Level 7 - Primeiro Level
6 John e os inimigos reais
Corremos pela caverna por mais de um quilometro sem encontrarmos nenhum animal, quando de repente algo veio voando em nossa direção, ele era grande e a única coisa que dava para ver direito era os seus dentes afiados.
–Amanda, é um morcego – mas não era simplesmente um morcego, era o maior morcego que eu já vi na vida.
–Não, são vários – disse Amanda apontando para algo se mexendo um pouco mais adiante.
–Tenho uma ideia. Jogue a luz em direção a eles.
Amanda levantou o cajado e fez o que eu pedi, eu tirei meus dois revolveres e comecei a atirar. A cada tiro que eu dava um morcego caía.
–Não precisa matá-los – disse uma voz atrás de mim.
Eu virei os revolveres para trás, Amanda já estava em posição de luta. Então vimos o menino loiro, que estava nos escutando na cidade, um pouco escondido atrás de uma pedra. Ele caiu sentado quando eu apontei os revolveres para a cabeça dele e começou a se arrastar para trás.
–O que você quer aqui? – perguntei dando um passo em direção ao garoto, ainda com os revolveres apontados para ele.
–Eu só queria entrar em um grupo, mas ninguém aqui me deixa entrar no grupo deles, eles acham que eu não sirvo para nada. Quando vi vocês dois juntos, resolvi segui-los e pedir a vocês que me deixassem entrar no grupo de vocês.
Eu abaixei os revolveres e olhei para Amanda, ela também estava relaxada agora.
–O que você acha, Amanda?
–Ele é muito jovem, seria perigoso ele continuar conosco.
–Eu já tenho 11 anos e preciso sair daqui, já tem um ano que estou aqui – disse o menino se levantando.
–De onde você é? – perguntei.
–Eu moro em Reading na Inglaterra.
–Inglaterra? E como você sabe falar português tão bem? – perguntou Amanda.
–Eu não sei falar português, o sistema faz uma tradução instantânea pegando o mesmo timbre da minha voz. Assim fica mais fácil para os jogadores se comunicarem.
–Você parece saber bastante deste jogo – eu disse.
–Sim, depois de um ano aqui. Apesar de ter ficado só na primeira cidade, aprendi muitas coisas.
–O que você quis dizer com “não precisa matá-los”? – perguntou Amanda.
–É só usar um apito bem agudo que eles voam para longe.
O garoto pegou um apito em seu bolso e assoprou, o barulho foi alto e todos os morcegos voaram, nós abaixamos a cabeça e eles passaram.
–Muito bom, se a Amanda não se importar, você pode seguir conosco.
–Eu não me importo. Mais pessoas, mais chances de finalizar o jogo em 7 dias.
–7 dias, vocês acham que podem chegar ao final em 7 dias? Vocês são doidos? – perguntou o menino com os olhos arregalados.
–Não somos doidos. E finalizar este jogo em 7 dias é o que pretendemos – disse Amanda.
–Vocês estão atrás do milhão?
–Sim.
–Vai ser muito, mas muito difícil mesmo.
–Se fosse fácil, ninguém pagaria um milhão. Qual o seu nome? – perguntou Amanda.
–John.
–Prazer John, eu sou a Amanda.
–E eu o Cris.
–Cris?
–Sim, é um apelido, meu nome é Cristiano.
–Vamos seguir em frente, não podemos perder tempo – disse Amanda.
Nós começamos a correr de novo, John conseguia correr mais rápido do que eu, apesar de ser mais baixo. Ele parecia ter a estatura de um garoto de oito anos. Nós paramos quando vimos várias aranhas. Eu comecei a atirar, John atirou flechas, ele era um arqueiro, e Amanda mandou vários feitiços. Não foi difícil, só nos atrasou um pouco.
–Não vejo a hora de ver o chefe deste calabouço – eu disse, ainda correndo.
–Ele é o Rei Esqueleto. Assustador – disse John fazendo uma careta.
–Não é muito difícil de vencer – disse Amanda. – Nós três juntos, será moleza.
–Ixiii. Ai complicou. Não podemos entrar os três. Somente um pode lutar contra ele.
–Eu vou – eu disse.
–Não – disse Amanda rapidamente
–Por que não?
–E se você morrer lá dentro? – respondeu Amanda com uma pergunta. – Eu vou.
–Ele é um tanker, é o mais preparado para lutar com o Rei Esqueleto. Apesar de você parecer muito forte, o Rei Esqueleto é um tanker também, o que deixa você em desvantagem quanto à defesa – disse John analisando os punhos da Amanda.
–Tanker? Eu sou isto? O que é isto? – perguntei meio confuso.
–É um jogador de espada larga, geralmente o ataque dele é mais forte e a defesa também – explicou Amanda.
–Um, gostei. Mas eu nunca usei a espada – eu disse segurando no cabo dela.
