Level 7 - Primeiro Level
1 Amanda
Quase todos os garotos da minha idade tem um amigo confiável, que se pode contar tudo, ou quase tudo. Eu tinha uma amiga assim. Tinha.
Eu a havia perdido, mas resolvi que não iria me dar por vencido, não iria desistir dela assim tão fácil. Eu caminhava tranquilamente em direção ao portão da escola, quando vi a Amanda.
-Lá está ela. Do mesmo jeito que nos últimos dois meses. Estranha, com marcas arroxeadas debaixo dos olhos, como se estivesse há vários dias sem dormir – eu murmurei para ninguém, enquanto caminhava a 20 metros da Amanda.
Eu conhecia a Amanda desde quando nós estávamos no jardim de infância. Costumávamos fazer tudo juntos.
Quando eu queria andar de bicicleta, apesar de ela não gostar muito, ela ia comigo e eu retribuía quando ela queria jogar videogame. Ela era vidrada em videogames e eu não gostava tanto. Unha e carne. Assim era como nossos pais nos classificavam. Até dois meses atrás.
Nesses últimos meses, Amanda estava estranha. Não andava mais comigo. Agora ela andava com os caras que aprontavam na escola. Já a vi até brigando com uma garota mais alta e mais forte do que ela. A Amanda que eu conheço, nunca faria coisas deste tipo.
Algumas pessoas irão achar que eu estou apenas com o orgulho ferido, por ela ter me abandonado. Mas não é isto, eu a conheço bem demais para saber que há algo errado nesta história.
Olhando assim de costas, ela me parece à mesma garota que era a minha amiga. Ela é muito bonita, têm cabelos pretos cortados retos no ombro, estatura mediana, um jeito de andar que parecia estar desfilando. Hoje ela usava um jeans surrado e a camiseta vermelha horrível da escola. Acho que ela é uma das únicas pessoas em toda a escola que fica bem naquela camiseta detestável.
Antigamente ela estava sempre sorrindo, hoje em dia ela parece cansada, triste, desanimada. Quando ela me via, sempre corria para perto de mim e colocava o seu braço no meu ombro, mas acho que agora ela achou amigos mais interessantes. Mas eu não estava desistindo dela, eu iria descobrir o que estava acontecendo.
Cheguei ao portão da Escola Estadual José Anacleto de Souza, abri a mochila para os dois porteiros verificarem que ali só havia cadernos, eles passaram um detector de metais a dez centímetros do meu corpo. Depois de terem certeza que eu só tinha o essencial para um estudante, me deixaram entrar.
A escola estava sob vigilância desde que um aluno da sexta série atacou um professor com um canivete. O professor foi parar no hospital e teve um corte que precisou de 13 pontos. O aluno, como era menor de idade, só foi transferido para outra escola, como se isto ajudasse em alguma coisa, só iria transferir o problema.
Caminhei em direção ao pavimento em que eu estudava, a escola tinha sete pavimentos, eu, com toda a minha sorte, estudava no último. Estudar lá tinha mais desvantagens do que vantagens, o barulho de carros na avenida, que passava logo atrás da escola, incomodava. Sem falar que quando nós chegávamos à cantina, a fila estava enorme. A vantagem era que a senhorita Olga, diretora da escola e personagem de filmes de terror nas horas vagas, dificilmente chegava até o sétimo pavimento. Os alunos tremiam só de olhar para ela. Ela tinha um tique nervoso no pescoço e olhava por cima dos óculos com um olhar de "Estou procurando a próxima vítima".
Antes de entrar na sala, passei em um banheiro que havia no mesmo pavimento. Eu levantei atrasado e nem deu tempo de olhar no espelho direito, ainda bem que consegui pegar uma carona com um colega do meu pai que iria passar aqui perto. Olhei para o espelho e lá estava eu. Ao contrário da Amanda eu era o cara mais sem graça que esta escola já teve o prazer de ter como aluno. Eu tinha cabelos castanhos que se espalhavam para todos os lados, minha mãe já havia tentado de tudo para eles ficarem certos, mas ela havia desistido, não tinha jeito. Então o deixei crescer e o amarrei em um rabo de cavalo. Meus olhos eram castanhos sem graça, eu era magro e alto, um pouco mais alto do que a Amanda, o que me fazia parecer mais magro do que eu realmente era.
Quando entrei na sala, fui para a minha carteira, que era a terceira do canto contrário da porta. Amanda estava sentada na mesma fileira, mas lá no fundo, onde ficavam os seus novos colegas. Antigamente ela se sentava na carteira que ficava na minha frente.
Logo que eu me sentei, à professora de português entrou na sala, ela era o estereótipo perfeito de professora, óculos meia-lua, coque no cabelo e vestido formal. Ela começou a passar a matéria no quadro, mas, apesar de estar copiando, eu não estava prestando muita atenção.
-Amanda, vire para frente – disse a professora.
Olhei para trás e Amanda estava virada conversando com o Henrique, um cara que parecia ter saído do lixão, todo rasgado e com os tênis imundos. Ela ignorou a professora e continuou conversando, a professora balançou a cabeça negativamente e anotou algo em sua agenda.
Na saída da aula eu estava decidido a conversar com a Amanda, perguntar a ela qual era o problema. Assim que passei pelo portão da escola, eu a vi, ela estava lá parada como se esperasse algo.
-Olá, Amanda – eu disse me aproximando dela.
-Oi, Cris – ela disse olhando para mim e voltando a olhar para a rua.
-Amanda, eu gostaria de conversar com você. Podemos voltar juntos?
-Outro dia, Cris. A minha carona chegou. Tchau.
Ela correu e montou na garupa de uma moto velha, caindo aos pedaços, o Henrique estava pilotando. Droga, como assim? O cara devia ser um ano mais velho que nós. Eu e Amanda tínhamos 15 anos. Isto quer dizer que nem carteira de motorista ele tinha.
Eu segui para a minha casa, mais desanimado do que estava de manhã. Logo que entrei, o nosso cachorro, o Einstein, pulou em mim e começou a me lamber. Eu pedi para ele parar, não estava com animo para aquilo. Minha mãe apareceu logo em seguida. Ela era alta, tinha cabelos loiros e olhos cor de caramelo. Eu infelizmente sou parecido com o meu pai, eu queria ter pelo menos o cabelo igual ao da minha mãe.
-Cris, eu vou sair para comprar alguns legumes e já volto, seu almoço está no micro-ondas.
-Mãe, a senhora se lembra da Amanda?
-Claro. Vocês estudam na mesma sala desde criança.
-Estou achando ela estranha, diferente.
-Deve ser coisas da idade, adolescência é mais complicada para as mulheres do que para os homens.
-É, deve ser.
Eu disse aquilo, mas não estava muito convencido. Então resolvi fazer uma loucura, eu iria seguir a Amanda. Eu tinha que descobrir o que estava a deixando daquele jeito.
O que eu não imaginava era que aquela decisão iria mudar a minha vida e literalmente o meu mundo.
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