Level 7 - Primeiro Level
2 Ringues Clandestinos
No outro dia de manhã pus o meu plano em prática, peguei algum dinheiro que eu guardava debaixo do gabinete do meu computador, para o caso de eu precisar pegar um ônibus. Fui para a escola e assisti às aulas normalmente. Ou melhor, quase normalmente, nos outros dias eu prestava um pouco mais de atenção. Quando a aula terminou, assim que eu vi a Amanda saindo pela porta, comecei a andar atrás dela. Ela passou pelo portão e foi para o ponto de ônibus, como eu imaginei, ela fazia muito isto nestes últimos dois meses. E, considerando que ela morava aqui no centro de Belo Horizonte a pouco mais de 15 minutos a pé da escola, pegar um ônibus não era necessário.
Ela entrou no ônibus 9210 – Santa Tereza/ Prado, indo em direção ao bairro Santa Tereza. Junto com ela, para o meu alívio, subiu várias pessoas, eu fui o último a entrar no ônibus. O ônibus estava cheio, então eu me sentei em uma das poltronas da frente e fiquei a vigiando pelo espelho acima da cabeça do motorista. Ela olhava para baixo, parecia preocupada.
–Meu jovem, você cederia o lugar para esta senhora sentar? – perguntou o cobrador, um rapaz de pouco mais de 20 anos, apontando para uma senhora que devia ter mais de 60 anos.
“Droga, agora não dá para eu a vigiar”.
–Pode deixar, garoto, eu estou descendo – disse um senhor de uns 70 anos. Eu suspirei aliviado. E havia torcido para que Amanda não tivesse percebido.
Depois de uns 50 minutos, ela se levantou e apertou o botão de parada, o ônibus parou, ela desceu. Eu não podia descer no mesmo ponto, senão ela iria me ver, logo que o ônibus voltou a se locomover eu apertei o botão de parada, paguei o cobrador, passei a roleta e desci do ônibus. Eu voltei correndo para ver se a encontrava, mas não precisei correr muito, ela estava andando em minha direção. Eu precisava me esconder. O primeiro lugar que eu vi foi uma padaria. Entrei nela. Amanda passou direto, logo que ela tomou uma distância segura, eu continuei a andar atrás dela.
Ela parou de frente para uma casa velha e desceu uma escada do lado esquerdo da casa, eu estava do outro lado da rua. Ela bateu em um portão de ferro e um homem, bem mais velho do que ela, abriu. Ele olhou para ela. E a mandou entrar? Droga, o que estava acontecendo? Quem era aquele homem? O que Amanda estava fazendo ali? Milhares de pensamentos maldosos e errados passaram pela minha cabeça na hora.
Eu tomei coragem, fui até a portão e bati. O mesmo homem o abriu.
–Eu não te conheço. O que você quer aqui? – perguntou o homem com uma cara fechada.
–Quero falar com a Amanda, ela acabou de entrar – não sei de onde eu tirei coragem para falar, o homem tinha uma cicatriz no rosto que me deu medo, minhas pernas estavam tremendo.
–Aqui só entra apostadores e lutadores, se você não é um, nem outro, desapareça daqui agora.
–Eu sou um apostador – eu disse sem saber o que estava falando.
–Mostre o dinheiro.
Eu esvaziei os bolsos, tinha uns 12 reais no meu bolso.
–Você só pode estar de brincadeira, as apostas aqui são de pelo menos 50 reais. Suma daqui – disse o homem fechando a porta na minha cara.
Eu entrei no próximo ônibus e voltei para casa. Um lugar que fazia lutas clandestinas. O que a Amanda estava fazendo naquele lugar? Eu tinha que descobrir.
No outro dia, ela foi para casa, mas mesmo assim eu a segui, ela estava ainda mais estranha, ela parecia feliz. Mas por baixo dos seus olhos ainda estava com uma cor escura, parecendo que a carne estava morta. A cada dia eu entendia menos o que estava acontecendo, antes de chegar em casa, ela encontrou com alguns dos seus novos colegas. Um deles, um cara alto que parecia ter mais de 20 anos a entregou um pequeno pacote, menor que um celular, e depois ele e os outros foram embora. Ela colocou o pacote na bolsa, abriu o portão da casa dela e entrou.
Droga, o que estava acontecendo? Primeiro uma casa clandestina de lutas e agora pessoas estranhas entregando a ela, pacotes mais estranhos ainda. Aquilo estava me incomodando mais do que eu imaginei, naquela noite eu não consegui dormir.
No outro dia de manhã, eu levantei e fui correndo para a cozinha, encontrar o meu pai, antes que ele saísse para o trabalho. Felizmente ele ainda estava sentado na cadeira de frente para a mesa de madeira, tomando café e lendo as notícias em seu tablet, minha mãe estava no fogão preparando o meu café da manhã.
–Oi, filho. Perdeu o sono? – perguntou meu pai, sorrindo.
–Não, é que eu precisava pedir algo para o senhor.
–Diga.
–Preciso de 50 reais.
–50 reais para quê?
–Tem um livro que foi lançado na semana passada e eu queria comprá-lo – odeio mentir para o meu pai, mas desta vez era necessário. Como eu iria dizer para ele que era para eu ir a um ringue de lutas clandestinas. Pelo menos eu imaginava que lá devia ter um ringue.