–Nunca? Mas ela é bem mais forte que os seus revolveres – disse John com os olhos arregalados.
–É que com os revolveres eu posso atacar de longe.
–Sim, mas o seu ataque é muito mais forte com as espadas – disse John.
–Amanda, me deixa enfrentar o Rei Esqueleto.
–Não, você pode morrer lá. Eu estou mais preparada para enfrenta-lo.
–Eu não vou morrer. Preciso treinar com esta espada.
Amanda olhou para mim, deu um suspiro e finalmente balançou a cabeça positivamente. Então nós seguimos em frente, encontramos várias cobras pelo caminho e eu comecei a usar a minha espada. John estava certo, a espada era mais forte. Mas meus golpes ainda não se comparavam com os socos e os chutes da Amanda e com as flechas do John que era um bom arqueiro, seu poder tinha aumentado bastante durante o tempo que ele ficou no “O Jogo”. Só que ele era muito atrapalhado, se perdia com facilidade e sempre tropeçava em alguma coisa.
Nós continuamos a caminhar até que vimos um grupo de jogadores se movendo pelo lado contrário ao nosso.
–Cris, Amanda, t-t-t-temos... q-q-que nos esconder – disse John gaguejando.
–Por quê? – perguntou Amanda.
–Eles são pks, se nos pegarem, estaremos mortos.
–O que são pks? – perguntei ao John.
–São players killer, jogadores que matam outros jogadores.
–Shhhh – disse Amanda com o dedo indicador nos lábios, pedindo silêncio.
Amanda levantou o cajado, apagou o feitiço de luz que ela havia feito e conjurou um feitiço que criou uma pedra falsa com a mesma textura das pedras verdadeiras. Por dentro da pedra eles viram os outros jogadores passando, eram mais de dez.
–Tenho certeza que era aqui que a luz estava. Ela entrou neste calabouço, eu tenho certeza – disse um garoto magricelo, que parecia um rato.
–Eu quero a garotinha e o moleque que a avisou, achem eles para mim o mais rápido que puderem ou então vocês irão ser castigados.
Quando Amanda viu quem estava falando, ela tampou a boca. Era um cara alto e musculoso, o mesmo com quem ela havia lutado e ganhado dele na quadra de futebol na vida real.
Quando eles passaram, Amanda tirou a mão da boca e fez uma expressão de ódio, olhando em direção ao grupo de pks.
–A próxima vez que eu encontrar com ele, não vai sobrar nem um fio de cabelo – disse Amanda nervosa.
–Vocês o conhecem? Ele entrou aqui há poucos dias, mas já está matando jogadores. Ele é bem forte. Dá até medo.
–Calma Amanda, aqui não é o mundo real, mas se ele te matar, você estará morta lá também – eu tentei fazer ela se acalmar.
–Eu sei, Cris. Mas aquilo era só uma luta, não tinha motivo para ele vir aqui atrás de mim.
–Você o humilhou na frente de muitas pessoas, mesmo ele atacando na covardia você ainda o parou e o desmaiou.
–Droga, a garotinha e o moleque que ele estava falando, eram vocês – disse John e depois ele caiu sentado com o queixo sobre as mãos e o cotovelo na perna.
–O que foi, John? – perguntei.
–Eu vou me meter em uma encrenca com o grupo do Malcon, eles vão me matar.
–Malcon? – perguntou Amanda.
–Sim, é um cara que tem um grupo de pks, ele organiza lutas até a morte por uma bolada de dinheiro.
–Droga, o pessoal da vida real está todo aqui.
–Não sei, mas Malcon eu sei que está e eles tem uma grande diferença da gente, eles podem sair do jogo e a gente não.
–Como assim? Por que eles podem sair? – perguntou Amanda com os olhos arregalados.
–Os aparelhos deles podem se desconectar antes de chegar ao final do jogo, o nosso só chegando. Não sei o que fazer agora.
–John, iremos lutar até o fim, não deixaremos que nada aconteça com você, enquanto estivermos aqui. Mas, você é que tem que escolher. Você vai com a gente ou vai voltar? Eles estão procurando eu e a Amanda. Eles não têm nada contra você.
John olhou para o alto, para o meu rosto e depois para o da Amanda.
–Eu irei com vocês – ele levantou e disse decidido, mas as suas pernas fraquejaram e ele caiu sentado no chão.
–Tem certeza? Pode ser muito perigoso – disse Amanda sorrindo.
–Está tudo bem, eu irei assim mesmo. Mesmo sendo fraco, eu ainda devo servir para algo.
Nós seguimos direto por dentro da caverna, até que encontrarmos um vilarejo.
–Hein? Um vilarejo dentro de um calabouço? Isto é novidade para mim – disse Amanda.
–Para mim também – disse John.
