abrindo seu sorrisinho que eu havia aprendido a reconhecer como irônico. — Se não é o meu querido filho.
O homem forte e grisalho que eu chamava de pai, levantou calmamente da cadeira onde estava sentado e caminhou na minha direção.
— Pai. — gaguejei a palavra, quase me dando um tapa por ser tão estúpido. Eu conheço esse homem o suficiente para saber que ele era como um cachorro prestes à atacar. Ele sentia o medo e estava sentindo o meu nesse exato instante. — Você já chegou.
Engoli em seco.
— Não me esperava, filho? — disse, como quem não quer nada. — Liguei para a escola e me disseram que dispensaram os alunos mais cedo hoje.
— É. — respondi, nervoso enquanto enroscava as alças da mochila nos dedos. — Realmente nos dispensaram cedo hoje.
— E onde você estava?! — grunhiu, o tom de voz mudando da água para o vinho. Sua calmaria desmoronou. — Vagabundiando com o seu amiguinho Ash como sempre?
— Não, pai, eu estava... — Não sabia mais o que acrescentar, ele tinha razão, afinal. Estava vagabundiando com o Ash e uma pessoa como eu não tinha o direito de se divertir. Eu deveria ter ido para casa mais cedo.
— Eu... — Fui interrompido abruptamente por um soco na minha face.
Minha boca se encheu daquele gosto metálico que eu tanto conhecia.
— Era só o que me faltava! — berrou. — Não estou criando nenhum vagabundo nesta casa, Adam.
Ele me puxou pelo pulso degraus acima. Continuou berrando coisas aleatórias que eu não entendi.
O desespero tomou conta de mim por inteiro.
Assim que chegamos ao meu quarto, meu pai me jogou no chão feito um boneco de trapos e começou a distribuir chutes atrás de chutes no meu estômago já sensível enquanto urrava como um monstro.
— Seu bastardo desgraçado!
Após uns doze ou quinze chutes — não contei mais quando a dor se tornou insuportável -, ele saiu pisando duro para fora do meu quarto.
Pude ouvir a tranca se fechando com um estalo antes da minha visão ficar totalmente turva e negra.
Amanhã não poderei ir a escola.
Fale com o autor