–Me passa o nome do livro que eu compro para você.
Droga, como eu vou sair desta agora. Eu usei a primeira coisa que apareceu na minha cabeça.
–Eu pedi a menina da livraria perto da escola, que o reservasse para mim, tinha muitos garotos comprando.
–Dê o dinheiro logo para ele, Antônio. A coisa mais rara do mundo é o Cris pedir dinheiro para comprar um livro — disse minha mãe.
Meu pai tirou a carteira e me passou uma nota de 50 reais.
–Obrigado, pai.
Peguei o dinheiro, subi para o meu quarto, me arrumei para a escola e sai logo em seguida. Quando estava no meio do caminho, vi a Amanda andando depressa, de longe parecia que ela tinha uma mancha no braço, mas quando cheguei mais perto vi que era um machucado, ele estava começando a ficar roxo. Eu dei um suspiro, cada dia que passava ela aparecia com alguma coisa diferente. E nunca era uma coisa boa.
No final da aula, quando ela saiu, eu fui atrás, quando eu vi que ela pegou o ônibus que ia para o ringue clandestino, como eu passei a chamá-lo, eu esperei o próximo ônibus, para não dar a ela a chance de me pegar a seguindo, o ônibus demorou 15 minutos. Quando eu cheguei ao ponto de parada, desci e fui direto para o ringue clandestino.
–Você aqui de novo? – perguntou o homem assim que ele abriu a porta.
–Eu tenho o dinheiro – mostrei para ele a nota de cinquenta em cima de várias de dois reais para fazer volume.
–Está bem. Entre. Mas fica esperto, este pessoal não gosta muito de crianças xeretando aqui.
Eu entrei pela porta e desci uma pequena escada que terminava em um corredor, quando cheguei à porta no final do corredor, fiquei mais surpreso do que eu imaginava que ficaria. O lugar era enorme e não havia um ringue, haviam seis. E várias pessoas em volta de cada ringue com o dinheiro na mão. Quando cheguei perto de um dos ringues, onde os dois lutadores pareciam garotas, eu arregalei os olhos, surpreso. Era a Amanda que estava lutando ali, na verdade ela e outra garota estavam em cantos opostos do ringue, esperando por algo. Ela estava usando uma malha preta colada ao corpo, que a deixou ainda mais bonita. Neste momento entrou um homem careca e muito gordo no ringue, ele teve dificuldade para passar por entre as cordas.
–Senhores, as apostas estão encerradas. Que comece a luta – ele gritou.
Amanda deu dois passos para frente e se balançou nas pernas como os lutadores de boxe faziam, depois ela levantou a perna e deu um chute girando o corpo em torno de uma perna, se o chute tivesse pegado na outra menina ela teria ido a nocaute. A outra parecia conhecer bem os movimentos da Amanda. Porque toda vez que a Amanda se mexia, a menina acompanhava os movimentos dela. Amanda rodou o pé no chão como se fosse dar uma rasteira, segurou no chão e levantou o pé acertando a menina no queixo.
A menina caiu de costas no chão e não se levantou, o homem gordo foi até ela e tentou reanimá-la.
–Eu já disse para você pegar mais leve, Amanda. Não precisa mandar as meninas para o hospital a cada luta. Ela é menor de idade, eles fazem perguntas. Você complica a minha vida assim.
–Eu já lhe pedi para lutar com os caras várias vezes, mas você continua me trazendo estas meninas fracas.
–Por mim tudo bem, mas os caras daqui não querem lutar com uma mulher, ainda mais sendo você. Consegui outra luta de rua para você. Se você estiver afim, vai ser amanhã às 17 horas no bairro Carlos Prates. O valor é de 1200 reais.
–Eu quero.
–Tudo bem, esteja lá amanhã – disse o homem gordo levando a menina desmaiada no colo.
Quando Amanda desceu do ringue, eu entrei na frente dela. Ela ficou branca quando me viu.
–Cr-Cris? O que você está fazendo aqui?
–Desculpe, Amanda. Eu segui você. Eu estava preocupado por causa do modo que você estava agindo – fui falando tudo rapidamente, com medo de ela ficar nervosa comigo, por tê-la seguido.
–Tá... Tá. Já vamos sair daqui. Me espere aqui, não saia daqui. Vou trocar de roupa e já volto.
Ela saiu correndo em direção a uma porta, que pelo desenho em uma placa, era o vestiário feminino. Fiquei ali esperando até que um homem de boné chegou perto de mim.
–Aqui, garoto. Tenho uma barbada para você, o gigante ali vai lutar agora – disse o homem apontando para um homem forte e careca sentado em uma cadeira. – Ele irá ganhar de qualquer forma, olhe o cara com quem ele vai lutar – ele mostrou um cara magro fazendo alongamento. – Então, que tal apostar nele?
–Sai, Malcon. Ele está comigo – disse Amanda voltando do vestiário.
–Está com você? Pensei que você gostasse de garotas – disse Malcon sorrindo.
–O que você falou? – disse Amanda estalando todos os dedos da mão direita de uma vez.
–Calma, calma. Eu estava só brincando – disse Malcon indo embora.
–Vamos – disse Amanda olhando para mim.
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