–Para mim nem se fala, afinal, até agora tudo é novidade para mim – eu disse sorrindo.
Entramos pelo portão do vilarejo e encontramos um jogador vendendo alguns produtos.
–O que faz este vilarejo dentro de um calabouço? – perguntou Amanda ao jogador.
–É um lugar ótimo para se comercializar, quando os jogadores chegam neste ponto, eles não tem muito itens, mas estão com bastante dinheiro. Então é um modo de ganharmos um pouco de dinheiro. – Querem algum produto?
–Me dê dois apitos agudos – disse John.
Depois de pegar os apitos nós seguimos em frente e olhamos os outros comércios que haviam no vilarejo. Como estávamos com fome, resolvemos comer por ali, olhei para o relógio no meu comitador e já havia quase sete horas que estávamos no Level 1.
–Não vamos nos demorar aqui, temos que correr muito ainda hoje – disse Amanda.
–Sim, senhora – eu disse brincando.
Amanda me socou no ombro de brincadeira e encostou a cabeça no meu ombro.
–Vocês são um casal na vida real? – perguntou John.
–Não. Somos amigos – disse Amanda ficando vermelha, era incrível como até isto o “O Jogo” conseguia simular.
Depois de comer, seguimos correndo para dentro da caverna, eu estava a uns dois passos da Amanda e do John quando um barulho me fez parar, quando olhei para trás, recebi um pancada no peito e caí de costas. Tentei me levantar, mas tinha algo segurando os meus braços.
Era uma mulher, se é que posso chamar aquilo de mulher, ela tinha as duas presas inferiores saindo da sua boca, um rosto horrível, com uma pele verde escura. Eu já havia visto aquilo em algum lugar. Uma Orc. Lembrei. Eu havia visto eles em um filme.
–Você não sairá daqui, guerreiro – disse a Orc com uma voz gutural.
Quando eu olhei para o lado, um grupo de seis Orcs estava atacando Amanda e John, eles estavam perdendo, eu tinha que fazer algo. Desviei meus olhos para a Orc que estava me segurando e vi que ela também olhava para o grupo dela atacando o meu, eu tentei libertar os meus braços, mas eles estavam muito bem presos ao chão, pelas mãos dela.
–Assim que eles matarem seus amigos eu acabarei com você – a Orc disse olhando para mim.
Neste instante, não sei de onde eu tirei força, mas consegui levantar uma perna e jogar a Orc por cima da minha cabeça. Ela caiu de costas, eu saí correndo com a espada na mão e cortei as costas de um dos Orcs que estava atacando a Amanda e depois cortei a perna do outro que atacava John, afundei a minha espada na costela de mais um e ficaram somente três. Amanda estava lutando com um, enquanto John mantinha o outro afastado dele com as suas flechas. Eu fiquei de frente para o terceiro e levantei a espada suja de sangue verde.
–Vem garotão, sentir a lâmina da minha espada.
Ele correu em minha direção, eu levantei a espada e o cortei na barriga, os outros Orcs tinham sido derrotados. Quando eu finalmente consegui suspirar, Amanda olhou para mim com os olhos arregalados. Só ouvi o “Cr..” quando eu senti uma espada atravessando as minhas costas e aparecendo na minha barriga, eu girei o meu corpo com a espada fincada e vi a Orc, que eu tinha derrubado de costas, sorrindo. Então eu cai para frente.
Acordei com as lágrimas da Amanda caindo sobre o meu rosto, eu abri os olhos e ela estava por cima de mim me abraçando.
–Ei, Amanda. Calma.
–Seu cachorro. Nunca mais faça isto comigo – disse ela com os olhos cheios de lágrimas.
–O que eu fiz?
–Você quase morreu, cara – disse John. – A Amanda fez magias de cura que eu nunca vi na minha vida, para trazer você de volta. Sem falar que ela explodiu a Orc com apenas um soco.
–Desculpe, Amanda. Foi uma grande falta de atenção.
–Foi mesmo, você não pode parar de lutar enquanto não tiver certeza que a luta acabou.
–Desculpe. Me perdoa.
Ela me abraçou de novo e eu retribuí o abraço. Então nos levantamos e continuamos a correr. Depois de correr por 25 minutos e enfrentarmos somente monstros fracos, encontramos uma porta enorme com uma caveira gigante no meio.
–Aqui estamos. Na caverna do Rei Esqueleto.
–Isto dá um frio na espinha – disse John.
–Cris, eu vou – disse Amanda.
–Não, Amanda. Nós já conversamos sobre isto.
–Você quase morreu.
–Mas eu estou vivo, não estou? Graças a você, é claro. Lhe prometo que não vou morrer lá dentro.
–De dedinho?
–De dedinho.
Eu estiquei o dedo mínimo para ela e ela prendeu o dela no meu. Nós fazíamos isto desde criança para promessas que não iríamos quebrar.
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